O ACERTO DE CONTAS FEMININO
Blaxploitation
Parte 3
Coffy é certamente um dos filmes mais icônicos do movimento Blaxploitation. O grande momento do diretor JACK HILL sempre reverenciado por Quentin Tarantino e não há dúvidas quanto a isso. É só assistir com atenção JACKIE BROWN (1997 - leia a crítica acessando o link!) e perceber o quanto serviu de inspiração. É do mesmo diretor de pérolas como "Faca na Garganta" (The Jezebels, 1975), "Spider Baby or, The Maddest Story Ever Told" (1967 - nunca lançado no Brasil) e o igualmente icônico FOXY BROWN (1974) logo na sequência deste, e também estrelado por PAM GRIER. Obviamente que seus filmes passam longe do politicamente correto. Na época do vale tudo e mulheres seminuas. Em "Coffy"o tema universal vingança é o mote principal da premissa. Portanto, terá muito sangue, tiro, porrada e muita violência gratuita, embora proposital. E, já que a protagonista é mulher, obviamente utilizará da sedução, do sexo, para obter o que almeja. E nesse quesito Pam Grier preenche todos os requisitos em seu auge de magnífica beleza. É, de fato, a mulher, atriz negra mais sensual, bela e inteligente em todos os tempos. Se Monroe foi a "The Blonde Bombshell"e nenhuma outra loira tira o seu trono, Pam Grier ainda é "The Godmother of them all".
Coffy (Grier - nunca se explica se é apelido ou nome, mas traduzindo sua expressão idiomática coloquial significa "Café") é uma enfermeira negra trabalhadora, a priori uma mulher comum. Ela é honesta e não faz parte do âmbito criminal, mas tem visto de perto os efeitos colaterais das drogas em viciados que aparecem na emergência. No entanto, quando sua irmã mais nova se torna também uma viciada em heroína, sua vida muda da noite para o dia. Transforma-se numa espécia de vigilante apostando numa batalha contra os que envolveram sua irmã nas drogas. Ela fica louca de ódio, vingança, mas até que ponto é justiça? Nestes filmes a motivação dos personagens é fazer justiça com as próprias mãos...o fato é que Coffy suja demais as próprias mãos! Seu plano é mais instintivo, improvisado do que somente previamente arquitetado. Ela se disfarça de prostituta, primeiro indo atrás de traficantes e cafetões como o frágil King George, interpretado por ROBERT DoQUI (1934-2008, ator de filmes como; "Nashville"[1975] e "Short Cuts" [1993], ambos de Altman, e do ótimo "Robocop" [1987], de Verhoeven - fez o Sargento Warren Reed), e gradualmente alcança os mais perigosos chefões do crime organizado. Em sua jornada, apaixona-se e fica chocada ao saber que o namorado vivido por BOOKER BRADSHAW (1940-2003) está envolvido na tramoia. Dito isso, a trama é basicamente simples, sem tamanha complexidade, aliás, assistir ao filme pela primeira vez proporciona grande surpresas devido a sua imprevisibilidade. Acontece cada coisa que...você começa a dar risada, ao mesmo tempo que sente vontade de ajudar a Coffy dando porrada naquelas vagabas e cafetões! O filme, marca de Jack Hill, mostra mulheres se engalfinhando numa coreografia icônica. Só faltou lama para sujar o set de filmagem, porque pouca roupa elas já vestiam. Um legítimo girl fight.
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| SID HAIG e PAM GRIER em cena de "Coffy" (1973) |
É um filme importante para a carreira de Pam Grier e foi aqui que ela levou o título de musa do cinema blaxploitation. O slogan já dizia: They call her 'Coffy' and she'll cream you - "Eles a chamam de Café e ela vai te dar creme! E no que diz respeito da relação deste filme com Foxy, Hill contou que Foxy Brown era para ser uma sequência de Coffy (talvez aí saberíamos que o nome dela era de fato Foxy!), mas os planos mudaram na medida que Hill elaborava o roteiro. Acredito que seja pelo receio de se repetir e não ser original, ainda assim, acredito que teria grande potencial para se tornar uma série estrelada pela Pam. O título inicial da continuação era "Burn, Coffy, Burn!", mas os executivos da American International Pictures (AIP), assim como Hill, optaram pela não-sequência. E com isso, Foxy Brown ficou sem profissão no filme e sem tempo para reescrever o roteiro, Foxy tem uma premissa mais inflamada do que Coffy que ainda se mantêm como o melhor trabalho de seu diretor e estrela. Apesar disso, Brown também se tornaria um dos mais influentes filmes do período e sendo igualmente uma inspiração direta quando Tarantino escreveu o seu cult Jackie Brown que já era uma adaptação de outro autor (Elmore Leonard que não tem nenhuma relação com o Blaxploitation), enfim, um híbrido de várias fontes para ser exato. E para afirmar a paixão até doentia de Quentin, além de escalar Pam para o papel central, utiliza a mesma fonte nos créditos iniciais de seu longa, incluindo o título referentes a Foxy Brown. Quanto a Coffy, dentre outras coisas, nota-se a utilização da trilha sonora, também.
Hill, em suas entrevistas, explicou que o projeto começou quando o chefe de produção da AIP, Larry Gordon, perdeu os direitos autorais do filme Cleópatra Jones (também de 73 - acabou por ser realizado por Jack Starrett e estrelado por Tamara Dobson) depois de fazer um acordo de handshake com os produtores (já não era mais os velhos tempos onde só se bastava apertos de mãos!). Gordon posteriormente se aproximou de Hill para fazer um filme sobre a vingança de uma mulher afro-americana e bater Cleópatra Jones no mercado. Neste caso em específico, seria trágico se não fosse cômico. Foi o que aconteceu. Coffy é anos luz melhor do que CJ e tudo estava a favor de Gordon, já que Hill conhecia Pam pelo fato de terem feito juntos "The Big Doll House" - AS CONDENADAS DA PRISÃO DO INFERNO (1971), aliás, outra preciosidade que merece ser descoberta, revisitada. O filme acabou recebendo mais dinheiro em seu orçamento do que CJ e alavancou a carreira de Pam...
Apesar de sua violência gráfica (embora se aplique mais ao gênero terror, mas não tem como negar que diretores como Hill, De Palma e Tarantino o fazem com mérito passeando pelas fitas policiais e outros gêneros), Coffy é notável em sua representação de uma liderança feminina. Não mais o sexo frágil como apresentado classicamente. Não. Mesmo sendo objetos de desejos de seus homens, elas tem personalidade, mais raro ainda era transformar uma mulher negra em uma protagonista tão voraz como Pam. E pode soar clichê, mas na minha opinião existe uma mensagem antidrogas bem visível, aliás, é muito mais na moda fazer um marketing sem vergonha do que falar das consequências do uso ilícito e mesmo num filme de entretenimento, diga-se. Curiosamente, há um filme de 1981 que bebe na fonte de Coffy descaradamente. Refeito com um elenco totalmente branco. O título? "Lovely But Deadly" - nunca lançado por aqui. Nem preciso dizer que é horrível, preciso?
Inverossímil, porém divertido e muito criativo, além de ousado e original. COFFY e todos os filmes do Blaxploitation são joias raras da sétima arte. Obras que são porta voz do público negro e grandes influenciadores de gênero. Nem todos são obras-primas com exceção deste e dos escolhidos por mim para representar esta série aqui no blogue. Mas, cada um deles tem um lugar especial na minha coleção.
Este filme é o auge e vemos muita nudez e violência gratuitas, mas faz parte da proposta da época. Quem curte o gênero, com certeza vai aprovar.
Estados Unidos
Ação – Policial –
Thriller
1h 31min.
U Jack Hill
★★★★☆
PAM GRIER
Coffy
© 1973 American International Pictures (AIP)/ Papazian –Hirsch Entertainment International
Estrelando Também: BOOKER
BRADSHAW ROBERT DoQUI
WILLIAM ELLIOTT ALLAN
ARBUS SID HAIG
Música ROY AYERS
Direção de Fotografia PAUL LOHMANN
Edição de Filmagem CHUCK McCLELLAND
Diretores de Arte PERRY FERGUSON . CHARLES PIERCE
Produzido por ROBERT A. PAPAZIAN
Roteiro e Direção JACK HILL








5 comentários:
Eu assisti os dois "Cleopatra Jones" e apesar da importância histórica, considerando filmes apenas razoáveis.
Do gênero, ainda considero o original "Shaft" imbatível. Uma pena que a versão de John Singleton seja bem inferior.
Abraço
O Blaxploitation é um movimento com o qual não tive nenhum contato, tendo apenas lido a respeito de passagem em livros e análises de outros filmes. Também desconheço o trabalho do diretor Hill. Suponho que esse seja um bom título para começar a conhecer, até pela presença de Pam Grier, que vi no mencionado Jackie Brown e naquele western marciano de Carpenter. Não fazia ideia de que refizeram com um elenco branco. Putz, seu texto é uma verdadeira fonte de informações!
Abraço.
Muito bom, Rodrigo. Essa sua série está cada vez melhor. :)
bjs
Hugo: Sim. O Shaft só poderia dar certo numa época certa. Em um período na qual o interesse sociológico desta década era mais urgente.
Gustavo: Obrigado, meu caro! A Versátil Home Video lançou um box bacana em DVD. Nele há Coffy. Infelizmente não consta Foxy Brown. Hill foi um diretor que fez a mente do Tarantino borbulhar de ideias.
Abraço.
Amanda: :) Gratidão. Tenho uma queda por esses filmes hehehehe
Beijos.
Pessoal, não prometo nada, mas creio que escreverei mais dois capítulos deste especial. Os filmes podem ser: Truck Turner com Isaac Hayes (que ainda preciso rever) e Sweet Sweetback's Baadasssss Song, dirigido por Melvin Van Peebles.
Abraços!
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