O FAMOSO CAFÉ DA MANHÃ NA TIFFANY
Um aspirante a escritor muda para um prédio em Nova York pago por sua amante casada e rica e fica amigo da vizinha, Holly Golighty, uma garota excêntrica, call girl , que sonha em conseguir um marido milionário. Obviamente, ambos se apaixonam!
Rever este filme é sentir uma alegria contagiante. Sem dúvida um marco na carreira da estrela AUDREY HEPBURN, a minha carinha de anjo. Para mim, a atriz e personalidade de Hollywood mais doce que já existiu. Impossível não amá-la. Apaixonar-se loucamente pela sua graça, simpatia. Um jeitinho só dela. O fato é que esta pequena obra do diretor de comédias, BLAKE EDWARDS, autor de clássicos como a saga "A Pantera Cor-de-Rosa", um marco das gags, do velho e bom pastelão, não chega a ser uma legítima obra-prima se formos bancar aqui os críticos. Contudo, existe algo que não sei explicar em certos filmes. Quando há uma paixão imediata por eles. E com toda exatidão, BONEQUINHA DE LUXO (Breakfast at Tiffany's, 1961) é um desses filmes. Explico. A conclusão, a cada revisão, é que eu gosto de certos filmes apesar deles terem defeitos tão óbvios. Há coisas em Bonequinha que, francamente, são difíceis de engolir. Uma delas é ver o veterano - e hoje saudoso - MICKEY ROONEY fazendo o papel caricatura do vizinho japonês, embora cômico. Bem, se não for chato, talvez era esta a intenção de Edwards, conhecido pelas excentricidades de suas comicidades. Pode ser irritante, também, assistir ao ator espanhol JOSÉ LUIS DE VILLALONGA, passando por um milionário brasileiro chamado José de (sic.) Silva Pereira! Curiosamente, Bonequinha é um filme que, com o politicamente correto de hoje em dia, seria um fracasso comercial. Na trama, quando ela está aprendendo a língua, Holly ouve discos em português - um idioma que, segundo ela, teria "quatro mil verbos irregulares" - que chegou de Portugal e mal fala uma frase inteira em português: Eu acho que você está gostando do açougueiro! Sem esquecer um poster da Bahia na parede e uma cabeça de gado!
Enfim, apesar destes excessos rotulantes, é impossível não se enamorar por Audrey neste personagem icônico que ela tornou todo seu, com tal doçura que não dá para sacar que ela é call girl. Ao contrário, ela é apenas uma garota meio hippie, a precursora disso, saca? Além de ser meio sapeca, às vezes parece uma criança tanto mimada quanto engraçada. Sua Holly é um ser humano de bom coração (sonhadora, diga-se) e é só vê-la tratando o ex-marido feito por BUDDY EBSEN. Por mais que as escolhas dela sejam imorais (mas o que é imoral numa sociedade tão hipócrita?) que faz algum dinheiro por fora dando recados, melhor dizendo, "previsões do tempo", para um traficante que está na cadeia. O barato de Bonequinha, por ser assumidamente uma comédia romântica em sua maior parte do tempo, é que todas as coisas "erradas" passam por uma discrição interessante. O que ajuda o fato de ter um diretor tão bom para este tipo de coisa como Blake Edwards. Ainda assim, não só por Audrey ser a estrela protagonista do filme e o centro de todas as atenções, mas as pessoas - as que eu já conversei aqui em casa sobre o filme - fazem questão de esquecer que o herói feito por GEORGE PEPPARD é um gigolô e que suas ações podem ser tão indignas quanto as da mocinha. Mas, como eu disse, Edwards trata tudo isso com tamanha discrição que continua sendo impressionante. Por isso, comparo UMA LINDA MULHER (Pretty Woman, 1990), de Gary Marshall o Bonequinha de Luxo de uma outra geração, mesmo que a mudança de tom, contexto e personagens possam ter sido modificados. Todavia, o sucesso foi parecido e, sim, há semelhanças no trato de call girl de Audrey e Julia Roberts, com a diferença do herói feito por Richard Gere ser um milionário (mas ele já foi Gigolô em outro filme...) numa sociedade machista é condenável o ser feminino levar todos os créditos da promiscuidade...e os homens? Não é vexatório ser sustentado por uma amante ou mesmo pagar por sexo? Bem, ao contrário de querer ser explícito, à época de Bonequinha, Edwards tinha outras intenções e, por isso é notável o fato do cineasta escolher a Nova York daquele tempo, ou seja, um ambiente perfeito para uma simples e clássica comédia romântica. Nada mais. Começa já nos créditos iniciais (vide acima) com Audrey saltando de um táxi diante da Tiffany numa bela manhã, comendo um croissant e, como em todo o resto do filme, vestida esplendidamente por GIVENCHY, que neste filme realmente se superou criando figurinos e acessórios charmosérrimo, que até hoje ainda não foram superados. Aliás, deve-se muito a ele o encanto do filme e a facilidade com que Audrey faz o personagem (até com algumas frescuras que ela não se permitiria em outros filmes).
Mesmo que o filme seja fantasioso demais (a magia do cinema, a única arte inventiva capaz disso) e que não convença, por exemplo, na cena na joalheria com o vendedor extremamente atencioso (pelo menos em "Uma Linda Mulher" na famosa cena em que Julia tenta comprar roupas e a atendente é rude com ela tendo notado sua "profissão"), o filme tem dezenas de detalhes memoráveis; desde o gato que não tem nome - depois importantíssimo ao final -, a ideia do mean reds (algo tão depressivo que seria pior que os blues), os closes de Audrey (que parecem terem sido todos feitos com uma gaze suavizando seus traços), a eficiente e bem datada trilha musical de HENRY MANCINI. Tudo isso é mais que suficiente para torná-lo um filme inesquecível, que mesmo algumas incoerências e bobagens não conseguem arruinar.
Indicado para o OSCAR de: Atriz, Direção de Arte e Roteiro (nada para Edwards); ganhou o de Canção - a clássica MOON RIVER (a aura do filme!), cantada pela própria Audrey.
O autor TRUMAN CAPOTE nunca aceitou Audrey no papel de Holly, que considerava completamente errado para o personagem. Ele preferia alguém diferente, ninguém menos que outra diva: MARILYN MONROE. Contudo, a professora dramática dela, Paula Strasberg, contrariou a interpretação de outro papel de prostituta.
O filme faz um nada discreto merchandising da joalheria TIFFANY & CO. que fica na Quinta Avenida.
Fora um conto publicado em 1958, na revista Esquire, numa coleção chamada justamente BREAKFAST AT TIFFANY´S. Várias amigas de Truman; Carol Matthau, a pintora Bee Dabney, Anky Larrabee e a colunista Doris Lilly, afirmaram, depois, terem sido inspiradas pelo personagem.
Os direitos para o cinema foram vendidos por surpreendentes 650 mil dólares para os produtores Martin Jurow e Richard Shepherd. O roteirista GEORGE AXELROD de "O Pecado Mora ao Lado" e "Sob o Domínio do Mal", foi quem escreveu o roteiro e que suavizou muito o trabalho dos personagens e mal dá para perceber suas segundas intenções ofuscados pelo luxo.
Não pensem que a feitura do filme foi moleza. Como em muitas anedotas, histórias de bastidores, os problemas de filmagem foram com o então jovem Peppard cujo sucesso rápido subiu à cabeça. Houve problemas também com a canção Moon River que o chefe do estúdio queria cortar. A reação de Audrey foi furiosa, dizendo: "Só por cima do meu cadáver". Desde então, a canção já foi gravada inúmeras vezes ao longo das décadas.
Para o deleite de todos os envolvidos, o filme fez sucesso na estreia e foi ainda maior e melhor na Europa. Em 1966, houve uma tentativa frustrada de transformá-la em musical da Broadway (ah, essa Broadway que já fez até um musical de "Carrie", pode ser mais estranho?) com Mary Tyler Moore e Richard Chamberlain (ele mesmo, "Pássaros Feridos" e "Allan Quartemain")! Reclama Capote: " O livro original, a minha obra, era meio amargo e o filme acabou virando uma declaração de amor a cidade de Nova York, tornando tudo que era para ser rico e feio em superficial e bonitinho".
Pois é, Capote, desculpe, até entendo você, mas deixe de ser recalcado, afinal de contas, BONEQUINHA DE LUXO é um prazer cinéfilo imensurável. Tal como é.
EUA
COMÉDIA - ROMANCE - DRAMA
1h 55min.
COR
🎥 Blake Edwards
★★★★☆
AUDREY HEPBURN GEORGE PEPPARD
EM:
BREAKFAST
AT
TIFFANY´S
©
1961 UM FILME PARAMOUNT - A Jurow-Shepherd Production
Também
Estrelando: PATRICIA
NEAL
MICHEY ROONEY JOSE LUIS
de VILALLONGA
BUDDY EBSEN JOHN McGIVER
e MARTIN BALSAM
Roteiro
de
GEORGE AXELROD
Baseado
na obra de TRUMAN CAPOTE
Música
de
HENRY MANCINI
Fotografia
de
FRANZ PLANER
Produzido
por
MARTIN JUROW RICHARD SHEPHERD
Direção:
BLAKE EDWARDS









2 comentários:
Pois é, Rodrigo, Capote que me desculpe, mas adoro o filme também. A cena dela na sacada cantando Moon River e a cena final na chuva, são encantadoras. Belo texto.
bjs
Capote é que precisa pedir desculpas pra gente, afinal, rs
O filme tem uma sucessão de cenas memoráveis, Amanda. Adoro o romance que é a alma do filme. Obrigado.
Beijos.
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