quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Stanley Donen - Charada (1963)

EM QUEM DEVO CONFIAR?


Uma viúva descobre que está sendo perseguida por antigos amigos e parceiros do marido que desejam uma fortuna que, acreditam, ela tenha escondido em algum lugar. 

CHARADA continua sendo um de meus Filmes Cult prediletos. Às vezes sinto que é preciso comentá-lo mais na comunidade cinéfila. Em outras palavras, eis um filme curioso por que não existiu nada mais difícil de fazer que um filme de suspense à maneira de Hitchcock. O diretor STANLEY DONEN, vindo da linhagem ilustre dos musicais, como o inigualável Cantando Na Chuva (1952), conseguiu isto neste Thriller, que fica melhor a cada revisão. 
Foi o único encontro entre o casal mais chique e fino de Hollywood: CARY GRANT e AUDREY HEPBURN. Mas é a eficiência do roteiro assinado pelo estreante PETER STONE (que depois faria também Papai Ganso com Grant, Miragem, Arabesque com Donen, Sweet Charity com Fosse e até musicais da Broadway, como, pasmem, uma versão de Titanic!) conduzida pelo diretor que faz o filme funcionar, pois, despistam de tal forma o espectador que até hoje é difícil descobrir a solução do mistério. 

O grande achado do script é que Audrey não sabe em quem confiar, porque Cary, que seria obviamente o galã, logo no começo, revela-se fazendo também parte do grupo de conspiradores. 

Foi um grande achado reunir um elenco de futuros astros. Nenhum deles, ainda, era importante e todos saem-se muito bem em seus papéis ameaçadores. Em quem confiar? Esse é o dilema da heroína mais encantadora do cinema. Bem, vocês sabem. A dois posts atrás já disse tudo que poderia e muito mais a respeito de Audrey. Ela, deslumbrante, em cenas que alternam humor (sua marca registrada), como, por exemplo, a dança na boate e a perseguição nas ruas, o suspense (em particular o final) e, principalmente, o romance que não poderia faltar, aliás, os filmes clássicos americanos se debruçavam de tal maneira no gênero que hoje em dia é impossível repetir. Ao menos o tempo deixam esses filmes ainda mais romanticamente especiais. Neste caso, a cena no passeio de Bateau Mouche é um momento inesquecível. Igual ou até melhor que as fitas do mestre do suspense, Hitchcock. 



Apesar de ter citado alguns momentos do filme, não se preocupem, afinal não vou aqui estragar a sua experiência totalmente. Ser um daqueles estraga- prazeres. Não. O importante aqui é não revelar o final ou mesmo as várias reviravoltas da trama. Saber das motivações do personagem de Grant, enfim, tudo bem. Contudo, a premissa é bem mais elaborada e surpreendente do que fora dito neste texto. Mas, há curiosidades que não posso deixar de fora desta resenha crítica. Como, a cena inicial em que o trem era de verdade e a equipe de filmagem tinha de ficar esperando o momento em que ele realmente passava ou os famosos letreiros/titulagens de apresentação do genial designer gráfico e projetista de créditos MAURICE BINDER (dos primeiros e clássicos filmes de James Bond) que o tornaram famoso. E, foi este filme e os anteriores  de Donen que, na verdade, levou Binder a produzir as aberturas dos filmes de 007 chamando a atenção do produtor "Cubby" Broccoli

Donen confessou que usou um truque numa cena logo no começo; a mão que segura a pistola é de um homem para não revelar a piada. As cenas iniciais foram rodadas num hotel ainda inacabado em Mégeves, nos alpes franceses. Audrey, como sempre, vestia modelos de seu figurinista particular - Givenchy - e, como era seu hábito, tinha três peças de cada um. 

Grant, embora não aparentasse, completou 60 anos durante as gravações. E que homem no auge da beleza! E, segundo o que diz sua biografia, nesta época não queria mais correr atrás de mulheres, ao menos nas telas! Foi por isso que, em princípio, recusou o papel. A fita quase foi rodada com NATALIE WOOD  e WARREN BEATTY. Mas o roteirista Stone mudou o roteiro para satisfazê-lo. Outra exigência de Cary, ele gostava de ser sempre fotografado do mesmo lado - aquele que considerava mais fotogênico. 

O autor Stone faz uma ponta na cena do elevador quando é dublado pelo diretor Donen. Outros também foram dublados: o francês JACQUES MARIN (o chefe de polícia), que tinha um sotaque muito forte, pelo ator GREGOIRE ASLAN e o menino por um profissional. 

A história foi escrita originalmente como roteiro e sete estúdios o recusaram, Donen só a descobriu quando foi adaptada para livro e fez questão que o autor ficasse no set o tempo todo das filmagens - coisa muito rara de acontecer. Normalmente o autor-roteirista não interfere diretamente o trabalho do diretor no set. Stone considerava sua sequencia predileta a do enterro, onde apresenta todos os personagens centrais de forma inusitada. 

Na época, nenhum dos atores que fazem os vilões eram conhecidos. a começar por JAMES COBURN, depois GEORGE KENNEDY, uma figura forte, um sujeito grandão, e NED GLASS, um ator que havia virado carpinteiro porque foi posto na lista negra do Macarthismo.

A produção foi totalmente rodada em Paris, exteriores e interiores, e até o mercado de Les Halles, que hoje não existe mais. Mas Donen confessa uma falha, no passeio de Bateau Mouche eles iluminaram apenas um dos lados do rio Sena; assim, a projeção de fundo das cenas é sempre a da margem direita, tanto quando aparece Cary quando mostra-se Audrey. É aqui que se ouve a famosa música-tema de HENRY MANCINI , que só ganhou letra de JOHNNY MERCER porque era obrigatório para poder concorrer ao Oscar - o que acabou acontecendo. 

Donen também confirma a inspiração em Hitchcock com uma diferença. Nas fitas dele, em geral, era um homem que estava em perigo e sendo perseguido (Grant que o diga!); aqui é uma mulher e, pela primeira vez, Audrey fez um papel desse gênero.

No filme também está, o então pouco conhecido, WALTER MATTHAU em que só numa cena teve de comer mais de quarenta sanduíches, porque o próprio ator disse que era engraçado quando aparecia comendo e também correndo; situação em que parecia um pato! 

Outra curiosidade: o filme foi rodado em plena crise de mísseis de Cuba e um dia interromperam as filmagens achando que o mundo estava perto de uma guerra atômica. 

Cary Grant era canhoto, tinha mais de um metro e oitenta e era sempre representado pela mesma pessoa nas cenas de ação, até mesmo num pulo para o balcão. Simpático, e complicado, ele recusou decorar um texto longo e expositivo. Por isso, se você reparar bem na sequencia em que ele entra na sala com os bandidos e a criança sequestrada: perceberá que ele está lendo um texto num quadro negro. A cena no chuveiro ele também não queria fazer, mas acabou concordando e divertindo-se muito. 

Em 2002 houve a desnecessária refilmagem O Segredo de Charlie (The Truth About Charlie) dirigida pelo diretor  Jonathan Demme e estrelado por Mark Wahlberg, Thandie Newton e Tim Robbins. O filme é ruim, concordo. Uma bola fora do grande e saudoso Demme (de obras mais ressonantes como O Silêncio dos Inocentes e Filadélfia) que, apesar do erro, não chega a obscurecer ou ofender a grande obra original. 

Charada é um cult por excelência. Um terreno onde tudo funciona lindamente tornando-o o clássico duradouro que é. 

Grant e Hepburn eram grandes estrelas representativas da era de ouro do cinema. Cômico, romântico e repleto de suspense. Quer combinação melhor?


EUA
COMÉDIA-ROMANCE-SUSPENSE 
1h 53 min. 
COR
🎥 Stanley Donen 
★★★★★ 




UNIVERSAL APRESENTA

UMA PRODUÇÃO DE 
STANLEY DONEN

CARY GRANT    AUDREY HEPBURN
CHARADE

Co- Estrelando: WALTER MATTAU com: JAMES COBURN
GEORGE KENNEDY  NED GLASS e JACQUES MARIN
FOTOGRAFIA DE CHARLES LANG
MÚSICA HENRY MANCINI
DIREÇÃO DE ARTE JEAN D´EAUBONNE
MONTAGEM JAMES CLARK    .  TITULAGENS MAURICE BINDER
ROTEIRO PETER STONE
ARGUMENTO Peter Stone Marc Behm

PRODUZIDO
E
DIRIGIDO POR
STANLEY DONEN
© 1963 UM FILME UNIVERSAL 

Um comentário:

Tom disse...

Esse foi um bom filme. Acabei de descobrir o seu blog e realmente aproveite! Tom

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