A NOIVA MOTOQUEIRA
"A Vingança é um prato que se come frio."
Eis que o famoso ditado popular ilustra uma tela em preto pouco antes do filme começar. A grosso modo: "Significa que para se vingar a pessoa tem que esperar pacientemente, ou seja, se o indivíduo esperar para poder comer e tiver paciência, a comida acaba esfriando, portanto o ditado." Mas como o assunto aqui é cinema e já que trata-se do quarto filme do cineasta-roteirista QUENTIN TARANTINO, bem, a fala de vingança é uma colagem do clássico da ficção-científica na qual Quentin é fã, o célebre JORNADA NAS ESTRELAS, precisamente o segundo filme da franquia, A IRA DE KHAN de 1982, momento antológico do ator mexicano Ricardo Montalban (1920–2009) quando deu vida ao icônico vilão Khan.
O texto de hoje é sobre a revisita que fiz deste grande sucesso de Tarantino. E como o filme, especialmente este VOLUME 1 , ficou mais interessante em uma nova releitura depois de seus quinze anos.
No Brasil, lançado somente em abril de 2004, mas que teve premiere oficial em Hollywood, California, no dia 29 de setembro de 2003. Mas, como o ano de 2018 já entrou, nada como comemorar antecipadamente um dos filmes mais interessantes dentro da obra do cineasta. Confesso que nos meus dois textos antigos sobre o filme, o meu predileto sempre foi a segunda parte. Nota-se que a história estava mais presente no segundo filme e que as relações e motivações dos personagens evidentemente mais explicadas. Mas, originalmente, Kill Bill fora concebido como uma premissa contínua que obviamente ficou enorme para um único filme. Assim sendo, o estúdio disse a Tarantino que ele deveria cortar a narrativa no meio e, já que a trama era capitulada, exibi-la em dois volumes, cinco capítulos cada. Aliás, uma boa ideia para o marketing. Funcionou. Quentin explicou na época que o primeiro era a pergunta e o segundo a resposta. Por isso, por ser um filme muito mais visual do que falado - sempre esperamos aqueles diálogos originais e triviais do Tarantino - ficou a impressão que o Volume Um deveu algo. Hoje eu já discordo. Não tenho mais favoritos. Compreendo como um único filme separado por um período de tempo, mas se assistidos na sequência, faz todo o sentido como sendo uma obra única. O curioso é que na época notava-se a distinção de ambos. A primeira parte tinha mais ação enquanto a segunda focava em conhecer as personagens.
Em 27 de março de 2011 e excepcionalmente em um cinema dos Estados Unidos, Tarantino lança o que chamaríamos aqui de KILL BILL VOLUME ÚNICO. "Kill Bill: The Whole Bloody Affair", com quatro horas e 7 minutos de duração. Basicamente a narrativa continuada e sem interrupções. Sei pouco desta versão, aliás, para muitos ainda é um mistérios, só poucos sortudos assistiram. Mas, creio, que não houve grandes mudanças. Pode ser que Tarantino tenha recuperado algumas cenas eliminadas, principalmente do Volume Dois que envolvia uma cena com Carradine lutando nos becos da China e Uma assistindo ao fundo e, na ocasião, Bill confrontando o personagem de Michael Jai White, ator e lutador de artes marciais, conhecido pelo filme Spawn: O Soldado do Inferno (1997) e Black Dynamite (2009), mostrando que Bill tinha muitos inimigos e contas a acertar.
Não vou dizer que não adoraria assistir ao épico de Taranta em um único filme, mas, por outro lado, o charme deste Volume Um reside justamente por ser um filme de ação incessante com uma protagonista enigmática. Papel que salvou a carreira de UMA THURMAN, mas que também trouxe alguns dissabores como a polêmica envolvendo o acidente da atriz enquanto guiava um carro numa das cenas do segundo filme. Hoje, passado o trauma dela e o remorso de seu amigo de longa data, tudo já foi esclarecido e perdoado. Afinal, vingança pra quê, né mesmo? E vamos combinar, o primeiro Kill Bill foi a resposta de Quentin a quem dizia que ele havia perdido a inspiração. Ou boatos de que o sucesso subiu a sua cabeça ou que provavelmente tinha se envolvido com drogas. Como um vulcão de talentos pode ter surgido, mudado a forma de se fazer filmes, ser uma referência, para depois simplesmente desaparecer sem deixar vestígios? Eu mesmo, na época do Jackie Brown (1997), aguardava ansioso por um próximo filme dele. Depois de Pulp Fiction (1994) e Cães de Aluguel (1992), houve projetos interessantes como a comédia Grande Hotel (1995), filme em seguimentos e o terror Um Drink no Inferno (1996), dirigido por seu amigo, Robert Rodriguez. Como ator, talvez um certo incômodo para alguns admiradores, mas, a bem da verdade, sempre foi questionável os papéis que ele interpretou, mas é inquestionável seu talento como cineasta e principalmente como roteirista, desde sempre.
O silêncio e o hiato se justificaram. Com KILL BILL vol. 1. ele calou a boca de muita gente descrente, eu incluso, com um filme poético, sanguinolento e tão ultrajante a ponto de ser crível. Acaba sendo divertido, mas sem esquecer dos momentos realmente dramáticos protagonizados por Uma Thurman aquela parceira de Tarantino. Aquela mulher-atriz que combina com o universo do diretor e que, aliás, tem participação ativa no script quanto a criação da misteriosa A NOIVA. Como é creditada apenas com U de Uma já que o Q é de Quentin! Foi ideia dela, segundo Tarantino, iniciar o filme com uma mulher vestida de noiva, toda ensanguentada pedindo clemência antes do tiro quase certeiro que ceifaria sua vida. E esses papos entre os dois aconteciam durante as filmagens de Pulp Fiction, quando Quentin lhe contou em segredo que sempre sonhou em fazer um filme de artes marciais.
Totalmente inspirado e novamente com o seu toque mágico e único, foi o filme que definitivamente iniciou uma nova categoria na carreira dele. Ainda referência principal como uma das importantes influências do cinema de autor pós-moderno. E Kill Bill é o exemplo perfeito, até mais que Pulp Fiction de alguma forma. Curiosamente, sua trama é mais simplória que o policial de 94 que lhe rendeu o Oscar. Essencialmente a clássica história de vingança, mas no estilo do diretor. Não assistimos o filme de maneira linear. Há vários flashback, cenas fora de sequência e quadros/frames dentro de quadros. Seu aspecto também não é tradicional. Tarantino nos dá a oportunidade de apreciar a cores, em preto e branco (numa das maiores sequências de lutas já realizadas), em animação, mas que também não traz os traços fundamentais de um produto japonês, há uma série de "borragens" no desenho animado o deixando mais rústico propositalmente, em split-screen naquele momento no hospital referenciando Brian de Palma, enfim, são inúmeras colagens de um cinéfilo que praticamente assistiu a todos os filmes clássicos referências. Muitos afirmam que é um filme menos envolvente em comparação aos três anteriores, hoje discordo. Mesmo com a ausência de monólogos. O impacto e a grandeza lírica se encontra justamente nas cenas de ação (e nem digo da famigerada violência) e, sobretudo, na mitologia presente que Tarantino almeja apresentar nesse universo na figura mística de dois personagens mentores, os mestres; Hattori Hanzo e Pai Mei, respectivamente Gordon Liu que faz dois papéis e Shin'ichi Chiba (Sonny Chiba) neste primeiro volume, ator lendário do Japão de obras fílmicas e televisivas. A exemplo, A Conspiração do Clã Yagyu (1978) dirigido por Kinji Fukasaku e do célebre seriado de TV "Kage no gundan" que surgiu a figura de Hanzo. Um Hanzo renascido em cada temporada. Nenhum deles são personagens originais, mas, colocados em um novo contexto reescrito por Tarantino. Aos que pensavam que ele apenas "roubava" ideias no que se diz respeito apenas as trilhas sonoras. Engano. Não que me incomode, muito pelo contrário.
Tecnicamente, o que difere Kill Bill dos primeiros filmes dele é justamente o trabalho de câmera energético e bastante inventivo, diga-se. Sem contar na sempre habilidosa edição de filmagem da saudosa Sally Menke e, obviamente, o apurado bom gosto musical do diretor com um amplo repertório variado e que pela primeira vez trouxe músicas originais realizadas pelo compositor, rapper e produtor RZA, mas também com trechos de uma imensa gama de trilhas musicais de filmes clássicos de Quincy Jones, Bernard Herrmann (o famoso assobio de Elle Driver vem do filme A Morte Tem Cara de Anjo (1968) - "Twisted Nerve" de Roy Boulting e, é claro, de seu compositor predileto, o que dispensa maiores comentários, Ennio Morricone de selecionadas compilações de western spaghetti, inclusive "Django", este de Luis Bacalov. Tudo isso, demonstra que Tarantino, no mínimo, é um cineasta mais completo e seguro quando realizou Kill Bill provando ser um diretor de filmes de ação-pirotécnico (os melhores do mundo como John Woo) do que era nos anos 90.
Sua inspiração tem origem nos chamados filmes de artes marciais ou kung fu da década de 1970 e que segundo ele o melhor período do cinema. Partes de Kill Bill Um e Dois foram filmadas no famoso estúdio de Hong Kong, SHAW BROTHERS, assim como os faroestes italianos desta época e alguns deles lendários, como os de Sergio Leone - outra referência obrigatória. E em seus conhecimentos de história de cinema vividos em uma vídeo-locadora, o vol. um continua a referenciar, não apenas obras como STAR TREK - Jornada Nas Estrelas, mas outros díspares produtos do entretenimento. Uma verdadeira banana-split de BESOURO VERDE (seriado de 1966 com Bruce Lee), GONE IN 60 SECONDS (1974) , O "60 Segundos" original e não a refilmagem com Cage e Jolie, IRONSIDE ( "Têmpera de Aço", 1967 - trazendo a famosa trilha/batida de Quincy Jones naquele momento em que Uma se depara com Vernita na primeira cena antes de surpreendê-la com um soco!) e, também, SCARFACE (1983) o filme mais importante do De Palma, outro ídolo seu. Tanto a chacina da cena final com Pacino quanto a luta na Casa das Folhas Azuis são semelhantes no exagero gráfico. E por aí vai. Se for elencar todos, meu texto não acaba nunca mais...
Existe uma concentração de energia na direção de Tarantino aqui vista pela primeira vez em momentos hiperbólicos. As coreografias das lutas são lindamente muito bem escritas (pelo próprio Tarantino, mas executada pelo famoso Woo-Ping Yuen de "O Tigre e o Dragão", "Matrix" e outros. E que aqui entra apenas como consultor). Todos os momentos das lutas passam pela intensidade do drama e pela comicidade descarada, cuidadosamente.
A heroína é conhecida apenas como "A Noiva" e ou/ Mamba Negra, já que fazia parte de uma elite de assassinos. Todos com nomes de serpentes: Cabeça de Cobre (Vernita), Boca de Algodão (O-Ren), Cascavel-chifruda (Budd) e Cobra Californiana (Elle) enquanto o poderoso chefão, Bill, sob a alcunha de "Encantador de Serpentes".
Uma Thurman se dedica ao papel como em nenhum outro em toda sua carreira. É notável tamanho esforço na tela que merecia pelo menos uma Indicação ao Oscar. Brilhantemente, Uma consegue encarnar diferentes tipos de heróis já vistos nos filmes que Tarantino adora. Ela é um pouco Bruce Lee de "O Jogo da Morte"- Game of Death, de 1978, na qual se origina a roupa amarela, além do mais complicado, procurar emular o estoicismo do "Homem sem Nome" de Clint Eastwood e trazendo a sua feminilidade marcante e todo o feminismo de super espiãs...como na série original "As Panteras". Tem muito do espírito de Farrah Fawcett em Uma.
VOLUME UM se tornou um clássico instantâneo. Um dos filmes mais ressonantes do Tarantino que em uma obra que será completada ainda por mais dois filmes - ao todo serão dez - permanecerá como um dos diretores de cinema mais interessantes de seu tempo. Cada filme é uma missão e desafio diferente. Certamente se fizesse um segundo Pulp Fiction cairia no ostracismo rapidamente. No primeiro ato de seu quarto filme, a noiva só pensa em vingança em um filme agressivo, cômico, chocante e inspirador, na qual acompanhamos a saga de uma mulher e seus progressos enquanto mata dois membros do esquadrão, bem como alguma coisa em torno de 300 bandidos mascarados e armados de espada. KILL BILL 1 aguça a imaginação e nos instiga para o esperado confronto final.
Matar (na tela de cinema) pode ter um sabor açucarado. Satisfaz, lava a alma.
A leoa ainda está sem a sua cria e a selva encontra-se em plena guerrilha!
EUA
AÇÃO- CRIME - THRILLER
1h 51 min.
COR/ PRETO E BRANCO
🎥 Quentin Tarantino
★★★★★
Miramax Films Apresenta A
Band Apart
O 4º
Filme
de
QUENTIN
TARANTINO
O 4º
Filme
de
QUENTIN
TARANTINO
UMA THURMAN
KILL BILL vol. 1
Como o Grupo de Extermínio
Víboras Mortais:
1. LUCY
LIU
2. VIVICA
A. FOX
3. MICHAEL
MADSEN
4. DARYL
HANNAH
e
5. DAVID
CARRADINE como “BILL”
Co
–estrelando:
SONNY
CHIBA JULIE DREYFUS
CHIAKI KURYAMA GORDON LIU
MICHAEL
PARKS MICHAEL BOWEN
JUN
KUNIMURA KENJI OBA
YUKI
KAZAMATSURI JAMES PARKS
AKAJI
MARO KAZUKI KITAMURA
GORO
DAIMON SHUN SUGATA
E
THE 5,6,7,8´S
Consultor
de Artes Marciais YUEN WOO-PING
Música
Original
THE RZA Edição
SALLY MENKE
Fotografado
por
ROBERT RICHARDSON
Direção
de Arte
YOHEI
TANEDA DAVID WASCO
Baseado
no Personagem
“A
Noiva”
Criado
Criado
por
Q & U
Produzido
Por
LAWRENCE
BENDER
ESCRITO
E
DIRIGIDO
POR
QUENTIN
TARANTINO
© 2003 SUPERCOOL MANCHU, INC.
Miramax A Band Apart





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