N I N E NÃO CHEGA NEM AOS NOVE...
...MAS ALL THAT JAZZ ULTRAPASSA OS DEZ!
...MAS ALL THAT JAZZ ULTRAPASSA OS DEZ!
Na temporada do Musical NINE, eminente fracasso de Rob Marshall recomendo à vocês O Show Deve Continuar do diretor/coreógrafo BOB FOSSE - da Broadway, que sofre um enfarte e sente a presença de um anjo da morte, obviamente feminino, que veio buscá-lo.
Premissa igualmente simples, como a do diretor Italiano sem inspiração (meio FELLINI 8 & 1/2), porém, melhor executada. Sim! Há diferenças grosseiras entre ALL THAT JAZZ e NINE, um é extremamente sem alma, constrangedor e o outro um cult dançante exuberante. Delicioso e sexy.
Esta película de Fosse, de 1979 fez tanto barulho quanto seus outros musicais: CABARET(1972) com Liza Minnelli (Oscar pra ela) e SHARITY, MEU AMOR (1969) com Shirley MacLaine. Ganhou a Palma de Ouro em Cannes, empatado com Apocalipse Now de Coppola. Venceu também os Oscars de : direção de arte, montagem, adaptação musical e figurino. Obteve as indicações de Melhor Filme, Diretor, Ator (Roy Scheider), Fotografia e Roteiro. O filme, como NINE, é inspirado em 'Fellini Oito e Meio' de tal forma que Bob Fosse importou o fotógrafo de Fellini, GIUSEPPE ROTUNNO. Neste filme, Fosse (1927-1987) foi completamente autobiográfico a ponto de prever a sua própria morte que acontecera na noite de estréia de uma remontagem do espetáculo Sweet Charity.

No final dos anos 90 houve uma certa "revival" da obra coreográfica dele (CHICAGO feito por Marshall é co-autoria de Fosse, inclusive na coreografia), com remontagens na Broadway de seus espetáculos Chicago, de onde se tira a frase que dá título a este filme (All Tha Jazz, no filme pela voz de Catherine Zeta-Jones logo no prólogo), e o Show Fosse; uma compilação de suas melhores coreografias, na verdade All... é um híbrido no ápice de Fosse.
À época Fosse namorava JESSICA LANGE, a quem, com este filme, deu uma oportunidade de retornar a carreira depois do debache de KING KONG -1976. Para realizar as danças, Fosse declarou que se inspirou em MOULIN ROUGE, obviamente a versão de 1952 de JOHN HUSTON e não o escandaloso de BAZ LUHRMANN.
Cada vez que tenho a chance de dar uma espiada neste filme (moda anos 70 na veia!) vejo como o tempo deu uma nova perspectiva à ele, um testamento prematuro do maior coreógrafo do cinema moderno. Agora fica claro (depois de NINE) como ele pressentia a morte iminente e como o personagem Joe Gideon - muito melhor que o diretor beberrão Guido de NINE - é autobiográfico, seu álter-ego. Um Brilhante artista da Broadway e do cinema: fracasso na sua vida particular. Como nesta fase Oito e Meio de Fellini.
Num momento chave, já próximo do final, Gideon, um Roy Scheider fumante e meio Bissexual, olha para o alto e com ironia pergunta: "Como é Deus, o Senhor não gosta de musical?" Mas este não é um musical convencional. É uma história séria sobre um homem que sente a proximidade da morte (e não larga o cigarro até no banho) , não tem os clichês egoístas de NINE. Fosse como Gideon, sofreu uma cirurgia delicada de peito aberto enquanto dirigia o Show Chicago e montava o seu filme; LENNY.
Todos os personagens da fita têm paralelos com a sua vida particular. A Ex-esposa nada mais é que um retrato afetuoso da estrela, e depois melhor amiga, Gwen Verdon, mãe de sua filha Nicole, embora esta faça uma ponta na fita, no papel de Michelle, a filha é interpretada pela estreante e ótima dançarina Erzsebet Foldi.

A dançarina Ann Reinking chega ao cúmulo de interpretar a si mesma e assim por diante. Todas são visões, caricaturais ou simpáticas, de pessoas com que Fosse trabalhou, transou, casou, namorou, ficou, ao longo de sua carreira. Claro que isso é egocêntrico e um tanto cabotino, mas tudo é tão muito bem executado (como filme e tudo), com muito talento e amor, ora é perdoável , principalmente porque Fosse não se poupa. Gideon não é um protagonista simpático, lembre-se: está em crise, visto que é arrogante, egoísta, auto-suficiente, machista e, mesmo assim, resulta profundamente humano. Acho que o mérito vai mais na performance de Scheider do que as instruções do diretor. Este saudoso ator (conhecido pelo TUBARÃO do Spielberg), tinha uma seriedade carismática. Passava controle e confiança, um ar paternal e mesmo neste filme, que faz um artista em crise total, remanesce como um homem vivido.

Na famosa cena de abertura, em que utilizam a música On Broadway de George Benson, ele faz o seu Chorus line particular. Mais tarde realiza um dos números de dança mais erótico do cinema em 'Take Off With Us' (Saia Voando Conosco). Como ele mesmo admitia, este é o Oito e Meio de Fosse, mas com uma diferença: Fellini procurava fazer as pazes com a vida, Fosse tenta se reconciliar com a morte, retratando-a como um bela Jessica lange.
O filme é a visão de um coreógrafo, de um homem do Show-business que alternadamente ama e detesta seu universo engaiolado. Por isso, a visão da vida, e da consequente morte, só poderia ser muito à la Broadway: com muito brilho, paetê, plumas e muita mulher gostosa. É ao mesmo tempo uma apoteose e uma profunda crítica à falsidade do mundo do teatro ( Em NINE era quanto a crítica da liberação sexual, isso me deu vontade de vomitar) Não é à toa que, nos letreiros finais, Ethel Merman canta o hino teatral : 'There´s no business like show-business' em que se afirma: " Não há negócio como um negócio do teatro", onde as pessoas sorriem quando estão deprimidas e choram quando estão alegres. Para eles, para Gideon, para Fosse, a vida é um show , um show que deve continuar.
'O Show Deve Continuar' - All That Jazz
de Bob Fosse
EUA - 1979
Musical
123'
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
TWENTIETH CENTURY FOX E COLUMBIA PICTURES
APRESENTA M
UM FILME DE BOB FOSSE
ALL THAT JAZZ
Escrito por
Bob Fosse e Robert Alan Aurthur
Fotografia Giuseppe Rotunno A.S.C
Música de Ralph Burns
Direção de arte Tony Walton Philip Rosenberg
Edição Alan Hein
Estrelando: Roy Scheider Jessica lange
Leland Palmer Ben Vereen John Lithgow
Cliff Gorman Keith Gordon Nicole Fosse
Sandahl Bergman e Ann Reinking
Dirigido por
BOB FOSSE


5 comentários:
Oi Rodrigo,
Gostei muito do seu post falando sobre este musical. O Jazz ainda vive, claro que perdeu muito espaço para outras danças contemporâneas e com fusão por isso este filme é referência. E viva as polainas do jazz... tão lindas!
Ainda não assisti Nine, mas vou conferí-lo para poder entender melhor as suas citações sobre ele. Confesso que não me empolguei ainda para vê-lo.
Embora ame dança, sou super criteriosa com musicais. Não suportei Chicago, por exemplo, apesar que darei uma nova chance para ele.
O advento da dança na década de 70 era espetacular, acho tão genuinamente dança em comparação ao que se vê em performances mais vazias e caricaturais.
Take Off With Us ... is all!
Bjs!
Rodrigo, não sou fã de musicas, mas All That Jazz é excelente. É um daqueles filmes que não tem como se cansar de assistir. Curti muito a lembrança e o review....
e é claro, a nota que você deu pra ele! :)
Eu preciso rever All that jazz, vi quanto tinha uns 10 anos...num VHS muito desbotado de imagem!
Nine? este um dia eu páro e confiro...rs
Abraço!
Rô,
cara, o final do teu texto ficou mto bom. "...e muita mulher gostosa" hahaha Mas serião, ficou muito bom a parte que citou o "show deve continuar".
É bom qndo vc dá suas opiniões pelo meio do post. veja, mesmo não assistindo NINE concordei com vc no que disse só de ver o trailer. Não consegui encontrar conteúdo nenhum. Não posso ser, claro, falso de tacar pedra no trailer pq nem o filme eu vi, mas... foi uma coisa que me deu sono.
Sobre All That Jazz, a capa do DVD me persegue desde os longos tempos de Saraiva em que nem existiam dvds, eram só os VHSs. Cresci com essa imagem na cabeça e não vi até hoje, quem saiba veja pelo contraste que deu nessa obra em relação até, por exemplo, com Chicago e outros.
Só espero que a trilha sonora seja boa.
E esse Fellini 8 1/2 que leio em todo lugar e agora aqui está me deixando curioso viu.
A imagem do topo do post tb ficou mto boa.
Abraço!
Amo musicais, tenho muita vontade de ver esse.
Postar um comentário