domingo, 28 de março de 2010

ALFRED HITCHCOCK | FRENEZI

DE VOLTA ÀS RAÍZES


ALFRED HITCHCOCK voltou à Inglaterra em 1972 para colaborar com o dramaturgo ANTHONY SHAFFER em uma versão filmada do romance de Arthur La Bern: GOODBYE PICCADILLY , FAREWELL LEICESTER SQUARE que ressuscita muitas das convenções do primeiro grande sucesso do diretor, como a fita: O PENSIONISTA de 1926.

Mais uma vez, Londres é atormentada por um novo serial killer, similar a Jack, o Estripador (emulando o clássico do cineasta: The Lodger) e o personagem principal (O homem errado, erroneamente acusado) só complica a sua situação agindo de forma tão esquisita que se torna o principal "suspeito".




Hitchcock obtém uma mistura exata de fascinação lasciva e horror genuíno ao mostrar a atitude inglesa diante dos assassinatos, algo que também é uma grande parte de sua própria obsessão. Um amargurado ex-piloto da RAF, Richard Blaney - o ótimo JON FINCH - é um alcoólatra que trabalha como garçom em um bar/pub de Covent Garden, reduzido a limpar a mesa, e, com isso, sentir-se azarado e inferior a sua perspicaz ex-mulher, Brenda, a interessante BARBARA LEIGHT -HUNT, que, ironicamente, dirige uma próspera agência matrimonial. Em uma das mais horríveis e explícitas cenas que o mestre já dirigiu, Brenda é visitada pelo rústico, feioso e bonachão distribuidor de frutas do mercado local, Bob Rusk, o maravilhoso BARRY FOSTER (de "A Batalha da Grã-Bretanha" [Battle of Britain, 1969]), cujas exigências especiais são reveladas, porém perversas. Assim sendo, ela não deseja cumprir profissionalmente tais excentricidades misóginas de seu infeliz cliente. Rusk, então, revela ser o notório e falacioso ASSASSINO DA GRAVATA, estuprando a mulher e estrangulando-a com a sua tal gravata estampada.


FRENESI prossegue num ritmo de adrenalina, horror explícito (aqui Hitch, pela primeira vez, se permitiu ser realmente mais gráfico e chamativo, mas nunca, jamais, gratuito. Tanto que um detalhe da cena de assassinato envolvendo a língua da vítima - algo mais sangrento na qual a câmera praticamente entraria em sua boca, foi cortada) e humor negro, marcas autorais do mestre dos suspense, entrecortando a narrativa do herói anti-social, desagradável e sem dignidade, reduzido a dormir em um albergue para mendigos, a certa altura, e do vilão encantador, atraente, bem sucedido e um tanto atrapalhado, que torna a perturbar a atual namorada do protagonista,  "Babs" , a excelente ANNA MASSEY, famosa por ter atuado em outro clássico inglês do gênero, A TORTURA DO MEDO - Peeping Tom , 1960, dirigido por Michael Powell (aquela leva de filmes que chegaram para tirar o posto de Hitch, mas emulando o mestre inevitavelmente)  assassinando-a também numa das cenas mais criativas, onde a câmera vai se afastando da porta de seu apartamento onde entra a sua vítima e vai chegando lentamente sem som até a rua onde depois preenche nossos ouvidos! Tanto que HItch deu um nome especial para essa tomada: "Adeus à Babs!" Essa personagem, por sua vez, era uma garçonete esporádica e animadinha.

Como em Psicose e Pacto Sinistro, Hitchcock dirige uma sequência de suspense aliciando nossa cumplicidade na tentativa de um assassino de encobrir seu crime (e até torcemos por ele às vezes- para que se livre), como Normam Bates limpando o sangue no banheiro, assistimos Rusk atrapalhado com um cadáver ( o da pobre Babs) nu em um saco de batatas no porta-malas de um caminhão para recuperar o seu prendedor de gravata incriminatório.  Essa cena também é igualmente criativa e muito engraçado, diga-se. E um dos pontos altos da fita.

 Hitch tira proveito da censura mais branda do período para ser mais explícito em relação ao sexo e a violência, embora ele também saiba quanto um afastamento longo e lento, tirando a nossa atenção de um assassinato, transmitirá mais horror do que outro  close up da violência e estrangulamento. Há outro contraponto interessante na trama envolvendo  comédia. Na premissa secundária envolvendo um inspetor de polícia feito por ALEC McCOWEN (conhecido por atuar em algumas fitas de Martin Scorsese), cuja esposa a engraçada com voz esganiçada - VIVIEN MERCHANT,  está sempre lhe servindo pavorosas refeições gourmet e fazendo observações pertinentes ao assassino. A comida é outro aspecto característico do diretor. E aqui o menu é sensa"erg"cional


O mais excitante e ousado Thriller do mestre. Foi um enorme sucesso na época, não a altura de Psicose, mas um filme que o levou de volta às raízes. E isso é o que mais importa, afinal. 


FRENEZI
"FRENZY"
de ALFRED HITCHCOCK
REINO UNIDO/ESTADOS UNIDOS - 1972
Distribuição: UNIVERSAL
✩✩✩✩ ÓTIMO 

UNIVERSAL APRESENTA

ALFRED HITCHCOCK´S
FRENZY
Estrelando:
JON FINCH   ALEC McCOWEN   BARRY FOSTER

Co- Estrelando:
BARBARA LEIGHT- HUNT       ANNA MASSEY
BILLIE WHITELAW       BERNARD GRIBBINS
VIVIEN MERCHANT    MICHAEL BATES     JEAN MARSH
CLIVE SWIFT    JON BOXER     MADGE RYAN
GEORGE TOVEYE    ELSIE RANDOLPH

Produzido Por
Alfred Hitchcock e William Hill

Roteiro de
Anthony Shaffer
Baseado em:
Goodbye Piccadilly, Farewell Leicester Square
de ARTHUR LA BERN

Fotografado por Gilbert Taylor 
Música de Ron Goodwin

Dirigido por  
ALFRED HITCHCOCK



9 comentários:

pseudo-autor disse...

Eu vi esse filme recentemente no telecine cult. O eterno assassin o da gravata! É maravilhoso. Bem a cara do Hitchcock! Estou querendo ver dele agora Marnie, Confissões de uma ladra.

Cultura? Visite Jukebox:
http://culturaexmachina.blogspot.com

Cristiano Contreiras disse...

Ah, eu não conheço este!

Mas, merece minha atenção visto que me parece, pelo seu ótimo texto, uma abordagem deliciosa hitchcockiana! rs

Abraço, Rô!

Rodrigo Mendes disse...

Pseudo-ator: O MARNIE foi relativo fracasso de bilheteria do Hitch, mas o mestre nunca errou. Assista! Minha vó assistiu no cinema na época. Abs!

CRIS: Assista e escreva no Apimentário. Já disse que esse filme tem a sua cara! Ele é bem sexy e bizarro.Um filme que tirou um peso de Hitchcock contra a censura. Abs!

Paulo Alt disse...

O grito e a cortada no logo do filme dentro do trailer que você colocou ai embaixo é tudo neh?

Adoro Hitchcock. Falta só comprar a coleção quase inteira.

Rô, pra falar a verdade esse foi um dos últimos que eu nunca tinha visto dele e fui ver... MAS, faz bastante tempo já que vi. Lembro que no dia achei ele um pouco lento em algumas partes, mas quando tinha isso do suspense ou da gente torcendo pra ele se safar como vc disse ficava legal.

Seu post tá diferente, não sei dizer como. Engraçado. Caracterizou os personagens e a esfera dele do jeito que você acha e não falou tanto muito de curiosidades. Parabéns!

Vai ter mais Hitch??? ~~

Abração ^^

Rodrigo Mendes disse...

PAULO: como assim? O que nao falta são curiosidades. O filme já é um exemplo, rs! Adoro HITCH e com certeza terá mais...ABS!

Cristiane Costa disse...

Oi vizinho,

Excelente crítica como sempre, até parece que eu vi o filme (rs) tamanha vivacidade e, também, objetividade do seu texto. Eu acho que o sexo e a violência são como irmãos complementares a depender do enfoque da filmagem, então fiquei interessada neste filme e gosto da forma como Hitchcock nos faz ser cúmplices nos crimes que ele dirige. Ele tem esta habilidade de torná-los contemplativos ainda que não concordemos com crimes.

A frase da morte com uma gravata estampada e o poster deste frenesi soa extremamente excitantes para uma contemplação cinéfila. E melhor, tem um peculiar lado cômico.

Beijo!

Rodrigo Mendes disse...

Madame: Vizinha! Adorei o chá e os elogios, rs!
É sádico assistir a FRENEZI e até sexualmente (PRIVÉ) excitante.
Bjs e obrigado!

Cristiane Costa disse...

Ui! Preciso deste frenezi haha... Feriadão nada santo haha.


bjs

Rodrigo Mendes disse...

MADAME: uia amiga vizinha..apronte, rs! Mas antes veja o filme.

BJS! e BOM feriadão!

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