domingo, 27 de junho de 2010

LUIS BUÑUEL | O DISCRETO CHARME DA BURGUESIA

BUÑUEL E O SEU DISCRETO CHARME 
" Sou Ateu Graças a Deus"




Muitos filmes de BUÑUEL mereciam coros! Esta comédia O DISCRETO CHARME DA BURGUESIA, deu-lhe o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e onde ele retorna ao melhor espírito crítico surrealista.


Quando o filme foi exibido no Brasil, a censura obviamente cortou uma frase numa cena em que um dos militares oferece maconha durante o jantar burguês, deixaram apenas a resposta: "Então, é por isso que no Vietnã bombardeiam tantos lugares errados!"

Na premissa, um grupo de amigos de classe média alta filha da puta que limpa o rabo com papel de seda, encontra-se num contínuo esforço para jantar junto, todavia, por algum motivo ou por outro (excelentes pontos de virada) é sempre interrompido.

É muito difícil saber como Buñuel chegou aos setenta anos com a coerência e a integridade, além de uma forma absoluta como cineasta. Não que o filme traga alguma coisa de inovadora. O fantástico é ver Buñuel retomar os mesmos temas e estilos e encontrar novas maneiras de dizer as mesmas coisas (como Woody Allen), ou seja, o estilo ainda é clássico, quase "quadrado". Os personagens poderiam muito bem ter saído de
O ANJO EXTEMINADOR em que os convidados de uma recepção não conseguem deixar uma sala de estar, sem explicações lógicas, ou O ESTRANHO CAMINHO DE SÃO TIAGO , um resumo da vocação de Buñuel como "ateu histórico". Essa coerência é visível até pelo leigo, que, mesmo quando não entende Buñuel ou Deus e ao filme, diz um respeitoso: "Só essa cara aí o tal Buñuel poderia fazer isso".

Nesta fita, ele faz uma divertida e inteligente "brincadeira de salão". Seu alvo é a respeitabilidade e hipocrisia burguesa (principalmente a francesa - a mais pedante de todas - Oui), que tentam alcançar durante todo o filme, o ponto alto de seu cerimonial religioso: o ritual de comer em sociedade. É nisto que se resume o "charme" dessa burguesia, ou seja, discutir as trivialidades dos horóscopos; trocar mesuras e gentilezas e discutir profundamente sobre "qual a melhor maneira de se servir um carneiro ou tomar um vinho Borgonha".

Durante todo o tempo esses burgueses felizes ( e como eu ODEIO cada um deles) fazem tentativas frustradas de se banquetearem. Sempre alguma coisa sai errada: a data desencontrada; o almoço interrompido pelo desejo súbito; o chá esgotado na confeitaria; o jantar cortado pelo exército em manobras da polícia em ação, ou pelos terroristas em revolta. Nada, absolutamente nada, interfere no sagrado ritual burguês. Os excessos, no máximo, podem causar ligeiros pesadelos, resultado de uma indigestão. Mas, por fim, a burguesia vai muito bem, obrigado. Sempre sorridente, sempre bem arrumada, continuará caminhando incessantemente por uma estrada asfaltada e sem fim. A burguesia não morrerá nunca, afirma Buñuel. Essa, afinal, é a interpretação daquelas três sequências que mostram os seis burgueses andando. O resto é a parte das brincadeiras que Buñuel faz com ironia e sarcasmo. Uma narração pode ser simplesmente porque um tenente de ar triste resolve contar sua infância (depois de perguntar: " Você teve uma infância feliz?"). Ou um militar decide narrar o sonho macabro da noite anterior. Tudo é apenas uma questão de humor,porque não quebrar a narrativa linear (marca registrada de Buñuel) e enveredar pelos domínios do sonho?

Buñuel coloca seus personagens masculinos dormindo e sonhando. As mulheres não. A tal ponto não chega sua indiscrição. Ele alcança o cúmulo: fazer um personagem sonhar que outro estava sonhando determinada coisa, explica Buñuel: " Parte-se de um sonho e cai-se no noutro. Acredita-se estar no real, mas estamos no irreal".

Essas quebras são pequenas armadilhas para o espectador, pistas falsas que todos se apressam em decifrar. No fundo, sem maior importância, porque as coisas sérias Buñuel está dizendo às claras . Alguns detalhes são apenas piadas. A moça que odeia violoncelos e insiste em tomar dry martinis que a fazem enjoar; o bispo que primeiro diz que não bebe nunca e logo aceita o uísque; ou o trocadilho com a frase: "O hábito não faz o monge", ou o bispo que pede um emprego como jardineiro, justificando-se: "Se existem os padres obreiros, porque não os bispos?" Ou: " O senhor ignora que a igreja mudou muito nestes últimos tempos? Mas só é reconhecido usando o hábito".
Quando há algum diálogo mais comprometedor, Buñuel opta, ele mesmo, pela autocensura, colocando um barulho de carro ou avião, um ruído externo cortando a conversa. As críticas séries permanecem.

Os burgueses risonhos são traficantes de drogas, que as trazem impunemente através de malas diplomáticas e praticam o adultério com elegância. A cena em que o marido encontra os amantes em flagrante é uma paródia de todas as comédias de boulevard que usaram e abusaram do efeito principalmente na frase: " Quero mostrar-lhes as sururucas. E mesmo o bispo prefere uma vingança ás palavras que prega. Outro ataque à igreja arqui-inimiga do diretor que ele aponta como: " A última expressão do surrealismo."

Mais grave é a política. A polícia tortura impunemente e todos morrem de medo do "fantasma do brigadeiro sangrento" e as ditaduras latino- americanas são condignante representadas pelo embaixador de um lugar chamado Miranda. Como ele afirma: "Tudo vai muito bem em Miranda os guerrilheiros já fazem parte de seu folclore, os estudantes são como moscas varejeiras e a justiça não pode ser comprada". Prossegue o embaixador: "Perdão, mas 30 homicídios por dia é um exagero! Miranda continua caminhando a passos largos em direção ao desenvolvimento, qualquer outra afirmação será um insulto pessoal". Alguém identificou essas declarações com a realidade nossa de então e de agora?

Buñuel não toma mesmo jeito, é um gozador. As coisas vão muito bem em Miranda e a burguesia irá para aquele país curtir sua temporada de verão. ( De onde certamente sairia outro filme genial). Com um elenco irrepreensível, destaque para a maravilhosa DELPHINE SEYRING ( do chato clássico francês de Alain Resnais - 'O Ano Passado em Marienbad') e FERNANDO REY ('Tristana'
, como o Embaixador). Como é bom ver alguém ainda velho, ainda consagrado, continuar a se bater pelas mesmas verdades de sua juventude!

O DISCRETO CHARME DA BURGUESIA
' Le Charme Discret de la Bourgeoise'
de Luis Buñuel
Itália/França - 1972
Comédia
COR
105 min.
✩✩✩✩✩ EXCELENTE



UM FILME DE LUIS BUÑUEL

Le charme discret de la bourgeoisie
Greenwich Film Production - Paris © MCMLXXII

Roteiro de Luis Buñuel e Jean-Claude Carrière
Produção Serge Silberman 
Fotografia de Edmond Richard
Direção de arte Pierre Guffroy
Montagem Hélène Plemiannikov

Estrelando:
DELPHINE SEYRING
FERNANDO REY
STÉPHANE AUDRAN
JEAN -PIERRE CASSEL
BULLE ORGIER
PAUL FRANKEUR
 JULIEN BERTHEAU


Direção LUIS BUÑUEL

4 comentários:

Cristiane Costa disse...

Olá meu amigo Rodrigo 'MY boy next door' haha

Parabéns pelo incrível texto. Entrando no universo das ações do filme e, realizando o paralelo de tal roteiro com a estética de Buñuel e a forma como ele goza na cara da burguesia foi um deleite total.Lerei mais uma vez este texto porque adoro a coragem de Buñuel, a verdade de dizer sobre esta burguesia engessada, inclusive, a Francesa tem muito disso mesmo. Tenho um 'chefe' Francês que parece que bebe champagne caro e lava a mão antes de me enviar um email (fico até, surrealisticamente, como um sonho pavoroso imaginando a cara que ele faz ao responder aos meus questionamentos, os quais claro, eu sempre levo um 'quase não').

Pois é, é isso mesmo. Buñuel é um entidade de muita luz, algo transcendental ano após ano tamanha a contemporaneidade de sua obra, a atualidade da mensagem. Igreja, políticos, burgueses, todos, quando fundados no mau caratismo, dão nojo.

A propósito, amei a parte que você fala da narrativa linear e dos planos de sonhos... Eu adoro como Buñuel os faz sem retalhar a obra...fica tudo fluído, lindo...Enquanto eu lia este teu texto, lembrei daquela cena do caixão em A Bela da tarde, rs!!!!! gozação total, sacro-erótica-funerária!

Beijo meu amigo,

MaDame, suDama

Rodrigo Mendes disse...

Oi MADAME,

estamos mesmo conectados com o discreto charme surrealisra do Buñuel.

BJOKAS do seu vizinho!

Elton Telles disse...

Hey, Rodrigo!
Belo texto, muito bem escrito e sustentado por ótimas observações.

"O Discreto Charme da Burguesia" passou batido por mim, e pior que tenho ele aqui nos arquivos de casa, mas nunca assisti =/
E embora nao tenha assistido esse, que consideram ser a obra-prima de Buñuel... eu afirmo: diretor magistral! \o/


E ah! Encontrei mais um que acha "Ano Passado em Marienbad" o tédio em fotograma! rs


abs!

Rodrigo Mendes disse...

Oi ELTON,
que bom, mais um cinéfilo que odeia o Ano Passado em Marienbad, rs!

Obrigado e assista Discreto Charme e ira se surpreender!

Abs.

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