sexta-feira, 1 de outubro de 2010

FERNANDO MEIRELLES | ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

EM TERRA DE CEGO QUEM TEM OLHO É REI

Um filme sem uma geografia e nomes, sem explicações, a população de uma cidade não identificada começa a ficar cega. E a cegueira não é a “comum” e sim uma breve “nebulosa” chamada de cegueira branca. Depois de ter sido indicado ao Oscar e sido prestigiado com “Cidade De Deus” e ter dirigido a vencedora do Oscar Rachel Weisz por “O Jardineiro Fiel”, Fernando Meirelles optou por esta adaptação de um livro do inadaptável vencedor do Nobel, José Saramago
, um autor que foi reconhecido por toda a sua obra literária e até agora o único a receber tal prêmio em língua portuguesa. Na verdade, Saramago é um autor difícil e que evita coisas triviais como capítulos e pontuação e que optou por uma trama alegórica sobre a cegueira humana em todos os sentidos. Errou quando aceitou um roteiro alheio, que procurou ser absolutamente fiel (que o próprio ranzinza autor aprovou, chegando mesmo a chorar, conforme assisti na gravação disponível no You Tube). Errou novamente aceitando o filme como abertura do Festival de Cannes de 2008, embora não fosse o mais adequado para ocasião não festiva. É pesado, difícil, trágico, e não dá muitas esperanças quanto à condição humana. Isso acabou levando o filme ao fracasso internacional, já que foi implacavelmente destruído pela crítica em geral. Sem desculpas. Aqui, os brasileiros solitários viram o filme com respeito. É uma versão um pouco revisada, por exemplo, houve mudanças na luz e redução de alguns monólogos de Danny Glover (narrador) ao final. O estranho é poucos perceberem o óbvio, o filme é uma experiência visual, tentando reproduzir com a imagem o que os personagens estão sentindo na vista literalmente.
O próprio Meirelles admite que o filme provoca reações extremas, há os que gostam muito, se apaixonam pelo filme, embarcam nele, e outros que o rejeitam inteiramente, difícil existir um meio termo. Talvez porque seja um filme sem heróis, não há por quem torcer, nem mesmo a protagonista chega a ter muito tempo em cena, ou não é suficientemente desenvolvida (o problema de não ter um nome). O roteiro tem um problema: ser inconvincente. Como diz a sabedoria popular, em terra de cego quem tem um olho é rei. E Julianne Moore tem os dois. Não há menor lógica em ela deixar se violentar na primeira vez e custar a reagir. Assim como é ilógico o marido médico (mesmo cego) que pouco antes enfrentou os guarda corajosamente se deixar abalar por não pouco quando alguns tomam o hospital. Mais grave ainda: o filme diz que o homem é cego, uma metáfora meio óbvia e que depois vai se repetindo, várias vezes, sem ser expandida. Martelando a mesma coisa até a irritação. Numa grande metrópole sem identificação – bastante de São Paulo, um pouco de Uruguai, Canadá -, as pessoas começam a ficar cegas sem explicação. Supõe-se que seja uma epidemia, já que começa com um homem japonês no meio do trânsito e que vai se espalhando. Este homem é enganado por um vigarista (Don McKellar, que também assina o roteiro). Depois um médico (Mark Ruffalo), uma garota de programa (Alice Braga), um garoto e assim por diante. Todos eles vão sendo internados numa espécie de quarentena, prisão. Um sanatório que vai ficando entulhada de gente. Apenas uma pessoa não fica doente, mas finge ser cega, a mulher do médico (Julianne Moore), que por amor, fica cuidando dele e ajudando os outros. Aos poucos, a situação vai se degenerando e culmina quando os prisioneiros de um grupo passa a controlar a comida e para entregar os viveres exigem desfrutarem das mulheres. Ou seja, usá-las como objeto sexual para os homens poderem sobreviver, e quem comanda este grupo é Gael Garcia Bernal. A sequência mais forte é quando eles passeiam pela cidade arrasada com pessoas cegas, sujas, lutando para sobreviverem a qualquer custo, mas o final pareceu um pouco apressado. Acaba sendo mais forma que conteúdo. A maior preocupação é fazer sentir que o espectador sinta a experiência pela qual estão passando os personagens, de forma que há momentos onde não conseguimos ver grande coisa (há mesmo escuro total em algumas cenas), ou vemos mal. Ou pensamos que estamos ficando sem visão. Outro trabalho espetacular, e ainda mais que difícil de apreciar, é a do parceiro habitual de Meirelles, o fotógrafo Cesar Charlone, que faz uma brilhante fotografia.


Focus Features Apresenta
uma sociedade entre:Allience Films/Fox Filmes do Brasil
Gaga Comunications/Asmik Ace Entertainment/Mikado IFF
Telefilm Canada & Ancine Potboiler Productions
Patrocinado por: T.Y Limited/ Corus Entertainment
FIAT/BNDES/C&A
Uma produção: o2 Filmes/ Rhombus Media/ Bee Vine Pictures
UM FILME DE FERNANDO MEIRELLES
Blindness
Estrelando: Julianne Moore. Mark Ruffalo. Alice Braga
Yusuke Iseya. Yoshino Kimura. Don McKellar
Murray Chaykin. Mitchell Nye
Com: Danny Glover E: Gael Garcia Bernal
Direção de Fotografia Cesar Charlone Desenhos de produção: Tulé Peake
Figurinos de: Renée April Montagem: Daniel Rezende
Música de: Marco Antônio Guimarães/ UAKTI
Elenco por: Susie Figgis & Deirdre Bowen
Produção Executiva: Gail Egan. Simon Channing Williams
Tom Yoda . Akira Ishi. Victor Loewy
Co-produtores: Bel Berlinck . Sari Friedland
Produzido por: Niv Fichman . Andrea Barata Ribeiro . Sonoko Sakai
BASEADO NO LIVRO DE: JOSÉ SARAMAGO
Escrito por: DON McKELLAR Dirigido por: FERNANDO MEIRELLES

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Canadá/Brasil/Japão-2008
Drama
120'
Distribuição: Miramax Films/Fox
✩✩✩ BOM
_____

10 comentários:

chuck large disse...

Rodrigo, vc deve ter lindo a minha mente, revi o filme neste sabádo [e, claro, terá post dele nesta semana], eu particularmente, faço parte do grupo "que ama" o filme, acho o longa de um primor só, já tinha até comentado no twitter, não consigo ver muitas falhas no filme, talvez sempre que vejo eu fique cego, hahaha.
Enfim, pra mim, este é um dos melhores papel de Julianne Moore, ela está maravilhosa!

Abs.

Emmanuela disse...

Preciso rever! Meu interesse pelo filme se deu pelo fato da leitura da obra de Saramago, não podemos negar que foi fiel ao livro. No entanto, não apreciei o filme com o enlevo que esperava. Talvez uma revisão seja o necessário.

Até !!

! Marcelo Cândido ! disse...

Ele é uma viagem de luz sensacional
!!!
Pesado não mas humano na parte de vista dos personagens
!!!

Amanda Aouad disse...

Também sem muita explicação eu gostei muito do filme. Embarquei naquela angústia, naquela metáfora, enfim, deixei a emoção me levar.

M. disse...

Oi Rodrigo!!!! Quando fui assistir este filme no cinema pensei que não ia gostar. Mas a mensagem dele é muito forte, realmente é um bom filme.

Reinaldo Glioche disse...

É verdade. O próprio Meirelles parece se ressentir de Ensaio sobre a cegueira. Contudo, se não é equiparável a suas principais obras, é um grande filme. Os grandes filmes geralmente provocam reações extremadas mesmo. Concordo quando vc diz que os produtores erraram em bater pé pela sessão de abertura em Cannes. Não era o filme com espírito para abiri Cannes. Vejam os filmes selecionados dos outros anos (UP, Robin Hood...)
Enfim, uma bela adaptação que mostrou o quão competente é Meirelles na decopagem dos desafios auto impostos.
Abs

Rodrigo Mendes disse...

ALAN: Apeciamos a obra. Já leu o livro? Abs.

EMMANUELA: "Talvez" acho meu complicado. O gosto não é muito dúbio se tratando de Ensaio Sobre a cegueira. Acredito que vc não vai apreciar o filme de novo se não gostou muito da primeira vez e já que leu a obra. Bjs!

MARCELO: A fotografia é mesmo extraordinária. Mas pra mim essa humanidade que é questionada no filme. Abs.

AMANDA: Fez bem. Rs! Beijos.

M: Ele é bom sim. Abs.

REINALDO: Meirelles é bom cineasta. 100% imagético e que sabe conduzir qualquer adaptação.
De fato, abrir um filme destes em Cannes foi um erro. É como contar uma piada num velório.
Abs!

Renato Oliveira disse...

Oi Rodrigo!

Confesso que não vi "Ensaio sobre. . ." até hoje. Deve ser alguma resistência minha, rs. Lembro quando estava em cartaz.

Interessantíssimo o que vc colocou sobre os que podem gostar ou não, pelo fato de ser um filme sem heróis. Isso é algo realmente válido para se pensar, e considerar o quanto há trabalhos que 'não caem na graça' porque não há um ser idealizado para que as pessoas se identifiquem com ele... o que, é claro, não diminui em nada um filme em si.

abração

Anônimo disse...

Fala Rodrigo. Esse lance do filme não convencer no caso da Juliane Moore não seria só culpa do roteiro, pois ocorre no livro tb. No livro fica até melhor explicado o pq dela se sujeitar a essas coisas...

Achei o filme fantástico... daria um 8!

Abraços!

Rodrigo Mendes disse...

RENATO: Oi. Assista mesmo!Abs.

Intratecal: Em um livro sem imagens é uma coisa. No cinema é bem diferente. Abs!

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