sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

DAVID FINCHER | A REDE SOCIAL

QUEM PRECISA DE UMA REDE DE AMIGOS?
O filme é uma crônica da fundação do maior site de relacionamentos da atualidade, o FACEBOOK e uma quase biografia de seu fundador, Mark Zuckerberg.

Em uma noite de outono, em 2003, acontece uma revolução digital quando o estudante de graduação da Universidade de Harvard em Programação de Computadores, Mark Zuckerberg começa a trabalhar em seu computador acaloradamente em uma nova idéia. Numa sucessão de blogs e programação, que começa em seu quarto, logo se torna em uma rede social global e uma revolução na comunicação. Tudo isso em apenas 6 anos e com mais de 500 milhões de “amigos”, mais tarde, Zuckerberg é o mais jovem bilionário da história. Mas para o jovem empresário, o sucesso leva a duas complicações pessoais e legais.

Eu acho que o filme propriamente dito uma revolução na forma de comunicar a narrativa. O melhor filme da década. Um roteiro brilhante que apresenta combinações perfeitas: tempo e diálogo, e toda a sua rispidez. DAVID FINCHER de outros filmes brilhantes como: CLUBE DA LUTA, SEVEN e O CURIOSO CASO DE BENJAMIM BUTTON, concebe um filme marcante e corajoso que percorre em rápidas digressões realistas (nada líricas) para contar a história da relação dos responsáveis pelo maior site de relações sociais: O Facebook. Alias, o Facebook é interessante pelo fato de ser um livro aberto de principais momentos da vida das pessoas. A idéia do filme é discutir como no Slogan: “Você não consegue 500 milhões de amigos sem fazer alguns inimigos”, assim sendo, a trama concentra-se nas relações humanas e não na criação do site, que é apenas um papel de parede. Portanto, o resultado acaba sendo uma crônica, como se um filme sobre o Titanic, por exemplo, não discutisse o naufrágio.


O elenco é maravilhosamente escolhido e dirigido. Todos acertam! JESSE EISENBERG e ANDREW GARFIELD apesar da curta carreira promovem personagens desde já marcantes e emocionais. A química é ótima, o que dificultou um pouco na hora de antagonizar. Eisenberg disse que ambos se tornaram grandes amigos durante as filmagens e que na hora de mostrar essa amizade não foi difícil, mas quando chegou a hora de filmar as cenas de rivalidade dramática entre os personagens, foi extremamente complicado para os dois, porque afetou emocionalmente. O fato é que o filme toca muito bem nesta questão de relacionamentos e como a internet já interfere genuinamente no convívio que as pessoas têm com o próximo. A importância e o efeito que ela causa, como se fosse importante colocar o seu status da situação amorosa, ou onde você trabalha, onde estuda (ou estudou) o que faz da vida etc. Como se esses predicativos tivessem alguma relevância coerente no âmbito virtual. O mais interessante nisto tudo é sentir o drama de Zuckerberg, sua falsa fama de ter muitos amigos e a real solidão. Jesse incorpora muito bem, faz um excelente trabalho. O jeito expressivo nos rápidos discursos e a maneira como olha para o visor de seu Notebook adicionando a ex-namorada no site, são momentos chave de seu papel no filme.

A fita também é de uma audácia notável que passa até despercebido pela sutileza. Só para ilustrar, a cena de abertura que mostra o rompimento entre Jesse e a ótima ROONEY MARA como a namorada do blogueiro, levou oito páginas do roteiro e 99 takes até ficar certo. Foi uma das cenas com toda uma sequência num único espaço e roteirizada de maneira esplêndida. Por isso, acredito que o roteirista AARON SORKIN irá levar o Oscar por roteiro adaptado. Seu trabalho é muito mais cinemático do que se pensa (ou não se pensa e subestima) baseado no livro de BEN MEZRICH.

Não acreditei que estava vendo JUSTIN TIMBERLAKE do grupo pop 'N Sync (antes ainda duvidoso em fitas como ALPHA DOG - 2006), arrasando em um filme. Ele também está excelente e foi o único (agora posso chamá-lo) ator que encontrou o seu personagem Sean Parker, na vida real antes do Facebook ser fundado. Outra curiosidade é do fato dos atores ARNIE HAMMER e JOSH PENCE, que interpretam os gêmeos Winklevoss, não serem irmãos na vida real. Fincher não encontrou atores de verdade que fossem gêmeos idênticos para interpretar Cameron e Tyler Winklevoss, então além de ter escalado atores distintos, Fincher acabou cedendo trucagens digitais para parecer real quando ambos em cena. Ou seja, o ator Hammer (como Cameron) tinha um olhar mais parecido com as personagens reais, então nas cenas dos dois, a equipe de efeitos visuais fotografou Hammer simulando as linhas de diálogos, realmente ditas por Pence, como Tyler. Assim, foi criado um modelo de seu rosto gerado pelo computador para preencher no rosto do outro ator que atua fisicamente do pescoço para baixo. É isso, basicamente Arnie Hammer ficou com as honras de aparecer e ofuscar Josh Pence que atua realmente está nas filmagens, mas não aparece no resultado final. E daí surge uma piada: não conhecemos o Pence da vida real, só o fake que está no filme. Um filme que fala sobre relacionamentos frustrados, o esquecimento da realidade e a fantasia do simulacro facebookiano.

Fica claro que Fincher utilizou idéias subliminares para fazer o seu filme à maneira da internet, porque assistir A Rede Social é o mesmo que acessar qualquer coisa nesta rede de “mentirinha”. Isso pode até ser curioso e ainda muito discursivo, o fato é que, além destes fatores invisíveis, Fincher usa o que existe de melhor no cinema para contar esta história cronicamente sutil. O modo como somos convidados a assistir o filme, a maneira da edição o vai e vem no tempo, parece que estamos lendo o livro dos sonhos de Malarmé, em que consistia na idéia que ele tinha de escrever um livro que existissem todas as informações do mundo, isto é, ir à busca de uma informação sem se importar com a linearidade. Isso é a internet, que com apenas um click, você acessa um link que te transporta para outro ambiente e informação, e isso, é exatamente o filme de David Fincher. Enquanto assistimos a briga judicial entre Zuckerberg e os gêmeos, entramos em outra página que mostra o embate contra o brasileiro Eduardo.


Um amigo de Mark Zuckerberg, Andrew McCollum havia projetado, na bandeira original na parte superior do site do Facebook, um retrato estilizado de um certo jovem AL PACINO. Este conceito do banner usado no site do filme usa o retrato de Jesse.
O diretor STEVEN SODERBERG forneceu para Fincher e equipe duas de suas quatro câmeras Red One. Há um agradecimento especial à ele nas titulagens finais.


NATALIE PORTMAN (Black Swan) também se envolveu neste filme. Não para fazer algum teste, mas para ajudar o roteirista Sorkin com algumas informações. Durante um dos depoimentos, é mencionado que a invenção do Facebook fez Zuckerberg a pessoa (ou coisa) mais importante do campus da Universidade que incluiu 19 prêmios Nobel, 15 outros prêmios Pulitzer, dois atletas olímpicos e uma estrela de cinema. A estrela em questão era realmente Portman, registrada em Harvard de 1999 a 2003. Ela forneceu informações a Aaron Sorkin privilegiadas sobre acontecimentos na Universidade na época FacebookMania quando apareceu pela primeira vez lá.


E o que dizer da programação musical do filme? TRENT REZNOR e ATTICUS ROSS são os responsáveis por criar um deleite eletrônico que visualiza muito bem musicalmente o gosto que o filme tem de ser veloz. A velocidade é um mérito da edição, roteiro e, sobretudo da música que sugere rápidas mudanças de tom. Brilhante.



Após sua indicação ao Oscar, Jesse finalmente conheceu o verdadeiro Mark Zuckerberg no show de comédia popular americano SATURDAY NIGHT LIVE, quando em um monólogo de abertura, é interrompido pelo próprio criador do site.

Com tantas curiosidades de produção e pelo resultado final do filme, A Rede Social, apesar de ignorada em muitas de suas conquistas e sendo taxado de um filme subestimado (após o recente posto do REI gago), tem um efeito mais inteligente que poderia imaginar. Antes a história dos “Bilionários Acidentais” não me parecia atraente até ver o filme. Fincher não realizou algo comum e pode ter incomodado muita gente por ter se identificado com Zuckerberg, ávidos usuários da internet. Afinal quem desta geração não utiliza um computador? Quem nunca se equivocou ou julgou apressadamente via net atire o primeiro emoticon falso! Parece que a nossa vida é regida por este meio. Ao ver o filme pensei, posso mudar um pouco os meu hábitos e tentar ser mais social. Não é difícil já que todo mundo tem algo de especial que pode ser agradável tanto numa mesa de bar, quanto em um bate papo. O problema é que existem pessoas com a dificuldade de serem legais num pub em um rodízio de cerveja, mas se mostram nada apáticas em papo virtual, mentindo muito bem ao terem mais de dois mil seguidores em blog, twitter, Orkut e diversos amigos no Face, e Zuckerberg, no filme, é mostrado desta maneira. Será que isso afastou alguns falsos espectadores?


De qualquer forma, só sei que o filme não é o meu favorito no Oscar. Um ano de CISNE NEGRO, BRAVURA INDÔMITA e A ORIGEM, por exemplo, mas de fato, é uma obra magistral e que a Academia provavelmente irá lembrar Fincher, Sorkin, Reznor & Ross, Scott Rudin, Michael DeLuca, Dana Brunetti e Cean Chaffin quanto a isto. E quem sabe Jesse? Não seria nada mal.


Mais inimigos que amigos. Mais falsos amigos que qualquer outro inimigo. Quem são essas pessoas? A Rede Social cibernética não poderia ser velozmente mais discutida do que agora. #NetworkFeelings. (opa, este bordão virtual pertence ao Twitter).
EUA- 2010
DRAMA
COR
120min.
COLUMBIA
✩✩✩✩✩ EXCELENTE



COLUMBIA PICTURES APRESENTA
Uma produção SCOTT RUDIN/MICHAEL DE LUCA/TRIGGER STREET
Em Associação com RELATIVITY MEDIA
UM FILME DE DAVID FINCHER
the social network
JESSE EISENBERG  ANDREW GARFILD  JUSTIN TIMBERLAKE
ROONEY MARA  BRYAN BARTER  BRENDA SONG  DUSTIN FITZSIMONS
ARMIE HAMMER  PATRICK MAPEL  JOSH PENCE  CALVIN DEAN
MAX MINGHELLA   MALESE JOW
Com: Joseph Mazzello  Scotty Crowe  Abhi Sinha  Mark Saul
Dakota Johnson  Cedric Sanders  Emma Fitzpatrick
Música Original de TRENT REZNOR. ATTICUS ROSS
Edição KIRK BAXTER. ANGUS WALL
Diretor de Fotografia JEFF CRONENWETH
Cenografia DONALD GRAHAM BURT
Figurinos JACQUELINE WEST
Produção Associada JIM DAVIDSON
Produtor De Linha RUPERT SMYTHE
Produtores Executivos AARON SORKIN. KEVIN SPACEY
Produzido por
SCOTT RUDIN
 DANA BRUNETTI
CEAN CHAFFIN  
MICHAEL DE LUCA
Baseado no livro The Accidental Billionaries 
de BEN MEZRICH
Escrito por AARON SORKIN          Dirigido por DAVID FINCHER

11 comentários:

Clenio disse...

Acho "A rede social" brilhante, mais um golpe de mestre na carreira de David Fincher.
Não concordo quando dizerm que é verborrágico e chato, porque não há outras maneiras de se contar essa história.

Atual, moderno, inteligente. Obra-prima. O único que tem reais condições de bater aquela chatice "O discurso do rei".

Torçamos, no domingo.

Abraços
Clênio
www.lennysmind.blogspot.com
www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com

renatocinema disse...

Gostei muito de A Rede Social.

Acho que em termos de roteiro não foi tão inovador, poderia ser um pouco mais criativo. Porém, ainda assim adorei o longa metragem.


Sou fã de David Fincher e considero essa um de seus melhores trabalhos. Mas, fora Quarto do Panico (onde o final é que me deixou decepcionado) o resto eu achei todos muito bom o que significa que gosto de 90% de seus trabalhos.


Fincher é um pequeno gênio.

! Marcelo Cândido ! disse...

Vale a pena ver pelo diretor!!!
Em breve vou conferir

Amanda Aouad disse...

É um excelente filme, sem dúvidas, ágil, bem dirigido e que fala na linguagem de sua época.

bjs

Alan Raspante disse...

Adorei seu texto Rodrigo. Eu, tenho que rever o filme para "pensar" melhor nele. E gostei, mas com imensas ressalvas. A direção de Fincher é sensacional, demonstra um agilidade incrível... Mas ainda sim, prefiro a direção de Aronofsky que ao meu ver é magistral.

Achei as atuações ótimas. Mas, nada que seja elevado à um nível muito alto.

O que realmente gostei foi do Roteiro Adaptado. Não li o livro. Mas concordo que Aaron merece ganhar a estueta pelo excelente trabalho.

Enfim, gostei... mas nem tanto, rs Do Fincher eu ainda prefiro 'Clube da Luta'.

Abs.

Dilberto L. Rosa disse...

Realmente, Jesse Eisenberg está excelente e os diálogos são muito bons e com ritmo (também, se não fosse...), mas "filme da década"?! Será que vimos filmes diferentes?! Chamo esse tipo de filme de "dispensável": afinal, que grandes revoluções (técnicas ou narrativas) foram desenvolvidas neste filme? Divisão temporal entre três momentos (dois processos judiciais e o que realmente aconteceu)? Não vi nada novo nisso... Que grandes ilações se tiram a partir deste filme? Liberdade? Fidelidade corporativa? Humm... Não preciso rever este filme para ver nele algo por demais endeusado: vez por outra acontece isso com alguma "pérola" norte-americana! Fincher ficou superestimado! Com todo respeito a seu gosto e ao seu (ótimo) texto, mas achei "A Rede Social" um "bom filme chatinho"! E só! Abração e mais Oscar nos Morcegos!

Rodrigo Mendes disse...

CLENIO: Concordo com você em tudo!!!! E, quando eu disse pra você em outra ocasião que somente apenas aqueles que estudaram roteiro sabem, é que o roteirista usa técnicas de linguagem narrativa visual para combinar com o ritmo das cenas e do tempo. Não quis passar por cima de nenhuma opinião contrária. E, mesmo pessoas que não estudaram roteiro para cinema e TV não precisam gostar ou detestar. Independente.
Assim, eu tive muitos motivos para gostar, e muito do filme como você. Ou podia ter estudado roteiro e tbm nao ter gostado, como é o caso de alguns colegas meus.Só para esclarecer o que ficou oco em nosso último papo sobre o filme. Rs!
Abs.

RENATO: Legal o seu ponto de vista quanto ao resultado do filme. Eu tbm gosto dos filmes do Fincher, exceto Alien 3 e até gosto de O Quarto Do Pânico (claro que é o menos sério dentre as fitas de sua carreira) Abs.

MARCELO: Assista e depois comente o que achou. Abs.

AMANDA: Resumiu bem. É linguagem agil e bem atual. Bjs.

ALAN: Aronofsky e Fincher fazem filmes diferentes e se interessam por coisas antônimas. Mas assista de novo e preste mais atenção. Talvez aprecie o filme ou não. Abs.

DILBERTO: Ótima crítica ao filme Dilberto. Creio que assistimos o mesmo filme mas com pontos de vista diferentes. Como eu disse acima, o ritmo dos diálogos com o tempo e a edição é algo brilhante neste filme onde até o classifico, como alguns ,como sendo o filme da década.
Esta afirmação pode estar cedo demais, mas daqui alguns anos muitos podem voltar atrás na afirmação: "foi um filme sutil e brilhante".
O filme é uma linguagem midiática da internet. É o que acho. Incomum e obra prima enquanto cinema.
Abs.
Estarei no Morcegos.

RODRIGO

Reinaldo Glioche disse...

rsrs. Independentemente de bordões visuais, não posso discordar de vc em nada. Concordo plenamente com sua avaliação.É um filme destinado a grandeza que, nas revisões históricas, crescerá de valor.
Continua mestre nas curiosidades e se me permite uma discordÂncia, Justin Timberlake já havia demonstrado talento em produções como Entre o céu e o inferno e The open road. O cara é bom em tudo que faz (não me interprete mal, por favor)rsrs.
Aquele abraço!

Rodrigo Mendes disse...

REINALDO: AHAUHAUAHUAH! Rs! Vou revisar o trabalho do Justin. Foi preconceito bobo meu por causa do grupo pop que ele fez carreira. A Rede Social, este filmaço que adoramos, me fez ver o seu talento.
Que ele continue atuando..rs

Abs.
RODRIGO

M. disse...

É outro filme que pretendo assistir. Fiquei curiosíssima.

Rodrigo Mendes disse...

M: Assista, irá gostar. Bjs.

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