HOLLYWOOD POR HOLLYWOOD
JOE, um roteirista desempregado, refugia-se numa mansão da Sunset Boulevard quando foge da polícia e é confundido com um escritor que deveria encontrar a esquecida estrela do cinema mudo, NORMA DESMOND, que planeja um grande retorno com um roteiro em que está trabalhando. Acaba ficando por lá, tornando-se gigolô da veterana estrela.
O filme que trouxe de volta (ironia) ao estrelato a atriz do cinema GLORIA SWANSON – que perdeu o Oscar para JUDY HOLIDAY, por NASCIDA ONTEM , numa das disputas mais acirradas de todos os tempos – que havia sido super star do cinema mudo. Curiosamente ela fez poucos filmes depois, mas manteve-se, dali em diante, como mito de eterna juventude. Ela foi a quarta escolha para o papel de Norma. Inicialmente os autores pensaram em MAE WEST (que recusou indignada de alguém pensar que ela estivesse fora de moda), POLA NEGRI (também recusou , sem explicações) e MARY PICKFORD, a queridinha da América – que gostou da idéia, mas queria que o roteiro fosse reescrito para ela.
A fita faz várias referências à vida da própria Swanson, o filme ao qual assiste é QUEEN KELLY, de 1928, que havia sido rodado por ERICH VON STROHEIM (que faz o mordomo no filme) e num jogo de carta reencontra velhos amigos de seu tempo de estrelato (também em decadência na vida real, o melhor comediante BUSTER KEATON, a atriz ANNA Q. NILSSON, o ex-galã H. B. WARNER e o diretor CECIL B. DE MILLE, que a recebe nos estúdios autênticos da Paramount), onde ele rodava SANSÃO E DALILA. De Mille realmente fez uma série de filmes estrelados por ela!
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| Gloria em sua Glória! |
SUNSET BOULEVARD (Boulevard do Crepúsculo) é realmente o nome de uma avenida importante de Los Angeles, mas o número da casa da mansão de Norma Desmond não existe na realidade. A mansão real (demolida em 1957) nem sequer tinha piscina e, por isso, ela foi construída especialmente para a fita nos terrenos da mansão de John Paul Getty no Wilshire Boulevard. Essa mesma piscina apareceu também em JUVENTUDE TRANSVIADA, em 1954.
Quem foi inicialmente convidado para fazer o papel do roteirista desempregado e gigolô, Joe Gills, foi o ator MONTGOMERY CLIFT,mas desistiu duas semanas antes, porque achou que o papel tinha semelhanças com sua vida particular por ele ser muito amigo da cantora LIBBY HOLLMAN nos anos dourados. FRED MacMURRAY, que havia feito PACTO DE SANGUE com Wilder, o recusou por achá-lo difícil demais e o escolhido acabou sendo WILLIAM HOLDEN, então com 32 anos e que desde este momento tornou-se o ator favorito de Wilder (sob cuja direção ganharia o Oscar de 1953 com INFERNO Nº 17).
Erich Von Stroheim que não sabia dirigir teve de ter o seu carro puxado por cabos durante a cena de visita à Paramount. Os escritórios dos roteiristas no estúdio, na verdade, ficavam na escola para os alunos menores de idade que filmavam ali.
O filme originalmente começava com o personagem de Holden numa Morgue (Necrotério) contando para outros mortos sua história. Isso provocou gargalhadas nas previews por excesso de humor negro (as vezes um erro de Wilder) e o diretor resolveu manter a narrativa dele, mas desta vez apenas com o corpo na piscina. Nas cenas finais na casa de Norma, a colunista de fofocas, Hedda Hopper, interpreta a si mesma e quando Swanson acabou de fazer a cena foi realmente aplaudida pela equipe.
Ganhou Oscars de trilha musical e de roteiro. No começo dos anos 1990, o compositor Andrew Lloyd Webber transformou o filme numa peça da Broadway (como O Fantasma Da Ópera e CATS) com a aprovação total de Wilder, que virou o show “Sunset Boulevard”, estrelado pela ótima GLENN CLOSE. Teve sucesso apenas relativo; nunca recuperando o investimento.
Não há dúvidas que Crepúsculo Dos Deuses é o melhor filme já feito sobre Hollywood. Seu rival mais próximo é o também brilhante ASSIM ESTAVA ESCRITO (The Bad And The Beautiful, 1952), com direção de Vincent Minnelli. Talvez porque o diretor Billy Wilder e seu roteirista habitual, Charles Brackett, tenham conseguido manter um tom acertado que mistura ironia, humor negro, nostalgia, melodrama, cinismo e compaixão. Mas principalmente por terem conseguido Gloria Swanson para o papel central, a mítica da atriz se mistura com a da personagem Norma Desmond perfeitamente. Curiosamente, Gloria não tinha tanta idade assim, entre 49 e 52 anos, dependendo da fonte que você consulte (e as mulheres adoram mentir sobre idade). Sua interpretação é soberba, ainda conservando, propositalmente, alguns tiques do cinema mudo: “Eu ainda continuo grande”, diz ela, “Os filmes é que ficam menores”, mostrando versatilidade (sua imitação de Carlitos é um primor), nunca caindo na caricatura, nem mesmo nas cenas de loucura, e tendo toda razão quando afirma: “Não se fazem mais rostos como este, hoje em dia”.
A descida das escadas, dirigida pelo antigo marido, diretor e, agora mordomo Stroheim, é das mais belas da história do cinema – é ela caminhando para a lente até sair de foco. Um arraso! É uma alegoria para toda a história de uma estrela consumida pelo próprio mito do cinema.
Também é uma grande ousadia, raramente imitada, fazer com que a história seja contada por um personagem já falecido (Joe Gills aparece morto por tiros numa piscina, só vamos saber como e porquê bem mais tarde) e que, ainda por cima, não é especialmente simpático. É até mesmo um vigarista, aparenta ter pouco talento. As cenas com a mocinha NANCY OLSON e com o amigo JACK WEBB, depois famoso em séries de TV como DRAGNET, são as mais fracas da fita. Mas é bem possível que tanto Wilder quanto seus parceiros identifiquem com Joe.
Poético e cruel, mágico e cínico, Crepúsculo Dos Deuses (e finalmente acertaram num título nacional) é a fita paradigma para uma indústria que adora se autolouvar, autocriticar-se – desde que não seja muito seriamente – e autopromover-se. Que é capaz de vender até o sonho de sua própria degradação. É hollywood por Hollywood.
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EUA- 1950
DRAMA/FILM-NOIR
110 min.
PRETO E BRANCO
WIDESCREEN
PARAMOUNT
12 ANOS
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
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PARAMOUNT PICTURES APRESENTA
UM
FILME DE BILLY WILDER
SUNSET BLVD.
ESTRELANDO:
WILLIAM HOLDEN. GLORIA SWANSON. ERICH VON STROHEIM
Também Estrelando:
FRED CLARK. NANCY OLSON. JACK WEBB
Participações
Especiais:
CECIL B. DE MILLE. BUSTER
KEATON
Co-estrelando: HEDDA HOPPER. ANNA Q. NILSSON. H. B. WARNER
Música de FRANK WAXMAN
Diretor de Fotografia JOHN F. SEITZ
Montagem {ARTHUR
SCHMIDT. DOANE HARRINSON
Figurinos por EDITH HEAD
Direção de Arte
HANS DREIER. JOHN
MEEHAN
PRODUZIDO POR CHARLES BRACKETT
ESCRITO POR
BILLY WILDER. CHARLES BRACKETT & D.M. MARSHAN JR.
DIREÇÃO BILLY WILDER A Paramount Picture ©1950







10 comentários:
Fantástico, sensacional, um filmaço, um filmão, com uma narração póstuma esplêndida e a propriedade fílmica de Billy Wilder fazem deste uma das mais brilhantes realizações cinematográficas. É um dos maiores representantes do cinema, uma obra-prima.
http://thecrimnson.wordpress.com/
Morto-narrador não é novidade. Lembra-se de Brás Cubas do grande Machado de Assis?
Quanto à premiação de Melhor Atriz, dava vontade de premiar Bette Davis, a própria Glória e Judy Holliday (que também estava excepcional como "loira-burra").
O filme é maravilhosos, principalmente o mordomo que me convencia como culpado de alguma coisa.
Saudades de você, Rodrigo. Beijos.
Mandem me prender....ainda não assisti esse filme obrigatório.
CLEBER: Tem razão cara. E não conheço nenhum cinéfilo que não admire esta obra magnífica!
Abs.
MARCIA: Que bom tê-la de volta no meu cinema! Ótimo você ter lembrado do Brás Cubas, tem razão. Eu nunca li o livro apenas assisti a fita com Reginaldo Faria. Eu gosto. E as premiações do Oscar nesta época eram acirradas. Bette já ganhou muito bem. Jezebel e Perigosa são filmes maravilhosos!
Beijos ;)
RENATO: Rs! Assista o quanto antes. Absolvo-te! Abs.
A atuação de Gloria é espetacular. Bem, o filme é espectacular. Concordo com você, é o filme definitivo sobre Hollywood e o meu favorito de Wilder!
Abs.
Oi Rodrigo, beleza?
esse post foi indicado no links da semana:
http://blogsdecinemaclassico.blogspot.com/2011/09/links-da-semana-de-18-2509.html
Nossa Rodrigo. Perfeito. Concordo com tudo que disseste e me regozijo com o amplo contexto que alinhaste desse filme espetacular. Concordo que é o melhor filme sobre Hollywood e tb um dos melhores títulos nacionais (periga ser melhor do que o original).
Abs
ALAN: Adoramos, Isso aew garoto. Abraços.
Obrigado CARLA ;) Thanks!
REINALDO: Obrigado brother. Realmente o título "Crepúsculo Dos Deuses" soa bem melhor. Rara exceção.
Aquele abraço!
Amo esse filme, daqueles inesquecíveis, e pensar que o vi pela primeira vez quase por acaso, passando na televisão. A cena final é um marco mesmo, a solução encontrada para o final de Norma Desmod é genial, tudo a ver com a história. Destaco ainda sua visita aos estúdios, que também é emocionante.
bjs
A cena final é algo que inseri em minha vida... Fabulosa como só Gloria Swanson seria capaz de fazer!
Estas reviravoltas de atores em filmes como este parecem ser determinantes para o bom resultado da obra.
;D
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