☠OUTUBRO DAS BRUXAS☠
CINE TRASH
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BRASIL MOSTRA O SEU CINEMA PARTE 2
Um coveiro lunático que mete medo em uma cidade do interior do Brasil procura uma mulher para gerar um filho.
O sangue é a continuidade da vida nesta obra cult popular nacional, do mestre do terror brasileiro JOSÉ MOJICA MARINS, mais conhecido por seu personagem ZÉ DO CAIXÃO.
“À Meia-noite levarei sua alma” é o primeiro filme do personagem, uma figura excêntrica e gótica que mora em uma pequena cidade do interior.
Zé é tão assustador quanto é violento, tem prazer em assassinar pessoas de maneira sádica e por isso é temido pelos moradores da região. Nenhum homem sequer tem coragem de enfrentar o dito cujo, que se veste de preto, usa uma capa e um chapéu, tem uma linguagem aterradora, pacto com o diabo e unhas gigantes (embora seja bem sutil neste primeiro filme onde ele usava luvas praticamente durante toda a história). Zé vive com uma mulher, Lenita (VALERIA VASQUEZ), que não pode gerar um filho para ele. Frustrado e nervoso ele começa a cobiçar outra mulher, assim ele assedia Terezinha (MAGDA MEI) de forma violenta, mas a moça é noiva de seu amigo Antônio (NIVALDO LIMA).
Obcecado cada vez mais com a paternidade, Zé decide matar as pessoas que estão em seu caminho, como a sua própria mulher e seu amigo para poder tomar Terezinha pra si, mas seu carma começa quando Terezinha se mata depois de ser estuprada por ele. Ou seja, uma terrível maldição que ela rogou se vinga de Zé e, exatamente à meia-noite no Dia dos Mortos, ele terá encontro com as almas penadas das pessoas que sofreram sua crueldade.
Esta fita é muito celebrada nos EUA e Europa, muito mais do que é aqui. Acredito que a atenção seja pelo fato do filme ser chamativo com suas superstições (Zé comendo carne no dia de santo e dando risada). Foi um grande sucesso de bilheteria no Brasil na época, e transformou Zé Do Caixão na figura mais querida do cenário macabro. Mojica por si só já é uma figura e tanto. Este diretor, roteirista e personalidade paulistana virou mesmo cult até no exterior, onde virou COFFIN JOE. Zé é extremamente cultuado em Festivais especializados em fitas de terror e inspiração para muitos cineastas que fazem filmes baratos, como o lendário produtor e diretor americano ROGER CORMAN. Autodidata, começou a filmar desde muito jovem. Seu primeiro filme como diretor foi SENTENÇA DE DEUS (1958) e como ator apareceu pela primeira vez na fita SINA DE AVENTUREIRO, no mesmo ano, na qual também foi diretor. “À meia-noite” é o seu quarto filme e a primeira aparição de Zé do Caixão.
Ele sempre usava qualquer recurso para conseguir dinheiro para as fitas. São famosas as escolas de interpretação e de cinema que abriu e suas aparições diversas na TV como apresentador de filmes de terror trash na Bandeirantes (Band). Na verdade Mojica sempre teve um talento primitivo, no sentido usado para a pintura, ou seja, como não entendia de técnica ou roteiro, para ele tudo sempre foi possível, até raro entre os cineastas. Por isso, os seus filmes e sobretudo este aqui que o revelaram (nunca esqueço quando o assisti pela primeira vez em meu curso de cinema) são realmente obras-primas do gênero, ingênuos mas criativos e ousados. Portanto seria um erro não incluir o filme que fez fama o grande Zé Do Caixão, nesta série. Vamos contemplar também o personagem do terror de nossa terra!
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| Cartaz da época! |
O filme tem uma atmosfera única e original. A introdução, além de cômica, é genial com Mojica apontando para a platéia e dizendo aqueles monólogos de costume que fizeram o personagem, além de uma cigana-bruxa que aparece dizendo para todos que o filme é isso e aquilo, e se você não tiver nervos de aço tem a oportunidade de sair do cinema, mas antes do badalar do relógio à meia-noite, depois disso será tarde demais. Bom, eles avisam a todos (risos).
Os efeitos especiais eram pobres, mas nem por isso deixam de ser impressionante, sobretudo os efeitos sonoros (Como não havia recurso para captar som direto foi tudo dublado depois). E, os cenários, estilizados, principalmente o cemitério, são super bacanas.
A criatividade e a ingenuidade oscilam com a violência explícita nas cenas de assassinato: quando Zé mata a esposa com uma aranha venenosa, afoga o amigo numa banheira depois de ter lhe dado uma paulada, assedia Terezinha e bate nela várias vezes e queima um homem vivo! As cenas dele brigando no boteco, tomando cachaça e comendo carne são hilárias na verdade. Era isso, tudo bem natural, a impressão que fica no cinéfilo é de que os atores (eles só fizeram este filme nada mais) nem usavam um roteiro para decorar suas falas, e sim, o que eles precisavam era saber qual cena era que estavam rodando e a intensidade da situação.
A fita ganhou continuações dentro da narrativa de Zé, o coveiro que busca a continuidade da vida, no sangue. São: À MEIA-NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER (1967) e exatamente quarenta e dois anos depois, conclui sua trilogia em: ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO (2008) com um elenco mais profissional de atores como ADRIANO STUART, JECE VALADÃO e MILHEM CORTAZ (Tropa De Elite). O resultado foi bacana, já que naquela temporada apareceu tanta coisa americana parecida no âmbito de assustar. Acho que é sempre curioso e uma experiência diferente para os cinéfilos ver algo assim nos filmes daqui.
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| DVD distribuido pela Cinemagia |
Com o passar dos anos, ao aprender a técnica e ouvir as críticas que o consagraram, na verdade, Mojica piorou, perdeu a espontaneidade (mesmo Encarnação do Demônio tenha sido um resultado satisfatório, mas não tinha aquela pegada autodidata) e o vigor artístico criativo. Para sobreviver fez de tudo, até dirigiu filmes pornográficos. Seus muitos filmes seguintes, fora da trilogia original do Zé, têm pouco interesse (mesmo que o personagem tenha aparecido em inúmeros filmes do cineasta. A Cinemagia lançou um Box especial com seis volumes), mas ele é sem dúvida uma das poucas personalidades marcantes e fundamentais no Cinema brasileiro – por sinal, muito brasileiro em suas raízes e imaginário. Infelizmente a maldição pegou Zé, e ele ainda não conseguiu um herdeiro de sangue para dar continuidade no cinema nacional de arrepiar, que consiga o seu feito de atravessar o atlântico para mostrar que não é só Hollywood que sabe criar sangue de mentirinha. Só ele mesmo. Por isso, Zé Mojica terá para sempre o meu respeito e o valor que merece por ter contribuído na sétima arte.
BRASIL – 1964
TERROR
FULLSCREEN
84 min.
P&B
CINEMAGIA
18 ANOS
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
INDÚSTRIA CINEMATOGRÁFICA APOLO APRESENTA
JOSÉ MOJICA MARINS
ZÉ DO CAIXÃO
em:
em:
“À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA”
COM: MAGDA MEI. NIVALDO LIMA. VALERIA VASQUEZ
IDÍLIO MARTINS SIMÕES. ARILDO IRUAM
GENÉSIO DE CARVALHO. VÂNIA RANGEL. GRAVETO
ROBINSON AIELO. AVELINO MORAIS. LUANA. LEANDRO VIEIRA
ANTÔNIO MARTINS. MÁRIO LIMA. EURÍPIDES SILVA. CARMEM MARINS
Música original por SALATIEL COELHO. HERMÍNIO GIMENEZ
Diretor de Fotografia GIORGIO ATTIILI Montagem LUIZ ELIAS
Diretor de Arte JOSÉ VEDOVATO Maquiagens GILBERTO MARQUES
PRODUZIDO POR ARILDO IRUAM
GERALDO MARTINS. ILÍDIO MARTINS
Escrito por JOSÉ MOJICA MARINS. MAGDA MEI
História de José Mojica Marins
DIREÇÃO
JOSÉ MOJICA MARINS
À Meia-Noite Levarei Sua Alma © 1964 Indústria Cinematográfica Apolo















5 comentários:
é um filme notavel mesmo, acho q o clima criado por Mojica é unico, um medo q alude consegue passar para o expectador, mesmo parecendo underground e tosco. Filme fodão! A realidade é essa, aposto q muitas cineastas gringos beberam dessa fonte. Coincidencia boa temos homenageado esse querido cineasta. Abração!
Eu que quase morro de medo de aranha, sempre assisti aquelas cenas com mais temor que as outras... ui! hehehe
Mojica é figura mesmo! Consegue ser sádico e manter o filme interessante sem ter recursos suficientes... é de se respeitar.
Realmente é um filme que vejo muitos perdendo de assistir por um certo preconceito com o cinema brazuca, de qualquer época... besteira!
;D
E viva MOjica! Zé do Caixão é eterno. Essa semana adquiri "Esta semana encarnarei no teu cadáver". As Lojas Americanas estão vendendo alguns desses títulos da filmografia do Mojica. Seu texto como sempre, tudo de bom!
É um grande filme esta estréia de Zé do Caixão.
Diferente da figura caricata que o público de hoje conhece, este filme mostra um personagem sinistro cheio de maldade.
Se fosse americano, José Mojica Marins seria tão cultuado quanto George Romero ou John Carpenter.
Abraço
CELO: Sim, bacana nós termos escritos as nossas críticas do filme no mesmo período. Vc disse tudo aqui e no seu texto, Mojica criou uma obra única com o clima, imaginário e raízes brasileiras. Abraço.
KARLA: Tem medo ou fobia de Aranhas? Já explico a diferença na próxima sessão...
Tb acho besteira o preconceito com o cinema brasileiro, mas os japoneses tb tem resistência com outros nomes consagrados como Kurosawa. Zé é idolatrado lá fora.
Beijos;)
M: Obrigado querida. Que bom que vc adquiriu parte da coleção do grande Mojica. Preciso voltar para as Americanas...rs! Beijos.
HUGO: Realmente, se ele fosse gringo, a maioria das pessoas, leigas e cinéfilos (pq alguns não gostam) iriam idolatrá-lo. Mas ele continua cult e tendo um público fiel. Eu gosto de sua obra imaginária, mesmo sádica é engraçadinha e criativa, só depois que acho que ele perdeu a fórmula, porém, vítima das próprias repetições e seguindo conselhos de alguns cineastas que nunca tiveram aquela marca de autodidata que Mojica sempre teve. Hoje só restou para o artista ser caricato, infelizmente, mas nesta fita ele esta absolutamente aterrador.
Abraço.
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