DISQUE
HITCH
PARA
Marido traído, um ex-jogador de tênis, planeja o assassinato de sua esposa fazendo uma conspiração perfeita e contratando o assassino certo, mas quando tudo dá errado, ele improvisa um plano B brilhante para se livrar do crime.
Disque M é o filme que HITCHCOCK mata você de suspense! Este filme apresenta uma trama maravilhosa e interpretações extraordinárias. Baseado no sucesso internacional dos palcos, a peça escrita por FREDERICK KNOTT (1916-2002) que adaptou pessoalmente a história para tela em uma brilhante colaboração com Hitchcock que praticamente não mudou muita coisa da história porque era contra em mudar radicalmente uma peça para o cinema. Hitch geralmente resolvia fazer filmes baseado em peças quando as idéias estavam se esvaindo. Ele dizia: “Quando as pilhas começarem a pifar, faça uma boa adaptação teatral.” Em outras palavras, Hitchcock dizia que ao comprar uma peça teatral lucrativa em meio à crise criativa do cineasta, o diretor jamais pode tentar transformá-la drasticamente em cinematográfica. Era como uma construção, e é a construção que a tornou um sucesso. Ou seja, simplesmente filme a peça sem quebrar nenhum tijolo!
DISQUE M PARA MATAR também é um de meus filmes prediletos do diretor. Foi mais uma premissa confinada, isto é, passada em um ambiente fechado, claustrofóbico, muito embora a sensação que se têm devido a tanto suspense acaba sendo outra. O filme pega carona no estilo de outras obras suas: LIFEBOAT- UM BARCO E NOVE DESTINOS (1944) que se passava inteiramente em um bote salva-vidas com nove personagens e o eterno clássico ROPE- FESTIM DIABÓLICO (1948) sua primeira fita colorida e filmada em continuidade, com poucos cortes, em um apartamento (também era baseado numa peça).
Neste filme Hitchcock une lindamente o que é notável em sua filmografia. A combinação de elegância, glamour, mistério e suspense, que conta a história de uma perigoso triângulo amoroso que culminará em ganância e assassinato.
GRACE KELLY (1929 -1982) faz sua primeira colaboração com Hitchcock que sempre considerou Kelly como sua favorita. Grande atriz ela interpreta a esposa que finge estar feliz em um casamento, mas ama outro homem. Como Margot, a vítima de um assassinato meticulosamente planejado, Kelly ganhou os prêmios de Melhor Atriz do New York Film Critics e o National Board of Review. Ganharia os mesmos prêmios em JANELA INDISCRETA, no mesmo ano, sua segunda colaboração com Hitch (que depois terminaria em LADRÃO DE CASACA [1955] e que infelizmente não se concretizou no projeto “Marnie” [1964]). Grace esta linda neste filme e apesar de ainda não ser famosa, demonstra um talento indiscutível e Hitchcock soube apresentá-la. Os figurinos da estrela são um arraso. Ela veste branco quando esta com o marido e vermelho na presença do amante, mas ao contrário de uma vamp, Margot é romântica, refinada e inocente a ponto de não suspeitar do marido, que aliás, é o ótimo RAY MILLAND (1905-1986) que havia ganhado o Oscar de Melhor Ator por FARRAPO HUMANO ( The Lost Weekend, 1945) de Billy Wilder. Apesar do talento de Milland, revendo hoje esta fita nota-se alguns tiques de exagero. Em “Disque M” ele é simplesmente genial e superior no papel que lhe deu créditos, Oscar e fama. No papel de Tony Wendice, Milland apresenta um homem inteligente, sofisticado, elegante e, sobretudo extremamente frio e calculista. A princípio torcemos por ele, pelo fato de ser traído descaradamente pela esposa, algo que é bastante discursivo nos filmes de Hitchcock, esta subversão de valores e fazer com que a platéia torça pelo vilão. Milland com esta distinção planeja o crime perfeito e lida com o assassinato da mulher como se fosse um negócio e não vingança.
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| Grace a esposa ... |
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| ...Grace a amante ♥ |
Impossível não simpatizar com ele até metade da fita, já que aqui o mocinho tem uma personalidade arrogante porque é autor de roteiros policiais para TV e entende tudo de crimes, no caso interpretado por ROBERT CUMMINGS (1910-1990) como o amante que sobra na relação do casal aparentemente feliz, Mark Halliday, invadindo descaradamente o lar alheio. Para balançar a trama e açucarar o elenco o ótimo ANTONY “Tony” DAWSON (1916-1992), um clássico e distinto ator inglês que ficou conhecido pelo papel de vilão no primeiro filme de James Bond: DR. NO, 1962. Ele vivia o Professor R.J. Dent (depois faria outro papel na continuação Moscou Contra 007 no papel interrogação do bandido Blofeld que não mostra o rosto).Dawson faz aqui o homem contratado e chantageado por Milland para matar a mulher. O filme tem dois atos que se apresenta com um intervalo e neste primeiro ato é o personagem de Dawson que entra como coadjuvante, mas o filme tem um daqueles plots geniais que somente Hitch poderia conceber e adivinhem, com uma cena de assassinato (murder) que realmente era a praia do cineasta. Em “Disque M” a cena do assassinato é tão deslumbrante e marcante como a cena do chuveiro em “Psicose” que igualmente mudava os rumos da trama matando um dos personagens, no caso aqui, é o bandido que se dá mal e a principal da história não é morta como se pensava. Hitchcock brinca com a metalinguagem quando o personagem de Cummings, escritor de suspense, afirma que não existe um crime perfeito e que somente é possível acontecer na ficção porque é a intenção do autor, mas na vida real tudo é diferente, justamente porque não podemos prever o imprevisto.
No momento perto do clímax do assassinato, o espectador já começa a suar de nervoso quando pequenos detalhes (não vou dizer para quem não assistiu senão perde a graça) começam a surgir e atrasam à hora exata de Milland discar. Ficamos na angústia pelos malvados e esquecemos-nos da Grace Kelly por alguns minutos, é Hitchcock brincalhão e perverso, mostrando os valores humanos numa subversão total, somos cúmplices. No entanto a cena muda os rumos do filme quando percebemos que Margot é mais forte do que se imaginava e por trás daquela Grace Kelly elegante existe uma tigresa. Ela se defende e mata o intruso com uma tesoura. Pronto, o filme mudou e o sádico Ray Milland responde: “Alô querida está tudo bem?”
Cínico, mas preocupado, o cara começa a pensar em um plano B genial repleto de detalhes que podem virar o jogo e incriminar a esposa do homicídio, fazer com que a polícia comece a suspeitar dela apagando o álibi de legítima defesa. Assim, ficamos contra Milland e a favor de Grace porque já começamos a notar que o sujeito é mais frio e ganancioso do que vingativo. Portanto é no segundo ato que certamente a história tem que apresentar um novo personagem, agora o coadjuvante da vez, e que não por acaso é o ator favorito de Hitchcock, o genial JOHN WILLIAMS (1903-1983) como o chefe inspetor de polícia Hubbard, que investiga o crime com cautela, atenção e sempre à frente do personagem principal. Williams, diferente de Cary Grant e James Stewart personifica melhor o alter ego de Hitchcock, aquela pessoa que Hitch gostaria de ser, experiente, astuto e engraçado (bom acho que Hitch sempre foi tudo isso, não? – Risos) até porque Williams tem participações ativas na obra do diretor (Ladrão de Casaca e Disque M são os filmes em que ele se destaca), mas o ator apareceu em vários episódios do ALFRED HITCHCOCK PRESENTS (série de TV 1955-59), por exemplo, e teve sempre papéis importantes nessas duas fitas, e que demonstram a onipresença de Hitchcock na presença de John Williams! Como um inteligente investigador, Hubbard provoca Tony até que ele cometa um deslize besta que pode revelar a culpa, e acredito que Hitchcock termina o seu filme da maneira mais genial.
Melhor é impossível, com graça e sofisticação com todo aquele humor negro embutido no melhor drama e suspense. Diferente do mistério, o suspense é a situação e o inesperado, a antecipação, o que nesta fita tem de sobra e de maneira excitante, com os belos diálogos de um enredo atraente, já que é difícil desviar os olhos de um filme que se passa basicamente em um apartamento, com poucas externas, a preferência de Hitchcock que como profissional odiava dirigir em locações.
Originalmente o filme foi rodado inteiramente em Terceira Dimensão e em largas telas de cinema, portanto DISQUE M PARA MATAR é o único exemplar do mestre do suspense na qual se podia assistir em 3D! Mesmo assistindo várias vezes numa exibição convencional (gostaria muito que a versão em 3D um dia estivesse disponível), percebo o quanto Hitchcock era genial deixando James Cameron e recentes filmes neste macete no chinelo. A maneira como ele filmou tudo isso, os planos, perspectiva, iluminação, os objetos em cena que dão a dimensão de estar ao vivo diante uma peça de teatro (algo que separa você [na platéia] do ator no palco) e a brincadeira com a mão de Grace Kelly sobre a mesa saltando para a tela. Definitivamente a experiência ao se assistir “Disque M” se dava ao fato do público sentir que estavam assistindo a própria peça. Há muita noção de palco na visão e direção de Hitchcock que dirigiu desta maneira os movimentos dos atores como uma marcação necessária, o que foi eficaz, e não apenas objetos que pulam para fora da tela buscando uma reação das pessoas. Apenas poucas brincadeiras nesse sentido (além da mão da estrela, a chave do apartamento).
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| John Williams como o Detetive. O melhor papel de sua carreira |
O close no dedo de Milland discando foi um problema para filmar e depois transferir as imagens sobrepostas para o 3D que era um sistema de duas câmeras o que impedia de fazer um close-up real, assim Hitchcock filmou a cena construindo um enorme telefone e um dedão. Engraçado pensar que para se fazer uma grande tomada, às vezes se usa maquetes minúsculas, aqui o mestre teve que usar um telefonão com um enorme dedo para depois criar a ilusão de pequeno.
A participação habitual do diretor neste filme é mais interessante. Como era mais um filme passado em um espaço pequeno, ele teve que aparecer em uma fotografia que decora o apartamento, mostrando os personagens de Dawson e Milland em uma mesa de jantar.
Patrick Smith Kelly que escreveu REFÉM DO SILÊNCIO (2001) estrelado por Michael Douglas faz uma adaptação da peça de Knott bem irregular em uma versão para o cinema dirigida por Andrew Davis (diretor do ótimo O FUGITIVO com Harrison Ford) em um remake que ficou medíocre: UM CRIME PERFEITO (A Perfect Murder, 1998) estrelado por Douglas, Gwyneth Paltrow (sem nenhuma elegância de Grace Kelly) e Viggo Mortensen.
Quando tem a palavra Assassinato em um filme do mestre, evidente que ele é marcante. Disque Hitchcock para suspense porque a ligação jamais ficará ocupada. Até a Telefônica agradece, obrigado.
EUA- 1954
SUSPENSE
FULLSCREEN
COR
105 min.
16 ANOS
WARNER
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
WARNER BROS. PICTURES APRESENTA
ALFRED HITCHCOCK´S
“DIAL
M
FOR
MURDER”
O Sucesso Internacional dos palcos Colorido por WARNERCOLOR
ESTRELANDO:
RAY MILLAND. GRACE KELLY. ROBERT CUMMINGS
Co-estrelando: ANTHONY DAWSON e JOHN WILLIAMS
Música composta por DIMITRI TIOMKIN
Fotografado por ROBERT BURKS
Montagem RUDI FEHR Direção de Arte EDWARD CARRERE
Escrito por FREDERICK KNOTT
Dirigido por
ALFRED HITCHCOCK
Dial M For Murder ©1954 A Warner Bros. First National Picture















8 comentários:
Um thriller perfeito. Ótima atuação de Milland.
O Falcão Maltês
O Cara é mestre...o que mais pra dizer?
Saudações Rodrigo!
O que dizer de tão grande clássico?
Percebemos aqui o quanto Hitchcock sabia diversificar no gênero que tão bem o marcou, o suspense. Ao lado de PSICOSE, é um dos meus filmes preferidos. Grace Kelly esta exuberante e sua atuação é considerada antológica.
Grande matéria, Rodrigo! forte abraço.
Paulo Néry
ANTONIO: Melhor do que em Farrapo Humano.
Abs.
TIAGO: Nada mais.
Abs!
PAULO: Saudações e obrigado!
A diversidade e a procura de novos desafios sempre foi a marca de Hitchcock. 'Psicose' foi mais um exemplo disso.
Abs.
Só tenho uma palavra para esse filme:
PERFEITO.
Rodrigo, Parabéns pelo ótimo Post, Seu texto esta rico em detalhes e claro, sem estragar o desfecho para quem ainda não assistiu... embora, sera que tem alguém que ainda não teve o PRIVILEGIO de ver essa obra prima?
Assim como vc, também sonho um dia ver esse filme em 3d como foi lançado.... quem sabe um dia...
Ola Rodrigo,me lembro deste filme como se tivesse visto ontem,foi muito bom relembrar.Gostaria se fosse possível e se souberes em que filme Carmen Miranda canta o Tico-Tico no fubá,pois vi que já pesquizastes á respeito desta brilhante cantora e atriz brasileira.Tenhas um bom domingo e fica com meu grande abraço.
Tive a oportunidade de assistir "Disque M Para Matar" no cinema, durante a mostra de Alfred, que rolou aqui no Rio De Janeiro, uma sessão tripla juntamente com "Os Pássaros" e "Psicose". Absolutamente emocionante. Algum dia ainda consigo assistir em 3D, o formato originalmente imaginado por sir Hitchcock! Ótimo texto Rodrigo!
JEFFERSON: Valeu cara!
Acredito que a maioria deve ter assistido ao clássico Disque M, mas conheço poucos que ainda não. Sempre recomendo!
Abs.
SUZANE: Obrigado querida pelo comentário. Bem vinda!
Acredito que Carmen tenha cantado Tico Tico no "Entre a Loura ea Morena" de 1943, mas sei com toda certeza que ela faz esta performance no filme 'Copacabana' de 1947, em preto e branco. Direção de Alfred E. Green com Groucho Marx.
Faz tempo que não vejo um filme dela. Um de seus maiores sucessos é Tico Tico e ela apresentou a música em muitas ocasiões.
Beijos.
LUMI 7: Quem quer que seja da equipe do blog que comentou, obrigado. Fico feliz que tenha visto o filme em uma tela de cinema! 'Disque M' é um dos trabalhos mais ousados de Hitch, é puro suspense e uma aula de cinema.
Vamos sim ver a fita em 3D um dia!
Abs.
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