SESSÃO DINOSSAURO
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IRONIA CINEMATOGRÁFICA
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| Orgulho de uma nação? |
O drama de famílias do Norte e do Sul dos Estados Unidos envolvidas na Guerra Civil que assolou o país. Estrelado por LILIAN GISH (1893-1993).
Pode um filme histórico ser ao mesmo tempo um dos mais reverenciados e repudiados já realizado? É um fato triste, mas também irônico que o primeiro grande e importante longa-metragem da história do cinema norte-americano e por extensão do mundo tenha sido uma fita racista, que mal consegue esconder sua visão sulista de um fato histórico dos Estados Unidos do problema racial. Também não poderia deixar de exibir este exemplar na Sessão-Dinossauro, mesmo porque e apesar de todos os pesares, é o primeiro registro de cinema com ritmo e forma narrativa que se seguiu no cinema até os dias de hoje.
Uma versão mais curta e sonorizada foi relançada em 1930 com acompanhamento musical, que reaproveitava, com novos arranjos, o score original de J.C. BREIL.
O original tinha 12 rolos que era aproximadamente 185 minutos a 16 fotogramas por segundo e custou, por volta, de 110 mil dólares.
O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO, um filme ainda polêmico, é importante pelos mesmos motivos (para o bem e para o mal) que inspiram essas duas reações tão opostas. Por isso mesmo, creio que o prestígio de seu diretor DAVID WARK GRIFFITH (1874-1948) veio decaindo a ponto de retirarem o nome dele do prêmio pela carreira dado pelo Director´s Guild.
Muito embora, pessoalmente, ele negasse o fato de ter idéias racistas que na verdade nunca conseguiu convencer do contrário. Seu filme seguinte foi o famoso cult INTOLERÂNCIA (1916), que, como o título revela, é contra qualquer forma de “intolerância”.
Dizendo-se ofendido e magoado com as acusações, em alguns filmes ele teria demonstrado isso; como fazer um branco beijar o amigo negro que está morrendo em THE GREATEST THING IN LIFE (1918), colocando uma família de negros ajudando Mae Marsh e seu infortúnio em A ROSA BRANCA ou insistindo que “O Nascimento de Uma Nação” trazia bons e maus de todas as etnias e que os verdadeiros vilões são brancos.
De qualquer forma, não há como negar o teor de seu filme e que também Griffith era um cavalheiro sulista, com idéias antiquadas e que no filme adotou esse ponto de vista, ainda que a favor do Presidente Lincoln, pró-união.
Além de tudo, a fita é baseada na peça explicitamente racista escrita por THOMAS DIXON “The Clansman: An Historical Romance of the Ku Klux Klan". O filme chegou a fazer uma estréia em Los Angeles - a capital do cinema gringo - com esse título (reduzido a The Clansman) que só foi modificado depois, quando chegou a Nova York, e que foi escrito por um notório racista, Dixon, um sujeito grotesco nos pensamentos e atitudes. Realiza este trabalho literário para louvar a organização que levava o nome de Ku Klux Klan. Bom, na época, o Sr. Dixon era famoso e tinha um grande público. Embora, esse autor fosse também admirador de Lincoln que considerava “o salvador e verdadeiro criador dos Estados Unidos Livres da América” (vamos aguardar o enredo na fita história que está sendo dirigida por Spielberg).
É também este ponto de vista do filme que, segundo alguns testemunhos e críticos, teria tido algumas cenas, depois descartadas, em que defenderia a idéia de Dixon de mandar os negros de volta para a África. Fica, portanto mais do que constatado o preconceito do filme e complicado ficar louvando esse tipo de fita (ainda estou pensando em quantas estrelas irei colocar no término deste post...), ainda que tenha também títulos abjurando a guerra; “o que a guerra pede é amargo, sacrifício inútil”, e a mais famosa frase: “ A paz da guerra” e depois mostra o local repleto de cadáveres no campo de batalha.
Todavia, devemos pensar que como espetáculo, “O Nascimento de uma Nação” foi um épico e tanto – jurássico no adjetivo que cabe nesta série Dinossauro- e que esteticamente falando é de uma grande importância; um monumento cinematográfico (louvando a precisa técnica do cinema, só) e um fenômeno que tirou o cinema das feiras e diversões locais que eram projeções sem narrativa, curtas. Antes era ainda muito comum o chamado Nickelodeon (a maquininha onde você pagava um níquel para ver um trecho de fita individualmente) e este filme levou o cinema para as salas de espetáculo e projetou definitivamente a invenção do cinema como status de sétima arte e grande evento.
Griffith também tinha a reputação de ser “o pai do cinema”. René Clair chegou a declarar que “nada essencial foi acrescentado a arte do cinema desde Griffith”. Ou seja, desde este filme pelo menos. Houve bons outros filmes antes e até longas europeus (Ex.: Quo Vadis?, Cabiria), mas nenhum teve o alcance e a repercussão deste.
É preciso ter algum bom senso e pensar que, quando estreou a fita, passaram-se apenas 50 anos da maior crise da história dos americanos, a Guerra Civil, ou Secessão como aprendi na escola, erroneamente a apelidaram no Brasil. Assim sendo, era um assunto muito falacioso e polêmico. No entanto, tecnicamente o filme nunca foi questionado e evidente que nestes moldes não decepciona.
O diretor fez de tudo o que estava ao seu alcance e o que podia ser feito numa fita da época e de época, inclusive recursos narrativos hoje meio fora de moda, só para exemplificar: a tela dupla, máscaras, vinhetas, uso de íris, etc. E, também na edição, que conta com uma variedade de planos inéditos até então.
Dividido em duas partes, a primeira termina com o assassinato de Lincoln e é na segunda que os “homens do clã” é que passam a ter a maior importância na premissa.
| LILLIAN GISH |
“O Nascimento”, desde o princípio, faz o paralelo entre duas famílias; uma nortista, Os Stoneman, e uma sulista, os Cameron – sugerido por Thaddeus Stevens. E os problemas começam quando Phil Stoneman (ELMER CLIFTON) e Margaret Cameron (MIRIAM COOPER) se apaixonam. Chega a guerra e, com ela, os problemas. A casa dos Cameron quase é destruída enquanto os homens estão na guerra. É logo após a morte de Lincoln, que não desejas vingança, que surgem os problemas para o sul e é, por isso, que Ben Cameron ( HENRY WALTHALL) concebe a idéia da Ku Klux Klan: para proteger “a terra sulista”, inclusive por causa de Silas Lynch (GEORGE SEIGMANN), um mulato que não é leal a ninguém e seria um mau sujeito. É dele que vem a palavra “linchamento”. Eles acabam se organizando, passando por vários incidentes e o filme termina dando a impressão que haverá uma ressurreição do Sul branco com os negros desarmados e sem direitos. É lamentável. Tudo obra dos bons sujeitos da Ku Klux Klan. Fica, então, o dilema e a conclusão: nem todo artista tem de ser necessariamente uma grande alma, um herói.
O pai do cinema, ironicamente, era um racista desgraçado com grande habilidade de manipulação, de contar histórias. Griffith sabia muito bem aproveitar inovações e criar a linguagem de uma nova arte, nascendo com a “sua nação”. É uma das grandes contradições e ironias com que o cinema, como arte e espetáculo de massas, mídia, tem que conviver.
EUA- 1915 - MUDO
DRAMA/GUERRA
STANDARD
187 min.
PRETO E BRANCO
Coleção D.W.Griffith
✩✩
D.W.GRIFFITH´S
THE BIRTH
OF A
NATION
Estrelando LILLIAN GISH
HENRY B. WALTHALL. MIRIAM COOPER. MAE MARSH
RALPH LEWIS. GEORGE SIEGMANN. SPOTISWOODE AITKEN
ELMER CLIFTON. ROBERT HARRON. DONALD CRISP
EUGENE PALLETTE. RAOUL WALSH e WALTER LONG
Produzido por EPOCH – D.W. GRIFFITH
Fotografia de G. W. BITZER
Música de JOSEPH CARL BREIL e D.W. GRIFFITH
Montagem por D.W.GRIFFITH
JOSEPH HENABERY. JAMES SMITH
ROSE SMITH. RAOUL WALSH
Roteiro de D.W.GRIFFITH e FRANK E. WOODS
A partir da obra de THOMAS DIXON
Dirigido por
D.W.GRIFFITH
By Epoch Producing Corporation – D.W.Griffith corp.








5 comentários:
Obra-prima que preciso rever. Tenho em minha coleção e guardo com carinho.
Abraços
Rodrigo, PARABÉNS por esse magnifico Post.
Cara FELIZ aquele que teve o privilégio de assistir essa obra prima do cinema.
Que eu seu, já foi usado até como tese de mestrado e doutorado... por ai já vai vendo a dimensão da obra.
Não importa realmente a intenção original do diretor, autor etc... o filme é perfeito. Hoje além de ser apreciado por ser uma relíquia, ainda choca por seu conteúdo inteligente e polemico. Não tenho palavras para definir minha admiração por ele. Parabens pelo post mais uma vez,
Abração
é um dos primeiros grandes épicos. excelente. pena que é racista. Cumprimentos cinéfilos!
O Falcão Maltês
Ainda não assistti a esse grande clássico do cinema.
Renato: Tb tenho em minha coleção e como todo colecionador guardo com carinho e cuidado, mas o conteúdo do filme me deixa triste.
Abs.
Jefferson: Obrigado meu caro!
Não diria conteúdo inteligente pela posição racista, mas sem dúvida é um filme dinossauro. Dominante na narrativa da sétima arte. Ame ou odeie, todo bom cinéfilo e estudioso tem que assistir e analisar O Nascimento de Uma Nação.
Já li muitos trabalhos acadêmicos sobre. Curiosos e interessantes.
Abraço!
Antonio: É isso mesmo cara! Uma pena, ironia do cinema.
Abç.
Gilberto: Foi avisado do conteúdo, mas é indispensável. Precisa assistir.
Grande abç.
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