SESSÃO DINOSSAURO
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A LENDA DO CINEMA BRASILEIRO
LIMITE é uma poética fantasia sobre três náufragos num barco.
É o filme mais lendário do cinema nacional. Única obra cinematográfica de seu autor que viveu isolado a maior parte de sua vida em uma ilha na baía de Guanabara. MÁRIO PEIXOTO (1908-1992) não lançaria nunca mais outro filme.
Durante a adolescência na Europa, Peixoto foi bastante influenciado pelo movimento do cinema francês (Avant-garde). Chegou a deixar dois filmes inacabados nos anos 30 (ONDE A TERRA ACABA e MARÉ BAIXA), portanto não podemos considerar tão bruscamente que ele nunca se envolveu em outra obra no cinema, mas de fato nunca lançou outro filme.
Também publicou o roteiro de A ALMA SEGUNDO SALUSTRE. Ameaçado de destruição, LIMITE foi salvo e restaurado graças aos esforços do professor Plínio Sussekind Rocha. Sua estreia original foi limitada até a sua apresentação especial, em maio de 1982.
Não é exagero, além de esta fita ser uma lenda sendo o filme mais famoso do cinema brasileiro e mesmo que sua notoriedade tenha vindo das lendas sobre sua mítica qualidade, este filme é uma relíquia de museu cinematográfico. Um dos primeiros registros de cinema em nosso país. No fundo, o filme é um anacronismo. Uma experiência que morreu no silêncio posterior de Peixoto, um cineasta de um filme só, que considero europeu de sensibilidade e brasileiro de paisagem. Faz-me pensar que esta sua única obra lançada seja o divisor de águas de muitos filmes internacionais por aí, da mesma época. Por que não pensar que um Eisenstein não tenha visto o filme?
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| Relíquia nacional. Um filme que precisa ser apreciado. |
A fita é visivelmente influenciada pelas vanguardas do fim da década de 1920, incluindo o próprio F.W. Murnau e Pudovkin. Ainda hoje é um filme muito bonito e o chamo de “O único filme expressionista brasileiro.” Eu amo este filme. Acho-o sensível, além de belo e também etilista sem dúvida. Alguns críticos como Saulo Pereira de Melo o descreve: “Uma tragédia cósmica; um grito de angústia; uma lancinante meditação sobre a limitação humana.” E não tem como negar, é fácil se emocionar com o filme e com toda a sua extrema plasticidade das suas imagens abordando as histórias das mulheres, principalmente a primeira, fugida da prisão e prisioneira de sua máquina de costura.
Aparentemente, “Limite” não tem uma premissa. Três náufragos em um barco, de forma enigmática (seria o barco a morte?), o passado das personagens acontece com descrente interesse.
Provavelmente muitos de nós cinéfilos já estejamos desacostumados com o cinema mudo e o que ele proporciona e quer dizer. Seu significado é uma coisa só, mas compreendemos de várias maneiras soltas. Também, podemos estar meio fora de forma para entender melhor sua expressão somente musical (a trilha musical com trechos de obras famosas não ajudam muito), depois de experimentarmos com frequência o barulho da sonorização, mas o fato é que a história do homem não consegue escapar do piegas quando tem a revelação em pleno cemitério – e nos dois únicos letreiros da fita- de que a amante era morfética!
No término de seus 120 minutos o tédio já pode ser um companheiro para alguns expectadores, eu até que suporto bem, e pode chegar ao ponto de perturbar o entendimento do final (a arrebentação das ondas seria um naufrágio do qual há apenas uma sobrevivente). Contudo, nada impede que uma obra de arte (prima) seja monótona e “Limite” é indiscutivelmente uma obra fantástica. Mesmo que a tendência seja creditar a maior parte do mérito ao trabalho de fotografia, ainda atualmente excepcional, do fotógrafo Edgar Brasil, que foi indicado por Adhemar Gonzaga, segundo meu professor do curso de cinema Walter Webb, e na aula ele me disse que Brasil não aceitou dirigir o filme. Mas é preciso se ter em conta que, em 1930, o cinema brasileiro era nulo em recursos. A montagem suave e poética, Peixoto deve ter aprendido por seus próprios méritos, seguindo seus instintos da sétima arte, assim como: a condução bastante contida dos atores. LIMITE sofre por culpa de sua lenda, ainda assim é certamente um dos filmes mais bonitos e poéticos que o Brasil já fez. A única sessão–dinossauro fossilizada de nossa terra.
BRASIL -1931- MUDO
DRAMA
120 min.
PRETO E BRANCO
LIVRE
CINÉDIA
FUNARTE (VHS)
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
Um filme de MÁRIO PEIXOTO
LIMITE
OLGA
BERNO
RAUL
SCHNOOR
TACIANA REY
MÁRIO
PEIXOTO
CARMEM
SANTOS
BRUTUS
PEDREIRA
RUY
COSTA
IOLANDA
BERNARDES
Câmera
....... RUI SANTOS
Diretor
de Fotografia ....... EDGAR BRASIL
Produzido,
Escrito e Dirigido por
MÁRIO
PEIXOTO
Limite ©1931 Cinédia by
Mário Peixoto










9 comentários:
Ótima homenagem.
Um marco do cinema nacional que assisti anos atrás e preciso rever e possuir em minha coleção.
Abraços
www.renatocinema.blogspot.com
É um marco mesmo, na matéria Cinema Brasileiro, meu professor dedicou uma aula inteira só para esse filme. Você descreveu bem a essência de Limite.
bjs
É um filme visualmente belo. Peixoto tinha futuro.
O Falcão Maltês
Como de fato não é de se espantar, eu com certeza sou mais um brasileiro que NÃO conhecia esse filme nem de ouvir falar. Lamentável...
Aonde você conseguiu essa relíquia? Eu quero...
Abração
Um filme clássico!
Registro de suma importância para o cinema nacional.
Jefferson: eu só vi o filme durante aulas num curso de cinema que fiz em 2006. Procuro até mesmo pelo VHS!
Obrigado à todos!
Abraços.
Acredita que não assisti? Vergonhoso, eu sei. Todos os meus amigos dormiram enquanto viam, mas tenho curiosidade e na próxima oportunidade, garantirei uma boa noite de sono e algumas doses de café antes da sessão xD
abraço!
Não conhecia o filme, Rodrigo. Bacana. Interessante mesmo, fiquei hiper curioso para conferir!
Como é que eu não conhecia este filme?!
Amei a dica!!!
Já está na minha lista
;D
Excelente texto. Mais uma vez parabéns. Seu blog é realmente excelente. Fiz um post e coloquei (novamente) o filme Limite para ser visto on line no link:
http://telecinebrasil.blogspot.com.br/2011/05/unico-filme-concluido-do-diretor.html
Grande abraço.
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