quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

PEDRO ALMODÓVAR | DE SALTO ALTO

SEM QUEBRAR O SALTO!

Depois de 15 anos, mãe retorna para encontrar a filha e ambas tentam concertar um relacionamento tumultuado e distante. O filme esquenta com a seguinte questão: o que pode acontecer quando uma filha se casa com o amante da mãe? É isso, mãe e filha se descobrindo através de segredos que serão revelados. Direção: Pedro Almodóvar (Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos).

Esse é um dos grandes filmes do espanhol ALMODÓVAR, aqui já consagrado por ter realizado filmes como “Mulheres à Beira...” (1988) e Ata-me! (1990), mas infelizmente DE SALTO ALTO (Tacones Lejanos, 1991) não teve uma boa distribuição no Brasil. Se alguém achar uma edição em DVD ficaria grato, até então, vi que esta fita foi lançada pela Top Tape, em VHS, na década de 1990, inclusive numa edição curiosa pela Revista Caras em sua série Ouro volume 3, que conta com uma interessante matéria sobre a espanhola VICTORIA ABRIL (de outros filmes curiosos como “Sem Notícias de Deus”, 2001, de Agustín Díaz Yanes onde divide o filme com Penélope Cruz), segundo Lúcia Nagib em sua crítica da Folha de São Paulo de 1992: “A atriz que se tornou especialista em representar a perversão da ingenuidade.” Faço coro a esta afirmação, além do que, Victoria, dentre todas as “Chicas de Almodóvar” tenha sido realmente a mais sádica, safadinha, pervertida e ingênua em todos os filmes. Em “Ata-me” fazendo par romântico com Antonio Banderas, passiva a um amor estranho que se constrói através do sexo e da dor, também como a jornalista, ex-psicóloga, Andrea Caracortada, vestida de marciana, totalmente pirada, em KIKA (1993) que acha que esta fazendo serviço de utilidade pública invadindo as intimidades das pessoas, isto é, de um modo cruel, aviltante (sobretudo para ela mesma e é só reparar nos figurinos da personagem) em busca da verdade e da audiência. Enfim, Victoria foi melhor que Carmem Maura ou Penélope Cruz neste aspecto, se bobear a única que se encaixa perfeitamente. Aqui, sem sair do salto, a atriz entrega uma brilhante interpretação como a filha carente e um tanto sínica de MARISA PAREDES, que retorna depois de quinze anos. 


Paredes é Becky Del Páramo, uma dona de casa que resolve seguir os sonhos, ser uma cantora e atriz de cinema pop, mesmo que para isso tenha que abandonar a filha pequena e os pais para investir totalmente em si e numa carreira internacional. Essa mulher, distinta nos moldes de Almodóvar com todas aquelas cores fortes e berrantes (mesmo vestindo preto), faz aquela visita breve à família, inesperada e melodramática na qual Almodóvar tempera com o melhor que existe em uma premissa de soup opera mexicana, ou seja, com lágrimas que não borram a maquiagem, mas com muito humor, o que lhe é típico. Paredes, do seu modo habitual (e no auge da beleza sexy), faz uma ótima mãe e amante que é obrigada a encarar o homem que foi a paixão de sua vida (Feodor Atkine) casado exatamente com sua filha (Abril), agora, imaginem a situação?


Almodóvar consegue segurar a audiência revelando segredos em um excelente flashback que a personagem de Abril faz quando espera a mãe no aeroporto, sentada e pensativa. Na montagem, Almodóvar muda como ninguém o tom de seu filme. Na medida em que a história retorna à atualidade e o reencontro é notável, tudo vai se intercalando: Paredes e a aparição de outra figura, Juez Domínguez, deixam o filme leve. Todavia, o filme passa para o gênero thriller policial quando aborda o mistério da morte do padrasto da protagonista, anos atrás, que logo é revelado pela mesma (Abril de um jeito mais corajoso e menos indefeso) que acontece ao longo da fita. Com isso, Almodóvar manipula muito bem o tempo que passamos ao ver o seu filme. Somente ele tem esse poder de colocar tantas sub-tramas que convergem de um modo surpreendente, sem perder o foco.

Os acontecimentos são interessantes e nem um pouco óbvios dentro da filmografia do diretor como poderá parecer. Há um momento formidável entre mãe e filha, Paredes como Becky em sua primeira noite de volta a Espanha, na qual acompanha a filha e o marido (seu ex) ao show do transformista “Letal”, o ótimo MIGUEL BOSÉ que é a cereja do bolo neste filme. Fazendo três papéis (Domínguez, Hugo e o travesti), ele consegue enganar perfeitamente com os diferentes e caricatos personagens que aparecem em situações episódicas. Tem vários momentos notáveis do ator, como por exemplo, ele interpretando a personagem de Paredes em moldes da década da revolução sexual com a música “ Um Año de amor”. Na verdade Bosé também é cantor e faz isso sem ser dublado como aconteceu com Gael Garcia Bernal em Má Educação com “Quizás, quizás” de Montiel.

O filme segura o conflito na tensão de que Manuel (o desconhecido Atkine) é marido de Rebeca (Abril) que não tem coragem de dizer à Becky, que fica boa parte da trama sem saber da verdade. O público sim, e espera aquela discussão entre mãe e filha, isso pelo fato do cara ter sido o grande amor na vida da mãe dela. É extremamente passional todo o universo que Almodóvar vai costurando, fala de amores egoístas, das aventuras sexuais dessas mulheres (Abril e Bosé enquanto travestido de mulher transando é algo inesquecível) e de revelações doloridas. O retorno é um tema que o cineasta buscou novamente anos mais tarde com “Volver” (2006) na qual a mãe precisa renascer para conseguir o perdão da filha. Mas aqui, a filha também precisa se redimir com a mãe e tem um segredo aí que não vou contar ... que só as duas irão revelar!

Almodóvar continua temperando as cenas de "amor"
O filme é lindamente bem humorado, muito embora a fita levante várias outras questões emocionais, internas e mais psicológicas entre as personagens, mas sabemos do que Almodóvar é capaz e o que ele almeja é divertir o público mostrando o universo travesti em boates, as cenas de sexo, sempre uma marca registrada e, sobretudo o jeito atrapalhado de Paredes, aqui em maior evidência. Aliás, foi um grande papel de coadjuvante para ela (igualmente bom como em TUDO SOBRE MINHA MÃE, 1999) mesmo que Paredes se destaque mais como protagonista em A FLOR DO MEU SEGREDO (que é do diretor, 1995).

Não tem como não ver no filme um legítimo Almodóvar, dos bons tempos, recomendado sempre, com aquele script original (o argumento principal é somente dele) na qual caminha entre o realismo disfarçado com a paródia escrachada. A ruptura para algo mais sério surgiu a partir de Carne Trêmula (1997) e depois com A Pele Que Habito (2011).

Premiado como Melhor Direção, Música (o excelente RYÛICHI SAKAMOTO de filmes como ‘Femme Fatale’ do De Palma, ‘O Último Imperador’ e ‘O Pequeno Buda’, ambos de Bertolucci) e atriz para Paredes no Festival de Gramado (Kikito) de 1992. O longa também foi agraciado com o prêmio César de Melhor Filme Estrangeiro. Teve cinco indicações ao Goya, incluindo Melhor Montagem para José Salcedo, colaborador antigo de Almodóvar e Atriz Coadjuvante (Cristina Marcos). Também recebeu indicação ao Globo de Ouro: Melhor Filme Estrangeiro.

É possível notar a presença de um futuro astro, JAVIER BARDEM, em uma ponta fazendo um diretor de TV. O vestido Chanel rosa que Abril usa no filme é a mesma usada pela esquisita Antonia San Juan que interpretava o travesti Agrado em Tudo Sobre Minha Mãe.

A tradução literal do título em espanhol para o inglês (High Heels) é “saltos Distantes” (no espanhol “Sapatos de salto alto”) que é o significado de que Tanto Rebeca como Becky referem-se ao relembrar o passado. Houve uma confusão entre o público americano e britânico que esperavam por um filme sobre moda.

Recomendo esta dramédia de Almodóvar. Sem quebrar o salto, um dos mais bad boys diretores de cinema que surgiu do underground, realiza um filme magnífico que se permite ousado e sem medo de parecer piegas onde o feio pode ser bonito, o bizarro apenas algo engraçado e o salto cada vez mais longe elevando os calcanhares.



ESPANHA/FRANÇA – 1991
COMÉDIA/DRAMA/ROMANCE
NÃO DISPONÍVEL EM DVD
113 min.
COR
✩✩✩✩✩ EXCELENTE

EL DESEO apresenta
Em colaboração com CANAL + TF 1 FILMS PRODUCTION
       Uma co-produção El Deseo S. A. - CIBY 2000

A L M O D Ó V A R
TACONES
LEJANOS
Estrelando: VICTORIA ABRIL
 MARISA PAREDES
MIGUEL BOSÉ
PEDRO DIEZ DEL CORRAL
 FEODOR ATKINE
ANA LIZARAN
MIRIAM DIAZ AROCA
CRISTINA MARCOS
 JAVIER BARDEM
Com: BIBI ANDERSEN   e NACHO MARTÍNEZ
Música de RYÛICHI SAKAMOTO
Direção de Fotografia  ALFREDO MAYO
Montagem JOSÉ SALCEDO     
Direção de Arte PIERRE THEVENET
Figurinos de JOSÉ Mª DE COSSÍO
Produtor Executivo
AGUSTÍN ALMODÓVAR
Produtor Associado
ENRIQUE POSNER
Roteiro e Direção 
PEDRO ALMODÓVAR
Tacones Lejanos © 1991 EL DESEO S.A.

6 comentários:

renatocinema disse...

Adoro as dramédia (bela definição) de Almodóvar.


Seu estilo bem humorado me agradou quando assisti essa obra anos atrás. Preciso de uma nova visita ao longa.

Antonio Nahud Júnior disse...

Preciso revê-lo. Lembro que gostei muito na época. A Abril é uma das minhas atrizes favoritas.

O Falcão Maltês

Rodrigo Mendes disse...

Renato: Se você achar uma cópia me avise. Obrigado pela presença.
Abs.

Antonio: Também gosto da Abril.
Abç.

Júlio Pereira disse...

Almodóvar é mesmo excelente em melodramas. O problema dele, às vezes, é não saber equilibrar o drama e humor em suas obras, resultando em obras ruins. Mas são casos raros, claro. Sou fã dele, acho um cinema original, autêntico, de autor. Meu favorito, aliás, você citou na crítica: Carne Trêmula. Acho eletrizante. E A Pele que Habito é, pra mim, o segundo melhor filme do ano passado. Esse De Salto Alto eu verei, com certeza, mesmo porque tenho ele. Me falta tempo, vontade não!

Rodrigo Mendes disse...

Quais seriam os filmes na qual ele não soube equilibrar comédia e drama na sua opinião Júlio? Esta na fase mais antiga? "Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos" ou "O Que eu Fiz Para Merecer isso?"

Infelizmente me decepcionei com A Pele Que Habito.

"De Salto Alto" tem ótimo ingrediente de um legítimo Almodóvar. Creio que irá gostar.

Abs.

Karla Hack dos Santos disse...

Eu vi este fime por acaso mesmo...
Estava em casa, numa destas madrugadas perdidas, e esbarrei com o filme passando em um canal pago...
Adorei!!
Desde a relação conturbada entre mãe e filha até a cena de sexo nos bastifores do show de Letal - a cereja da elícula mesmo - encantam e confundem..

Bem estilo do diretor mesmo...

;D

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