A JUVENTUDE CINEMATOGRÁFICA DE KUBRICK
Gangue de mafiosos planeja assalto ousado em um jóquei clube. Apesar de o plano ser perfeito e planejado com muita cautela, algo dará errado.
Em sua juventude, o lendário cineasta STANLEY KUBRICK (1928-1999) ganhava a vida jogando xadrez profissional. Era fotógrafo na Revista “Look” onde deixou uma coleção de fotografias famosas por serem de fato geniais. Eis que o nosso querido mestre do cinema já disse uma vez: “O cinema é uma fotografia da fotografia da realidade.” Não demorou muito tempo para que o “adolescente sério”, Kubrick, iniciasse a sua verdadeira paixão, trabalhar na sétima arte dirigindo filmes. Suas fitas não passam de fotografia com pouco movimento e takes fantásticos, a sua marca registrada. De forma lindamente estruturada, com um roteiro corajoso e impecável, o jovem Kubrick realiza o seu terceiro longa metragem (os primeiros foram “Medo e Desejo” de 1953 e “ A Morte Passou Por Perto” de 55. Havia dirigido os documentários ‘Padre Voador’ e ‘ Day Of The Fight’ ambos de 1951 e o curta metragem que foi descoberto e relançado depois de ficar perdido há mais de 40 anos: “Os Marítimos” (The Seafarers, 1953). Em “The Killing”, Kubrick adota uma técnica narrativa revolucionária e que certamente se tornou uma das maiores fitas sobre crime em todos os tempos. O filme tem um tom noir e uma estupenda fotografia em preto e branco do ótimo LUCIEN BALLARD (1904-1988) que fotografou outros clássicos imperdíveis como “Bravura Indômita” de 1969 com John Wayne e “Meu Ódio Será Sua Herança”, no mesmo ano, dirigido por Peckinpah. Kubrick havia fotografado e editado seu filme anterior (Killer´s Kiss), mas aqui faz uma excelente parceria com Ballard que se consagra totalmente, em minha opinião, seu melhor trabalho como cinematógrafo. Sem mais. O filme é também o início da parceria do diretor com o produtor JAMES B. HARRIS que faria com ele posteriormente o excelente GLÓRIA FEITA DE SANGUE (1957) e o polêmico LOLITA (1962).
A premissa é sobre um ex-presidiário chamado Johnny Clay, interpretado por STERLING HAYDEN (1916-1986) que trabalharia com Kubrick em Dr. Fantástico. Hayden cria um curioso personagem e deixa registrado seu melhor momento no cinema. O perfeito anti-herói em clima de suspense policial que apresenta um grande plano aos colegas mal feitores. Evidente que o clã aceita participar da arriscada aventura, o roubo a um jóquei clube e o “pagamento” equivale a um total de 2 milhões de dólares! Neste plano perfeito, o golpe do ano, ninguém sairia ferido e o assalto ocorreria na maior descrição. Apesar do planejamento cauteloso e minucioso, um dos bandidos, George Peatty, o ótimo ELISHA COOK (1903- 1995) de outras obras conhecidas: Relíquia Macabra [ O Falcão Maltês] (1941) À Beira Do Abismo (1946) e O Bebê De Rosemary (1968) deixa escapar o plano quando decide contar para a esposa Sherry Peatty, interpretada pela vamp e fatal MARIE WINDSOR (1919-2000), que faz uma mulher ardilosa e ambiciosa, que além de tudo é amante de outro homem (o ótimo VINCE EDWARDS) e que de modo traiçoeiro pretende roubar o grupo macho man com seu toque feminino, ou seja, como diz na capinha: “ela planeja um golpe só seu...” Kubrick tempera as cenas de Marie com as melhores antecipações do suspense, tão digno quanto Hitchcock.
Os diálogos adicionais de JIM THOMPSON deixam a história ainda mais interessante, o que é impossível desviar o olhar da tela.
O filme caminha para desfechos espetaculares, não somente a sequência do assalto no jóquei, contada de vários pontos de vista (adoro o momento de Timothy Carey um pistoleiro malvado que tem que acertar um cavalo e discute com um empregado negro. Carey também estrelou ‘Glória Feita de Sangue’ e apesar do papel pequeno, é marcante) que é sensacional, mas pela maneira que as personagens avançam no plano e o clímax depois do assalto. Será que o herói cafajeste vai se safar com a grana?
Da maneira como Kubrick narra o seu filme e o aspecto visual que ele realiza, alguns cinéfilos relacionam O Grande Golpe com o lendário “Scarface – A vergonha de Uma Nação” de Howard Hawks com Paul Muni (1932 – depois refilmada por De Palma em 1983 com Al Pacino), justamente por retratar no mesmo clima e tempero o universo gangster, um dos gêneros mais fantásticos do cinema hollywoodiano dos anos 1930. Também é por que a fita de Kubrick não apresenta mocinhos, como é de costume neste âmbito mafioso, o público torce pela pessoa errada e com os valores distorcidos, porém questionáveis, ainda mais quando os diretores apresentavam o lado humano dos vilões.
A fita é também o primeiro trabalho adaptado de Kubrick que depois adotaria fielmente a fórmula em todos os seus maiores clássicos. Foi baseado no romance “Clean Break” de LIONEL WHITE. O filme foi rodado em 24 dias e a diretora de arte, que por sinal faz um excelente trabalho, RUTH SOBOTKA, era casada com Kubrick na época. Apesar de jovem, o diretor já tinha a sua obsessão pelo perfeccionismo. Em um momento das filmagens, ele teve que atrasar o trabalho para esperar Marie Windsor concluir outro filme, que era o primeiro do lendário diretor Roger Corman: “Mulheres do Pântano” (Swamp Woman, 1956 - Filme B).
Para o papel principal também foram considerados Victor Mature e Jack Palance que inicialmente chamava-se “Day Of Violence”. Como Kubrick achou simples demais e sem impacto mudou para “Bed of Fear”, que mais tarde encontraria um ótimo e melhorado título em “ A Matança” (The Killing), mas a tradução nacional também sugere uma história chamativa, sobre esses estúpidos homens fora da lei que são enganados por uma mulher. "O grande Golpe" foi mais dela.
Foi este filme que fez Kirk Douglas contratar Kubrick para o seu projeto sobre a Primeira Guerra Mundial e as trincheiras da morte que se tornaria no emocionante e tenso “Glória Feita de Sangue”. Douglas disse que ficou impressionado com o trabalho técnico de Kubrick e o cuidado detalhista do visionário cineasta. Na verdade é aquilo que todos nós já sabemos, a visão realista que Kubrick adotava em seus filmes, até mesmo nos mais fantasiosos e o trabalho cru de sua câmera e o enquadramento perfeito. Além do que, os movimentos da câmera eram feitos na medida certa para mostrar uma situação chave ou plot de virada da premissa que culmina na principal direção em toda sua obra. Kubrick foi um dos poucos que soube separar muito bem roteiro, enquanto roteiro, da imagem enquanto imagem. O que era texto ficava visível nos diálogos e nada mais do que isso, sem misturar estupidamente no que estamos assistindo ou explicando posteriormente o que acabamos de ouvir ou ver. O que era imagético, por exemplo, simplesmente criava quando rodava, planejando a iluminação correta. Portanto, na minha visão, os filmes de Kubrick nunca apresentam artifícios fáceis que desviam idiotamente a atenção do espectador. Sempre ficamos entorpecidos com o que os personagens estão dizendo e o que é mostrado ao fundo, na perspectiva, e depois dito em imagens que não necessitam de um script. Cada função é dentro de uma linha que segue reta e paralela, nunca se hibridizam.
São notáveis todos esses elementos narrativos cinematográficos na fase adolescente de um futuro mestre da sétima arte. Stanley Kubrick já dirigia aquele filme que seria o melhor de todos os tempos. Assim sendo, o astuto diretor estava sempre pronto para embarcar em outra aventura e nunca fazer o mesmo filme duas vezes. Podemos chamar isso de um plano perfeito de carreira, ou mesmo um “grande golpe”, de MESTRE!
EUA – 1956
POLICIAL/SUSPENSE/DRAMA
STANDARD
89 min.
PRETO & BRANCO - FILM-NOIR
METRO
16 ANOS
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
HARRIS-KUBRICK Apresentam
STERLING HAYDEN
Co-estrelando:
COLEEN GRAY. VINCE EDWARDS
Com:
JAY C. FLIPPEN. ELISHA COOK. MARIE WINDSOR. TED DeCORSIA
Roteiro de STANLEY KUBRICK
com diálogos adicionais de JIM THOMPSON
Baseado no Romance “Clean Break” de LIONEL WHITE
Música Original de GERALD FRIED Montagem BETTY STEINBERG
Fotografado por LUCIEN BALLARD Direção de Arte RUTH SOBOTKA
Produtor Associado ALEXANDER SINGER
Produzido por
JAMES B. HARRIS
Dirigido por
STANLEY KUBRICK
THE KILLING ©1956 United Artists – M-G-M / Harris-Kubrick Productions













6 comentários:
Gosto muito desse filme. A cena final é imperdível.
O Falcão Maltês
Deve ser interessante ver Kubrick no início, já revelando perfeccionismo. Meu companheiro e amigo Wilson Antonio vive me recomendando e dizendo que é um dos melhores do Kubrick. Sou fã dele, tenho até o box em blu-ray dele, importado, lindo! Mas nunca vi O Grande Golpe. Está na listinha, junto com Glória Feita de Sangue!
Antonio: Eu tb cara. A cena final é inacreditável. Ô Azar, rs!
Abs.
Júlio: Parabéns pelo box em Blu-ray. Digno. Preciso ter o meu. Tenho todos os filmes dele (os da columbia), da coleção da Warner, os duplos e + Spartacus da Universal. Adoro!
Glória Feita de Sangue também é extraordinário. As cenas nas trincheiras da morte é de deixar entorpecido. Assista LOGO!!
Todos os detalhes caminham para o desfecho genial!
Minha irmã é super fã deste filme...
Um ótima pedida!
;D
ÓTIMO texto. Cheio de curiosidade e que consegue dizer exatamente o que é o ótimo filme do mestre Kubrick.
Não conhecia esse filme, assisti pelo especial do Ccine e adorei, tudo. Recomendo para quem não assistiu ainda esse inicio da genialidade de um dos maiores cineastas de todos os tempos.
Concordo com o colega acima: ótima postagem, cheia de curiosidades. Ainda não vi este filme, mas pretendo. E é curioso topar com essa postagem hj, pois ontem revi Lolita e estou resenhando, no momento, "2001" de Arthur Clarke.
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