NA ESTRADA
Moça rica e mimada foge do pai e na estrada é ajudada por um jornalista falido que está louco por um furo de reportagem. Ambos fazem um acordo, mas o que não estava nos planos de viagem era se apaixonar.
Frank Capra (1897-1991) foi certamente o diretor americano mais influente. Vejo na obra de cineastas como Steven Spielberg muito de seu estilo, ou seja, aquele olhar mais popular e descontraído, diferente da América e seja nos mínimos detalhes e às vezes com certa descrição. O cinema de Capra é de uma naturalidade contagiante e quando assistimos qualquer fita sua, sentimos que estamos em um lugar menos padronizado do sistema de Hollywood. No auge da Depressão Econômica da turbulenta década de 1930, não houve outro diretor de cinema com maior sucesso e predileção do público do que Capra. Ele era o único que tinha carta branca de ter o seu nome acima das titulagens, além do que, à época era o único diretor de maior destaque em um estúdio pequeno, ainda em ascensão a Columbia Pictures. Lá ele tinha total liberdade de ação e criou os maiores clássicos que se tem notícia: A FELICIDADE NÃO SE COMPRA ( It´s a Wonderful Life, 1946) e A MULHER FAZ O HOMEM (Mr. Smith Goes To Washington, 1939 – meu favorito), ambos estrelados por Jimmy Stewart, são grandes filmes populares, verdadeiras tortas de maçãs para os americanos. Capra tem uma obra fantástica, é dele também o apaixonante HORIZONTE PERDIDO (Lost Horizon, 1937) com Ronald Colman e Jane Wyatt, outra fita que falava de pessoas comuns, que se esqueciam das diferenças para se unirem em um mesmo ideal. Ainda dirigiu doçuras como; O GALANTE MR. DEEDS (Mr. Deeds Goes To Town, 1936) com Gary Cooper e Jean Arthur; ADORÁVEL VAGABUNDO (Meet John Doe, 1941) também com Gary e o divertido DO MUNDO NADA SE LEVA (You Can´t Take It With You, 1938). São filmes ingênuos? De fato, mas são retratados lindamente e são inigualáveis, já que os filmes de Capra atingiram o espírito democrático de um país, a confiança do poder e o homem comum sendo sempre o protagonista das histórias. Com isso, Capra modificou e solidou o cinema americano de tal forma que é notável até nos dias atuais sua influência.
Podemos afirmar que ACONTECEU NAQUELA NOITE (It Happened One Night, 1934) com o casal CLARK GABLE (1901-1960) e CLAUDETTE COLBERT (1903-1996), além de ser considerada como a melhor comédia romântica de todos os tempos (o que aconteceu com este gênero atualmente?) foi o seu primeiro grande sucesso e acabou ganhando os principais Oscars (primeira vez que aconteceu na história da Academia) Filme, Direção, Roteiro, Ator e Atriz. Aliás, o script é assinado por um craque, o ótimo ROBERT RISKIN (1897-1955) que trabalhou com Capra em seus principais filmes. Mas o argumento original é de SAMUEL HOPKINS ADAMS (1871-1958), um artesão da escrita que também precisa ser lembrado.
O clima de “Aconteceu...” é uma delícia e com este filme Capra mostra que as aparências enganam já que subvertem os valores humanos automaticamente. A premissa é sobre um jornalista chamado Peter Warne (Gable) que além de falido não tem papas na língua. É surpreende assistir Gable neste filme. Apesar de manter o seu jeitão habitual, aqui ele é menos machão e mais vulnerável ao seu par romântico, além de ser um alívio ver que ele não estapeia a mocinha. Claro que o prefiro em clássicos como E O VENTO LEVOU (Gone With The Wind, 1939), mas este filme é provavelmente onde ele mais se destaca justamente por vestir um personagem um tanto diferente do que havia feito antes e depois. Temos também a moçinha, Ellie (Colbert) uma garota mimada e tola, que não conhece o “mundo real” e que está em plena fuga: fugindo de casa e do pai. Os dois se conhecem na estrada e o destino é uma colaboração que termina em romance. Ele que esta com problemas financeiros e com uma apresentação de homem completamente pé-rapado vivendo nos anos da Depressão, e ela uma riquinha, não sabe andar sozinha. Assim sendo, um passa a explorar o outro. Isto é, para ele, acompanhar uma garota procurada por um homem influente (noticiada em todos os jornais) significa uma grande matéria que salvaria sua carreira que está por um fio, já para ela ele é uma maneira segura de conseguir chegar ao destino: a cidade de Nova York, já que ela conhece praticamente nada da classe operária durante a viagem e mal sabe lidar com as pessoas deste mundo tão diferente do seu. Apesar de arrogante com o pai no início da fita, Ellie é insegura e boba perante alguém como Peter. É incrível a maneira como Capra vai contando esta história e como que ao decorrer da trama, eles passam de antagonismo, aquela chatice de casais que irão se apaixonar (na verdade já flertando e apaixonados inconscientemente) ao amor irresistível que faz com que as pessoas façam tolices. Com isso, este filme poderia ser uma das milhares de comédias românticas que existem, mas não é. Tem um tempero diferencial por ser pura magia cinematográfica de Frank Capra, mestre em mostrar as facetas humanas lidando com as aparências.
Capra sabe evocar um meio popular dos Estados Unidos Da América que apresenta trapaceiros disfarçados e cidadãos de boa índole que compartilham histórias, emoções e até mesmo canções! A cena musical no ônibus é de um envolvimento contagiante. O filme sabe também exibir excentricidades, mas com equilíbrio, Capra é cuidadoso e sabe fazer isso com os personagens coadjuvantes mostrando quem eles realmente são, explorando com exceção, por exemplo, o pai de Ellie, Andrews, o ótimo WALTER CONNOLLY (1887-1940), à primeira vista, pelo olhar da heroína, era uma sujeito tradicional e intragável, porém não só descobrimos que ele é um homem honesto e simpático como também um conselheiro e paizão. Gostamos deste senhor quando Capra revela o personagem. Assim acontece com o oposto inacreditável, outro personagem secundário interpretado por ROSCOE KARNS (1891-1970), Shapeley, o sujeito que aparece no ônibus durante a viagem, aquela mala sem alça que não para de falar, se mostra um asqueroso canalha a fim de faturar uma grana com a garota (quando uma recompensa pelo resgate é estipulada no jornal). O seu castigo é lidar com um heroico Gable que para defender sua protegida (além de tudo acaba intitulando-se o tutor dela), assusta o inescrupuloso tagarela em uma cena de rachar o bico.
O filme se sobressai com o estilo inconfundível do diretor que tecia como ninguém um filme que começa com pretextos simples, mastigados, gostosos de ver e completamente familiares. É no cinema de Capra que a plateia presenciou pela primeira vez as gírias, as refeições nada chiques, a fila para tomar banho (Colbert engraçada naquela sequência) e até mesmo um ronco incômodo que faz a mocinha mudar-se para outro assento. Mas nada se compara quando o casal tem que trocar de roupa no quartinho!
Outro ponto alto são as insinuações que culmina em uma cena fantástica onde mostra Peter e Ellie fingindo serem casados. E quase não acreditei quando assisti ao filme pela primeira vez. Era mesmo de 1934? “Aconteceu...” é basicamente o avô do subgênero trash da comédia já que há piadas infames das mais surpreendentes ao longo do celuloide. Piadas que até fazem analogia ao sexo com aquele tom espertinho e travesso.
Colbert mostra suas belas pernas na cena que se tornou antológica com o intuito de pedir carona. O que parecia impossível para o homem apaixonado. Como uma garota criada no privilégio e etiqueta seria capaz de aprontar assim? Certamente Claudette para o trânsito e pode muito bem competir com a diva Marlene Dietrich.
O mais engraçado no filme é a forte ligação do casal que vive uma tensão sexual que se mantêm paciente durante as quatro noites neste entorpecente Road-Movie. E no filme este conflito da atração é simbolizado pelas “Muralhas de Jericó”, uma parede de lençol improvisada em um varal para separar os pombinhos e assim tornar aquelas noites chuvosas nos quartos de motéis mais seguras.
A mise-em-scène de Capra continua inabalável. Ninguém conseguiu imprimir tamanha naturalidade que funcionava por um artifício convencional. Sim, apesar de seus filmes serem os antepassados do universo realista, quebrando tabus e preconceitos, ainda mantinham aquela tradição clássica que hoje em dia quando tentam realizar, fracassam quando tudo soa muito artificial.
Spielberg, em minha opinião, é o que chegou mais perto da Escola Capra. Steven conseguiu manipular a fantasia com a realidade colocando muita sensibilidade na tela. Ele próprio afirmou ser um admirador de Capra!
Myrna Loy chegou a recusar o papel de Ellie Andrews porque havia feito um filme anteriormente que também se passava boa parte em um ônibus e não faz sucesso. Querendo evitar a repetição do fracasso, não deu importância ao roteiro. A estrela se F**** já que “Aconteceu...” foi um esmagador sucesso de bilheteria na época e ainda hoje é um filme cultuado. Robert Montgomery estupidamente rejeitou o protagonista masculino, dizendo que o roteiro foi a pior coisa que ele já leu. Pode? Outro que se ferrou!
Na cena em que vemos Gable na estação pela primeira vez, seus amigos o chamam de “Rei”, apelido que o galã tinha na vida real. Reza a lenda que Capra criou “As muralhas” no roteiro porque Colbert se recusava a despir-se em cena. Seu limite eram as pernas...
De qualquer forma o lençol acaba caindo e a consumação deste amor acaba sendo inevitável.
ACONTECEU NAQUELA NOITE é um marco do cinema. Ainda hoje é uma comédia de amor contemporânea... uma aventura deliciosa e o tipo de romance que aprecio na tela.
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| Para conhecermos o amor só basta um momento, uma noite, que será a primeira de várias... |
EUA – 1934
COMÉDIA ROMÂNTICA
WIDESCREEN
105 min.
PRETO E BRANCO
LIVRE
SONY
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
Columbia Pictures Corporation Apresenta
Clark Gable. Claudette Golbert
Em
IT HAPPENED
ONE NIGHT
Uma produção de FRANK CAPRA
© 1934 By Columbia Pictures Corporation
Escrito por ROBERT RISKIN
Baseado em um conto de SAMUEL HOPKINS ADAMS
Fotografado por .......... JOSEPH WALKER
Editor de Filmagem .......... GENE HAVLICK
Direção Musical .......... LOUIS SILVERS
Também Estrelando.......... WALTER CONNOLY. ROSCOE KARNS
JAMESON THOMAS. ALAN HALE. ARTHUR HOYT
BLANCHE FRIDERICH. CHARLES C. WILSON
Direção
FRANK CAPRA










8 comentários:
Texto mais uma vez brilhante, a contextualização e a didática sempre presentes em suas resenhas são fantásticas!
Preciso conhecer mais da filmografia de Capra, ainda não assisti este e para ser sincero, o meu contato com a obra dele se resume a "A Felicidade Não se Compra"...
Eu estou há anos para assistir a esse filme, mas sabe por que eu não o vejo? Pelo simples fato de ele não me encantar. Não onsigo ver o pôster, os ler resenhas, ou ver comentários, ou ler a sinopse, e achar que eu vou me entreter com o filme. Preconceito, eu sei, mas sinto a mesma coisa por outros dois filmes que você citou: "A felicidade não se compra" e "A mulher faz o homem". Estou esperando o ímpeto para simplesmente vê-los, sem pensar muito.
Se dependesse apenas do seu texto, eu decerto o veria, tão bem descrito que está, parabéns.
Também assisti há pouco tempo esse clássico. Uma das primeiras comédias românticas do cinema e o primeiro a vencer os 5 principais Oscars. Clark Gable nem imagina que sua fama ainda aumentaria depois de E o vento levou.
Obrigado Bruno!
"A Felicidade..." é o meu filme de cabeceira, apesar de muito americano.
Capra foi um grande contador de histórias.
Luís: agradeço o elogio e a confiança man! Recomendo que assista a todos esses filmes imediatamente. Capra é sempre uma sessão leve e gostosa. Comece por este. "Aconteceu Naquela Noite" é supimpa!
Abs.
Gilberto: Gable já era famoso antes mesmo de interpretar o Rhett em "E O vento Levou". Ele já era "Rei", tanto que o público exigiu que ele fizesse o filme. De qualquer forma sua fama triplicou depois desta colossal produção de Selznick.
Abs.
Seu texto é muito bom, aprendi muito sobre Frank Capra. Ainda não assisti a "Do mundo nada se leva".
Um grande abraço.
Obrigado pela visita Marcia.
Capra foi um grande cineasta.
Beijos.
Rodrigo esse filme é muito gostoso de se ver, além de grandioso clássico do cinema é assinado pelo fantástico Frank Capra. Para os fãs das atuais e bobocas comédias românticas contemporâneas esse filme é um banquete. Obra prima que não pode ser esquecida. Parabéns pelo incrível e mágico Post, essas produções merecem sempre estar presente nas páginas de blogs mundo a fora.
Abração
Mais uma vez uma otima analise ainda nao tive a oportunidade de ver os filmes desse diretor apesar de a sinopse nao me atrair muito mas esta naminha lista pra assistir.
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