sexta-feira, 20 de abril de 2012

WONG KAR WAI | AMOR À FLOR DA PELE

KAR WAI À FLOR DA PELE

Um homem e uma mulher que moram em um conjunto habitacional em Hong Kong começam a formar um vínculo quando suspeitam de seus respectivos parceiros supostamente amantes. Mais um filme envolvente do mesmo diretor de UM BEIJO ROUBADO e CINZAS DO PASSADO.


Estava revendo FELIZES JUNTOS (1997) e pensando na obra estupenda que é a do cineasta chinês WONG KAR WAI (também gosto de ZHANG YIMOU). Sua filmografia é repleta de filmes extraordinários e de imensa proposta analítica. AMORES EXPRESSOS (1994), o excitante DIAS SELVAGENS (1990), citando apenas alguns, deixam-me sem fôlego. Sou mesmo um admirador dos filmes do cara e não é exagero em denominá-lo mestre. Seus filmes podem ser lentos, mas entorpecem de uma maneira que esqueço que estou de corpo presente. AMOR À FLOR DA PELE (Fa Yeung Nin Wa, 2000) é provavelmente seu filme mais celebrado e é sempre um prazer revê-lo.

A obra ganhou os principais prêmios no Festival de Cannes: TONY LEUNG (Melhor Ator), CHRISTOPHER DOYLE, PIN BING LEE e WILLIAM CHANG – o prêmio especial pelo grande primor técnico- e Kar Wai teve uma indicação a Palma de Ouro. O Asia Pacific Film Festival deu os prêmios técnicos de Fotografia e Edição. Foi indicado a uma nomeação ao BAFTA do ano (Melhor Filme Estrangeiro). Ignorado pela Academia e Globo De Ouro burramente. Mas ganhou o César francês de melhor fita estrangeira em 2001.

Curiosamente o número do apartamento de Chow (Leung) é 2046 que se tornaria o título de um futuro filme de Kar Wai: OS SEGREDOS DO AMOR (2004). Foi escolhido pelo LES CAHIERS DU CINÉMA como um dos dez melhores filmes do ano 2000 (pra mim é de todos os tempos). As filmagens duraram exaustivos 15 meses!


O título em inglês “In The Mood For Love” foi escolhido por Kar Wai depois que ele ouviu uma música de Bryan Ferry com um título semelhante ( I´m In The Mood For Love) que é cover de uma canção da década de 1930 com o mesmo título. Por consequência a música acabou servindo para o trailer americano.

A premissa acontece na década de 1960 e ocorre em uma pensão populosa e pequena na grande Hong Kong. A câmera lenta de Kar Wai com sua magnífica marca registrada, artifício que foi recentemente utilizado por  jovens cineastas como Xavier Dolan (Amores Imaginários/Eu Matei a Minha Mãe), mostra dois vizinhos que já passavam a tanto tempo convivendo um ao lado do outro e que ironicamente (pode ser coisa de cinema...quem sabe?) suas vidas acabam se cruzando. Os olhares, o andar e todas as expressões do casal MAGGIE CHEUNG ( de Herói) e TONY LEUNG ( de Conflitos Internos) é de uma beleza irresistível, ao mesmo tempo melancólica, já que ambos estão desconfiados que seus respectivos cônjuges são amantes, mas fica a incerteza se vale a pena fazer o mesmo.


Vingança? Desejo? Paixão?  E com esses sentimentos rancorosos seria correto seguir o mesmo exemplo? Na verdade o que acontece é que ao invés de sexo, eles preferem manter conversas tímidas, jantares discretos e tudo no maior respeito. O tratamento é bem oriental, mas mesmo assim fica aquela sensação no ar...da vontade em desfrutar o que a vida proporcionou devido as trágicas consequências. 

A técnica da fita de Kar Wai neste quesito é algo que não se nota no cinema contemporâneo e vou mais longe ao dizer que não sentia tanta beleza visual até mesmo nas histórias românticas de outrora.

Ao passar do tempo, a convivência faz com que o casal traído perceba que foram feitos um para o outro. Era o destino. 

Mais uma vez Kar Wai trabalha sem um script. Provavelmente é o único diretor que consegue realizar um belo filme sem a importância de um roteiro (a produção teve que se deslocar de Pequim para Macau depois que a autoridade local exigiu ver o roteiro). Com isso ele acaba dando abertura para que a história de infidelidade se desenvolva de um jeito estranho. Reservado demais. No final, os acontecimentos narrativos acabam saindo de forma imprevisível. Fica aquele desejo da plateia em querer saborear, imaginar um romance apimentado, mas Kar Wai enxerga a sua história de maneira resignada.

Os amantes que foram feitos um para o outro ficam em órbita e compreendem que jamais poderiam conviver e reprimem este amor. “Amor à Flor Da Pele” é acima de tudo um filme que retrata um amor resistido. Sim, eles resistem à flor da pele todos os sentimentos sexuais e amorosos possíveis pelos obstáculos de uma sociedade acusadora, eles se acovardam e não ficam juntos. Não consigo enxergar na fita traços de amor não correspondido, até porque soaria muito artificial e clichê. Ainda mais visto pelo tratamento tão ousado e diferente que o diretor cria em seu filme. É para sentir o clima do filme, não há qualquer tipo de reação, por isso é um filme difícil e que facilmente pode ser tachado de chato.

Leung e Cheung até lutam para ficarem distantes e mesmo que seja uma tortura saber que eles mereciam ficar juntos. Esta angústia é algo que percorre toda a sessão. É lindo o modo como Kar Wai é capaz de transformar esse relacionamento como uma coreografia no estilo e ritmo de uma valsa. Assim como Kubrick faz um balé ao retratar a violência dos drugues em Laranja Mecânica (1971). Além do mais, a câmera capta como se fossemos voyeurs, espiando a intimidade dos personagens por detrás das portas, simbolicamente falando.


Aqui o habitual diretor de fotografia do cineasta (Christopher Doyle) ajuda a imprimir uma fantástica composição de luz e sombras. Ele ainda acompanha os protagonistas em câmera lenta (momento bastante discursivo de Amor À Flor Da Pele) e é bárbara a trilha musical: ambos nesta envolvente lentidão se cruzando nas estreitas escadarias chinesas, esquivam-se e tudo o mais...

Até mesmo NAT KING COLE é citado no filme brilhantemente. Cada cena é pródiga e consegue trazer ótimos resultados estéticos, além de sensorial, de toda uma época.

Não posso esquecer-me da elegância do casal. Cheung magnificamente vestida (ela usa um vestido diferente em cada cena. Havia um total de 46 modelos e nem todos chegaram a ser mostrados devido ao corte final. Sem contar no cabelo e maquiagem onde a atriz esperava cinco horas por dia para ficar pronta). E Leung? Um exímio cavalheiro.  Apesar da infelicidade do casal que se distanciam, torcemos para que fiquem juntos, Kar Wai realiza com eficácia o tom emocional do filme e acerta com qualidade. Apesar dos pesares acaba que não sendo uma total surpresa.

Amor À Flor Da Pele pode ser sutilmente trágico e reprimido, mas é bonito.



HONG KONG-FRANÇA/2000
DRAMA/ROMANCE
FULLSCREEN
97 min.
COR
14 ANOS
SPECTRA NOVA – EDIÇÃO ESPECIAL
✩✩✩✩✩ EXCELENTE




UM FILME DE WONG KAR WAI
FA YEUNG NIN WA
Estrelando
MAGGIE CHEUNG. TONY LEUNG
PING LAM SIU. TUNG CHO CHEUNG. REBECCA PAN
LAI CHEN. MAN- LEI CHAN. KAM-WAH KOO. ROY CHEUNG
Co-estrelando:
CHI-ANG CHI. HSIEN YU. PO-CHUN CHOW. MAN-YUK. PAULYN SUN. MAN-LEI WONG
Música MICHAEL GALASSO. SHIGERU UMEBAYASHI
Edição/Figurinos e Direção de arte WILLIAM CHANG
Fotografado por CHRISTOPHER DOYLE. PUNG-LEUNG KWAN. MARK LEE PING-BIN
Produção Executiva YE-CHENG CHAN
Produção Associada WILLIAM CHANG. JACKY PANG YEE-WAH
Co-produtor Executivo GILLES CIMENT
Produção/Roteiro/Direção
WONG KAR WAI
Fa Yeung Nin Wa ©2000
Block 2 Pictures/Jet Tone Production/Paradis Films

7 comentários:

ANTONIO NAHUD disse...

Grande filme. Kar Wai é um mestre.

O Falcão Maltês

J. BRUNO disse...

Dica anotada!
Ainda não vi nenhum filme do cineasta e sempre tudo que leio a respeito dele é muito positivo... Vou procurá-lo e quem sabe depois eu não faça o mesmo com os outros... Pela sua descrição o clima e o ritmo da narrativa devem ser fantásticos!

Excelente resenha!

Gilberto Carlos disse...

Um filme primoroso. Muito louvável a decisão dos personagens de não se relacionarem, apesar de se amarem tanto, para não serem iguais a seus parceiros. Só não sei se aconteceria assim na "vida real"...

Júlio Pereira disse...

Desse diretor tenho Amores Expressos, mas nunca vi. Conferirei em breve, com certeza. Já este aqui eu ouvi maravilhas sobre ele mesmo, tenho interesse. Sobre os cineastas filmarem sem roteiro, aparentemente, o Gaspar Noé também faz isso. E, claro, Glauber Rocha, nosso gênio, não era muito chegado num roteiro!

Rodrigo Mendes disse...

Antonio: Concordo!

Bruno: Obrigado Bruno. Acredito que você irá gostar muito. Espero a sua resenha no Sublime!

Gilberto: Parece mesmo coisa de cinema...

Júlio: Procure conhecer a fundo a obra de Kar Wai meu caro. Recomendadíssimo, sempre.

Nunca fui tão fã do Glauber. Noé tem filmes assustadores e também não sou muito chegado.

Na verdade faço coro ao mestre Hitchcock que dizia que:“Para fazer um grande filme, você precisa de três coisas: o roteiro, o roteiro e o roteiro.”

Abs.

Alysson disse...

Rodrigo eu ainda nao conheco o trabalho desse diretor mas gostei muito da analise e quero ver assim q der.

Unknown disse...

PERFEIÇÃO!
Um dos filmes mais poéticos que já vi... A fotografia é surreal... intimista, instigante... Foi quando vi este filme que me apaixonei por Wong Kar Wai!

;D

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