A GRANDE FAMÍLIA
O filme narra a história de um jovem que se torna ator da indústria pornográfica nas décadas de 1970 e 1980. Sua fama e desgraça.
PAUL THOMAS ANDERSON, em outras palavras, e hoje em dia só basta resumir o seu nome na comunidade cinéfila, assim como Quentin Tarantino, foi o mais talentoso e original diretor de cinema em atividade na velha Hollywood, sucesso de público e crítica nos anos 90 onde despontou. Filho do ator ERNIE ANDERSON (1923-1997 – na qual é feita uma dedicatória ao pai neste filme) que era apresentador de um show televisivo com temática de terror em Cleveland e que levava o nome de Ghoulardi. Anderson é autor de seus roteiros e o que me impressionou ao ter o primeiro contato com este diretor (justamente nesta fita), foi saborear a forma como ele desenvolve seus scripts, todos complicados e cheios de meandros e alegorias. Principalmente em MAGNÓLIA (idem, 1999) seu mais aclamado trabalho na qual uma amiga minha de teatro, fascinada por este filme, chegou a atuar em uma montagem notória desta premissa em 2008! Um filme entorpecente que deu a Tom Cruise o melhor papel de sua carreira. Mas não foi só isso, Anderson acabou consagrando de uma vez por todas a carreira do ator MARK WAHLBERG, até então conhecido como rapper (Marky Mark) neste brilhante épico sobre a odisseia de um jovem ator pornográfico.
Wahlberg já era conhecido em filmes como Diário de um Adolescente (que já publiquei aqui) e no suspense teen Medo (Fear, 1996), mas nada comparável a esta fita polêmica.
Um fator principal de BOOGIE NIGHTS – PRAZER SEM LIMITES (Boogie Nights, 1997) é o risco. Ou seja, era um projeto que faria nascer censura e polêmicas, falácias conservadoras e tudo o mais. No entanto, a palavra risco pode ser considerada de vez em quando na indústria cinematográfica, porém faz mais sentido quando alguém como P.T. Anderson aparece com ousadia em um filme como este. Certamente ele apimentou o sexo e não poupou despesas na hora de mostrar também a violência. Era apenas o segundo longa metragem de um jovem, que infelizmente não teve a repercussão que merecia em seu primeiro longa: JOGADA DE RISCO ( Sydney ou Hard Eight, 1996) com Phillip Barker Hall, veterano ator e John C. Reilly, que são personalidades habituais nos filmes do diretor e o filme também trazia Gwyneth Paltrow em primeiro grande destaque até mais do que em filmes como: Seven (1995). O filme é um ótimo drama cheio de suspense e com um apurado tempero policial/criminal, como cereja no bolo. Recomendo.
Bom, como o seu primeiro filme foi menosprezado, felizmente em Boogie Nights ele ganhou a fama que merecia. Não tenho como negar, assistir a esta fita pela primeira vez foi algo entorpecente para mim, mesmo em sua longa duração, mas lindamente organizada linearmente, passando pelas décadas de 70 e 80. Na verdade sou fã de épicos onde mostra o herói ganhando status para depois cair e tentar levantar. O mais atraente e curioso neste filme é mostrar a indústria pornográfica como pano de fundo, assunto que todo mundo tem curiosidade de saber como “funciona”. Na verdade, P. T. Anderson esta mais interessado em deixar o filme no ar: entre biográfico e ficcional. Ele pega dois períodos fervorosos: os anos 70 (precisamente 1977) e início dos anos 80. Wahlberg faz o papel de sua vida, um típico adolescente norte-americano que trabalha lavando pratos em uma boate badalada da cidade, no sul da Califórnia, que acaba sendo descoberto por um prestigiado diretor de filmes pornôs, Jack Horner (BURT REYNOLDS) que decide dar uma oportunidade ao garoto para um teste em seu próximo filme. Ainda conhecido como Eddie Adams, seu verdadeiro eu que é depois apagado pelo seu pseudônimo: Dirk Diggler, ele tira proveito e ganha fama e dinheiro por causa de seus dotes físicos prodigiosos. Mas, da mesma forma que sobe ereto, Diggler cai facilmente e se torna pequeno, insignificante, enrugado e tombado para a esquerda. E o filme mostra lindamente o preço que a fama tem.
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| Momentos de concentração |
O filme recria com perfeição a moda de uma época, isto é, a era das calças bota de sino, as famosas discotecas (e a abertura do filme lembra Os Embalos de Sábado À Noite com John Travolta) e critica os lamentáveis usos abusivos da indústria farmacêutica, evidencia de forma nua e crua o submundo do tráfico e das drogas e não deixa de fazer abuso sexual naquele âmbito divertido, porém perigoso se não tomar notas dos vícios e exageros. PTA sabe chocar e surpreender nesta sua obra-prima, hoje clássica. Ele tem uma visão de mundo fiel ao universo pornô (é sem dúvida o único filme que conheço a mostrar com verdade e causando certa polêmica para naqueles que trabalham na indústria e são pessoas que não gostam de serem estereotipadas, mas a trama precisa de conflito, não?), e esta visão é, ao mesmo tempo, sentimental e satírica. O trabalho de PTA pode ser um objeto de estudo para debater um histórico social e as barreiras que faz o preconceito.
A premissa acontece justamente quando o celuloide estava sendo combatido com o rápido mercado de vídeo (VHS), que era bem mais barato e um formato que se tornou um vírus para os realizadores de filmes pornôs vintage. Só que Anderson registra esta mudança de um jeito que vai muito mais além do que a tecnologia, então um mero detalhe em seu filme. Nos anos 70 o pornô já era praticamente um gênero, tão específico como o terror ou o romance. Muitos cineastas da indústria (de filmes) temiam que este gênero se tornasse algo classe A, com produções cults como: Garganta Profunda (Deep Throat, 1972) com a famosa Linda Lovelace (1949-2002), um filme que levava para os cinemas “boca de lixo” plateias bem mais modernas e classe média. Outra coisa para se ressaltar: estes filmes, os mesmos que Jack Horner produzia na fita de Anderson, tinham roteiro e apelo aos artifícios convencionais clássicos do cinema e realmente estavam ganhando público em massa. Daí surgiu o vídeo, para deixar o espectador desfrutar de suas intimidades em casa, em matinês ou noturnas masturbações. Com isso, de repente, o sistema do estrelato pornô sofreu drasticamente e todas aquelas fantasias cinematográficas criadas por alguém como Horner, foram impiedosamente substituídas pelo “fast-food” do meio pornô. A criatividade e antecipação do erotismo que culminava em um belo hardcore, foi trocado por uma estética pobre que enfatizava a banalidade do ato sexual e os corpos eram exibidos na telinha de modo frio e calculados.
No mundo real, ainda existem cineastas de prestígio como Tinto Brass, cultuado diretor italiano, que ainda faz do pornô uma obra de arte: (Faça Isto! [2003]; Todas As Mulheres Fazem [1992]; Monella – A Travessa [1998] e ainda colaborou na fotografia principal do clássico CALÍGULA (1979) bacanal épico com Malcolm McDowell e grande elenco).
Outro ponto alto do filme é a interpretação do veterano Burt Reynolds, possivelmente em sua melhor atuação até hoje ganhando um Globo de Ouro como Melhor Ator Coadjuvante. Ele faz de maneira notável este “patriarca” de uma grande e excêntrica família, que trabalha com ele em todas as suas produções. E todos neste maravilhoso elenco acertam! Temos a estonteante JULIANNE MOORE em uma interpretação emocionante como uma das principais estrelas pornôs que adota como filhos toda a garotada, já que ela sofre o drama de estar longe do filho de seu primeiro casamento. Além da linda Morre (que adoro), WILLIAM H. MACY (Little Bill) esta hilário como o trágico marido de uma das atrizes que não o respeita e tem um vício aviltante de transar com vários homens fora do set, e ainda os ótimos JOHN C. REILLY, como o parceiro de Diggler e o gay PHILIP SEYMOUR HOFFMAN, incrível neste papel sensacional. Outro que se destaca é DON CHEADLE (futuramente indicado ao Oscar por Hotel Ruanda, 2004), aliás, um ator muito bom, que pretende abrir um negócio revolucionário no mundo do stereo. Quem também esta em bastante destaque é a Rollergirl, HEATHER GRAHAM em algumas cenas quentíssimas, assim como Diggler é a mais jovem da família. Mas a estrela é mesmo Wahlberg que não só mostra os seu “dote”, mas um talento curioso vivendo este jovem cabeça dura (favor não fazer duplo sentido) que abandona uma vida de estudos para ser a figura erótica nos filmes pornográficos. Enfim, há também outros indivíduos que logo ficariam conhecidos como parte do grupo mais próximo de PTA (como Ricky Jay que faz o montador de Horner e novamente Philip Baker Hall). Tenho que destacar também participações como a do veterano Robert Ridgely (1931-1997 – que também recebe uma dedicatória, no papel de Colonel James, o produtor e empresário do ramo), Alfred Molina, extraordinário, fazendo um traficante e o futuro galã Thomas Jane (O Nevoeiro/ O Justiceiro) outro que era da turma de Horner.
É fascinante o modo como PTA passeia com sua câmera em vários e importantes planos sequências em cenas chave (adoro a sequência da noite de ano novo que mostra o adeus de Litte Bill). Marca registrada de Anderson é em sequências como esta, direção tomada por ele durante boa parte da projeção, que já começa também na cena de introdução que dura três minutos, filmada em um único take, começando na rua e depois dentro do Night Club apresentando cada personagem.
Quarenta segundos do filme foram tirados para entrar em uma classificação para maiores de 18 anos. Antes de o filme ficar pronto, Anderson enviou um rascunho para a New Line fazer um trailer de lançamento. A fita foi pirateada e distribuída ilegalmente antes de sua estreia oficial. O trabalho de impressão pirata inclui diversas cenas que haviam sido consideradas excluídas pela censura para exibição por serem consideradas muito explícitas. Não sei se esta cópia ilegal continua circulando, mas nos extras do DVD, pelo menos na edição que tenho, não há essas cenas proibidas.
Para as cenas de dança, o elenco teve que aprender do zero os passinhos da época, todos receberam instruções de Adam Shankman (diretor do musical Hairspray, 2007) que fez a coreografia.
PTA baseou-se em seu próprio curta-metragem A História de Dirk Diggler (The Dirk Diggler Story, 1988) com Michael Stein no papel de Diggler (que no filme faz uma cena com Don Cheadle conversando na loja), Robert Ridgely como Jack Horner e Eddie Delcore.
Nina Hartley que faz a mulher de Little Bill, e que teve cenas quase explícitas, é na verdade uma atriz pornô profissional e que já participou em mais de quinhentas produções XXX.
Uma curiosidade interessante, Leonardo DiCaprio tinha sido selecionado para fazer o filme, ele gostou muito do roteiro, mas teve que recusar devido ao contrato que já havia assinado para estrelar Titanic. Mas, foi Leo quem indicou o amigo Wahlberg para o papel. Ironicamente esses filmes foram a causa do estrelato de ambos!
Sydney Pollack (1934-2008) disse que se arrependeu por não ter aceitado o papel de Jack Horner, que também foi oferecido a Warren Beatty. Na Coréia do Sul o filme foi banido e a proibição só foi relevada em 1999.
Eis um filme épico, e porque não dizer antológico? PTA é um cara que sabe fazer como ninguém, tomadas ágeis, um apaixonado pela técnica. E ele faz isso de modo que não fique gratuito e artificial. Esta trademark do diretor é extremamente necessária para designar a constante complexidade da narrativa, cheia de alegorias, à medida que especifica as camadas de grande impacto que vão influenciando as demais. Não a toa vem assinando obras de imensa repercussão como Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007) outro épico que termina em sangue e desgraça.
Indicado ao Oscar: Ator Coadjuvante (Reynolds), Atriz Coadjuvante (Moore) e Roteiro (Anderson).
Mesmo que o final de Boogie Nights seja surpreendente e polêmico, de fato o talento de P.T. Anderson é simbolicamente maior do que o tamanho do pênis de Wahlberg, que diz ter usado prótese peniana. Sem querer estragar a fantasia.
EUA – 1997
DRAMA
WIDESCREEN
156 min.
COR
PLAYARTE
18 ANOS
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
NEW LINE CINEMA APRESENTA
UMA PRODUÇÃO DE LAWRENCE GORDON
EM ASSOCIAÇÃO COM GHOULARDI FILM COMPANY
UM FILME DE P.T. ANDERSON
Estrelando:
MARK WAHLBERG BURT
REYNOLDS JULIANNE MOORE
LUIS GUZMÁN DON CHEADLE HEATHER GRAHAM
PHILIP SEYMOUR HOFFMAN WILLIAM H.
MACY JOHN C. REILLY
Também Estrelando:
THOMAS JANE RICKY
JAY ROBERT RIDGELY
PHILIP BAKER HALL NICOLE ARI PARKER ALFRED MOLINA
NINA HARTLEY JOANNA GLEASON JACK
WALLACE ROBERT DOWNEY SR.
Música de MICHAEL PENN
Edição DYLAN TICHENOR Casting /elenco
CHRISTINE SHEAKS
Direção de Fotografia ROBERT ELSWIT
Direção De Arte BOB ZIEMBICKI Figurinos
MARK BRIDGES
Co-produção Executiva MICHAEL DE LUCA. LYNN HARRIS
Co-produtor DANIEL LUPI
Produção Executiva LAWRENCE GORDON
Produzido por
LLOYD LEVIN. JOHN LYONS. JOANNE SELLAR
e PAUL THOMAS ANDERSON
Escrito e Dirigido por
PAUL THOMAS ANDERSON
Boogie Nights ©1997 A New Line Cinema Release














19 comentários:
Um dos meus filmes favoritos! Belo texto
:-))))
Também tenho predileção por este filme. Um vigoroso trabalho do diretor-roteirista e elenco!
Abs.
Inquestionavelmente uma obra prima, como cada um dos outros que o PTA faria a seguir, ainda fico imaginando como seria se o Leo tivesse aceito o papel principal.
Este não é o meu filme favorito do Paul, mas entraria sem dúvidas, em uma lista pessoal dos melhores filmes dos anos 90!
Parabéns pelo excelente texto Rodrigo!
Salve amigão. Confesso que nada sei sobre este cineasta, mas não é bem meu estilo de filme, mas seu artigo esta claro e bem objetivo, onde passo a conhecer melhor sua obra.
Este fim de semana assisti OS VINGADORES. Superprodução D ++++++ e é meramente impossível alguém não gostar.
Um forte abraço
Não o acho uma obra-prima, mas é, sem dúvidas, um grande filme de Paul Anderson.
http://eaicinefilocadevoce.blogspot.com.br/
Havia me esquecido completamente desse filme. Em 1997 eu já estava me familiarizando com o mundo do cinema e lembro-me que foi nessa época que passei a comprar a extinta revista SET e através das criticas e dicas de filmes encontradas ali, selecionava as minhas locações. Achei legal a história de Booghie Nights e loquei. Confesso que não gostei. Desde piá (pois na época eu tinha uns 15 anos) eu nunca gostei de filmes, novelas, series etc que mostram cenas de sexo ou de pessoas se drogando, sou tradicionalista nessa parte, prefiro o "cinema bonito" onde "tudo é perfeito" kkkk quando quero ver algo mais picante, já ponho um pornô logo e pronto, kkkk
Quanto a seu texto, mais uma vez vc se supera, acho muito interessante a maneira que você escreve, sempre informativo e sempre com muito bom humor. Parabéns.
Quanto ao "dote" do final do filme, e a história da prótese.... eu confesso que sempre imaginei que era um duble ou alguém ali diante do espelho que realmente tivesse o dito cujo daquele tamanho, afinal não me recordo da cena mostrar o corpo todo,com o rosto do ator, e mesmo que fosse, é tão fácil criar algum efeito, mas enfim...que diferença faz agora se é ou não é.... kkkk
Grande abraço
Já cheguei a baixar uma vez, acabei excluindo sem querer e não vi até hoje! Vou baixar (ou alugar) pra ver o quanto antes!
É um dos grandes filmes dos anos 90, e mais uma obra-prima de PT Anderson, que é um dos melhores realizadores da actualidade.
Cumprimentos cinéfilos
Postagem bastante completa. Adorei conhecer um pouco da indústria pornô. Mark Wahlberg mostrou que tem algum talento, bem como Burt Reynolds que era muito discriminado. Abraços.
O Igor conhece muito, por isso fiz o convite.
Acredite se quiser: ainda não assisti Boogie Nights tão falado.
Abraços
Obrigado mais uma vez Bruno!
Seria interessante Leo neste papel. E realmente o filme cabe perfeitamente em um wolksvagem contendo os melhores filmes da década.
Abraço.
Procure assistir aos filmes dele, são ótimos e sobretudo, acho que você irá apreciar MUITO o épico "Sangue Negro". Confira.
E quanto aos "Vingadores", é realmente sensacional. ✩✩✩✩✩
Abraço amigo!
Obrigado pela visita.
Eu considero sim uma obra-prima. Tem nuances de obra-prima como citei no texto, qualidades exclusivas de PTA.
Abs.
Risos. Adoro seus comentários sinceros e bem humorados Jefferson. Saquei que você gosta é mesmo de uma fita antiga, cinema clássico e glamour, nada haver com PTA, não sei se felizmente ou infelizmente, quem sabe ele fará uma próxima história de época? Assistiu Sangue Negro?
O dote faz a diferença ao saber da verdade, rs! Trucagens cinematográficas!
Obrigado mais uma vez.
Faça amiguinho!
Já era para ter assistido.
E o "dote" do Mark, pelo menos já viu? rs
Abs.
Concordo cara!
Cumprimentos Cinéfilos para ti e obrigado pela visita;)
Também acho que por muito tempo Reynolds não foi levado muito a sério como ator, a sorte dele mudou com este filme, mas depois não fez mais nada igual.
Abraço.
Acredito, rs!
Assista dude...vai gostar, creio.
Abraços.
Boogie Noghts é básico!
Antológico em sua reconstituição do período;
Há um tempo atrás vi uma postagem onde o autor faz a comparação de cenas entre a recriação das cenas em Boogie e as originais... Direção de arte 1000!
http://cidadaoquem.blogspot.com.br/2010/10/carbono-erotico.html
Já conhece meu novo blog?
http://antesqueordinarias.blogspot.com.br/
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