HOTEL DE ESTRELAS
Várias pessoas ricas, algumas famosas, hospedam-se em um Hotel luxuoso em Berlim. Cada um deles tem que lidar com os seus problemas pessoais. Drama baseado na obra de VICKI BAUM e direção de EDMUND GOULDING para a Metro, o estúdio das estrelas de Hollywood.
GRANDE HOTEL é um filme que eu demorei em apreciar, e mesmo com uma premissa repleta de astros do cinema dos anos de ouro da sétima arte. O estúdio do leão que ruge, do magnata LOUIS B. MAYER (1884-1957) um produtor de cinema influente da época que tinha a fama por conseguir trazer para o estúdio um número fenomenal de personalidades do cinema, astros e estrelas de fama mundial. Mayer ficou conhecido como o criador do “sistema estelar”, ou seja, um homem que conseguiu o feito de reunir em seu estúdio (em seu tempo o mais poderoso dos Estados Unidos) “mais estrelas do que no céu”. Assim era conhecida a METRO. Porém, ousadia maior era reunir em um único filme várias estrelas! Eis que este projeto só decolou com a insistência e trabalho pessoal de outra figura influente em Hollywood, o produtor IRVING THALBERG (1899-1936) que apostou em peso no filme e fez de tudo para fechar acordo com os artistas famosos desta fita, O resultado? Bom, confesso sinceramente que na primeira vez eu não achei nem um pouco interessante. Minha primeira impressão do filme é que ele era muito longo e dispersivo, mas dei uma nova chance a este clássico curioso e consegui gostar um pouco mais em uma nova avaliação.
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| A constelação de Hollywood dos anos de ouro! |
A fita é baseada no romance escrito por VICKI BAUM (1888-1960), autora de várias histórias, entre elas; HOTEL BERLIM (Idem, 1945) seu romance que se transformou em outro filme, de pouca repercussão, dirigido por Peter Godfrey com atores pouco conhecidos (Faye Emerson e Helmut Dantine), mas com participação de PETER LORRE (1904-1964), astro de filmes como “Casablanca”, “M: O Vampiro de Dusseldorf” e “Relíquia Macabra”. Um drama de guerra que não fez sucesso, certamente “Grande Hotel” é seu melhor feito.
Esta produção teve o prestígio de levar um único Oscar. Suficientemente de Melhor Filme daquele ano (1932) e é considerado o primeiro filme “All-Star” da história. O elenco? Bom, nada mais do que GRETA GARBO (1905 -1990), a diva que dispensa comentários... só para começar, no papel de uma bailarina triste e que se apaixona de repente, Grusinskaya. O anfitrião do Hotel, o Dr. Otternschlag, é vivido por LEWIS STONE (1879-1953) que diz sua célebre frase: “Grande Hotel, pessoas vêm. Pessoas vão. Nada Acontece”. Sim ele tem razão. O Hotel ainda hospeda o galã JOHN BARRYMORE (1882-1942) no papel de um aristocrata falido e devedor, o Barão Felix Von Geigern que acaba se envolvendo com Garbo, o ótimo LIONEL BARRYMORE (1878-1954) irmão mais velho de John, tem o melhor personagem, vivendo um homem doente chamado Otto Kringelein que deseja aproveitar a vida começando com uma única exigência: ter o melhor quarto do Hotel. WALLACE BERRY (1885-1949) outro astro, conhecido em filmes como ROBIN HOOD com Douglas Fairbanks (de 1922) interpreta um sujeito asqueroso, o vilão do filme, antipático e nada cavalheiro, um magnata que só pensa nos negócios e vive em hotéis, Sr. Preysing que chega ao cúmulo da desumanidade desrespeitando Kringelein (Barrymore doente) e até matando um homem!
Mas o elenco ainda não esta completo sem a presença de uma eficiente secretária (taquigrafa) contratada para atender aos pedidos de Preysing, Sra. Flaemmchen, vivida pela sexy JOAN CRAWFORD (1905-1977). Pronto! Agora o filme tem mais estrelas que o céu!
Thalberg e Mayer conseguiram causar um rebuliço na época com uma publicidade agressiva que permitiu fotografar (com o consentimento da estrela) Garbo e Barrymore no set.
Na estreia do filme no famoso Teatro Chinês de Grauman, em Hollywood, as estrelas convidadas para a sessão tinham que assinar um registro de estada do Hotel! Exatamente, não importa quem fosse o convidado, poderia ser Gable ou Dietrich, todos tinham que passar pelo tapete vermelho, se deixar fotografar, conversar com a imprensa, mas sem deixar de assinar no cadernão.
A trama se concentra em um período conturbado na Segunda Guerra, mas isso nunca é mencionado, já que a premissa se concentra nos interiores deste Hotel. Mas é bom que se esclareça que a autora Baum se inspirou no acontecimento entre as duas grandes Guerras, já que a cidade de Berlim foi um centro cultural poderoso na Europa naqueles tempos. Portanto, a cidade estava repleta e fervendo de celebridades de todos os tipos, incluindo as de cinema, e também industriais influentes que estavam ali para desfrutar de sua cultura. Assim, evidente que a cidade hospedava uma variada gama de excêntricas pessoas de alto padrão, vivendo o seu glamour, e que se tornariam as personagens do romance que Baum escreveu em 1930, intitulado: “Menschen Im Hotel”. A prosa foi desenvolvida na experiência dela como camareira em dois hotéis chiques de Berlim. Este romance foi adaptado pelos americanos, no caso WILLIAM A. DRAKE (1899-1965) que escreveu para uma produção da Broadway com o nome “Grand Hotel” e foi a própria Metro que financiara a produção que prometia ser um ótimo lucro. Mas tudo tinha um acordo, assim sendo, a Metro pagou, mas com o intuito de ter os direitos autorais para uma versão para a tela. Ao terminar a temporada, Mayer ficou satisfeito ao saber que o lucro já era certo antes mesmo do projeto cinematográfico começar.
Em 1931 era Mayer quem controlava o estúdio nos negócios, mas o “controle criativo” era revisado em cada fita por Thalberg e o cara tinha a ambição de produzir os melhores filmes do mundo!
Achando no sucesso lucrativo que “Grande Hotel” traria para a Metro, Thalberg começou a pensar em um gancho para a produção do filme. Isto é, ele teve a ousada ideia de chamar astros de ponta para interpretar os variados papéis. Até então uma ideia revolucionária de tão absurda. Como iriam bancar o salário de Garbo, dos Barrymore, Crawford, em um único filme? Muitos pensavam que Thalberg era louco porque era um risco perigoso, mesmo que a peça tenha sido um sucesso o lucro não poderia ser o mesmo e a bilheteria não poderia fazer recuperar os gastos dos cachês. Mesmo assim, Thalberg recebeu carta branca de Mayer e foi adiante. Anunciaram a primeira estrela: BUSTER KEATON (1895-1966) para o papel de Kringelein, já que o ator era um comediante famoso, mas como Lionel Barrymore era o astro da MGM... Depois de escalar Lionel, Thalberg teve a missão de conseguir mais seis protagonistas da constelação do estúdio.
O maior nome do elenco é sem dúvida o de Greta Garbo, quer dizer, basta mencionar apenas o seu sobrenome, uma personalidade do cinema mundial e que na década de 1930 havia feito vários sucessos, incluindo o primeiro filme totalmente falado: ANNA CHRISTIE, dirigido por Clarence Brown. Ali o mundo ficou conhecendo, depois dos olhares de Garbo e seus estonteantes cílios que refletiam sombras, sua magnífica voz, e que sotaque! Sexual eu diria. Seu papel em “Grand Hotel” era o da temperamental bailarina, mas a princípio Garbo recusou alegando que estava muito velha –27 anos- para interpretar uma dançarina de balé. Quando Thalberg escalou John Barrymore (o famoso Don Juan) para o papel do barão que vive um romance com a bailarina melancólica, Garbo mudou de ideia. Ambos ficaram empolgados com a oportunidade de trabalharem juntos. A admiração era recíproca e verdadeira e é evidente notar uma química calorosa entre Garbo e Barrymore em cena, que funciona lindamente. Talvez o ponto alto de um filme cheio de dúvidas.
Crawford e Wallace Berry também hesitaram em aceitar seus respectivos papéis. Berry pelo fato de seu personagem ser muito antipático (mas convencido por Thalberg de que ele era o único que falaria com sotaque alemão) e quanto a Joan, ela temia que suas cenas sensuais fossem editadas pelos censores (o máximo que ela exibiu foi simpatia e um pouco de suas pernas). Crawford gostou do resultado e agradeceu por este trabalho em seus próximos anos de carreira. Ela e Garbo nem sequer se cruzam durante todo o filme!
A direção ficou nas mãos do artesão EDMUND GOULDING (1891-1959), o cara tinha prestígio na época e certamente porque não reclamava e era um bom pau mandado do estúdio, tanto é que eu acho que ele nunca chegou a imprimir autoria em seus trabalhos, dos que pude assistir: O FIO DA NAVALHA (The Razor´s Edge, 1946) com Tyrone Power, ESCRAVO DE UMA PAIXÃO (Of Human Bondage, também de 46) com Paul Henreid e VITÓRIA AMARGA (Dark Victory, 1938) ainda acho o seu melhor filme, estrelado por Bette Davis. Mas era isso, ele foi um artesão bonzinho que realizava obras para o estúdio, chefes, estrelas e produtores. Talvez por isso que o filme seja prejudicado por não ter um toque de alguém, uma personalidade como ERNEST LUBITSCH, por exemplo. Já que a premissa tem a natureza de contar várias histórias. Com isso, há horas que acho que a trama se perde demais e fica cansativa e pouco centrada. A ousadia de experimentar com tanta gente famosa e subtramas em um só lugar. No entanto, a fotografia de WILLIAM DANIELS (1901-1970) de filmes como NINOTCHKA (outro com Garbo e direção de Lubitsch) é realmente encantadora e o clima pesado de sofisticação fica evidente na fotografia. Ele sabe iluminar perfeitamente os vistosos interiores de art deco, um trabalho valioso do diretor de arte CEDRIC GIBBONS (1893-1960) que antes havia planejado tudo em esboços.
Durante os ensaios com Barrymore, Garbo exigiu que o estúdio fosse iluminado com luz vermelha. Segundo a atriz era para dar um clima de romance apropriado. Reza a lenda que ela vetou até mesmo a presença do diretor e do cinegrafista para filmar essas cenas. Diziam que em seus takes de close e de amor, Garbo permitia que apenas as câmeras olhassem para ela, havendo uma espécie de coberturas com telas no set! Foi neste filme que Garbo disse a frase que se tornaria antológica, solidificando o mito Greta Garbo: “Eu quero ficar sozinha”, momento de tristeza de Grusinskaya sabendo de seu fracasso no teatro e temendo que ninguém sentirá mais a sua falta. Na verdade Garbo só queria ficar sozinha e não ser perseguida mais pela imprensa, mas nunca dispensava os amigos. Também, soube se retirar de cena no momento adequado e nunca se viu a estrela velha nos filmes. Diferente de Crawford que fez inúmeros filmes B no término da carreira.
Muitos suspeitaram de um romance sério entre Garbo e Barrymore fora da tela, eram muitos os elogios de um para o outro nos bastidores e o clima esquentava mesmo!
Será que o elenco se reuniu novamente depois que as filmagens terminaram? Nunca se sabe. Pode ou não ter acontecido várias happy hours, mas a foto de publicidade onde mostrava todos posando para uma fotografia queria provar o contrário (vide acima).
O filme recebeu uma sátira quando a própria Metro lança a comédia: “Blondie Of The Follies” (1932) direção do próprio Goulding, com Marion Davies e Jimmy Durante e Robert Montgomery. Em minha opinião: muito sem graça.
O filme entrou para a lista da AFI dos 400 melhores filmes de todos os tempos. “Grand Hotel” tem lá os seus momentos (sobretudo de Garbo e Crawford, mas também gosto do trabalho do grande Lionel Barrymore, engraçado e trágico). Não é um dos melhores filmes que já vi, ainda é bastante dispersivo, mas é uma notável reunião de estrelas.
EUA – 1932
DRAMA
FULLSCREEN
113 min.
PRETO & BRANCO
WARNER
14 ANOS
✩✩✩ BOM
GRETA GARBO. JOHN BARRYMORE. JOAN CRAWFORD
WALLACE BERRY. LIONEL BARRYMORE Em:
GRAND HOTEL
DE VICKI BAUM
Com: LEWIS STONE. JEAN HERSHOLT. ROBERT Mc WADE
EDWIN MAXWELL. RAFAELA OTTIANO. FERDINAND GOTTSCHALK
PURNELL PRATT. MORGAN WALLACE. TULLY MARSHALL
FRANK CONROY. MURRAY KINNELL
Produzido por IRVING THALBERG
Música original por CHARLES MAXWELL
Fotografia de.........WILLIAM DANIELS
Montagem........BLANCHE SEWELL
Direção De Arte........CEDRIC GIBBONS
Figurinos.......ADRIAN
Baseado na peça de WILLIAM A. DRAKE
Direção
EDMUND GOULDING
Grand Hotel ©1932 UM FILME DE METRO-GOLDWYN-MAYER












9 comentários:
É curioso como a declaração da personagem da Greta Garbo tenha se tornado tão icônica a ponto de muitos lembrarem do filme tão somente por conta dela... Eu assisti ele deve ter uns cinco anos, mas ainda lembro bem da maioria das cenas, ele é na minha opinião uma das melhores obras de sua época. Gostei de saber mais sobre os bastidores dele, ótimo texto Rodrigo!!!
Assisti "Grande Hotel" não tem muito tempo e concordo contigo, Rodrigo. Não é mesmo um excelente filme, as histórias não são tããão interessantes assim e o filme é demasiadamente longo. Assisti mais pela Garbo, mas tirando a cena memorável dela, achei ela expressiva demais, sabe? Crawford, pra mim, tem a melhor atuação do filme.
Abs.
A recordação que tenho deste filme é a da personagem da Greta Garbo saind toda serelepe da cama, de acabelo arrumado, de maquiagem, parecia até que nem passou a noite dormindo em sua cama. O filme em si é um luxo, mas longe de ser um grande filme. Mas vale muito o ingresso! Abraço.
Confesso que ne esse elenco me motiva a ver esse file. Quando o vir, com certza será num ímpeto.
Eu não sei, assisti somente uma vez e não me causou nada. Depois disto n~~ao tentei rever... quem sabe hoje tenha uma impressão diferente.
;D
Bruno: Obrigado meu caro!
Certamente que o filme ganhou fama pela frase de Garbo. Mas ele é famoso também pelo conjunto de estrelas, apesar de não ser um filme excepcionalmente extraordinário.
Abs.
Alan: Como assim Garbo expressiva demais?? Isso não é um bom sinal?
Abs.
M: Adoro essas inverossimilhanças cinematográficas Magda querida, rs!
Garbo lindíssima neste filme. Aliás, como sempre. Eis uma estrela que não ficou velha na tela.
Bjs.
Luís: Tenha essa experiência. Diria que é até obrigatório para todo cinéfilo. O resultado do filme que não é grande coisa comparando-se a clássicos como "Rainha Cristina" ou "Núpcias de Escândalo".
Abs.
Karla: Só vele mesmo pelo luxo, por ser um clássico e ter lendas do cinema em cena. O script vai continuar a te causar nada, acredito.
Bjs.
Grande Rodrigo, como vai?
Parabéns pelo ótimo Post.
Mais uma vez nos trazendo um maravilhoso texto,repleto de informações ricas e para mim até inéditas. Grande Hotel realmente foi feito e lançado com muita pompa como sendo o filme com maior número de astros e estrelas etc, mas não o acho tão bom assim e vencer o Oscar no entanto de melhor filme é algo que nunca vou entender... mas enfim...
Mais uma vez parabéns pela publicação...
Abração
Obrigado pelo feedback Jefferson. Também preciso fazer uma visita no "Cinema Antigo", mas tarde irei lá conferir seus posts colega!
O Oscar foi mais publicitário mesmo. Aliás, a Academia é famosa por fazer isso. Mesmo assim, concordo que muita coisa não funciona neste filme. Faltou uma série de pontos no script. Não basta só ter pompa e vários astros numa fita.
Abs.
Não gosto especialmente desse filme. Mas a ideia é boa e o elenco de sonho. Gostaria muito de ver o remake com a Merle Oberon.
O Falcão Maltês
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