sexta-feira, 6 de julho de 2012

ADRIAN LYNE | ATRAÇÃO FATAL

FERVEDORA DE COELHINHO


Homem casado se envolve com uma mulher estranha durante o final de semana. Com o tempo ela se mostra obsessiva por ele e começa a persegui-lo e assombrar a sua família.


É verdade que este filme é um belo exemplo de uma Hollywood adotando um gênero apelativo e transformando obrigatoriamente em sucesso de bilheteria. Outra verdade é que este é um filme que não tem orçamento grandioso, mas como é uma fita realizada no sistema dos grandes estúdios americanos, no caso a Paramount, tem que trazer no mínimo estrelas famosas: MICHAEL DOUGLAS e GLENN CLOSE, isso ajuda a criar certo brilho em uma fita que pode muito bem ser reconhecida como slasher movie, realizada por um diretor sem muito talento, mas que aparentemente é um artesão que sabe lidar com este tipo de veículo: ADRIAN LYNE.


O reconhecimento do público e crítica foi tão grande que ATRAÇÃO FATAL (Fatal Attraction, 1987) acabou recebendo 6 indicações ao Oscar: Melhor Filme (não era para tanto); Diretor (muito menos); Roteiro (crédulo demais para uma indicação); Atriz (Glenn Close – merecia ter ganho); ANNE ARCHER , como a esposa – Melhor Atriz Coadjuvante (pouco notável) e Montagem para MICHAEL KAHN (montador de Spielberg) e Peter E. Berger. Não levou nenhuma estatueta para casa e nem mesmo as indicações principais ao Globo De Ouro do ano.


É um suspense doméstico, mas é muito ingênuo e evidente demais nas soluções para ser considerado uma grande obra prima. Impossível, por exemplo, comparar este filme com alguma fita de Hitchcock. O fato é que o filme ficou no imaginário popular e traz atores de peso como a sempre ótima Glenn Close que arrasa em seu personagem, uma mulher doente e obsessiva e até mesmo Douglas consegue ter uma presença notória (mas ela devora o cara em cena, literalmente! Procurem assistir as cena de teste com ambos, nos extras do DVD).  

Tudo é modestamente dirigido por Lyne que à primeira vista enganou com a ideia de ter um estilo de autor. Na verdade ele tem pedigree inglês e se consagrou também realizando inúmeros comerciais na sua firma de publicidade Jennie & Co., onde começou a dirigir. Alguns destes comerciais chegaram a ser premiados nos anos 70, com isso, acabou se estabelecendo nos Estados Unidos e teve sorte de fazer filmes de grande impacto que acabaram por definir estilos em suas épocas. Exemplificando: o início comercial dos Music Videos na década de 1980 com FLASHDANCE (1983 – estrelado por Jennifer Beals), outro sucesso de bilheteria (sobretudo pela sua excelente Trilha Sonora que vale muito mais que o filme); o moralismo post-Aids de “Atração” e a pseudo-ousadia fetiche de PROPOSTA INDECENTE (Indecent Proposal, 1993 com Demi Moore. Afinal qual mulher se recuraria a dormir com Robert Redford?). Somando tudo isso, voltando no ano de 1985, Lyne é o diretor de um filme vulgarmente masoquista lidando com o perigo da Aids, moralismos e um pouco de música para apimentar, no filme favorito de minha tia (diz ela ter visto 20 vezes no cinema): 9 SEMANAS E MEIA DE AMOR (com Kim Basinger e Mickey Rourke), ou seja, filmes que tiveram um natural apelo popular e não graças a Lyne. 

Por isso é óbvio notar as limitações do cara que teve a infeliz proposta de adaptar o clássico livro de Nabokov insultando até mesmo Stanley Kubrick no gritante LOLITA de 1996 (com Jeremy Irons). O que mudaria sua sorte e bem feito que sua carreira neste período tenha truncado e frustrado o realizador, que de qualquer forma sempre foi mais aparência do que substância.

Até “Proposta Indecente” seus filmes são casos isolados. “Atração”, e realmente não tem como negar, tornou-se um clássico. Não diria que é um filme lindamente orquestrado, no entanto sabe entorpecer e como bem disse Lyne em uma entrevista: “Manter a plateia sentada na poltrona (e sendo manipulada) até o último instante”.


O filme deixou (e deve continuar deixando até os dias de hoje), todos os homens do mundo gelarem de medo, desde que esta pérola misógina estreou nos cinemas. Dan Gallagher (Douglas) é o típico "bom marido" e ótimo pai, que vive tranquilamente com a esposa Beth (Archer) e a filha (ELLEN HAMILTON LATZEN - uma graça de menina que não fez outro filme que eu me lembre), mesmo se for num apartamento apertado e com dificuldades financeiras, eis uma família feliz. Infelizmente este homem cometeu um erro como a maioria dos homens (o sexo masculino pensa na maior parte do tempo com a cabeça do pênis) e passou a noite com outra mulher, o que seria apenas um divertimento de fim de semana. Para ele isto é apenas uma transa passageira já que ambos são adultos e sabiam perfeitamente o que estavam fazendo e ninguém mais precisaria saber. 


A antítese da premissa ocorre quando Alex Forrest (Close) uma loira fatal e aparentemente uma mulher moderna e bem sucedida, pensa totalmente o oposto de Dan. Ela odeia ser ignorada, diz que esta grávida e arranja todo tipo de desculpa (até corta os pulsos) para passar mais tempo com ele. Ele atende no começo, mas depois percebe que a situação começa a ficar fora de controle quando a dita cuja passa a se aproximar de sua família. É um pesadelo. Ele não quer mais. Ela não, para finalmente sua loucura explodir e culminar em acontecimentos bizarros como ferver um pobre coelhinho e provocar terror para Dan e a tola da esposa, que depois toma as rédeas da situação em um final que foi modificado (Close era contra a refilmagem do final original que mostrava de maneira dramática ela se matando com a faca de cozinha – que Close ainda guarda em sua casa - ouvindo Madame Bovary). Archer tem uma característica fraca o que a ajuda na interpretação de uma mulher traída (a cena em que Dan conta tudo para ela e a mesma começa a gritar é um tanto aviltante).

O roteiro é de JAMES DEARDEN e o próprio adaptou de um curta que ele mesmo escreveu.
Várias atrizes foram selecionadas para o papel de Alex, entre elas a preferida era SHARON STONE, mas outras também fizeram testes. Citando algumas: Barbara Hershey, Mary Steenburgen, Kate Capshaw, Kathleen Turner, Debra Winger, Linda Hamilton, Michelle Pfeiffer, Susan Surandon, Lena Olin, Holly Hunter, Jodie Foster, Daryl Hannah, Jamie Lee Curtis, Sigourney Weaver, Jessica Lange e Meryl Streep. Para Dan, os produtores cogitaram: Jack Nicholson, Robert De Niro, Mel Gibson, Bruce Willis, Al Pacino, Tom Hanks, Kevin Kline, John Travolta, Christopher Reeve,  Nicolas Cage e um susto (Arnold Schwarzenegger)!

O roteiro ainda não tinha um título o que forçou a produção rodar o filme como “Assuntos Do Coração”. A música de MAURICE JARRE (1924-2009) é sempre discreta o que ajuda muito a criar um clima adequado para este tipo de premissa. Ele evita fazer algo épico como Doutor Jivago ou uma trilha mais voltada ao estilo de Bernard Herrmann. A música de ‘Atração Fatal’ lembra um pouco com a de Ghost (1990). Voltaria a trabalhar com Lyne em Alucinações do Passado (Jacob´s Ladder, 1990).

Outros diretores estiveram envolvidos no filme como Brian De Palma e John Carpenter e Lyne só teve a chance depois que “9 Semanas e Meia de Amor” se mostrou um chamativo sucesso na época. Mas, segundo rumores, mais de 20 diretores passaram pelo filme que era mais propriedade de Dearden e dos produtores Stanley R. Jaffe (Presidente da Paramount naquele tempo) e Sherry Lansing que futuramente produziu pouco.

As cenas de nudez também se tornaram antológicas, a mais comentada é quando Douglas e Close fazem sexo em cima da pia, um fetiche bastante discursivo (a do elevador também deu o que falar...). Por outro lado, a violência também se tornou célebre ao mostrar Dan voltando ao apartamento de Alex para lhe dar uma surra e descontar o que a megera havia feito. Tudo é muito direto e sem pudor. Bordoada hardcore no sentido até pornográfico e “casca grossa”. Com isso, durante anos, todo mundo nunca deixou de falar sobre o filme, fato que elevou a fita para uma aura respeitável, mesmo se tratando de um thriller mediano.

Sinceramente eu gosto mesmo é da Glenn Close neste papel, uma atriz que já deveria ser reconhecida com um prêmio da Academia. Sua psicopata é perfeita e foi ela, em seu laboratório, que deu um brilho que não existia no texto. Segundo a atriz, as pessoas ainda a abordam na rua dizendo: “Obrigado por ter salvado o meu casamento.” Acredito que Close atraiu de maneira fatal as plateias de todo o mundo com sua assustadora Alex.




EUA- 1987
SUSPENSE
WIDESCREEN
119 min.
COR
PARAMOUNT
18 ANOS
✩✩✩ BOM



PARAMOUNT PICTURES APRESENTA
UMA PRODUÇÃO JAFFE/LANSING
UM FILME DE ADRIAN LYNE
MICHAEL DOUGLAS  GLENN CLOSE  ANNE ARCHER
Co-estrelando: Ellen Hamilton Latzen. Stuart Pankin. Lois Smith
Música de MAURICE JARRE
Montagem MICHAEL KAHN. PETER E. BERGER
Direção de Fotografia HOWARD ATHERTON
Direção de Arte MEL BOURNE Figurinos ELLEN MIROJNICK
Roteiro de JAMES DEARDEN Baseado em seu Roteiro Original
Produzido por STANLEY R. JAFFE e SHERRY LANSING
Dirigido por ADRIAN LYNE
UM FILME PARAMOUNT Fatal Attraction ©1987

6 comentários:

Alan Raspante disse...

O filme é da Glenn Close, não tem jeito!

Hugo disse...

Este filme assustou uma geração de maridos infiéis...rs

Concordo com seu texto, não é um grande filme, mas é competente no que promete.

Abraço

Unknown disse...

O filme é da Glenn Close, não tem jeito![2]
Ela está surreal! Não tem como negar a capacidade dela... Fantástica... E o que é aquela cena do coelho... CREEP!

O filme não se preocupa em limitar, como vc disse é direto e sem pudor, gostei disto nele.

É um bom filme com uma atriz espetacular!

;D

Rodrigo Mendes disse...

Concordo Alan!

Hugo: ...e se assustou, rs!
Abs.

Karla: A Close merecia pelo menos um Oscar neste papel. Ela dá ao filme um dimensão ainda melhor. Fez com maestria uma mulher obcecada e psicótica, além é claro de interpretar uma amante lindamente. Simplesmente ela devora o Douglas em cena, aliás, em todas as cenas em que contracenam.

Beijos.

Luís disse...

Você pode tudo isso contra Adrian Lyne, mas eu acho realmente que ele soube como conduzir o filme. Talvez não autoralmente, mas ele soube fazer o que todo filme deveria conseguir: manter o espectador interessado na história que se desesolve.

Concordo totalmente que o filme seja de Glenn Close. Não fosse a interpretação de Sally Kirkland nas cerimônia de 1988, seria uma ótima oportunidade para premiá-la por essa performance! Adoro a cena em que ela ouve música, enraivecida e deprimida, acendendo e apagando a luz do abajur. Magnífica!

Rodrigo Mendes disse...

Luís: Como eu havia dito. Acho que Lyne teve é foi sorte de principiante. Todos os seus filmes de maior sucesso acabaram no imaginário popular em suas épocas. Depois é só verificar a carreira dele posteriormente e comparar a péssima intensão de LOLITA, por exemplo, e até mesmo o apenas bom "Infidelidade" com Atração Fatal ou mesmo com o mais "bobinho" Flashdance.

No fim, Lyne é mesmo um artesão do estúdio e pau pra toda obra, mas não teve mais sorte depois de Proposta Indecente.

E realmente, é a Glenn Close o tempero deste filme e nem tanto a "eficiência" de Lyne. Close faz tudo com maestria. Se ela fosse um mito até este ponto da carreira, poderíamos dizer que era uma lenda estilo Bette Davis ou Joan Crawford atuando em um filme B.

Quanto a Sally Kirkland, pelo que eu me lembre ela também só foi indicada, como a Close, a melhor atriz pelo filme "Anna" e será que ela merecia mais do que a Close? A vencedora foi a Cher por "Feitiço do Tempo" outro belo filme, mas não acho que merecia melhor atriz, até a Sally merecia ganhar neste caso.

Abs.

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