segunda-feira, 20 de agosto de 2012

ALFRED HITCHCOCK | SABOTADOR


SUSPENSE EM TEMPO DE GUERRA

Barry Kane é um operário de uma fábrica de aviões e acaba sendo acusado de um crime terrorista: um incêndio causado por um agente nazista que tirou a vida de seu melhor amigo. Portanto, ele percorre os Estados Unidos da América dos anos 40 e com a ajuda de uma loira (Pat), pretende limpar o seu nome.


Hitchcock até em tempos de Guerra (explodia em 1941-42 a II Guerra Mundial e o mundo estava em estado de alerta com a Alemanha) consegue entregar um ótimo thriller, um filme que ao mesmo tempo é romântico como engraçado e por vezes aterrador. Ele tem outro filme com nome semelhante, mas, por favor, não confundam. É uma fita rodada em 1936 ainda em sua fase inglesa: “SABOTAGE” e aqui no Brasil levou dois títulos: Sabotagem e “O Marido Era O Culpado” com Silvia Sidney e Oskar Homolka, sobre um detetive da Scotland Yard à paisana seguindo o rastro de um sabotador que faz parte de uma intriga terrorista que almeja detonar uma bomba na velha Londres. Obviamente segue como um filme cheio de mistério e suspense. Este aqui tem nome semelhante: “Sabotador” e ou/Sabotagem (também) (Saboteur, 1942), mas com premissa totalmente diferente sendo o primeiro filme de Hitch na Universal e com um elenco totalmente encabeçado por americanos.

A fita tem momentos de gênio (como a famosa cena final no alto da Estátua Da Liberdade que se tornou antológica) e várias outras sequências inesperadas seguindo a linha do “Road Movie do suspense”, uma estrutura que o diretor adorava. Ou seja, o típico e sempre injustiçado herói - o homem errado- que percorre em diferentes lugares e conhece as mais inusitadas pessoas (neste filme é até bizarro, mas emocionante a aparição de personagens circenses que escondem o herói foragido) que pretendem ajudá-lo e detê-lo. Em outras palavras, o cara tem que seguir pistas e cada vez mais descobre uma trama enrolada e perigosa (o principal motivo torna-se o famoso termo mcguffin que depois pouco importa já que Hitchcock vai gradativamente nos matando de suspense e antecipação).

O filme foi rodado quando acontecia a Guerra e o assunto não poderia ser mais pertinente (hoje o filme atrapalharia o espectador que não conhece fatos da história e pode se perder no caminho com as nuances, mas continua divertido o que é um ponto positivo). O astro ROBERT CUMMINGS (1910-1990) que depois voltaria a trabalhar com o mestre em Disque M Para Matar (1954) interpreta Barry Kane, um sujeito simpático que trabalha como operário em uma fábrica de aviões na cidade de Los Angeles. Depois que ele e o amigo trombam em um homem estranho (NORMAN LLOYD) como o tal suspeito e verdadeiro sabotador que só aparece no começo e término do filme, Fry, a vida de Kane acaba virando de ponta cabeça quando no mesmo momento testemunha um incêndio/ bombardeamento causado por uma explosão terrorista de sabotagem na fábrica em pleno horário de almoço. Infelizmente seu amigo morre ao tentar apagar o fogo, mas sua morte não foi acidental e sim assassinato já que o tal sabotador entregou para o coitado um extintor que continha combustível! A polícia “averigua” os fatos e acusa Kane do crime de sabotagem e homicídio. A partir de então a história se torna mortífera no sentido mais amplo do suspense e o herói sai foragido pela estrada na tentativa de encontrar uma saída e limpar o seu nome. No caminho, depois de algumas correrias, ele acaba recebendo a ajuda de uma loira chamada Pat, a estonteante PRISCILLA LANE (1915-1995) que a princípio não acreditava em sua inocência, mas com o tempo se apaixona por ele (e ele por ela, evidente) e convencida dos fatos, passa a ajudá-lo a pegar o verdadeiro sabotador. Enfim, é uma jornada interessante e muito criativa do nosso querido mestre do suspense. Hitchcock sabe segurar sua plateia em um filme de arrepiar com situações que ninguém imaginaria (também é pura fantasia). O herói passeia por Boulder Dam até Radio City Music Hall na cidade de Nova York, um verdadeiro tour no cartão postal americano. Provavelmente “Sabotador” é um filme de espírito leve, romântico e bizarro, que depois o diretor seguiria na mesma linha em Ladrão de Casaca e Intriga Internacional (estes mais sensuais na relação do casal), em minha opinião. Todos os homens errados, que pretendem provar a acusação errônea e que no caminho se envolvem com loiras.


Eu gosto quando Hitch realiza um filme partindo de uma autoria original, que, aliás, é dele e depois desenvolvida lindamente pelos roteiristas PETER VIERTEL, JOAN HARRISON e DOROTHY PARKER. Isto é, nesta ocasião tudo pode acontecer como um tiroteio em pleno cinema numa sensacional metalinguagem.

Originalmente, Hitchcock havia selecionado Barbara Stanwyck e depois pensado em Margaret Sullivan para o papel feminino.

A cena em que mostra um navio tombado era na verdade uma fotografia real. Tratava-se de um transatlântico da Normandia que pegou fogo e afundou no píer de Nova York. Na época havia rumores de sabotagem, mas foi realmente acidental.

O projeto pertencia ao produtor DAVID O. SELZNICK o responsável por trazer Hitchcock para os Estados Unidos e o tinha por algum tempo sob contrato, mas ele não queria produzir o filme. Assim sendo, conseguiu vender os direitos autorais do script por 20 mil dólares ao produtor FRANK LLOYD (1886-1960) que aceitou também trabalhar com Hitchcock. A fita é também produzida por JACK H. SKIRBALL (1896-1985) que produziu para Hitch seu filme predileto A Sombra de Uma Dúvida (Shadow of a Doubt, 1943) que entra como associado.

Gosto também do papel de vilão do ótimo OTTO KRUGER (1885-1974) como Tobin, o mandante da organização terrorista nazista que odeia o país em que vive. Ele desfila com elegância parecendo um James Mason e deixando uma presença maléfica que confronta inteligentemente com o mocinho.

O filme tem algumas curiosidades que considero bizarras, não só pelo fato de Hitch resolver utilizar a palavra “FINIS” no final de sua titulagem ao invés de “THE END”, ainda não entendi o motivo, mas também a habitual aparição do diretor em seu filme. Originalmente Hitchcock havia escrito uma cena em que ele aparecia na rua conversando com uma mulher e segundo Norman Lloyd que cedeu tal fato na entrevista, Hitch conversaria com a tal mulher usando sinais de surdo-mudo e faria alguma coisa indecente para ela que lhe dava um tabefe! A ideia foi descartada e o mestre aparece bem na metade para o final (e não logo no começo como de costume para não tirar a atenção do espectador), numa calçada, de chapéu, olhando a vitrine de uma farmácia.


Cummings consegue imprimir o seu galantismo no papel, particularmente gosto muito dele vivendo este personagem algemado que certamente marcou sua carreira, mas era desejo de Hitchcock escalar Gary Cooper para o papel. Será que ele seria tão bom quanto Robert? O fato é que Cooper não estava interessado em estrelar um suspense policial e Joel McCrea, outra escolha do diretor (já haviam trabalhado juntos na fita CORRESPONDENTE ESTRANGEIRO – Foreign Correspondent, 1940) estava indisponível.

Outra curiosidade é a aparição de Robert Mitchum em início de carreira fazendo ponta em figuração descendo as escadas da fábrica!

SABOTADOR é mais do que uma sessão satisfatória. Nele há todos os ingredientes necessários para um suspense de verdade. O filme vai crescendo alucinadamente (já começa intrigante nos créditos de abertura mostrando a sombra de um homem misterioso no galpão da fábrica) até atingir o alto literalmente (Na Estátua Da Liberdade). Esta película sombria tem o melhor clima possível e que faz a gente roer as unhas, vaiar o bandido e torcer pelo mocinho. É cinema clássico de estrutura moderna. Uma aula de cinema que jamais envelhecerá. Não é sabotagem.

O ponto alto do filme


EUA- 1942
SUSPENSE
FULLSCREEN
P&B
109 min.
12 ANOS
UNIVERSAL – COLEÇÃO HITCHCOCK
✩✩✩✩ ÓTIMO


FRANK LLOYD PRODUCTIONS, INC. Apresenta
Priscilla Lane
e
Robert cummings em:
Com: Norman Lloyd. Otto kruger
Alan baxter. Alma kruger. Dorothy Peterson
Clem bevans. Vaughan glaser. Ian wolfe. Murray alper
Produtor associado jack h. skirball
Produzido por frank Lloyd
Música de Frank Skinner
Fotografado Por....... Joseph valentine
Montagem......... Otto Ludwig
Direção de arte..... Jack otterson
Efeitos especiais................ John p. fulton
Escrito por
Peter viertel. Joan Harrison. Dorothy Parker
Dirigido por
Alfred Hitchcock
Saboteur ©1942 Frank Lloyd Productions Inc./ Universal Pictures


8 comentários:

O Neto do Herculano disse...

Este sempre vale uma nova sessão.

Rodrigo Mendes disse...

Sempre Poema!

Emmanuela disse...

Olá Rodrigo! Não pense que deixei de visitar seu blog, minha presença é sempre garantida.

Adoro o blog, super moderno mas sempre atento aos clássicos!

Esse de Hitchcock ainda não vi, sem dúvida uma boa pedida.

Bjs!

Alan Raspante disse...

Nossa... Tem muito filme do Hitchcock que eu preciso ver. Acho que vou baixar logo a filmografia inteira do mestre, rs

Danielle Crepaldi Carvalho disse...

Oi, Rodrigo!

Opa, estamos hitchcokeando aqui também? Passei aqui pra te avisar que estou de volta e finalmente respondi ao seu comentário no meu post (passa lá!). E vou ter o prazer de lê-lo falando desse filme que, ainda que não seja dos grandes Hitchcocks, é um dos que mais me divertem. Adoro passear com os protagonistas por aquelas estradas poeirentas, na esteira dessa história rocambolesca. "Sabotage", seu quase xará, era bem mais denso, mas esse é o que eu mais revejo...

Adorei seu texto! Há aqui umas curiosidades que eu não sabia sobre o filme.
Faz todo o sentido o que você fala das loiras e dos homens errados. Hum, e dá pra gente voltar ao passado e Hitch rodar o filme com a Miss Stanwyck? Teríamos sua primeira loira! O filme, pelo menos, teria uma heroína mais sólida. Não desgosto de P. Lane, mas há uma distância, digamos, abissal, entre a qualidade do trabalho de Babs e de Lane... Agora, já prefiro o Cummings ao Cooper. Aquele tinha um senso de humor que cai bem na história mirabolante!

Bjs e inté mais
Dani

Elton Telles disse...

Hitch! *.*
confesso que vi poucos filmes da fase inglesa do mestre, mas porque são até difíceis de encontrar, até pra download - ou então não estou buscando nos lugares certos rs.

Esse é um dos poucos que vi e gosto muito. Hitch conta uma história como ninguém, e mesmo que não sejam graaaandes filmes, sempre há uma ou duas cenas para se destacar. Aqui, a da Estátua da Liberdade é, como vc diz, antológica. Sem mais.

Abração!

Unknown disse...

Engraçado...
Lembro da cena da Estátua da liberdade e até de alguns outros momentos.. Mas, não do filme em si...
Deve ser pq assisti ainda novinha.
Terei que rever!

;D

Rodrigo Mendes disse...

Emmanuela: Obrigado Manu querida!
Sua presença aqui é especial. Também amo o seu gosto cinematográfico no Cinema Pela Arte.
Beijos!

Alan: Você precisa completar logo em sua coleção amigo. Hith é vida! Puro cinema!
Abração!!!!

Danielle: E estamos hitchcokeando mesmo Dani! Adorei o post que você escreveu sobre o Hith!

"Sabotage" é fantástico mesmo, bom, eu acho este aqui melhor e mais repleto de thriller, no fundo gosto de filmes que mostram diferentes lugares e principalmente quando o mestre ousava mais na trama tão loucamente rocambolesca. "Sabotador" é também o avô de "Intriga Internacional", outra grande película e um de seus melhores. Enfim...tudo que Hitchcock fez no cinema e pelo cinema é de grande valia e entretenimento.
Beijos

Elton: Pois é meu caro, muitos dos primeiros filmes do mestre são realmente difíceis de localizar na internet, bom, eu encomendei alguns dvd´s na Livraria Cultura e sempre encontro, apesar dos preços serem mais salgados. A maioria da sua fase inglesa são de distribuidoras pequenas e que metem a faca como a Continental Vídeo. Este aqui é na verdade um dos primeiros da fase americana.

Recomendo, óbvio! Vai gostar!
Abração!

Karla: O gênio de Hitchcock é tão grande que a gente, mesmo não lembrando da trama e até para os leigos, alguma cena do clímax fica eternamente guardada na mente.

Reveja amiga!
Bjs!



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