domingo, 4 de novembro de 2012

SAM MENDES | 007 – OPERAÇÃO SKYFALL


JAMES BOND REBORN

Bond é testado e sacrifica a própria vida para manter sua lealdade a chefe M quando seu passado retorna para atormentá-la. Neste cenário de conspiração e mistério, 007 vive mais uma vez para deter a ameaça que começa a atacar o MI6, então, Bond tem que rastrear o inimigo antes que seja tarde demais.


Cinquentenário de James Bond é motivo de comemoração. Em sua terceira aventura como o agente secreto à serviço secreto de sua majestade, DANIEL CRAIG esta de volta muito mais seguro e confiante. Consolidou-se como Bond nesta nova era da famosa série da EON. Os produtores Michael G. Wilson e Barbara Broccoli depositaram a confiança no competente SAM MENDES (Beleza Americana) que o faz com maestria. O filme tem muita ação, drama, suspense, comédia (JAVIER BARDEM já entrou para a história da saga como um dos mais excêntricos vilões) num roteiro muito bem estruturado e com locações exemplares (China, Turquia, Escócia).


O filme segue, além de tudo, nos olhares de cada personagem, diálogos, tão ágeis quanto sensacionais. É notável na fita uma direção de atores de um cara que vem do teatro e traz este talento necessário e muito bem vindo, algo que os filmes de 007 nunca havia demonstrado com tanta autoria e eficácia (nem por isso os mais antigos são ruins, mas de fato chegam a ser infantis perto deste, mas comparações são injustas, deixamos de lado...). Isso permite aos fãs desfrutarem ainda mais do universo de Ian Fleming no momento em que, durante o tradicional prólogo antes dos créditos, James Bond renasça e se transforme em um novo herói e por mais que suas características clássicas ainda sejam visíveis. No entanto, Craig é diferente dos outros James.

Certamente Cassino Royale, rodado por Martin Campbell em 2006 já indicava novidades pegando emprestado aos filmes de Jason Bourne com Matt Damon, um estilo notório nos filmes de ação e espionagem da atualidade. Sendo assim, a fase Craig surpreende até mesmo o espectador mais distante de 007, aquele que nunca se interessou pelas aventuras com Sean Connery ou Roger Moore. Eu, como fã assumido que aprecia até mesmo os clássicos, a princípio me incomodei com tantas modificações em Bond, não aceitei de imediato que Wilson e Barbara optaram por quebrar as tradições que são marcas registradas dos filmes, religiosamente falando. Como assim o cano da pistola não é logo apresentado após o logo da Metro? É tabu de fã! Com o tempo fui aceitando e pude entender a intenção dos produtores de fazerem o seu reboot de Bond e procurar no primeiro livro de Fleming a oportunidade de trazer o herói para o século XXI. Como muito lembrou Q neste capítulo: “ninguém mais utiliza canetas explosivas.” É realmente não tem graça alguma!

Mendes recebeu a oferta para a direção após o lançamento do mediano Quantum of Solace, que Marc Foster filmou em 2008 (vale mais pela perseguição fantástica antes das titulagens, mas a premissa segue rasteira) e sua indicação foi ideia do próprio astro, já que Craig é seu grande amigo e já havia trabalhado com ele no ótimo Estrada Para Perdição (Road To Perdition, 2002) filme que inclusive ajudou a revelá-lo. O filme teve lá os seus problemas de logística e durante a pré-produção foi suspenso devido aos obstáculos financeiros da Metro. Mendes decidiu permanecer no projeto até o fim e antes de ser escalado definitivamente como diretor, trabalhou como consultor criativo. O roteirista Peter Morgan (360/ A Rainha) havia trabalhado no script, mas deixou a produção. Eles retomaram em 2010 e entraram de cabeça roteiristas de primeira linha (vou chamá-los de casal porque sempre trabalham juntos): Neal Purvis e Robert Wade que estão com Bond desde 007 – O Mundo Não É O Bastante (The World Is Not Enough, 1999) e já são membros da casa. Realmente se superam aqui. O filme tem ainda a colaboração de John Logan, o respeitado roteirista de A Invenção de Hugo Cabret – que amo de paixão (2011 do Scorsese) e outros trabalhos como O Último Samurai (The Last Samurai, 2003 de Edward Zwick), ou seja, impossível este roteiro acabar irregular.


As filmagens começaram definitivamente em novembro do ano passado. Outra novidade é que é o primeiro filme da franquia a ser feito no formato IMAX para melhor apreciação.

A trilha sonora é do parceiro de longa data de Mendes, THOMAS NEWMAN, que acrescenta seu estilo lindamente nos momentos mais tensos e de emoção do filme. O tema canção desta vez foi por conta da cantora ADELE e composta por ela com a colaboração de Paul Epworth. O resultado musical não poderia ter ficado mais fantástico (nunca havia prestado total atenção na bela voz da cantora e entendo o seu sucesso). Ao menos nisso eles seguiram a tradição, uma canção inédita direcionada inteiramente ao filme na qual o título da história é repetida no refrão num toque operístico lembrando os tempos de Shirley Bassey.

A premissa se inicia de um jeito que se espera de um filme de James Bond, com estilo, e o tema de Monty Norman faz presença com uma introdução esplêndida de Craig saindo proveniente da escuridão e a primeira coisa que vemos são os seus olhos azuis iluminados (as mulheres devem pirar). A batida musical e Craig dão os mesmos passos e o filme, em seus poucos segundos, já começa a esquentar. 


Assim, os agentes ingleses, Bond (Craig) e sua parceira Eve (a ótima NAOMIE HARRIS de Extermínio, aquela fita de zumbi do Danny Boyle, e que mais tarde terá importância quando revelada a Bond e os fãs piram!) estão em uma arriscada missão na Turquia (adorei as locações e a perseguição de motos é de tirar o fôlego) onde outro agente, do MI6, foi morto e um disco rígido que simplesmente desapareceu. Este HD continha detalhes de agentes assassinos da OTAN que estavam trabalhando infiltrados em organizações criminosas e alguns deles, especulam-se, da própria MI6! Bond e Eve perseguem implacavelmente um agressor que esta sempre a um passo a frente deles. E a plateia delira nesta sequência. O cara chama-se Patrice, um mercenário francês que é interpretado por Ola Rapace, ator sueco até então desconhecido e que acaba sendo um plot de virada até chegarmos ao vilão. Durante a fuga que culmina em um trem (Bond, é claro, em suas proezas estilosas, salta, luta e ajeita a gravata. Craig finalmente mais refinado), 007 acaba sendo atingido por Eve caindo de um alto de uma ponte para um rio. Sua chefa, M (a sempre talentosa JUDI DENCH) se sente a responsável por ter ordenado o tiro numa de suas várias decisões complicadas e lógicas. Ela tenta não ser muito emotiva com relação a Bond, seu melhor agente. Com isso, James é considerado morto. Mas é claro que ele sempre volta!


O barato do filme são suas reviravoltas: o suspense que é muito bem antecipado antes de qualquer momento de maior movimento ou também as cenas dialogadas, uma delas, por exemplo, é a apresentação do novo Q (BEN WHISHAW - simpático no papel) em um momento maroto com Craig numa galeria de arte. O mais impressionante ainda é que as cenas de ação acontecem na hora certa e não numa avalanche de pirotecnia estúpida. Até porque, Mendes é auxiliado pelo veterano diretor de fotografia ROGER DEAKINS, indicado a vários Oscars (Bravura Indômita, Fargo, Um Sonho De Liberdade...) e juntos criam uma das melhores cenas de todo o filme, uma luta entre Bond e Patrice que ocorre num edifício em Xangai e o trabalho de sombras, néon, enfim...nem vou detalhar, é ver para crer!

Depois de eliminar o capanga, Bond encontra uma ficha de jogo, que o leva até um cassino exótico em Macau. Lá, ele se depara com mais uma de suas ligeiras amantes (a Bond Girl), Sévérine, a bela BÉRENICE MARLOHE que esconde o medo através da elegância. Típico dos filmes de 007 ela é a amante, namorada e ou/empregada do vilão e que acaba sendo morta por tentar avisar ao herói que ele é alvo dos malvados, mas é de lei que antes disso, a moça tem que dormir com ele, aliás, Mendes sabe conduzir as poucas cenas sensuais que em um filme de Bond não poderiam faltar (mas nunca que a fase Craig é tão voltada para as aventuras eróticas do personagem tanto assim). Após o sexo, ambos fazem um trato: ela o ajuda se ele matar o malvadão, e é aí que entra uma das melhores caracterizações entre todos os inimigos do agente, Raoul Silva (e quase que o papel ficaria com Kevin Spacey!), que é feito com requintes de estranheza e graça pelo vencedor do Oscar JAVIER BARDEM, e devo admitir que o espanhol esta marcante aqui até mais quando viveu aquele tranqüilo psicopata, Anton em Onde Os Fracos Não Têm Vez (No Country For Old Man, 2007). Bardem demonstra um passado sofrido injustificado para querer sair por aí causando pânico. Também não vou revelar as nuances e sutilezas do personagem que é delight (risos). Há muitas subjugações do mocinho e do vilão o tempo todo, o que motiva o espectador a não parar de prestar atenção. Um dos melhores antagonismos dos filmes de Bond em anos. 


Ainda neste elenco afiado, RALPH FIENNES vive, com o seu estilo habitual, o novo presidente da Comissão de Inteligência e Segurança, Mallory, um homem com a missão difícil, isto é, de manter a confiança em seu agente 00, cegamente só porque ele é bom (pra M), num momento em que o MI6 vive em um quartel general subterrâneo para se manter seguro das ameaças. Neste cenário, Fiennes tem que convencer Dench a se aposentar. A cena em que os dois vivem este momento é de extrema sutileza. A partir daí, percebe-se que a M terá cada vez mais importância na trama e finalmente deram para Dench um espaço mais digno em sua sétima participação na série (sei lá, mas parece que 7 é um número bom). Ela arrasa em um show de interpretação emocionante. Isso mesmo! Mendes é capaz de extrair lágrimas de um filme que parece não ter apelo para isso. Ele prova o contrário tendo em cena uma atriz ao nível dela. 


Há ainda a participação especial do veterano ALBERT FINNEY, como Kincade, ligado ao passado de Bond.

Nunca sai tão satisfeito de uma sessão do 007 nesses últimos tempos. O filme renasceu e superou todas as minhas expectativas. Além da participação especial do Aston Martin, este capítulo traz um aprofundamento nos personagens nunca antes visto em nenhum Bond. Aborda não só as origens de James (que já é curioso e explica o título do filme), mas as motivações que tanto Mendes afirma em seu novo filme e dizendo com todas as letras que até mesmo nas cenas de ação é preciso fundamento. E este método tão eficaz do diretor acaba que proporcionando um olhar diferenciado naqueles que gostam de fitas de ação. Nada ali é por acaso e muito menos existe apenas para fazer barulho. Assiste-se e logo compreende-se o porque.

Seu nome é Bond, James Bond. Ele renasceu para viver mais um dia, afinal, nestes 50 anos ele sempre retorna. Muitos martinis batidos e não mexidos, mulheres, pistolas e caras cruéis com planos diabólicos, ainda vão rolar... e certamente o saudoso Albert R. “Cubby” Broccoli estava certo ao dizer que: “enquanto houver cinema as pessoas assistirão aos filmes de James Bond.” Só que agora a coisa ficou um pouco mais séria.


INGLATERRA/EUA – 2012
AÇÃO/AVENTURA
EM EXIBIÇÃO NOS CINEMAS
COR
145 min.
16 ANOS
METRO/COLUMBIA
✩✩✩✩✩ EXCELENTE



ALBERT R. BROCCOLI´S EON PRODUCTIONS
Apresentam
DANIEL CRAIG
Como
JAMES BOND 
007
DE IAN FLEMING em:
Estrelando: JAVIER BARDEM
 RALPH FIENNES 
NAOMIE HARRIS 
BÉRÉNICE MARLOHE
 BEN WHISHAW 
Com: ALBERT FINNEY
E JUDI DENCH como "M"
Música de THOMAS NEWMAN
"Skyfall" interpretado por ADELE
Direção de Fotografia ROGER DEAKINS
Edição STUART BAIRD elenco por DEBBIE McWILLIAMS
Direção de Arte DENNIS GASSNER Figurinos JANY TEMIME
Produção Executiva
CALLUM McDOUGALL. ANTHONY WAYE
Escrito por
NEAL PURVIS. ROBERT WADE & JOHN LOGAN
Produzido por
MICHAEL G. WILSON
BARBARA BROCCOLI
Dirigido por
SAM MENDES
Skyfall ©2012 EON Productions/ Danjaq/ M-G-M

18 comentários:

Alan Raspante disse...

Lembro de ter visto um outro filme do Bond quando o SBT fazia uma maratona dos filmes da série (acho que era de Domingo, rs), mas só isso mesmo. Nunca parei pra ver, de fato, um filme da série. Nem mesmo os novos com o Craig, mas fiquei curioso pra ver este... Muito animado mesmo!

Vou tentar ver nesta semana!

Rafael Oliveira disse...

Absolutamente fantástico. Adorei o debate sobre a junção do novo com o antigo feito pelo filme, tudo é muito realizado e exposto na tela. E Javier Bardem? Dispensa elogios. Melhor performance coadjuvante do ano!

Reinaldo Glioche disse...

And what´s your hobby Mr. Bond?
R: Resurrection!

Seu texto captura o brilhantismo dessa figura de linguagem incutida neste belo filme!
Abs

Luís disse...

Todo mundo vendo e comentando e eu aqui, sem ter visto e ansioso. Mas, de qualquer modo, só vou ver bem mais pra frente, quando eu criar coragem pra fazer uma maratona James Bond.

J. BRUNO disse...

Mal posso esperar para assistir!

Jefferson C. Vendrame disse...

Vou assistir hoje, depois volto para deixar minhas impressões... kkk
Seu post me instigou mais ainda a ver esse filme que, desde que vi o trailer e ouvi a ótima canção trilha de Adele...

Abraços

Bruno disse...

Sou fã do personagem e da franquia que se mantém lucrativa e duradoura.Louco pra assistir esse.
Abraço!

Bruno

Amanda Aouad disse...

Um belo filme mesmo, me surpreendeu a profundidade que Sam Mendes conseguiu dar ao filme, sem descaracterizar a série.

bjs

ANTONIO NAHUD disse...

Vou vê-lo logo logo...

O Falcão Maltês

Jefferson C. Vendrame disse...

Gostei muito desse filme, o achei muito bem produzido e interpretado, com conteúdo sério e adulto, bem distante dos cines pipoca feitos para os adolescentes. A abertura já nasceu clássica.

Parabéns pela ótima resenha, muito bem escrita.....

Grande abraço Rodrigo...

Unknown disse...

Olá Rodrigo,
Confesso que não sou fã da série.
Porém, assisti e muito na época de Sean e Pierce. Depois, que Daniel pegou o filão meio que desencantei,rs.
De qualquer forma este veio para marcar e ainda com a brilhante atuação do Javier algo magnifico.
Dica: Assista Javier em Biutiful.
Enfim, o carro de Bond também teve sua historia contada o que foi apaixonante.

Novamente, parabéns pelo texto apaixonado pelo filme.

Beijos
Juli,

Patt Baleeira disse...

Rô,
Belissimo filme, maravilhosa crítica e tem o meu maravilhoso Javier.

Adorei o texto, bjs.

Elton Telles disse...

Pontos bem interessantes levantados aqui, Rodrigo. Também adorei o novo 007 e toda sua homenagem aos primeiros exemplares. Well done! ;)

Abs!

Rodrigo Mendes disse...

Alan: Já que passou o tempo desde seu comentário, a aí, assistiu?

Rafael: Concordo quanto ao Bardem!

Reinaldo: É bem por aí mesmo cara! Belíssimo filme e ainda de cara com uma analogia e tanto.

Luís: Ta esperando o que para a maratona? rs

Bruno: Já viu, né?

Jefferson: Obrigado amigo!
Adele foi uma escolha maravilhosa para a ocasião.

Bruno: Filmaço, né? Tb sou adorador da franquia.

Amanda: Não descaracterizou mesmo, ainda assim, desde Cassino Royale, as mudanças tiveram que ser necessárias. Muita coisa tb mudou.

Antonio: É demais!

Juli: Eu demorei para me acostumar com Craig, quando ele se aposentar virá outro! Mesmo processo, rs!

Biutiful eu já assisti. Gostaria que o filme fosse melhor. Prefiro Amores Brutos que é do mesmo diretor, mas Bardem é um baita ator, pau pra toda obra!
Bjs.

Pati: Thanks amiga!
Bjs!


Abraços pessoal!!!!!
Valeu.

Rodrigo Mendes disse...

Elton: Valeu meu caro!
Seu texto também ficou ótimo. Esperamos o melhor do próximo filme...

Unknown disse...

Perdão por não passar aqui antes, pois acabou minhas férias e fiquei um tanto enrolado na volta ao trabalho. Gostei do seu texto, fez bastante jus a esse ótimo filme. Gosto de como a trama do filme lida com o novo e o velho, além de fazer justas homenagens ao persoanagem. Gosto também de como tratam o passado do Bond, acredito que seja uma situação única em sua filmografia.

Abração!!

Jorge Teixeira disse...

Não gostei assim tanto do filme, ainda que não seja mau, de todo. Tem uma contenção e algumas cenas arquitectadas por Sam Mendes muito boas. Bom texto, a propósito.

Acho que nunca tinha comentado por aqui, mas já sigo o blogue há um tempo. Continua o bom trabalho.

Cumprimentos,
Jorge Teixeira
Caminho Largo

Alysson disse...

Nossa eu ia ver esse filme no cinema, mas nem rolou de eu ir, mas estou muito querendo assistir assim que der eu adorei a nova concepção que deram pro 007 e o Daniel Craig parece perfeito pro papel se esse filme for tão bom quanto Cassino Royale e Quantun of Solace, ja esta de lucro.

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