quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

ALAN CROSLAND | O CANTOR DE JAZZ


SESSÃO DINOSSAURO
11
SINCRONIA CLÁSSICA

Filho judeu de um solista devoto da Sinagoga desafia o pai e as tradições judaicas para seguir em frente com o seu sonho: tornar-se um cantor de Jazz de sucesso.


Já havia comentado sobre este filme aqui no Cine Rodrigo, uma fita clássica que tem vários predicados em ser importante na Sétima Arte. É justo uma revisão e comentar um pouco mais sobre o filme na Sessão Dinossauro. O Cantor de Jazz (The Jazz Singer, 1927), realizado na Warner Brothers ainda continua com o seu impacto. É um daqueles exemplos que todo cinéfilo tem que saber a respeito numa sala de aula. Lembro de o meu professor Walter Webb comentar muito sobre a obra, parecia que o velho lia um dossiê quando falava. O filme é também uma lenda de Hollywood e alvo de atenções especiais. Acho que sua estética é até subestimada devido ao falatório exclusivo de ser o primeiro filme realmente falado da história. Fica a impressão que O cantor de Jazz tem apenas o papel de ter sido um passo importante no desenvolvimento da indústria (e a própria publicidade da fita vendeu a idéia). Ou seja, a arte, mídia que conhecemos hoje, deve-se ao Cantor de Jazz. Certamente o filme é marcante mais no sentido lucrativo, revolucionário do que propriamente artístico, mesmo a fita sendo minimizada no ponto de vista “filme de autor”, valor estético, etc. Foi dirigido por ALAN CROSLAND (1894-1936) que já havia feito experiências com o som anteriormente no filme DON JUAN, 1926, um ano antes, estrelado por John Barrymore, isto é, o primeiro filme sonoro. Gosto também de alguns outros trabalhos do diretor (Amor de Boêmio, Beloved Rogue, 27/O Álibi de Meia- Noite, The Midnight, 1934 e Comigo É Assim, Personality Kid, 1934 – este último só assisti uma vez no curso). Um trágico acidente automobilístico o interrompeu.  De qualquer forma, Crosland tinha tanto o lado técnico, do artesão, quanto do autor. Por exemplo, seus filmes trazem, além do entretenimento, temas sociais pertinentes. Aqui, temos o judeu e todo um tema bastante racial. Em Don Juan, o herói tem uma relação inspiradora com relação ao pai por mais que não seja um relacionamento tão dramático como em The Jazz Singer. Também retrata a sociedade, adaptado do poema de Lord Byron, mas ao invés de tratar do racismo, aborda (com muita graça, diga-se de passagem) as fantasias sexuais de um homem galanteador, perseguido por maridos furiosos e adultérios jacentes. O jeito como Crosland dirige estas duas premissas é muito particular e autoral e vejo muita coisa em comum, no entanto, foi The Jazz Singer que ganhou mais atenção e Don Juan foi pioneiro apenas no uso do recurso do Vitafone, que permitia adicionar efeitos sonoros justaposto à trilha sonora. Já em The Jazz Singer, a fama, na verdade, e é preciso explicar, foi de ser o filme com maior tempo de duração com falas. Portanto, o filme é ainda parcialmente mudo, mas da maneira que ele ficou mundialmente conhecido, quem for assistir pela primeira vez vai achar que é inteiramente falado.


O filme, além das falas (que são poucas), tem suas cenas musicais (aliás, bem limitadas) sincronizadas num disco de acetato. Este é o ponto alto de sua relevância, já que antigamente os filmes ainda mudos, necessitavam (em algumas das primeiras projeções) de atores que ficavam escondidos fazendo a dublagem durante o filme. Do mesmo modo como pianistas (muitos deles até improvisavam) e até orquestras sinfônicas, que ficavam tocando ao vivo para a platéia enquanto o filme era projetado. Sempre foi um desejo do cineasta e do espectador ouvir através das imagens. Hitchcock acreditava que se o filme fosse bom, nem era preciso a sonorização. O público estaria com a noção perfeitamente clara do que estaria acontecendo, mas é claro, se o filme fosse espetacularmente visual e poucos fizeram isso como Hitchcock. No caso de Crosland não foi bem assim, afinal ele estava interessado em conseguir atribuir o melhor em termos de som e imagem, avançando e persistindo no conceito técnico. Portanto não teve tempo de criar algo extremamente grandioso e sugestivo visualmente, ainda assim, faz um trabalho interessante com a história. O que mais me impressiona no filme é o notável passo rumo ao avanço de uma tecnologia. Sempre tem a primeira vez pra tudo! Não era mais preciso necessitar-se de dubladores e maestros em um teatro, agora começavam a surgir salas de cinema menores para apreciar o primeiro filme que já trazia o som gravado separadamente que tocava no disco de acetato. Na verdade, sempre almejamos qualidade ao assistir um filme. Por que será que trocamos o VHS pelo DVD e depois pelo Blu-ray?

A substituição do mudo para os filmes “talkies”, definitivamente começou com este grande sucesso de AL JOLSON (1886-1950) na época um dos mais famosos cantores do gênero. Jolson atuou em poucos filmes e seguiu-se com pouco prestígio como em A Última Canção - The Singing Fool, 1928, de Lloyd Bacon, também produzido na Warner. Por mais que tenha ficado marcado como Jakie em O Cantor de Jazz, sua voz é reconhecida em diversos filmes que passaram a utilizar como parte de suas trilhas musicais canções eternizadas por Jolson.


O filme é uma adaptação escrita por Alfred A. Cohn e Jack Jarmuth (que escreve os inter-títulos) de uma peça da Broadway, sucesso de 1925, escrita por SAMSON RAPHAELSON (1884-1983) que já assinou obras como Suspeita, 41, de Hitchcock. Antes da peça teatral (inclusive foi remontada no mesmo ano do filme e estrelada por George Jessel), a trama veio de um conto escrito por Raphaelson, The Day of Atonement – “O Dia Da Expiação”. Foi um dos primeiros filmes a ganhar o Oscar, um prêmio especial honorário da Academia (em seu primeiro ano, 1929) por ser um filme pioneiro no cinema falado, uma excelente produção que revolucionou a indústria dali em diante. Além disso, recebeu uma indicação na categoria de Melhor Roteiro Adaptado (mas naquela época não existia duas categorias para scripts originais ou adaptação). O filme ainda dividiu o Oscar Especial com uma das mais magistrais fitas de Charles Chaplin, O Circo (The Circus, 1928) que era o oposto da proposta de Jazz Singer! A fita também recebeu, em 1996, um prêmio do National Film Preservation Board pelo seu registro histórico.

Era fato de que na época a maior parte das salas de projeção não disponibilizava o recurso para exibição de filmes sonoros. Os produtores tiveram que exibir fora das grandes cidades em edições mudas. O problema foi resolvido no ano seguinte, quando a técnica já era uma realidade e assim o filme pôde ser apreciado nacionalmente na versão original (falada e cantada). O American Film Institute o selecionou, em 1988, como um dos melhores filmes americanos de todos os tempos.


Ainda acredito que o filme não é visto muito a sério como um melodrama, embora a trama seja simples e Crosland consegue hibridizar o estilo de vaudeville com o melhor que se poderia esperar de uma interpretação de Jolson, que sabia lidar tanto com a sua carreira como cantor e de ator. E por que não dizer que ele foi pioneiro em “sincronizar” tão lindamente ambas as coisas? Muito embora tenha poucos papéis no cinema, os seus filmes nunca deixam de ser desinteressantes, por mais que este tenha marcado muito mais.

Na trama, Jolson é um jovem que desafia as tradições de sua família judia, obviamente naquela época ainda mais tradicional. Jakie Rabinowitz ou Jack Robin, como passa a ser conhecido (Jolson) decide enfrentar o pai, o ótimo WARNER OLAND (1879-1938) e assim realizar o seu sonho, tornar-se cantor das famosas casas de diversões que dava espaço para artistas realizarem números com canções populares. Evidente que isso é o maior desgosto da vida de seu pai, um homem devoto de sua religião, apesar de um exímio cantor, que se limita apenas a ser um litúrgico de sua Sinagoga. O herói ainda tem que fugir de casa depois de uma discussão com o velho que o castigou por saber que seu filho estava cantando em um café. Anos mais tarde, Jakie se torna famoso e um cantor de Jazz respeitado, tendo feito grande sucesso. Seu maior drama são as relações com o pai e herança cultural que voltam para assombrá-lo.

EUGENIE BESSERER (1868-1934) interpreta a inconsolável mãe, Sara Rabinowitz, em uma atuação envolvente e bonitinha. E como toda boa mãe, apóia o filho em tudo. A cena mais antológica é quando Jolson toca uma bela canção para ela no piano. Gosto também da mocinha interpretada por MAY McAVOY (1899-1984), grande estrela dos filmes mudos, como o épico de 1925, BEN HUR com Ramon Novarro. Sua Mary Dale é a típica moça que aconselha o galã e acaba se envolvendo romanticamente. Ela faz isso com muita graça!

A trama é basicamente essa, mas cheia de nuances e o filme (tinha que ser realizado na polêmica Warner Brothers) é uma crítica racial ferrenha. Mostra as dificuldades de aceitação da transformação do indivíduo que não gosta de seguir à risca o que lhe impõem. Um homem branco, descendente direto de judeus e que não pode sair por ai cantando Jazz, naquele tempo (e se duvidar até nos dias de hoje), um gênero visto como um veículo para o público e artistas negros. E, por qual razão Jakie pinta o seu rosto? Um disfarce que não pode ser compreendido como simplesmente um número artístico.
Um de meus momentos prediletos é quando Jolson canta “Mammy” no ato final. Simples e emocionante. Jolson o faz, mas não de cara limpa, já que a única coisa “clean” é a sua devoção e carinho pela música e evidente por sua mãe.


Eis um filme com bastante ritmo que soube passar por cima de dogmas e se converteu magistralmente, divulgando também o grande Jazz, cultura musical popular que tanto se misturou, produzindo uma variedade de subgêneros melódicos e harmônicos que tanto entretêm nossas vidas com a boa música. É curioso como essas histórias acontecem no cinema, um filme tão pertinente e discursivo no quesito sociocultural quanto à época da chegada do som. E tudo se sincroniza perfeitamente!



EUA – 1927
FULLSCREEN
DRAMA/MUSICAL/ROMANCE
88 min.
PRETO & BRANCO
WARNER (EUA –DVD)
CONTINENTAL (BRASIL – DVD – Coleção Al Jolson Vol. 1)
LIVRE
✩✩✩✩✩ EXCELENTE



AL JOLSON
THE JAZZ SINGER

WARNER BROTHERS 
PRODUCTION
Também Estrelando: MAY McAVOY
WARNER OLAND. EUGENIE BESSERER
Co-estrelando: Otto Lederer. Bobby Gordon. Richard Tucker
Cantor Joseff Rosenblatt. Jane Arden. Ernest Belcher
Títulos por JACK JARMUTH Roteiro ALFRED A. COHN
Fotografado por HAL MOHR Música Original por LOUIS SILVERS
Montagem HAROLD McCORD Efeitos Especiais NUGENT SLAUGHTER
Departamento de Som
GERALD W. ALEXANDER. HARVEY CUNNINGHAM. GEORGE GROVES
NATHAN LEVINSON. WILLIAM A. MUELLER
Supervisão SAM WARNER
Produzido pela WARNER BROTHERS
Baseado na peça de SAMSON RAPHAELSON
Dirigido por ALAN CROSLAND
THE JAZZ SINGER  ©1927 Warner Bros.



8 comentários:

Markos Queiroz disse...

As partes onde ele tem que fugir dos maridos das mulheres me parecem hilárias.
Não conhecia esse filme, você posta clássicos aqui que nunca nem ouvi falar, mas que me parecem ser ótimos.
Já fiz uma lista de filmes pra alugar que você comentou aqui pelo blog.

Abração!

livronasmaos.blogspot.com.br

Regi disse...

Também acho o tema do Cantor de Jazz relevante. Pelos trabalhos, seja técnica ou autoral, Alan Crosland com certeza deveria ser lembrado com mais frequência. Também foi o responsável por dirigir The Flapper, filme mais lembrado da trágica Olive Thomas.

Rodrigo Mendes disse...

Markos: Este aí é outro filme do Crosland: "Don Juan", "O Cantor de Jazz" é menos cômico.
Abração!


Regi: Não cheguei a assistir "The Flapper", mas soube da tragédia de Olive, ela morreu envenenada no mesmo ano do filme, não? Sem dúvida que Crosland merecia ser mais lembrado.
Abs!

Alysson disse...

Mais um filme na lista muito boas suas indicacoes e resenhas.

Elton Telles disse...

Essa é uma lacuna minha! =(
Sei da importância da história para o cinema e tal, já comentei em alguns textos, mas nunca assisti. Correrei atrás. Não lembro de ter lido nada a respeito dele em blogs vizinhos, beeeem bacana o seu revival, Rodrigo.

Um abraço! o/

Weiner disse...

Eu não sou especialmente fã de filmes mudos, e portanto acredito que O CANTOR DE JAZZ tenha um papel determinante na história do cinema. Sem falar na sua relevância ao abordar questões como o preconceito com pioneirismo.
Há quem considere AURORA, a obra-prima de Murnau (este é mudo e eu adoro) o primeiro filme a utilizar de efeitos sonoros na narrativa, mas o fato de introduzir falas no filme, ainda que poucas, faz de O CANTOR DE JAZZ um verdadeiro marco.
Um abraço!

Rodrigo Mendes disse...

Obrigado Alysson!

Elton: Obrigado tb meu caro. Sem pressa, o Cantor de Jazz é didático e sensacional. Vai gostar!
Abração!

Weiner: Já postei sobre "Aurora" aqui no blog nesta sessão dinossauro, confira! É outro filme importante, além de ser muito bonito. Crosland foi mais pioneiro que Murnau neste quesito, "Don Juan" já era bem experimental.
Abs!

Jefferson C. Vendrame disse...

Nunca tive a oportunidade e o privilégio de assistir...

:(

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