FANTASMA
Jovem
se casa com aristocrata e vai morar em um castelo, mas descobre que a memória
da ex-esposa de seu marido ainda habita o local, torturando-a.
O filme marcou a promissora
chegada de Hitchcock à América, sua primeira fita naquele país e o
responsável pela chegada do mestre à Hollywood
foi nada menos do que o astuto produtor DAVID O.
SELZNICK (1902-1965)
que o manteve sobre contrato por um bom tempo (e os filmes de Hitch com
Selznick foram verdadeiros ovinhos de ouro – Spellbound
– Quando Fala O Coração,
1945, que pretendo rever e postar em breve, com Ingrid Bergman e Gregory Peck,
confirma o sucesso desta parceria). Hitchcock vinha de uma fase brilhante,
praticamente sem erros (em minha opinião) com os filmes ingleses, um melhor do
que o outro, verdadeiro exercício de cinema para qualquer cinéfilo. Com isso,
Selznick, com o seu poder de persuasão e ainda recebendo os frutos de sua
aclamada obra-prima, E O VENTO LEVOU (Gone With The Wind, 1939), agarrou a ideia de poder trabalhar com o jovem diretor o levando a dirigir uma adaptação
que lhe caiu como uma luva, basicamente um suspense psicológico, até um pouco
parecido com sua futura fita estrelada pela mesma diva JOAN
FONTAINE (que
ainda vive! – Suspeita,
Suspicion,
41) inspirado no livro de DAPHNE DU MAURIER (a mesma autora de Os Pássaros, que Hitch faria em 63 e Jamaica Inn, aqui como “A Estalagem Maldita” de 39 com Charles Laughton) sobre uma gótica trama
que envolve a memória/fantasma de uma mulher, a do título!
O romance havia sido publicado
em 1938 e a fita segue como uma história sombria sobre as lembranças
persistentes de Rebecca que assombra
a mocinha (a personagem de Fontaine que não revela seu nome durante o filme),
que, mesmo depois de sua morte, ainda afeta diretamente os principais
personagens.
Irônico é saber que o filme é
um dos mais premiados de toda a carreira de Hitchcock e o único a levar a
cobiçada estatueta de Melhor Filme,
outro para Selznick. Obteve 11 indicações: Diretor (Hitchcock), Roteiro (Robert
E. Sherwood, Joan Harrinson), Ator (Laurence Olivier). Atriz (Fontaine), Atriz
Coadjuvante (Judith Anderson como a governanta), Direção de Arte,
Montagem/Edição, Efeitos Especiais e Música (Franz Waxman – que faz um
magnífico trabalho. Assinaria para Hitch obras-primas como Janela Indiscreta, Rear Window, 54). Ganhou apenas o de Filme
e Fotografia para GEORGE
BARNES, de
filmes como A Guerra Dos Mundos (The War Of The Worlds, 53 de George Pal e Byron Haskin). Um
trabalho entorpecente, nunca havia visto um trabalho de fotografia tão fúnebre
em qualquer filme do gênero (Hitchcock também aprendeu com o expressionismo
alemão).
O filme abriu o Festival de Berlim naquele ano. Uma das
brilhantes sugestões de Hitchcock foi começar o seu filme com uma narração
feminina indagando as primeiras linhas de A
Noite Passada Sonhei Que Voltava À Manderley Novamente onde imagens de uma
mansão totalmente em ruínas, parecendo mais com um castelo mal-assombrado, são
mostradas. Com este artifício tão lindamente concebido, já é possível segurar a
audiência.
Outras estrelas fizeram testes
para interpretar “A Esposa do Sr. Winter”, entre elas Vivien Leigh, que, diga-se de passagem, seria muito interessante, e
outras como a novata Anne Baxter.
Vivien só não pegou o papel por ser namorada/amante do astro da fita Sr. LAURENCE OLIVIER (1907-1989), que já
vinha do sucesso de O Morro Dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights, 1939 de William
Wyler, do livro de Emily Brontë) e vivia uma fase de ouro em sua carreira,
tanto no cinema como no teatro. Dizem que Olivier tentou de todas as maneiras
fazer com que sua amada pegasse o papel, mas quando Fontaine foi escalada, reza
a lenda que o ator passou a tratá-la mal nos bastidores. Assim sendo, Fontaine
sentia-se deslocada naquele âmbito e de qualquer forma foi ótimo porque a atriz
obteve exatamente o tom que Hitchcock desejava para a mocinha. A má criação de
Olivier acabou sendo um estímulo e Hitch ordenou que todos os membros da equipe
a tratassem da mesma forma, para assim ajudá-la em sua interpretação.
Olha, se todos os estrangeiros
fizessem uma estréia destas nos Estados Unidos, mas poucos são como Hitchcock
que fez de tudo para se consagrar nesta obra, sua primeira grande oportunidade.
O mestre trabalhou com um orçamento pomposo para os padrões da época e fez da Mansão Manderley uma personagem
importante (como Kubrick com o Hotel Overloock e James Whale com a torre do Dr.
Frankenstein). Orson Welles poderia ter se inspirado quando concebeu a
propriedade Xanadu em Cidadão Kane, quem sabe? De fato, o cenário é um
personagem importantíssimo para a premissa, que se passa à beira-mar, local à
primeira vista mal visto (tudo é tão assustador) para um notório romance entre
Olivier e Fontaine. O ator, com o seu estilo galês e habitual, interpreta um
rico carente e viúvo, “Maxim” de Winter,
tão gélido quanto seu sobrenome, nem por isso (isso é apenas uma opinião
pessoal deste trabalho de Olivier, um dos mais distantes que já presenciei), o
mocinho deixa de cortejar a donzela. Ela, uma moça atraente, linda, tímida e
que jamais questionará sua sorte por ter encontrado um verdadeiro príncipe
encantado – gentleman que soaria
menos piegas – e sem perder muito tempo o casal faz a união dos laços
matrimoniais, mas, à medida que o relacionamento dos pombinhos se aprofunda,
Fontaine fica cada vez mais atormentada pelo espírito (representado pela
lembrança e não espectro) da esposa morta, Rebecca.
Pronto, e é a partir deste ponto que o suspense começa a tomar conta. Tudo pode
ser apenas delírio de sua imaginação, paranoia ou alguma força de mau agouro
que culminará em desgraça, mas nunca que o filme é “mal-assombrado”.
O mais
suspeito são os motivos loucos da governanta/criada, Sra. Danvers, brilhantemente interpretada por JUDITH
ANDERSON
(1897-1992) que faz de tudo para manter viva a memória da outra a ponto de
chegar a preservar o antigo dormitório da ex-patroa como um verdadeiro
santuário. Danvers tem dificuldades de aceitar a jovem como a nova dona da
casa. A coisa complica ainda mais com a visita do primo de Rebecca, Jack Favell, o ótimo GEORGE
SANDERS
(1906-1972. Já levou o Oscar de Melhor
Ator Coadjuvante por outro clássico inesquecível, A Malvada, All About Eve, 50), um parente estranho que
seria amante da falecida e que dá as caras quando Maxim esta ausente. Sem dizer
que suas visitas são apenas meras formalidades, o cara ainda tem a audácia de
se dirigir a governanta intimamente, da mesma maneira como Rebecca a chamava,
por exemplo. Ou seja, ambos fazem o impossível para deixar a presença de
Rebecca cada vez mais notada naqueles cômodos e isso acaba prejudicando a mente da heroína que luta com todas as armas que conhece contra
o “fantasma”. Por isso que o filme é um pseudomistério excitante, tão bom
quando Suspeita. Fontaine repete o papel na fita com Cary Grant (seria
o meu marido um assassino? Será mesmo que realmente ele quer me matar?), isto
é, suas personagens em ambas as fitas vivem torturas psicológicas e embarcamos
com elas no mesmo nível estupendo de suspense e nisso Hitchcock é brilhante
quando cria esta atmosfera de thriller
mental, rodeado de incertezas (as melhores antecipações possíveis), só que
neste aqui é o passado que deseja viver no presente. Manderley é um museu
aterrador de Rebecca. A autoria de Hitchcock chega à perfeição neste filme
(traição, suspeitas mal contidas, o romance aparentemente perfeito demais que
será interrompido pelo passado, incitações sexuais, um prólogo antes da
história que se seguirá, tão mórbida quanto, e é claro, o crime, que só
saberemos se existiu ou ocorrerá perto do clímax.
Também aprecio o trabalho da
veterana FLORENCE BATES (1888-1954) no papel da senhora Van Horper, que ajuda a desencadear a
premissa quando a heroína trabalha para ela como sua dama de companhia, uma
pessoa que é paga para acompanhar velhinhos (as) em ocasiões sociais.
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| Olivier como o viúvo. Alguma mulher resistiria? |
Rebecca acabou concorrendo com outro
filme de Hitch no mesmo ano: CORRESPONDENTE
ESTRANGEIRO
(Foreign Correspondent) com Joel McCrea e Laraine Day, outro grande filme do cineasta, sobre um repórter
americano que se envolve numa espionagem perigosa na Inglaterra em plena Segunda Guerra Mundial. O filme teve seis
indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Albert Basserman), Direção de Arte,
Fotografia, Efeitos Especiais, Roteiro Original, inclusive a roteirista Joan
Harrison concorrendo consigo mesma e finalmente Melhor Filme. Não
ganhou nada.
Mesmo sendo um filme sóbrio,
sério e sem nenhum vestígio do humor negro de Hitchcock (nada de jocoso na fita),
Rebecca, A Mulher Inesquecível
é uma das grandes obras-primas do mestre do suspense. Lúgubre e sofisticado do
começo ao fim, Rebecca se mostra como
um dos trabalhos de direção mais apavorantes na qual Hitchcock mantém o
espectador apreensivo, como a mocinha, para saber o final. Acredito que o filme
é tal como ele é justamente por ser a grande première de Hitch numa Hollywood
prestes a mudar.
EUA
– 1940
SUSPENSE/DRAMA/ROMANCE
FULLSCREEN
PRETO
E BRANCO
130
min.
CONTINENTAL
✩✩✩✩✩
EXCELENTE
SELZNICK
INTERNATIONAL PICTURES Apresenta
LAURENCE
OLIVIER & JOAN FONTAINE
Rebecca
GEORGE
SANDERS. JUDITH ANDERSON
NIGEL
BRUCE. REGINALD DENNY
C.
AUBREY SMITH. GLADYS COOPER
FLORENCE
BATES. MENVILLE
COOPER e LEO G. CARROLL
Música de FRANZ WAXMAN
Fotografado por GEORGE BARNES
Montagem......{
Doon W. Hayes Direção De Arte......{Lyle R. Wheeler
Adaptação por PHILIP MacDONALD.
MICHAEL HOGAN
Escrito
por
ROBERT
E. SHERWOOD & JOAN HARRISON
Baseado no livro de
DAPHNE
DU MAURIER
Produzido por DAVID
O. SELZNICK
Dirigido por
ALFRED HITCHCOCK
Rebecca ©1940 A Selznick
International Picture










11 comentários:
Um dos únicos filmes do mestre que, ainda, não assisti.
Mas, férias são sempre boas para regularizarmos nossos acervos.
abs
Eu também não assisti este filme! Mas o que você postou me deu muita vontade de assisti-lo.
É com muito prazer que acompanho seu blog, pois vejo que também é apaixonado pelos clássicos, assim como eu! REBECCA é do tipo de filme que envolve a cada segundo, realmente um exemplar genuíno de suspense magistralmente orquestrado por Hitch.
Pena que muitos torçam o nariz para a fase imediatamente pós Inglaterra dele, filmes como Rebecca, Spellbound e A Sombra de Uma Dúvida são fascinantes!
Um abraço!
Vou adicionar seu blog no meu!
Grande Rodrigo...
Rebecca realmente é um filme inesquecível. Seu texto esta perfeito, como sempre. Ótimo Post, Parabéns...
Nunca vi este filme e toda vez que visito seu blog fico fascinado com os filmes que você resenha.
Já vi outros filmes de Hitchcock, mas nem sabia da existência deste, gosto de filmes antigos dentro do gênero de horror, suspense, acho melhores que que muitos atuais.
Abração Rodrigo!
livronasmaos.blogspot.com.br
Eu também ainda não assisti, mas não posso dizer que foi por falta de oportunidade, sempre que queria assistir algum Hitchcock eu acaba escolhendo outro e deixando ele pra depois, hoje nem sei se ainda tenho ele no PC, vou conferir agora se ainda tenho e se o tiver vou colocá-lo já lista dos próximos a serem vistos!
Ainda nao assisti a esse filme mas gostei do post e valeu pela dica.
Clássico absoluto. Show de atuação de Olivier e Judith Anderson.
O Falcão Maltês
Ainda não assisti a esse filme, mas valeu pela dica, irei ve-lo com certeza.
Renato: Boas férias amigo! Programão!
M: Vai amar Magda!
Weiner: Muito obrigado, tb estou seguindo seu blog e já o adicionei.
Tbm acho bem subestimada a fase inicial de Hitch em Hollywood. "Correspondente Estrangeiro" e "Lifeboat - Um Barco E Nove Destinos" são outros exemplos!
Grande Jefferson! Sempre carinhoso, Obrigado dude! Abs!
Markos: É uma satisfação apresentar a você obras cinematográficas. Fico feliz que esteja apreciando o blog. Da mesma forma, eu descubro novos títulos e itens interessantes para as minhas leituras através do "Livro Nas Mãos"!
Realmente, filme velho é que faz uma sessão boa e os novinhos tem muito a aprender com os clássicos.
Bruno: Não perca mais tempo com Hitchcock meu caro. Quero ver a sua impressão do filme no "Sublime Irrealidade"!
Alysson: Vai gostar!
Antonio: Os dois estão ótimos mesmo!
Abraços à todos!
Adoreeei o texto, Rodrigo!
E não sabia do bullying coletivo nos bastidores para Joan Fontaine entrar na personagem. Hahaha! PQP! Essa mulher comeu mesmo na mão do Hitch, sem falar suas personagens todas malditas porque se em "Suspeita", desconfiava que o marido iria matá-la, neste título, desconfia que o espírito da ex do marido venha pra arrastar seu pé. Pobrezinha! rs
Poxa, Viven Leigh seria uma excelente opção mesmo, hein. Eu gosto de Fontaine, mas a cara dela de "incompreensão" me irrita um pouco rs. Prefiro ela em "Rebecca" do que pelo filme a qual ganhou o Oscar, mas talvez por gostar mais da personagem dela neste filme.
Mas Judith Anderson é quem destrói. Bruxa do demônio! hahaha! Incrível a atuação dessa mulher!
É mesmo um grande clássico do gordo, um dos melhores de sua cinematografia. Não vi "Correspondente Estrangeiro", no entanto, já aluguei uma vez, mas não deu tempo. Deixarei para a próxima... =)
Valeeeu! o/
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