O SUBCONSCIENTE SEGUNDO HITCH!
Psiquiatra
ajuda paciente com amnésia a descobrir sua identidade depois que é acusado de
assassinato.
Este é mais um dos filmes curiosos
de Hitchcock, certamente subestimado
e para alguns uma obra que ao passar dos anos ganhou fama de cult. É estrelado por grandes
personalidades como INGRID BERGMAN (1915-1982),
de Casablanca
e Sob O Signo de Capricórnio,
Under Capricorn, 49 (mais uma fita do mestre) e GREGORY PECK (1916-2003 que
voltaria a trabalhar com ele em Agonia de Amor, The Paradine Case, 47). O filme ganhou o Oscar de Melhor Trilha Musical, aliás, fantástica, o ponto alto da
obra, realizada magistralmente pelo húngaro MIKLÓS RÓZSA (1907-95) que já trabalhou em superproduções aclamadas
como BEN-HUR,
1959 de William Wyler. Outras indicações incluem: Melhor Filme (novamente DAVID O. SELZNICK), Efeitos Especiais,
Diretor, Fotografia (GEORGE BARNES)
e Ator Coadjuvante (MICKAEL CHEKHOV
como o Dr. Alexander Brulov, o médico
que é substituído pelo personagem de Peck). Bergman recebeu o prêmio de Melhor
Atriz dos críticos de Nova York – NYFCC – em 1946.
A aparição de Hitch acontece
aos quarenta minutos de filme em um elevador do Empire Hotel carregando consigo
um estojo de violino e fumando um cigarro. Foi o primeiro filme americano a
tratar sobre a psicanálise (Hitch
trataria do assunto em mais exemplares, provavelmente o que melhor se encaixa no
perfil é “Marnie, Confissões de Uma Ladra”
com Tippi Hedren e de certa forma o Norman Bates de Anthony Perkins em “Psicose”). Provavelmente Quando Fala O Coração (Spellbound, 1945 – e
Hitchcock teve que convencer Selznick a pagar 40 mil dólares para os direitos
de adaptação do romance “A Casa do Dr. Edwardes”)
seja o melhor filme a tratar do assunto de forma mais científica de acordo com
os estudos do famoso médico neurologista Sigmund
Freud focando no campo clínico da investigação teórica da psique humana.
Hitchcock sempre esteve interessado em abordar o inconsciente em seus filmes,
alguns são mais evidentes, outros nem tanto, mas é “Spellbound” que o faz de
maneira misteriosa e intrigante como um mosaico. Escrito de forma brilhante por
BEN HECHT (1894-1964) de scripts como O Morro Dos Ventos
Uivantes (1939
no mesmo ano chegou a trabalhar com Selznick em E O Vento Levou, não recebeu os créditos e
ainda perdeu o Oscar para Sidney Howard!), Scarface – A Vergonha
de Uma Nação
(1932), Angels Over Broadway (1940), Viva Villa! (1934) a biografia romanceada de
Pancho Villa, estes todos indicados ao Oscar. Ganhou os prêmios da Academia
pelos roteiros de Paixão e Sangue (Underworld, 1927, o primeiro da categoria em 1929 e pelo filme The
Scoundrel (1935)
que também co-dirigiu e compartilhou a estatueta com o amigo Charles MacArthur. Hecht tem uma longa
parceria com Hitchcock, além deste, escreveu o ótimo INTERLÚDIO (Notorius, 46, também com Bergman como estrela principal e outra
nomeação ao Oscar) e ainda: Pacto
Sinistro
(1951), Festim Diabólico (1948) e primeiramente na fita
Correspondente
Estrangeiro (1940). Outros créditos incluem: Gunga
Din (1939), Rainha
Christina com
Garbo (1933) e Jejum de Amor (1940). Resumindo, o
cara era bom e muitas vezes não recebeu o reconhecimento que merecia em muitos
dos filmes em que foi grande colaborador. Há pessoas que consideram o filme um
trabalho extremamente excessivo quando Hitchcock mergulha profundamente no
subconsciente da personagem. Discordo, aliás, foi bastante proposital. Este
trabalho ainda consegue acentuar um ótimo suspense além de ter como ingrediente
a melhor estética do filme noir e o
típico romance do casal central nos filmes do cineasta. Evidente que o conjunto
psicanalítico deva afugentar um pouco a plateia e algumas pessoas o consideram
irritante.
Peck interpreta um homem sem
memória, John Ballantyne que é
conhecido até então como Dr. Edwardes,
e nestes casos o cara acaba por descobrir que não é a pessoa que achava ser,
com isso, convoca os serviços de uma linda “médica da mente”, a Dra. Constance Petersen (Bergman – outra
das louras gélidas favoritas do diretor) que o ajuda a descobrir sua identidade
numa série de sessões hipnóticas e por fim acaba apaixonada por ele.
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| As famosas aparições de Hitch. O verdadeiro astro dos próprios filmes! |
Hitchcock dirige lindamente os
atores em atuações notáveis e o seu filme, tecnicamente é fantástico para os
padrões da época com um desenho de produção muito bem feito por JAMES BASEVI (1890-1962), fotografia
entorpecente (Barnes deveria ter ganhado o Oscar) e é claro, a música que
mereceu as ovações, inovadora por apresentar zumbidos eletrônicos do teremim, o primeiro instrumento musical
eletrônico criado em 1919 por um russo de mesmo nome. O filme também é famoso por ter o envolvimento do artista surrealista SALVADOR DALÍ (1904-1989) que no cinema, realizou com Buñuel o
clássico dos clássicos “Um Cão Andaluz”
(1929). Dalí concebeu as famosas sequências de sonho apresentadas no filme
quando Peck fica por efeito da hipnose. É um trabalho estonteante e assustador
simbolizado por olhos, paisagens indecifráveis e jogos de cartas.
Nem um pouco desmedido com
relação aos diálogos sobre psicanalítica, em minha opinião, Spellbound esta longe de gerar qualquer
falácia (quem afirma isso com irritação é quem esta sendo enganoso e falador)
neste âmbito de estudo tão curioso e para os estudantes de psicologia é um dos
filmes mais indicados. Ninguém melhor do que Hitchcock para representar
cinematograficamente a dolorida mente humana.
EUA
– 1945
SUSPENSE/ROMANCE
FULLSCREEN
PRETO
E BRANCO
111
min.
CONTINENTAL
✩✩✩✩✩EXCELENTE
Uma
Produção SELZNICK INTERNACIONAL PICTURES Apresenta
INGRID
BERGMAN GREGORY PECK
ALFRED
HITCHCOCK´S
SPELLBOUND
Também
Estrelando:
MICHAEL CHEKHOV. LEO G. CARROLL
JOHN EMERY. STEVEN GERAY. PAUL HARVEY
DONALD CURTIS. RHONDA FLEMING. NORMAN LLOYD
WALLACE FORD. BILL GOODWIN. ART BAKER
REGIS TOOMEY. IRVING BACON. JEAN ACKER
Música
de MIKLÓS RÓZSA Fotografado por GEORGE BARNES
Direção
de arte JAMES
BASEVI Efeitos
Especiais JACK
COSGROVE
Figurinos HOWARD GREER. ANN PECK
Sequência
de sonho criada por
SALVADOR DALÍ
Produzido
por
DAVID
O. SELZNICK
Roteiro
de BEN HECHT Argumento ANGUS MacPHAIL
Colaboração
e consultoria psiquiátrica
MAY E. ROMM
Baseado
no livro de
FRANCES BEEDING. JOHN
PALMER & HILARY ST. GEORGE SANDERS
Dirigido por
ALFRED HITCHCOCK
SPELLBOUND ©1945 Selznick International Pictures/
Vanguard Films Inc.










12 comentários:
Excelente texto Rodrigo!
A abordagem da psicanálise é um dos aspectos que sempre me deixaram curioso em relação a este filme, mas infelizmente ainda não tive oportunidade de assisti-lo. Ontem vi "Festim Diabólico" e escreverei sobre ele em breve.
Abraço forte meu amigo!
http://sublimeirrealidade.blogspot.com/2012/12/007-cassino-royale-quantum-of-solace.html
Olá Rodrigo!
Parabéns pelo excelente texto. Este filme é imprescindível aos cinéfilos e aos amantes da obra de Hitch!
Este é um Hitchcock que ainda não conferi.
Abraço
Já tinham me indicado, mas eu ainda não vi... Está nos meus planos de vê-lo em 2013, rs
Como já disse em outro momento, é uma pena que os filmes de Hitchcock de bandeira inglesa e americanos da década de 40 (como este) sejam tão desconhecidos da grande maioria. SPELLBOUND não é uma obra-prima, mas é uma chance única de ver Hitchcock esboçando um estilo melhor percebido na obra-prima VERTIGO.
Sem falar no elenco (Peck e Bergman estão bonitos de encher a tela).
Abraços!
Fascinante seu artigo, Rodrigo, sobre um dos grandes momentos de Hitch, com um par perfeito entre Gregory e Ingrid, e um marcante comentário musical de Miklos Rozsa, que nunca mais fez outra trilha para o diretor. Uma pena.
Abraços nobres
Oi! Tudo bem?
Tô passando pra desejar um feliz 2013!
Até!
Toda vez que vejo algo sobre Hitchcock e me lembro que não vi qualquer filme dele, me sinto um completo idiota e menos cinéfilo por isso!
P.s.: Voltei com o Portal Cine! =)
Apenas preciso ver esse filme! Eu estou aos poucos assistindo os mais antigos, e claro, Hitch está na lista!
Eu tb estou ansiando pra ver Django!! Vai ser animal!
Maravilhoso filme!
Feliz 2013, Rodrigo. E viva o cinema!
O Falcão Maltês
Obrigado Bruno e o seu texto sobre "Festim..." ficou ótimo. Não deixe de conferir este!
Abs.
M: Thanks Magda. É mesmo!
Beijão!
Hugo: vai gostar...
Alan: Comece o ano com ele!
Weiner: Acredito que em qualquer filme dirigido por ele podemos notar o seu gênio o que infelizmente acontece e concordo contigo, é que algumas fitas hoje em dia são despercebidas.
Abs!
Paulo: Valeu meu nobre! Sei que tu é um especialista em Miklos Rozsa. De fato, uma pena que ele não tenha feito outro filme com Hitch!
Bússola: Idem. Te desejo o melhor. Abs!
Robson: Nenhum sequer? Como assim? rs! sem comentários!
Belo retorno. Tô ligado no Portal Cine.
Abração!
Dayane: Hitch é obrigatório em todas as listas!! rs
"Django" será inesquecível, tb anseio por ele.
Bjs.
Antonio: Um ótimo ano!
Abs!
Otimo texto vc sabe muito bem como escrever hein? Parabens
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