quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

MONSIEUR VERDOUX


CHAPLIN KILLER


Homem falido devido à depressão econômica passa a assassinar mulheres ricas como sustento.


Que tal começar o ano com uma boa dose de humor negro? Eu sei que pode parecer estranho, mas sim, existe uma fita do mestre da pantomima Charles Chaplin na qual me sinto deslocado, provavelmente por ter me acostumado com as aventuras e trapalhadas do eterno vagabundo, Carlitos, sempre escorraçado pela polícia. Assim, “O filme mais inteligente e brilhante da minha carreira”, o mesmo afirmava isso com modéstia, MONSIEUR VERDOUX (Idem, 1947 – Indicado ao Oscar, Melhor Roteiro) é bom, mas é o único filme de sua obra que eu considero o mais distante.

Trata-se de uma satírica crítica das mais sombrias já realizadas por ele que foi originalmente concebido por outro gênio, ORSON “Cidadão Kane” WELLES (1915-1985) e seria um projeto dirigido por Welles e estrelado por Chaplin que acabou desistindo no último instante alegando que nunca tinha sido dirigido por alguém depois que assumiu o controle de sua carreira como “faz-tudo”! Para contornar o problema, Chaplin acabou comprando de Welles o argumento original por 5 mil dólares. Acabou reescrevendo todo o material do seu jeito, porventura atuando, produzindo, dirigindo e compondo a trilha musical. Mesmo assim, Welles é creditado honestamente pelo trabalho como autor do script original e que depois nunca se importou com o reconhecimento menor perante Chaplin já que o mesmo considerava uma de suas obras das mais inferiores.


O filme baseia-se na vida real do francês Henri Désiré Landru, o “Barba Azul” assassino de mulheres condenado e guilhotinado em 1922. Ao invés de criar uma biografia ou mesmo um drama romanceado da vida do sujeito, Chaplin opta por abordar uma crítica social extremamente mordaz. Eram os tempos da Guerra Fria e toda aquela paranoia americana que crescia cada vez mais. 

Verdoux (Chaplin) é um burguês que mesmo não sendo milionário, não pretende mudar o conforto de sua vidinha. Ele é tranqüilo e charmoso e acaba adotando a profissão de serial killer em resposta à depressão econômica que assolou o país. Deixa de ser um simples empregado do bando e passa a matar mulheres ricas de meia-idade para depois ficar com a grana das trouxas. É basicamente isso. Nada de Chaplin fazendo suas típicas mímicas e gags extraordinárias, nem mesmo aquelas facetas de seu primeiro filme sem o Vagabundo, O GRANDE DITADOR (1940) que é mais interessante do que este, aliás, uma obra-prima. “Monsieur” é um de seus filmes na qual não tenho tanta empolgação de rever diversas vezes, por exemplo. Eu o considero uma obra menor. Não tiro nenhum brilho do filme, muito pelo contrário, resultou em mais um exercício inovador e corajoso do artista associado eternamente ao icônico personagem dos clássicos mudos. Só que é preciso entender que a proposta dele aqui é totalmente diferente do que estamos mais habituados. Mesmo com leves sorridos e com alguma graça (sobretudo na cena da pesca), Chaplin não é o mocinho, o que também prova de uma vez por todas de que ele era completamente capaz de interpretar qualquer figura e mesmo que, no final, tenho a sensação de que lá no fundo o que ele sabia mesmo era ser Carlitos.

A polêmica em torno da premissa é a resposta do protagonista quando é levado à justiça, na qual sua defesa consiste em que, enquanto o assassino privado é condenado pela lei, o genocídio público, certamente a Guerra, é glorificado. No filme seu personagem diz: “Um assassino transforma uma pessoa em vilã – milhões, a transformam em herói. Os números santificam.” Por falar e pensar demais publicamente através de seus filmes, este aqui, definitivamente, resultou em sua amargurada expulsão da América. Chaplin na mira da caça as bruxas, não teve alternativas. Sinto-me incomodado com o seu discurso aqui, nada a ver com o que tinha feito lindamente em O Grande Ditador.

Em outras palavras, Monsieur Verdoux é um filme modesto até demais e auto-suficiente para Chaplin. Um homem que passa a maior parte da projeção vivendo na bigamia seduzindo mulheres solitárias com alguma propriedade ou renda, convencendo-as a sacarem dinheiro do banco, eliminando-as de seu caminho e investindo o que roubou em ações, mesmo em crise e acreditando que era o momento certo para tal investimento. O tempo todo elegante, distinto, dando telefonemas, viajando constantemente, caçando novas vítimas e fugindo. É estranho, confesso, e nem parece Chaplin, mesmo reconhecendo a narração tão bem construída por ele. Na trama, ainda tem o drama da esposa paralítica e o filho pequeno, a sua família verdadeira antes de ingressar no crime. Outra desculpa é que ele faz tudo isso por eles, mas sua situação é tão grave que ele mal arranja tempo e possibilidades para vê-los. É uma comédia extraordinariamente disfarçada, diga-se de passagem. Provavelmente, o momento mais notável da fita é quando ele tenta assassinar uma das esposas, interpretada pela notável MARTHA RAYE (1916-94) esta que tem uma sorte terrível!



Sua atriz predileta, EDNA PURVIANCE (1895-1958) foi testada para o papel de Madame Grosnay que acabou ficando com ISOBEL ELSOM (1893-81) de filmes como “My Fair Lady” (64) e “O Fantasma Apaixonado” (47) de Mankiewicz. Eventualmente, Purviance acabava participando da fita com alguma figuração especial, aqui, por exemplo, na festa do jardim.

Dentre toda a trajetória cinematográfica do cineasta, este eu o considero o mais tragicômico. Também feito às pressas com a rígida economia do pós-guerra e com mais seriedade, sem aquele toque de fantasia mágica dos trabalhos anteriores. Eis um filme que não me marcou, mas me deixou atento do início ao fim.




EUA
1947
COMÉDIA/DRAMA
PRETO E BRANCO
124 min.
WARNER – Coleção Chaplin
     





CHARLES CHAPLIN 
EM:
MONSIEUR VERDOUX
Com: Martha raye
MADY CORRELL  ALLISON RODDAN
ROBERT LEWIS  ISOBEL ELSOM
Fotografia de ROLAND TOTHEROH
Escrito por CHARLES CHAPLIN
Baseado numa ideia de ORSON WELLES
Montagem WILLARD NICO Diretor de Arte JOHN BECKMAN
Música, Produção & Direção 
CHARLES CHAPLIN
MONSIEUR VERDOUX © 1947 Charles Chaplin Productions /United Artists

11 comentários:

Patt Baleeira disse...

Rô,

E assim nascia a concepção do seriado DEXTER...rs.

Feliz 2013!!!!
Caro Amigo,
Excelente resenha.

Besos.

Hugo disse...

Este é um filme de Chaplin que eu ainda não assisti.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

Pati: Chaplin era mais cruel com as vítimas, rs! E o Dexter mata os malvados. Ou eu já esqueci a premissa da série? Faz tempo que assisti...

Bjs.

Hugo: Recomendo cara. É bem diferente do que ele havia feito outrora.
Abs.





Paulo Telles disse...

Nobre Rodrigo

Vc abordou com exatidão uma grande obra de Chaplin, muito embora não seja um dos mais lembrados trabalhos se compararmos com “TEMPOS MODERNOS” e “O GRANDE DITADOR”, contudo é merecedor de profunda análise já que Chaplin resolveu fazer deste clássico não uma obra biográfica, mas uma película engraçada que, ao mesmo tempo, faz refletir.

Esta entre meus prediletos trabalhos deste grande gênio da Sétima Arte, e vc Rodrigo, esta de parabéns pela reminiscência.

Grande abraço


Unknown disse...

Pra mim esse filme é o mais interessante de Chaplin. Sempre que o assito, vejo características novas no personagem Landru (Chaplin)e, apesar de sentir falta de Carlitos é uma satisfação ver a excelência de Chaplin ator com um tipo tão diferente da que ele ficou eternizado.

Markos Queiroz disse...

Não conhecia esse filme do Chaplin. Até gostei, e é muito distante mesmo dos outros filmes dele.
Tem em DVD? rs...

Abração!

livronasmaos.blogspot.com.br

disse...

Às vezes acredito que Chaplin só fez esse filme para ter a oportunidade de dizer que os números santificam. Ele prova sua versatilidade como ator, mostrando que também sabia fazer drama.
Abraços!

Anônimo disse...

Oi, Rodrigo! :)

Eu não vi muitos filmes de Chaplin, e eu realmente não conhecia este que você abordou, mas bateu a curiosidade de conferir o lado mais dramático do ator.

Bjs ;)

Unknown disse...

Olha, seu texto está muito bom. É um pecado cinéfilo eu nunca ter assistido esse filme, agora, procurarei assisti-ló o quanto antes. Além do seu, já li textos muito interessantes sobre esse filme.

Abração!

Rodrigo Mendes disse...

Patricia: HAHAHA excelente analogia Pati, esqueci de dizer isso rs! Beijos!

Paulo Néry: Obrigado man pelos elogios. Não é nem de longe o meu predileto de Chaplin e você citou grandes filmes, mas a fita tem seus predicados, tb!
Abs.

Unknown: Chaplin era um baita ator, antes de tudo!
Abs!

Markos: Vai gostar. E tem em DVD, graças a Deus! rs!
Abs.

Lê: Um dos discursos dele que mais me faz refletir porque fico um tanto incomodado com ele, também.
A versatilidade de Chaplin, sobretudo aqui, é evidente.
Bjs!

Ana Leonilia: Muito bem vinda!
Acho interessante você conferir este filme dentre os poucos que ainda assistiu. Mas não se esqueça, aquela imagem do Carlitos não existe aqui. Pode gostar.
Bjs!


Celo: Valeu cara! Vai curtir o filme e depois escreva sobre em seu blog.
Abs!





Alysson disse...

Ainda nao assisti a esse filme de chaplin mas acho.ele um genio e quero ver esse.

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