TEM UM COELHO NO SEU BOLSO?
Um
detetive particular que odeia desenhos é designado a desvendar o misterioso
caso
de assassinato que aponta um coelho, Roger
Rabbit, como criminoso.
Não é exatamente um filme
voltado para as crianças e fui descobrir isso quando tinha apenas nove anos de
idade. Foi estranho imaginar como seriam os bastidores e a vida “real” de
desenhos animados. Betty Boop falida
e servindo bebidas em um boteco de quinta categoria localizado em um beco barra
pesada de uma cidade decadente, bom, isso me assustava. O resultado? Apesar de
não ser um típico filme Disney como o adorável A Canção Do Sul (Song of The South, 1946 estrelado por James
Baskett), bom, ao menos se assemelha com as produções de gangster da Warner e mesmo os desenhos
animados do estúdio que explodem literalmente na diversão e violência.
UMA
CILADA PARA ROGER RABBIT
(Who
Framed Roger Rabbit, 88) baseado no romance de Gary K. Wolf intitulado “Who Censored
Roger Rabbit?” (mudaram o título e tiraram a interrogação com a superstição
de que com um nome questionável a fita poderia ser fracasso de bilheteria) é
mais um trabalho do criativo diretor ROBERT
ZEMECKIS (De Volta Para O Futuro) que abençoado pelo colega Steven Spielberg que assina a produção executiva e pelo animador RICHARD WILLIAMS que ganhou aqui um
prêmio especial da Academia pela direção da animação, faz um filme seminal, um
verdadeiro clássico instantâneo com ingredientes do melhor que poderia existir
no cinema policial noir dos anos 1940
somado aos enigmáticos desenhos animados. Obviamente que o filme não é o
precursor na técnica de misturar atores reais com animação. Há uma cena notável
de dança entre o ratinho Jerry – de
Tom e Jerry – e o lendário Gene Kelly
(Cantando
Na Chuva) no
filme Marujos Do Amor (Anchors Aweigh – dirigido
por George Sidney em 1945). Mas é
fato de que foi Zemeckis e Williams que realizaram a técnica com proeza e maior
qualidade, efeitos especiais que impressionam até mesmo 25 anos depois e nunca
envelhece.
A trama é uma delicia e quando
criança eu já achava fascinante, embora muitos acontecimentos e significados da
premissa eu só fui compreender e saborear na idade adulta. Passa-se numa Hollywood sombria no ano de 1947, na
qual os personagens de desenho animado (Toons) existem de verdade e interagem
com seres humanos como se fosse a coisa mais normal do mundo! O personagem
principal é na verdade um homem de carne e osso, um bêbado deselegante e
grosseiro chamado Eddie Valiant,
interpretado com muito mau-humor no bom sentido da palavra pelo ótimo BOB HOSKINS, um dos melhores detetives
particulares da cidade. Ele odeia os desenhos por que um deles assassinou anos
atrás o seu irmão (jogando um piano em cima dele – só poderia ser coisa de
desenho). Ele e o irmão trabalhavam juntos numa agência particular e eram os
melhores investigadores locais. Portanto, Eddie sempre evitou voltar no
subúrbio de Los Angeles onde existe
um mundo paralelo, Toontown, lar dos
animes. Mesmo assim, ele acaba sendo contratado por um figurão do cinema que
produz desenhos animados de sucesso, R.
K, Maroon, interpretado por ALAN
TILVERN (1918-2003) para investigar um caso, ele teria que seguir os passos
da sensual Jessica Rabbit, esposa de
Roger, vivida originalmente na voz da estonteante Kathleen Turner (quando estava no auge da beleza, aliás, a voz dela
é lindamente rouca e sexy). Ela
estaria traindo Roger com um velhote, um adorador dos desenhos e inventor de
bugigangas, além de ser dono da Toontown, Marvin
Acne, o ótimo STUBBY KAYE
(1918-1997), só que detalhe: brincando de pirulito que bate e bate com o velho
nojento – Risos - e Eddie foi lá a mando de Maroon tirar algumas fotos
comprometedoras e mostrar ao coelho que acaba ficando enlouquecido, pirado, e
como é de sua natureza, sai por aí saltando pelo teto e quebrando janelas! Por
falar nele, o coelho é outra bela criação dos desenhos, interpretado pelo
espírito e voz do sensacional CHARLES
FLEISCHER. Assim sendo, desequilibrado, o Rabbit acaba se envolvendo numa
baita confusão hilária de chantagem e assassinato e o pior de tudo, acaba por
envolver o amargurado Eddie que não têm alternativas a não ser investigar o
caso novamente, com a ajuda da namorada Dolores,
papel de JOANNA CASSIDY (de Blade Runner – O Caçador de
Andróides)
e assim se livrar de uma vez por todas do coelho que esta vivendo em seu
apartamento e de vez em quando em seu bolso e certamente enchendo sua pouca e
já esgotada paciência. Além disso, a dupla precisa se livrar dos passos de um
esquisito juiz que almeja prender Rabbit e o sentenciar a morte, jogando o
coitado num caldo removedor de desenhos! O vilão? Zemeckis não poderia ter
selecionado um ator mais brilhante para o personagem, trata-se de CHRISTOPHER LLOYD como Judge Doom numa das caracterizações mais
marcantes do ator, malvado, impiedoso e por que não engraçado? O Sádico juiz da
Corte Distrital de Desenholândia
(traduzido assim pela Herbert Richards).
A Disney comprou os direitos
autorais de filmagem em 1981 e o próprio estúdio foi quem trouxe Spielberg e
sua produtora, a Amblin Entertainment,
para ajudar a financiar o projeto. O script
já havia sido esboçado pela dupla JEFFREY
PRICE e PETER S. SEAMAN que
sempre trabalham juntos e diga-se de passagem, a estória é super divertida e
criativa, muito bem adaptada.
O filme ganhou 3 Oscar (Efeitos Sonoros, Visuais e Edição para Arthur Schmidt,
fiel colaborador de Zemeckis) e um especial, como havia dito, à Williams pelo
triunfo na animação. Também foi indicado para: Direção de Arte, Fotografia, o
sempre ótimo Dean Cundey, e Som.
Basicamente, Zemeckis foi
contratado para dirigir as cenas em live-action
e com Williams fazendo a supervisão de todas as sequências que incluíam
animação. Nos set de filmagem, os
atores tinham como ponto de referência estruturas meio que robóticas para que
os atores pudessem interagir com os personagens animados e o próprio Fleischer
ficava o tempo inteiro vestido de coelho. Os roteiristas se inspiraram e
investigaram como funcionava minuciosamente todo o processo de criação de Walt Disney assim como os desenhos da Warner Bros. Cartoons (como os Looney Tunes e Merrie Melodies), isto é, curtas metragens de animação da era de
ouro, como os desenhos de Tex Avery,
Walter Lantz (criador do Pica-Pau) e Bob Clampett. Era a primeira vez que os personagens animados de
todos esses estúdios se uniram em um filme. Tudo foi realizado nos famosos
estúdios ingleses da Elstree, com o
objetivo de acomodar Williams e sua equipe. Embora tenha sido difícil de
produzi-lo e os custos de filmagem foram aumentando e o tempo cada vez mais
longo. Inesperadamente, a fita conseguiu ser um enorme sucesso na época e com
grande ovação dos críticos. Muitos afirmam que o filme de Zemeckis tornou-se um
exemplar modelo de vanguarda da era moderna no campo da animação tradicional.
O
estúdio sempre teve o interesse de produzir uma continuação, mas Zemeckis foi
contra, dizendo que queria fazer o seu “E.T. O Extraterrestre” e seguindo os
conselhos do padrinho Spielberg.
Totalmente surreal, Uma
Cilada Para Roger Rabbit é encantador, daqueles filmes para se assistir
muitas vezes sem cansar. Sem dúvida que esta experiência foi importante para
Zemeckis que mais tarde se tornaria um exímio contador de histórias através dos
efeitos cinematográficos usando até mesmo dramaticamente (Forrest Gump, por exemplo) e que também
daria novos ares para o âmbito dirigindo filmes subestimados como O
Expresso Polar e Os Fantasmas de Scrooge. Confesso
que A
Lenda De Beowulf foi irregular, mas nem por isso menos impressionante
no quesito animação.
Em poucas palavras, Rabbit ensinou a Zemeckis que a mágica
não consiste apenas em tirar o coelho da cartola.
EUA
1988
ANIMAÇÃO/COMÉDIA/POLICIAL/SUSPENSE
104 min.
COR
DISNEY
★ ★ ★ ★ ★
Touchstone Pictures e Steven Spielberg Apresentam
Uma
Produção da Amblin Entertainment
&
Produzido Em Associação com Silver Screen Partners III
UM FILME DE ROBERT ZEMECKIS
Estrelando: BOB HOSKINS. CHRISTOPHER LLOYD
JOANNA CASSIDY. CHARLES FLEISCHER
STUBBY KAYE. ALAN TILVERN
RICHARD LePARMENTIER. LOU HIRSCH. BETSY BRANTLEY
Participação
de
JOEL SILVER. PAUL SPRINGER. RICHARD
RIDDINGS
EDWIN CRAIG. LINDSAY HOLLIDAY. MIKE EDMONDS
Vozes: KATHLEEN TURNER. FRANK WELKER
QUESTEL MAE como Betty
Boop & MEL BLANC
Música
de ALAN SILVESTRI Fotografado por DEAN CUNDEY
Edição ARTHUR SCHMIDT Figurinos JOANNA JOHNSTON
Desenhos
de Produção ROGER CAIN. ELLIOT
SCOTT
Diretor de Animação RICHARD WILLIAMS
Produtores Executivos STEVEN SPIELBERG. KATHLEEN
KENNEDY
Baseado
no Livro de GARY K. WOLF
Escrito
por JEFFREY PRICE & PETER S. SEAMAN
Produzido
por ROBERT WATTS. FRANK MARSHALL
Dirigido
por ROBERT ZEMECKIS
Who Framed Roger Rabbit © 1988 Amblin Entertainment/Silver Screen/Touchstone










8 comentários:
Zemeckis é um cineasta muito interessante, que fez duas ou três obras-primas (UMA CILADA PARA ROGER RABBIT certamente é uma delas) e caiu muito a partir do lançamento de REVELAÇÃO(acredito que CONTATO foi seu último grande filme). Estão comentando que ele voltou a ser o cara de antigamente com O VOO, daí minha curiosidade extrema com o filme protagonizado por Denzel Washington.
UMA CILADA PARA ROGER RABBIT realmente é pioneiro, aquele que praticamente inaugurou a mistura de desenhos animados com filme. Além desta grande novidade (que também já foi usada à exaustão e hoje me irritana maioria dos filmes), temos ainda um grande roteiro e excelentes personagens (Roger e Jessica são demais).
Um abraço!
Rodrigo,
Primeiramente, quero agradecer por ter conhecido virtualmente e através da Patt, seu blog.
Você transparece humildade e muito conhecimento. Posso não aparecer com frequencia por aqui ou até no blog da Patt, no grupo o face..Mas, isto é pura falta de tempo e preguiça de internet ;)
ok?!
Caro colega,
Belissimo texto, parabéns.
Gosto dessa animação e na época assisti com o mesmo olhar inocente que o seu.
Bj
Ju,
Extremamente divertido, um dos grandes acertos de Zemeckis.
Abraço
Vi esse filme no cinema quando foi lançado (nossa: faz tempo!) e depois revi várias vezes na televisão.
Acho muito legal!
Há!
Estava um pouco sumido do CR, confesso, mas cá estou eu tirando o atraso, meu amigo. Malz aê!
Esse filme é muito especial pra mim porque foi o primeiro que aprendi a gravar num VHS sem intervalos no longíquo ano de 1995 HAHAHAHA!
Filme bárbaro, uma obra-prima do cinema de entretenimento! Os anos 80 é um mar de diversão e "Roger Rabbit", sem dúvidas, contribuiu e muito para a década ser referência de bons filmes infanto-juvenis até hoje.
Abs!
Adorei o desfecho da sua crítica. Nossa, faz tanto tempo que não vejo esse filme. Me lembro de não ter gostado tanto assim quando o vi pela primeira vez. Em experiência semelhante a sua. Mas esse e "Dick Tracy" foram filmes que curti demais na minha adolescência. Demonstrações do poder da imaginação do cinema de romper os limites para se contar uma boa história.
Abs
Weiner: Outras obras-primas do Zemeckis que eu destacaria, sem pensar, é a trilogia De Volta Para O Futuro e o ótimo Forrest Gump com Tom Hanks. Certamente Contato é um baita filme, ainda assim, acho Revelação e Náufrago ótimos filmes. Curioso para ver O Voo.
Abs!
Ju: Agradeço sua visita. Super beijo!
Hugo: Tb acho, man!
Bússola: Gostaria de ter visto na tela grande!
Elton: Obrigado meu caro. Entendo que o trabalho faz a gente se afastar um pouco, mas estamos aí... rs!
Putz, você agora me fez lembrar dos velhos tempos do VHS, HA! Também fazia isso e ainda tenho (alguns infelizmente embolorados) filmes gravados. Passava na TV e pulava os intervalos, como era divertido fazer isso!
Abs!
Reinaldo: Sempre gostei de Roger Rabbit eu só não entendia muito bem as nuances na época, rs! Dick Tracy é um filme que sempre achei esquisito e sempre tentei apreciar mais. Tem até Madonna e mais um puta elenco...mas esta longe de ser o grande momento de Warren Beatty.
Abs.
Esse filme me lembrou na primeira vez que o assisti e eu achei simplesmente fascinante. Hoje em dia assistindo ele ainda lembro de como foi bom conhecer esse filme que sempre me deixou interessante por conta de misturar animaçao com pessoas .
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