sábado, 27 de abril de 2013

UM CÃO ANDALUZ

SESSÃO DINOSSAURO 
PARTE 12
SURREALISMO CLÁSSICO

A nova temporada da série sobre os filmes dinossauros da sétima arte no Cinema Rodrigo continua. Influentes, seminais e icônicos, essas fitas são os clássicos dos clássicos!

Todos os anos eu faço uma revisão dos clássicos. Tenho grande predileção pelo cinema mudo e não poderia deixar de fora da série ‘Sessão Dinossauro’ este que é o clássico surrealista do genial Luis Buñuel (1900-1983) de futuras obras-primas (O Discreto Charme da Burguesia [meu predileto], A Bela Da Tarde, Viridiana, O Estranho Caminho de São Tiago, O Anjo Exterminador...) em parceria com seu grande amigo Salvador Dalí (1904-1989) e que juntos, criaram esta fita influente que ainda é considerada o maior representante do cinema experimental, lançado no ápice das vanguardas sensacionais que surgiam na Europa.


BUÑUEL
DALÍ
É um filme com 16 minutos de duração, isto é, um curta-metragem que não indica uma história e ou/ desdobramento. Não esta na ordem natural dos fatos, utilizando-se da lógica dos sonhos que se baseiam em conceitos psicanalíticos de nomes renomados como Sigmund Freud. É na verdade uma viagem surreal na psique, inconsciente e fantasia.

Em 1960, a trilha sonora foi adicionada ao filme sob a direção do próprio Buñuel. Ele utilizou a mesma música que foi tocada – utilizando discos de vinil – no ano de lançamento, seleções de autoria de Richard Wagner e dois tangos argentinos.

A origem fundamental do filme foi a partir de um sonho que Buñuel contou para Dalí: uma nuvem cortando pela metade a lua (como uma lâmina de barbear cortando o olho). Durante a conversa, Dalí disse ao amigo que se lembra de ter sonhado com uma mão cheia de formigas horripilantes! Obviamente que o resto é história.  Se formos considerar uma narrativa, eis a premissa, só que tudo não passa de uma reunião de ideias, imagens oníricas, encadeadas através do experimento cinematográfico (que naquele tempo fervia) e passam uma sensação muito mais de pesadelo com tantas cenas metafóricas, causa tanta fobia e agonia, que é difícil ficar encantado por uma vaga e torpe relação de “beleza”.

Outra das várias curiosidades de bastidores foi descobrir que na cena da bicicleta, isto é, a mulher que está sentada em uma cadeira, lendo e lança um livro foi na verdade uma reprodução de um quadro de Johannes Vermeer, pintor holandês muito admirado por Dalí e que também chegou a fazer referências a ele em suas próprias pinturas.

David Bowie em sua turnê Station to Station em 1976 exibia o filme no início de cada show e a vasta multidão de fãs do cantor reagia como qualquer espectador que deparou com o filme pela primeira vez.

Certamente é um trabalho que influenciou cineastas como o americano David Lynch e os franceses Marc Caro e Jean-Pierre Jeunet, citando apenas alguns.

O olho de uma vaca foi utilizado para fazer a famosa cena em que o globo ocular da mulher (interpretada por Simone Mareuil / 1903-1954), é cortado. O padre que esta sendo arrastado com o piano é o próprio Dalí.

Un Chien Andalou foi o primeiro filme dirigido por Buñuel e não tem como evitar a primeira cena que fica gravada em nossa mente para todo sempre: a tal da navalha (argg!) cortando o olho da mulher! As interpretações são inúmeras e infinitas e alguns críticos resenham o filme, só por esta cena, indicando-o seu enredo como uma viagem à mente perturbada de um assassino psicopata e as confissões traduzidas em imagens. Não posso concordar que qualquer que seja a interpretação de cada um seja considerada vaga, aliás, estamos assistindo uma série de imagens que faz com que a ausência da realidade seja no mínimo evidente. O mais fascinante na antológica e discursiva cena do olho se dá pelo corte/montagem associativa da nuvem tapando a lua cheia. Um toque genial. Há também questões relacionadas ao social e toda uma hostilidade masculina para com as mulheres o que é de mais apavorante na obra.

O fato é que Um Cão Andaluz é uma coleta de cenas desconexas de puro impacto e literalmente impróprias. Citando, por exemplo, além da mão repleta de formigas, do olho, um cavalo morto sob um piano (vide acima) isso com certeza me choca! Mesmo assim, por mais fora do comum e totalmente mergulhado na irrealidade, Buñuel ainda preza as convenções dadas pela linguagem cinematográfica. Pode não parecer, mas é notável uma continuidade no encadeamento das imagens fazendo com que sua narrativa não deixe de parecer em meio ao inacreditável espetáculo exótico, algo sólido e naturalmente inquietante com tantos fragmentos entorpecentes. É o híbrido mais clássico da história do cinema e que certamente influenciou o formato do videoclipe que tanto conhecemos e apreciamos nos dias atuais (sobretudo na obra videoclíptica do já comentado aqui, Michel Gondry. Vide postRebobine, por favor”).

É inegável o inconsciente “desejo de matar” de Dalí e Buñuel neste filminho tão avassalador e um dos mais influentes e importantes registros artísticos já realizados e expressados pelo cinema. Como dizia Gandhi: “De olho por olho e dente por dente o mundo acabará cego e sem dentes.” Vamos incluir uma navalha aí...



FRANÇA
1929
PRETO E BRANCO
16 min.
MUDO
VERSÁTIL (+ o filme “A Idade Do Ouro”/ L'âge d'or, 1930)
           



LUIS BUÑUEL   SALVADOR DALÍ
Com: SIMONE  MAREUIL    PIERRE BATCHEFF
Produzido por LUIS BUÑUEL
Diretores de Fotografia
ALBERT DUVERGER/JIMMY BERLIET
Montagem........ {Buñuel
Direção de Arte ………{ Pierre Schild
Escrito por  SALVADOR DALÍ & LUIS BUÑUEL
                                                    Direção LUIS BUÑUEL ©1929

3 comentários:

Amanda Aouad disse...

Filme incrível realmente, adoro e sempre uso em minhas aulas. Acho que a cena inicial da navalha cortando o olho (que apesar de saber que é uma uva, continua me dando agonia), é um convite para que vejamos o filme com outros olhos e não tentar fazer conexões racionais. Afinal, é surrealismo, é onírico, é o inconsciente agindo.

bjs

renatocinema disse...

Quando finalmente consegue comprar minha cópia desse filme gritei ao mundo: "sou cinéfilo".

Bela homenagem.......essas perólas merecem nosso carinho.
abs

Rodrigo Mendes disse...

Amanda: Na cena do olho, pelo que eu li, utilizaram o olho de uma vaca (morta, um adendo!) mesmo! Mas parece uva, de fato. Sei lá, rezam tantas lendas em torno desta obra tão fascinante. Acho ótimo você utilizar como objeto de estudo em suas aulas. Bjs!

Renato: Quase que obrigatório ter em nossas coleções!
Abs.

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