A VIDA É UM QUEBRA CABEÇA
Durante
seu leito de morte, um político e magnata da imprensa diz uma palavra
enigmática: Rosebud. Através de
depoimentos contraditórios tenta-se reconstruir o mistério de sua vida.
Orson
Welles (1915-1985)
escreveu, produziu, dirigiu e estrelou este clássico discursivo e que por mais
que tentamos contestar o resultado, não tem jeito, CIDADÃO KANE (Citizen Kane, 1941) é sempre um filme lendário e
seminal. É uma fita cheia de maus e bons motivos e obrigatória para todo amante
da sétima arte. Ame ou odeie, eu até gosto, mas em revisões percebo que não é
também essa coca-cola toda. É superestimar demais Welles e que apesar da pouca
idade na época, arriscou o seu pescoço e sua carreira nesta ousada estréia que
hoje já é uma afirmação clara de que o filme confirma a teoria de que Welles
fez assumidamente uma biografia disfarçada de William Randonph Hearst, assim como Kane, praticamente, literalmente,
“o homem poderoso”, magnata da imprensa e que como o personagem do filme,
flertou com o nazismo e tentou transformar sua amante em estrela de cinema.
Em 1999, o diretor Ridley Scott produziu para a HBO um
longa metragem contando a saga dos bastidores do filme, RKO
281, dirigido
por Benjamim Ross e interpretado
pelo ótimo Liev Schreider no papel do
jovem Orson Welles e ainda estrelando; Mellanie
Griffith como Marion Davies (amante real de Hearst), James Cromwell como Hearst e John
Malkovich como o roteirista Herman J. Mankiewicz (irmão do famoso diretor Joseph L. Mankiewicz e tio do também
roteirista Tom Mankiewicz). No
entanto, o filme que mais revela segredos de bastidores é um documentário
televisivo, aliás, meu predileto e que esta presente em uma edição especial do
filme (DVD DUPLO) pela Warner – um de
meus filmes de cabeceira – chamado: A
Batalha Por Cidadão Kane
(The
Battle Over Citizen Kane, 108 min, 1996) exibido pelo programa do The American Experience, onde aprendi inúmeras curiosidades
preciosas. É um doc. completíssimo, escrito por Richard Ben Cramer e Thomas
Lennon, este último que co-dirige com Michael
Epstein numa excelente demonstração paralela da vida de Hearst e Welles, a
meu ver, inimigos mortais.
Rosebud, literalmente, quer dizer botão-de-rosa, mas seria também a forma
carinhosa como Hearst fazia referência ao sexo de sua amante. Na verdade, foi
apenas uma inspiração de Welles porque no filme, lá para o final, explica-se
que no final das contas, o que teria sido Rosebud.
[SPOILER]: a palavra misteriosa era
uma lembrança da infância de um homem que tinha tudo e acabou perdendo a coisa
mais preciosa de sua vida, muito além do que o dinheiro poderia comprar, no
caso, o trenó na qual lhe marcou
profundamente e ele reconstitui a nostalgia mentalmente quando está debilitado
e enfurecido no momento em que é abandonado pela esposa e olha para um globo de
neve. É fácil sacar isso antes mesmo da explicação final, já que o filme, em
sua remontagem, constrói uma sequência notável com a ótima AGNES MOOREHEAD como a mãe de Kane e o garotinho BUDDY SWAN como Kane aos oitos anos,
brincando com o trenózinho na
antológica cena em que é levado por um tutor do banco quando sua mãe enriquece
por conta de uma mina de ouro herdada e num ato materno e difícil, resolve que
o filho mereceria uma vida muito melhor vivendo no conforto e estudando nos
melhores colégios.
O maior filme de todos os
tempos? Pra mim, sinceramente, não existe um único filme que possa ser
classificado como tal, mas certamente existe uma lista com várias obras-primas.
Sem dúvida que é um filme idolatrado pelos críticos e muitos dos cineastas
americanos e cada vez que há um encontro para eleger algum ranking, Kane de
Orson Welles volta a ser reconhecido como o melhor filme de todos os tempos.
Bom, há vários, um deles recentemente passou Kane, Um Corpo Que Cai,
Vertigo de Alfred Hitchcock. Ainda assim, é muito
esquisito colocar um único filme no topo nessas listas por toda a parte.
O fato é que esta obra é ao
mesmo tempo um triunfo e maldição já que é o primeiro longa-metragem de Welles,
considerado um rapaz prodígio, e que havia ganhado fama grandiloquente com
algumas peças teatrais (na Mercury Theatre que dirigia) e
narrações radiofônicas com sua reconhecida e bela voz. Num desses programas de
rádio existiu a famosa transmissão como notícia de jornal do livro “
A Guerra Dos Mundos”
de H. G. Wells que causou pânico e
deixou o jovem Welles em maus lençóis com a justiça. Mesmo assim, cercado de
polêmicas, o aspirante a diretor de cinema conseguiu fama o suficiente para ter
carta branca num estúdio, aqui no caso com a RKO – Radio Pictures (produtora de obras como King Kong) que apostou cegamente no
rapaz “gênio”. Se por um lado ele foi aclamado e considerado brilhante, por
outro, eis sua maldição, isto é, vítima de um primeiro sucesso que foi
impossível repetir. Nunca mais teve o mesmo apoio seguinte, embora tenha
produzido e estrelado inúmeros filmes posteriores, dentre alguns os meus
favoritos: A MARCA DA MALDADE (Touch Of Evil, 1958) e o documentário VERDADES E MENTIRAS (F For Fake, 1973) dentre mais algumas ótimas
participações como ator e muitas vezes apenas como narrador.
A fama deste filme se explica
também pelo fato de ter sido de certa maneira inovador em sua época, sobretudo
nas técnicas narrativas numa premissa que usa profusamente artifícios do flash back para reconstruir a vida
secreta de quem teria sido o tal Charles
Foster Kane (até mesmo como um quebra cabeça e há uma cena demonstrando
essa alusão), depoimentos que não chegam numa verdade absoluta e até mesmo cine
jornais forjados (News on the March!). Realmente, o que eu mais gosto no filme é
justamente sua trama entrecortada e vemos Kane apenas pelo ponto de vista e
perspectivas diferentes de cada personagem e obviamente sem ordem cronológica
já que a primeira cena, e a mais importante, é o fato de o filme começar com a
morte do protagonista e num vai e volta os astutos repórteres de seu império
jornalístico (Inquirer) tentando montar as peças.
A admiração se dá por outros
fatores cinematográficos, como a utilização criativa do som, as sombras, os
diversos efeitos de contraluz, os elementos simbólicos como por exemplo, as
caixas com coleções e tudo mais que Kane guardava como num museu (o que o dinheiro podia comprar) que
parecem edifícios, os famosos movimentos de câmera, travelling vertical que mostra os operários tendo que suportar a
cantoria sem talento da Sra. Kane, os planos de filmagem, plongée e contra-plongée
muito bem utilizados, enfim, geniais. Sem contar no quesito cenográfico na qual
mostrava pela primeira vez o teto dos ambientes sem medo de parecer
deselegante. Adoro, por exemplo, quando somos levados pela primeira vez, numa
noite chuvosa, até a ex- Sra. Kane, completamente bêbada numa mesa de um Night Club dispensando furiosamente um
jornalista. E por aí vai. Até mesmo o palácio do herói, Xanadu, filmado e fotografado das
inúmeras maneiras criativas possíveis, um lugar aterrador que mais parece
cenário de um filme de terror de monstro da
Universal!
![]() |
| O Lar da Chefia! |
Provavelmente a maior pressão
do filme nem foi o fator Welles, jovem, inconsequente megalomaníaco e
obviamente maluquinho, mas a forte oposição, até considerável, foi mesmo de
Hearst, pois ele julgava que a fita acabaria com sua imagem. O cara fez de tudo
para impedir o sucesso do filme (que na época foi muito mal de bilheteria), com
o seu poder e dinheiro, ele chegou ao cúmulo de propor comprar todos os negativos
do filme para depois destruir. Mesmo assim, fracassou. Ironicamente e até mesmo
surpreendentemente, o filme recebeu uma indicação ao Oscar para Melhor Filme
e ganhou apenas o de Roteiro. Teve
ainda indicações para Melhor Ator
(Welles), Diretor, Direção de Arte (trabalho excepcional
de: Perry
Ferguson, Van Nest Polglase, A. Roland Fields, Darrell Silvera) além
de: Montagem (o futuro diretor Robert Wise), Som (John Aalberg) e Fotografia, que em minha opinião
merecia o prêmio, mas como fugia dos padrões de Hollywood, o injustiçado GREGG
TOLAND (1904-1948 / - que antes havia fotografado o belíssimo Vinhas
Da Ira de John Ford e só tem um Oscar por ter
feito O Morro Dos Ventos Uivantes de William Wyler) não levou nada! Nada também para o elenco
coadjuvante ruim, exceto Agnes, como a mãe e o ótimo JOSEPH COTTEN (1905-1994) – que depois atuaria naquele que sempre
foi o filme predileto de Hitchcock, A
SOMBRA DE UMA DÚVIDA,
Shadow
of A Doubt, 1943
– o ponto mais fraco é de fato o elenco, sobretudo a chatíssima, insossa (ironicamente
o papel lhe caiu como uma luva), DOROTHY
COMINGORE como Susan Alexander Kane
(Aka: Sra. Kane/ Marion Davies). Sua
voz dialogada é tão berrante e irritante quanto seu dom para desafinar. O fato,
e não uma desculpa, e apesar de explicarem nas titulagens, todos eles eram
novatos do cinema, vindos do próprio Teatro
Mercúrio regido por Orson.
![]() |
| Kane e Leland (Joseph Cotten) na Inquerir |
Só agora percebo algumas
participações interessantes (nem por isso interpretações boas) que nem sequer havia
notado. No elenco há o futuro produtor WILLIAM
ALLAND (que faria o clássico O
MONSTRO DA LAGOA NEGRA,
a trilogia) no papel do jornalista que faz as entrevistas, Jerry Thompson. Até voltaria a atuar para Welles em MACBETH em 1948. Sem contar, além de
tudo, com o grande ALAN LADD, astro
do clássico faroeste “Os Brutos Também Amam”,
Shane,
1953 de George Stevens, numa pontinha fazendo
figuração não creditada como um dos repórteres!
A música menos genial, porém
simpática, é de um jovem chamado BERNARD
HERRMANN que ainda não havia chegado ao seu status em fitas como Psicose! Este aqui é o seu primeiro
trabalho como compositor de cinema. Mas o que faz do filme de Welles o que é (com
todos os elogios e tal) é a colaboração importante do roteirista Mankiwewicz
que de certa forma foi ofuscado pela fama já que Orson acabou levando os
maiores créditos de gênio. Há outros colaboradores não creditados: Mollie Kent, John Houseman e Roger Q.
Denny, figuras importantes e que faço questão de apresentá-los na resenha
já que continuístas e revisores de scripts,
não são tão valorizados.
Cidadão Kane, custando o que deveria
custar, é um mito. O filme foi capaz de discursar ainda mais assuntos pertinentes
voltado ao jornalismo. Até mesmo documentários censurados como aquele que faz
uma crítica fervorosa de Roberto Marinho
e da sua Rede Globo, produzido pelo
canal britânico, Channel 4 e dirigido
por Simon Hartog, não por coincidência
leva o nome de BEYOND
CITIZEN KANE
/ MUITO
ALÉM DE CIDADÃO KANE (1993).
Considero uma das obras-primas do gênero.
Um drama e suspense dos mais
influentes e perseguidos. Um clássico arrebatador por muitos “ângulos”. Ao
final, o personagem de Alland, após a exaustiva investigação da vida de Kane e
se vendo incapaz de descobrir o que seria Rosebud,
conclui: “Charles Foster Kane foi um homem que possuiu tudo o que quis, e depois
perdeu tudo. Talvez Rosebud seja algo que ele nunca tenha possuído, ou algo que
tenha perdido.” Ou seja, por mais que a fita revele o significado de Rosebud, a vida de Kane, assim como as
nossas vidas, no final das contas, não passa de um mosaico e ou/ um quebra
cabeça que certamente em algum futuro próximo será difícil de juntar as peças.
Observo a minha vida pessoal e reflito como se tudo não passasse de uma trama
cinematográfica, contada em pedaços. O que perdemos e o que não recuperamos
mais. As lembranças, bom, essas nunca fazem parte de uma peça para concluir o
que falta. Mais do que qualquer coisa, esta é a única sensação toda vez que
revejo Orson Welles como este que é o seu único e irreconstituível personagem.
EUA
1941
DRAMA/SUSPENSE
PRETO E BRANCO
119 min.
WARNER
★ ★ ★ ★
A MERCURY Production
by
Orson Welles
ESTRELANDO OS ATORES DE MERCÚRIO:
JOSEPH COTTEN
DOROTHY COMINGORE
RAY COLLINS GEORGE
COULOURIS
AGNES MOOREHEAD
RUTH WARRICK
ERSKINE SANFORD
EVERETT SLOANE
WILLIAM ALLAND PAUL
STEWART
FORTUNIO BONANOVA
COM: HARRY SHANNON
SONNY BUPP BUDDY SWAN ORSON WELLES
SOM POR JOHN AALBERG BAILEY FESHER
JAMES G. STEWART
MÚSICA COMPOSTA E CONDUZIDA
POR BERNARD
HERRMANN
FIGURINOS EDWARD STEVENSON
DIREÇÃO DE ARTE VAN NEST POLGLASE
CASTING RUFUS LE MAIRE
ROBERT PALMER
MONTAGEM ROBERT WISE
FOTOGRAFADO POR GREGG TOLAND, A.S.C.
PRODUTOR EXECUTIVO GEORGE SCHAEFER
ROTEIRO HERMAN
J. MANKIEWICZ ORSON WELLES
DIREÇÃO-PRODUÇÃO ORSON
WELLES
CITIZEN
KANE ©1941 An RKO
RADIO PICTURES/ Mercury
Productions















6 comentários:
Saudações Nobre Rodrigo, tudo jóia?
Novamente me rendo a tão brilhante tópico, a homenagear um dos grandes clássicos da Sétima Arte que é uma verdadeira aula de como fazer cinema. Contudo, devo ser muito sincero com vc e com todos que aqui comentam, que não esta entre meus trabalhos prediletos de Orson Welles, apesar de reconhecer sua importância por vários fatores, sendo que uma delas é a de ser reconhecida como obra prima quase 20 anos depois de sua realização. Sim, demorou para isso, assim como aconteceu com RASTROS DE ÓDIO que também não foi bem recebido em sua época e só depois de alguns anos foi reconhecido como clássico absoluto de John Ford.
Particularmente, Rodrigo, só vim a conhecer esta obra em 1996, quando vi pela primeira vez numa sessão especial no Paço Imperial, Centro do RJ.
Welles não poupou esforços e nem a vida privada das pessoas, mexeu na ferida da sociedade e dos poderosos da época, e mexeu com William Randonph Hearst, cuja amante, a atriz Marion Davies, esta bem caracterizada na obra de Welles como uma cantora de ópera medíocre, como medíocre também era a atriz Davies, que não alavancou no cinema sonoro e morreu em 1961.
Hearst era pior do que perigoso e além de poderoso, e seja como for, Welles não teve medo dele, mesmo sabendo que ele tinha poder para acabar com sua carreira, como havia feito com o ator Johnny Mack Brown, mas este porque se envolveu com a “namoradinha” de Hearst, Marion Davies. Ator com futuro promissor, Brown foi diminuído em Hollywood e acabou se tornando cowboy de filmes B, mas isto é outra história!
OS PERSONAGENS são alegóricos, mas reais – cada um tem algo ou a revelar ou a esconder, e o filme narra a saga deste ser curioso chamado Charles Foster Kane, que ao contrário do verdadeiro Hearst, exercia profundo carisma, talvez porque fosse um político, chegado direto a povo, ao contrário de um dono de uma cadeia de jornais.
Mas a verdade, que o filme tem sua mensagem moral quando ao final, pois ao longo da fita vimos a trajetória de um homem que teve tudo, mas ele soube usufruir? Ou ele não teve tudo? Ou se já teve? E se ainda tivesse possuído o Rosebud, ele seria melhor como ser humano? São tantas as questões levantadas sobre o personagem central desta obra que mereceria uma análise técnica e aprofundada até mesmo pelos psiquiatras e filósofos.
Parabéns pelo seu brilhante texto e pela estética, seu blog é uma sala de cinema. Abraços nobres!
Paulo Telles (Néry) – FILMES ANTIGOS CLUB ARTIGOS
Obrigado meu nobre e inteligente amigo pelas palavras. É sempre bom receber seus comentários lindamente aprofundados de conhecimento em meu blog. Sem mais.
Abração!
* Também considero "Rastros do Ódio" um dos melhores do Ford, mas confesso ter predileção por No Tempo Das Diligências.
Fica até chato comentar depois do Paulo, mas vamos lá! rsrs
Parabéns pelo brilhante texto. Um dos mais inspirados que li por aqui e, digo mais, dos mais inspirados sobre "Cidadão Kane". Também não acho o filme essa "coca-cola toda", mas reconheço seu status seminal e seu valor cinematográfico. No enatnto, se não o reconheceçe, assim o faria a partir do momento em que terminei de ler seu texto. Bravo!
Meu caro Glioche, muito obrigado pelos elogios, mais uma vez. O Paulo é realmente um conhecedor da sétima arte, assim como você. Seus comentários só enriquecem meu blog.
Abração!
Rodrigo parabéns pelo post fantástico, muito bem escrito e elaborado. Concordo com suas palavras quando disse sobre um único filme ser considerado o melhor de todos. Cidadão Kane, de fato é um dos maiores, no entanto, sempre achei exagero o título de "o melhor". A cena que você citou, da ex- senhora Kane no bar, também é uma de minhas preferidas. Em suma, gosto muito do filme, no entanto, para mim ele não é aquele tipo que a gente topa rever a qualquer hora...
O Documentário que você citou, que é um dos extras da versão dupla do dvd lançado pela Warner, realmente é um dos mais completos documentos de making-off que eu já vi, sem ele, pelo menos para mim, CIDADÃO KANE seria bem menos interessante...
Grande abraço Rodrigo e mais uma vez, parabéns pelo ótimo post.
Grandioso em todos os sentidos!
:)
Jeff, adoro essa cena e tecnicamente é formidável. É isso, concordamos quanto a eleger o "Melhor Filme", balela, não é?
Este documentário é realmente precioso! Muito bem claro e produzido, conteúdo excelente.
Obrigado pelos comentários. Abraços.
Postar um comentário