CAMARADAGEM CLÁSSICA
As aventuras de três soldados
ingleses, amigos de longa data, e um nativo, Gunga Din, em plena Índia do século XIX, contra o ressurgimento de
um culto assassino, os Tugue, que pretendem espalhar o mal no mundo.
Definitivamente 1939 foi o ano de Hollywood. Todos os famosos estúdios da
cidade realizavam naquele período suas obras-primas e é claro que a RKO (que
fez King
Kong e faria Cidadão
Kane) não
poderia ficar de fora. A Metro já
tinha a sua produção lendária e cultuada, O Mágico de Oz
de Victor Fleming e também fez
bonito ao produzir Ninotchka de Lubitsch (aquele filme em que a Garbo solta uma gostosa e inusitada
gargalhada!). David O. Selznick
produzia o imbatível E O Vento Levou, a Columbia; Paraíso
Infernal,
de Hawks e a Universal, por exemplo, estava produzindo Atire A Primeira Pedra com Dietrich. O mestre dos
faroestes John Ford, naquela altura
estava dirigindo seu maravilhoso Stagecoach
– No Tempo Das Diligências,
Capra, também na sortuda e estelar
Columbia; fazia o excelente Mr.
Smith Goes To Washington
(A Mulher Faz O Homem, com James Stewart), Wyler e Samuel Goldwyn focavam seus talentos no maravilhoso O Morro Dos Ventos Uivantes, com Oberon e Olivier, enfim.
Citando apenas alguns dos filmes da época, tantos os produtores independentes
como os estúdios, numa incrível coincidência ou acaso, faziam história com
essas películas magistrais. RKO, considerada a casa das aventuras, realiza esta
estupenda fita, uma das mais adoráveis matinês de todos os tempos e que estranhamente
vem de um poema escrito por RUDYARD
KIPLING (1865-1936). A direção é do vencedor do Oscar GEORGE STEVENS (1904-1975) o mesmo diretor de OS BRUTOS TAMBÉM AMAM
(Shane, 1953) outro grande Western
estrelado por Alan Ladd e o adorado ASSIM
CAMINHA A HUMANIDADE
(Giant, 1956) com Elizabeth Taylor, Rock Hudson e James Dean.
Sem dúvida que Gunga
Din serviu de
inspiração para muitos filmes de outras gerações. Pode-se dizer com todas as
letras que muito na série Indiana Jones, principalmente o segundo filme
(O Templo Da Perdição,
apesar de mais sombrio) tem alguma ligação e certamente George Lucas e Steven
Spielberg são mais um dos inúmeros fãs deste impressionante celulóide. O
efeito continua o mesmo: é um verdadeiro banquete para os olhos e a maneira, o
ritmo em que Stevens conduz tudo isso é digno de aplausos.
A RKO bancou um valor altíssimo
para os padrões da época com cerca de mais de 1 milhão de dólares de orçamento.
SAM JAFFE (1891-84) que interpreta o
rapaz nativo, Gunga, tinha na época
os seus já 47 para 48 anos de idade! Continua impressionante a maneira como ele
convence.
Alguma polêmica rodeou a
produção do filme muitos anos após a liberação de seu lançamento. Uma campanha
realizada pela revista indiana intitulada Filmindia
fez de tudo para convencer as pessoas da deturpação de caricaturas dos indianos
e seus costumes mostrados na premissa, ou seja, a exibição sucessiva de
insensibilidade para com a religião Hindu. Após diversos tumultos e
manifestações na Índia e Malásia, o filme foi retirado de circulação pelos
censores.
A fita é simplesmente mais um
registro de uma série de outros filmes do gênero que louvavam o ocidente,
sobretudo a Europa e principalmente os ingleses que geralmente eram os bonzinhos
e sempre o suporte da nação branca, até mesmo dos americanos. Ironicamente no
cinema, astros norte-americanos ficam melhores vestidos de britânicos do que os
próprios. Digo isso toda vez que eu olho para o DOUGLAS FAIRBANKS JR. (seu
lendário pai também em muitas ocasiões heróicas no estilo capa e espada)
vivendo Ballantine e de fato, o trio
é sem dúvida um acerto do diretor Stevens que, aliás, dirige também o querido CARY GRANT, sempre simpático e até
mesmo cômico, foi um ator extremamente circense no bom sentido e entendia muito
bem das gags inesperadas e da
pantomima, em um brilhante papel, provavelmente o mais famoso e querido em toda
sua carreira (até mais do que nas fitas de Hitchcock
e nas comédias românticas com Katharine
Hepburn) como Cutte. E,
finalmente o ótimo VICTOR McLAGLEN,
que também traz um pouco do palhaço em suas interpretações, aqui vivendo MacChesney. São estes três malucos
(também no bom sentido), soldados profissionais, porém indisciplinados, que
passam por alguns bocados na Índia, por volta de 1880, na qual o regimento
inglês, obviamente ainda com ideais coloniais, perde contato com um dos postos
avançados que ficam numa cidade indiana em Tantrapur
(filmado nos vales desérticos do Alabama, nos EUA). Com isso, o coronel envia uma
parte da tropa separando-se assim do regimento, para ir até o local consertar a
avaria, no caso um telégrafo. Assim sendo, eles acabam por descobrir o que sucedeu
e são certamente esses três veteranos de guerra e amigos inseparáveis que ainda
acabam conhecendo Gunga, um humilde nativo que realiza trabalhos considerados
aviltantes e que um dia sonha em se tornar um reconhecido soldado.
Há muitas cenas de batalha, mas
pelo menos duas delas se destacam pelo ritmo frenético e admirável do mestre
Stevens (diria que muito do estilo do Spielberg vem deste diretor), mas, além
disso, os heróis passam por outros problemas, mais pessoais, já que um deles
pretende se casar, sem tempo para despedida de solteiro ou qualquer coisa que o
valha, o filme ainda mostra este destino cruel, até mais do que a própria
morte, que é perder um membro do “tripé”. Eis que a obra evidencia alguns
valores de amizade, muito embora, também, seja machista. Nada mais do que
valores masculinos. Grant, Fairbanks Jr. e McLaglen fazem isso sem muito esforço e até
lindamente.
Os vilões são os Tugue, um grupo de rebeldes indianos, a
famosa seita de assassinos cruéis, adoradores de sua deusa da morte Kali que
fazem sacrifícios humanos. Esse grupo são os nazistas de sua época, torturam e matam pessoas sem piedade.
Durante as gravações Fairbanks
Jr. e Grant disputaram pelo papel de Cutter
numa aposta no cara ou coroa. Grant ganhou a brincadeira, mas há também um
relatório de Grant que dizia insatisfeito com seu papel original, que era
Ballantine e reza a lenda que foi ele quem interferiu e pediu ao produtor do
estúdio Pandro S. Berman (famoso por
ter produzido outro clássico da RKO O Picolino, com Astaire e Ginger Rogers e
também Ritmo Louco, Swing Time, 1936, outro filme do Stevens)
uma permissão para trocar com Fairbanks.
Com um clímax de arrepiar onde
os três amigos são aprisionados pelos Tugues após um confronto, utilizados como
isca para atrair o exército britânico para uma armadilha, neste momento, numa
atuação memorável de Jaffe, Gunga praticamente volta do mundo dos mortos quando
toca sua corneta para alertar a tropa amiga. É a despedida dos fanáticos para
sempre. O mal sempre é derrotado!
GUNGA
DIN é um épico das aventuras, a
estória de heróis, machões e camaradagem. Felizmente, em meio a tentos homens,
somos contentados ainda pela beleza feminina da bela JOAN FONTAINE (a mesma loira de Rebecca e Suspeita [inclusive com Grant!]).
Considero este clássico o avô
dos filmes de aventura e pipoca. Sem ele não teríamos o prazer de conferir um
dia Os Caçadores Da Arca Perdida
e muitos outros exemplares do gênero.
EUA
1939
AVENTURA/GUERRA
PRETO E BRANCO
117 min.
SILVER SCREEN
★ ★ ★ ★ ★
ESTRELANDO
CARY GRANT
VICTOR McLAGLEN DOUGLAS FAIRBANKS
JR.
SAM JAFFE
EDUARDO CIANNELLI JOAN FONTAINE
MONTAGU LOVE
ROBERT COOTE ABNER BIBERMAN LUMSDEN HARE
Música ALFRED NEWMAN
Fotografado por JOSEPH H. AUGUST
Montagem …… { Henry Berman John Lockert
John Sturges
Direção de Arte ..... VAN NEST POLGLASE
Decoração de Set..... DARRELL SILVERA
Figurinos ..... EDWARD STEVENSON
Efeitos Especiais ...... VERNON L. WALKER
RUSSELL A. CULLY
Escrito por JOEL SAYRE & FRED GUIOL
Argumento BEN HECHT
CHARLES MacARTHUR
Roteiristas Sem Créditos:
Lester Cohen John Colton William Faulkner
Vincent Lawrence
Dudley Nichols & Anthony Veiller
Baseado no Poema “Gunga Din” de RUDYARD KIPLING
PRODUZIDO
E DIRIGIDO POR
GEORGE STEVENS
Gunga Din ©1939 RKO RADIO
PICTURES










5 comentários:
Acredita que eu não conhecia o filme? Muito interessante. De verdade! Mais um filme de 39 ainda por cima...
Quero MUITO ver!
Recomendo, Alan!
Rodrigo, Gunga Din é sinônimo de cinema de aventura, e é referencial para muitas outras obras do gênero, pois foi exatamente este clássico que inspirou Spielberg e George Lucas, dois admiradores dos antigos seriados das matines, a produzirem OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA e os demais filmes de Indiana Jones.
E mais uma coisa a notar: Gunga Din foi realizado sem efeitos especiais ou outros recursos modernos que a gurizada de hoje se deixa mais impressionar do que acompanhar uma boa história de aventuras, e é isso que existe em Gunga Din.
A Moçada daqueles tempos nem ligava para as mágicas dos efeitos que então haviam naqueles tempos, e na verdade, nem faziam a mínima falta, pois o importante era um enredo acompanhado de eletrizante ação física. Era a chave para o sucesso de um grande filme.
Abraços nobres
PAULO TELLES
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Ótimo texto Rodrigo, realmente 1939 foi o melhor ano da industria cinematográfica. Quanto a GUNGA DIN, vergonhosamente ainda não o vi, preciso assisti-lo. O Elenco e a direção, dispensa comentários...
Grande Abraço!
Exato Paulo Telles!
Abs. nobre amigo!
Jeff, é um filme que você irá apreciar bastante, certeza absoluta.
Abs!
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