sábado, 11 de maio de 2013

GUNGA DIN

CAMARADAGEM CLÁSSICA

As aventuras de três soldados ingleses, amigos de longa data, e um nativo, Gunga Din, em plena Índia do século XIX, contra o ressurgimento de um culto assassino, os Tugue, que pretendem espalhar o mal no mundo.


Definitivamente 1939 foi o ano de Hollywood. Todos os famosos estúdios da cidade realizavam naquele período suas obras-primas e é claro que a RKO (que fez King Kong e faria Cidadão Kane) não poderia ficar de fora. A Metro já tinha a sua produção lendária e cultuada, O Mágico de Oz de Victor Fleming e também fez bonito ao produzir Ninotchka de Lubitsch (aquele filme em que a Garbo solta uma gostosa e inusitada gargalhada!). David O. Selznick produzia o imbatível E O Vento Levou, a Columbia; Paraíso Infernal, de Hawks e a Universal, por exemplo, estava produzindo Atire A Primeira Pedra com Dietrich. O mestre dos faroestes John Ford, naquela altura estava dirigindo seu maravilhoso Stagecoach – No Tempo Das Diligências, Capra, também na sortuda e estelar Columbia; fazia o excelente Mr. Smith Goes To Washington (A Mulher Faz O Homem, com James Stewart), Wyler e Samuel Goldwyn focavam seus talentos no maravilhoso O Morro Dos Ventos Uivantes, com Oberon e Olivier, enfim. Citando apenas alguns dos filmes da época, tantos os produtores independentes como os estúdios, numa incrível coincidência ou acaso, faziam história com essas películas magistrais. RKO, considerada a casa das aventuras, realiza esta estupenda fita, uma das mais adoráveis matinês de todos os tempos e que estranhamente vem de um poema escrito por RUDYARD KIPLING (1865-1936). A direção é do vencedor do Oscar GEORGE STEVENS (1904-1975) o mesmo diretor de OS BRUTOS TAMBÉM AMAM (Shane, 1953) outro grande Western estrelado por Alan Ladd e o adorado ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE (Giant, 1956) com Elizabeth Taylor, Rock Hudson e James Dean

Sem dúvida que Gunga Din serviu de inspiração para muitos filmes de outras gerações. Pode-se dizer com todas as letras que muito na série Indiana Jones, principalmente o segundo filme (O Templo Da Perdição, apesar de mais sombrio) tem alguma ligação e certamente George Lucas e Steven Spielberg são mais um dos inúmeros fãs deste impressionante celulóide. O efeito continua o mesmo: é um verdadeiro banquete para os olhos e a maneira, o ritmo em que Stevens conduz tudo isso é digno de aplausos.

A RKO bancou um valor altíssimo para os padrões da época com cerca de mais de 1 milhão de dólares de orçamento. SAM JAFFE (1891-84) que interpreta o rapaz nativo, Gunga, tinha na época os seus já 47 para 48 anos de idade! Continua impressionante a maneira como ele convence.

Alguma polêmica rodeou a produção do filme muitos anos após a liberação de seu lançamento. Uma campanha realizada pela revista indiana intitulada Filmindia fez de tudo para convencer as pessoas da deturpação de caricaturas dos indianos e seus costumes mostrados na premissa, ou seja, a exibição sucessiva de insensibilidade para com a religião Hindu. Após diversos tumultos e manifestações na Índia e Malásia, o filme foi retirado de circulação pelos censores.

A fita é simplesmente mais um registro de uma série de outros filmes do gênero que louvavam o ocidente, sobretudo a Europa e principalmente os ingleses que geralmente eram os bonzinhos e sempre o suporte da nação branca, até mesmo dos americanos. Ironicamente no cinema, astros norte-americanos ficam melhores vestidos de britânicos do que os próprios. Digo isso toda vez que eu olho para o DOUGLAS FAIRBANKS JR. (seu lendário pai também em muitas ocasiões heróicas no estilo capa e espada) vivendo Ballantine e de fato, o trio é sem dúvida um acerto do diretor Stevens que, aliás, dirige também o querido CARY GRANT, sempre simpático e até mesmo cômico, foi um ator extremamente circense no bom sentido e entendia muito bem das gags inesperadas e da pantomima, em um brilhante papel, provavelmente o mais famoso e querido em toda sua carreira (até mais do que nas fitas de Hitchcock e nas comédias românticas com Katharine Hepburn) como Cutte. E, finalmente o ótimo VICTOR McLAGLEN, que também traz um pouco do palhaço em suas interpretações, aqui vivendo MacChesney. São estes três malucos (também no bom sentido), soldados profissionais, porém indisciplinados, que passam por alguns bocados na Índia, por volta de 1880, na qual o regimento inglês, obviamente ainda com ideais coloniais, perde contato com um dos postos avançados que ficam numa cidade indiana em Tantrapur (filmado nos vales desérticos do Alabama, nos EUA). Com isso, o coronel envia uma parte da tropa separando-se assim do regimento, para ir até o local consertar a avaria, no caso um telégrafo. Assim sendo, eles acabam por descobrir o que sucedeu e são certamente esses três veteranos de guerra e amigos inseparáveis que ainda acabam conhecendo Gunga, um humilde nativo que realiza trabalhos considerados aviltantes e que um dia sonha em se tornar um reconhecido soldado.

Há muitas cenas de batalha, mas pelo menos duas delas se destacam pelo ritmo frenético e admirável do mestre Stevens (diria que muito do estilo do Spielberg vem deste diretor), mas, além disso, os heróis passam por outros problemas, mais pessoais, já que um deles pretende se casar, sem tempo para despedida de solteiro ou qualquer coisa que o valha, o filme ainda mostra este destino cruel, até mais do que a própria morte, que é perder um membro do “tripé”. Eis que a obra evidencia alguns valores de amizade, muito embora, também, seja machista. Nada mais do que valores masculinos. Grant, Fairbanks Jr. e  McLaglen fazem isso sem muito esforço e até lindamente.


Os vilões são os Tugue, um grupo de rebeldes indianos, a famosa seita de assassinos cruéis, adoradores de sua deusa da morte Kali que fazem sacrifícios humanos. Esse grupo são os nazistas de sua época, torturam e matam pessoas sem piedade.

Durante as gravações Fairbanks Jr. e Grant disputaram pelo papel de Cutter numa aposta no cara ou coroa. Grant ganhou a brincadeira, mas há também um relatório de Grant que dizia insatisfeito com seu papel original, que era Ballantine e reza a lenda que foi ele quem interferiu e pediu ao produtor do estúdio Pandro S. Berman (famoso por ter produzido outro clássico da RKO O Picolino, com Astaire e Ginger Rogers e também Ritmo Louco, Swing Time, 1936, outro filme do Stevens) uma permissão para trocar com Fairbanks.

Com um clímax de arrepiar onde os três amigos são aprisionados pelos Tugues após um confronto, utilizados como isca para atrair o exército britânico para uma armadilha, neste momento, numa atuação memorável de Jaffe, Gunga praticamente volta do mundo dos mortos quando toca sua corneta para alertar a tropa amiga. É a despedida dos fanáticos para sempre. O mal sempre é derrotado!

GUNGA DIN é um épico das aventuras, a estória de heróis, machões e camaradagem. Felizmente, em meio a tentos homens, somos contentados ainda pela beleza feminina da bela JOAN FONTAINE (a mesma loira de Rebecca e Suspeita [inclusive com Grant!]).

Considero este clássico o avô dos filmes de aventura e pipoca. Sem ele não teríamos o prazer de conferir um dia Os Caçadores Da Arca Perdida e muitos outros exemplares do gênero.


EUA
1939
AVENTURA/GUERRA
PRETO E BRANCO
117 min.
SILVER SCREEN
           



ESTRELANDO
CARY GRANT   VICTOR McLAGLEN  DOUGLAS FAIRBANKS JR.
SAM JAFFE   EDUARDO CIANNELLI  JOAN FONTAINE
MONTAGU LOVE  ROBERT COOTE  ABNER BIBERMAN  LUMSDEN HARE
Música ALFRED NEWMAN
Fotografado por JOSEPH H. AUGUST
Montagem …… { Henry Berman  John Lockert  John Sturges
Direção de Arte ..... VAN NEST POLGLASE
Decoração de Set..... DARRELL SILVERA
Figurinos ..... EDWARD STEVENSON
Efeitos Especiais ...... VERNON L. WALKER   RUSSELL A. CULLY
Escrito por JOEL SAYRE & FRED GUIOL
Argumento BEN HECHT   CHARLES MacARTHUR
Roteiristas Sem Créditos:
Lester Cohen   John Colton   William Faulkner 
Vincent Lawrence   Dudley Nichols  & Anthony Veiller
Baseado no Poema “Gunga Din” de RUDYARD KIPLING
PRODUZIDO E DIRIGIDO POR
GEORGE STEVENS
Gunga Din ©1939 RKO RADIO PICTURES



5 comentários:

Alan Raspante disse...

Acredita que eu não conhecia o filme? Muito interessante. De verdade! Mais um filme de 39 ainda por cima...

Quero MUITO ver!

Rodrigo Mendes disse...

Recomendo, Alan!

Paulo Telles - Editor disse...

Rodrigo, Gunga Din é sinônimo de cinema de aventura, e é referencial para muitas outras obras do gênero, pois foi exatamente este clássico que inspirou Spielberg e George Lucas, dois admiradores dos antigos seriados das matines, a produzirem OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA e os demais filmes de Indiana Jones.

E mais uma coisa a notar: Gunga Din foi realizado sem efeitos especiais ou outros recursos modernos que a gurizada de hoje se deixa mais impressionar do que acompanhar uma boa história de aventuras, e é isso que existe em Gunga Din.

A Moçada daqueles tempos nem ligava para as mágicas dos efeitos que então haviam naqueles tempos, e na verdade, nem faziam a mínima falta, pois o importante era um enredo acompanhado de eletrizante ação física. Era a chave para o sucesso de um grande filme.

Abraços nobres

PAULO TELLES
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Jefferson C. Vendrame disse...

Ótimo texto Rodrigo, realmente 1939 foi o melhor ano da industria cinematográfica. Quanto a GUNGA DIN, vergonhosamente ainda não o vi, preciso assisti-lo. O Elenco e a direção, dispensa comentários...

Grande Abraço!

Rodrigo Mendes disse...

Exato Paulo Telles!
Abs. nobre amigo!

Jeff, é um filme que você irá apreciar bastante, certeza absoluta.
Abs!

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