terça-feira, 20 de agosto de 2013

De Alfred Hitchcock A SOMBRA DE UMA DÚVIDA

AS VIÚVAS ALEGRES DANÇAM

Sobrinha suspeita que seu próprio tio possa ser um frio assassino foragido.

Coitadinhas das viúvas. Alegres por terem encontrado um homem galanteador, mas que no final elas não só dançarão literalmente para depois deixarem JOSEPH COTTEN (1905-1994) “viúvo” neste que é um dos melhores papéis do lendário ator, amigo de figuras como Orson Welles e presente em filmes importantes com ele como: Cidadão Kane (leia aqui, 1941), Soberba (The Magnificent Ambersons, 1942), A Marca da Maldade (Touch of Evil. também leia aqui, 1958 – mesmo sem créditos, faz uma pequena e notável participação) e O Terceiro Homem (The Third Man, 1949, mas este dirigido por Carol Reed). Com o mestre, também trabalhou no filme de época Sob O Signo de Capricórnio (Under Capricorn, 1949) ao lado de Ingrid Bergman. No entanto, nada se compara a esta magnífica interpretação de um homem cínico, calculista, mentiroso e narcisista, capaz de trazer o terror para um pequeno e aconchegante lar, local onde vive seus próprios parentes.

A premissa é sobre uma jovem amável (e chatinha às vezes, diga-se de passagem), Charlotte que também é apelidada como o tio, “Charlie” (estranho em português que significa um nome mais para o masculino), interpretada por TERESA WRIGHT (1918-2005) que havia ganhado o Oscar de atriz coadjuvante pelo filme Rosa de Esperança (Mrs. Miniver, 1942) de William Wyler. Ela é uma moça alegre, cheia de vida, mas que ultimamente tem vivido um tédio em sua remota e pacata cidadezinha do interior, no caso, Santa Rosa. Então, decide fazer algo de “inusitado” e mandar um telegrama (naquela época, claro!) para o seu titio, obviamente Charlie (Cotten), bastante querido por ela e por sua mãe, a ótima PATRICIA COLLINGE (1892-1974) que faz uma típica irmã mais velha daquelas maternas que se preocupa com o irmãozinho e deseja que ele fique perto dela para então ser mimado (aliás, sua interpretação parece mais de mãe do que irmã, mas ainda assim é fascinante observar as emoções transmitidas pela atriz). O problema, e é aí que o filme começa a ficar bom, é que ‘Charlie sobrinha’ começa a suspeitar de seu tio sendo o próprio e tão comentado pelos jornais de: “O Assassino da Viúva Alegre” – e a forma como Hitchcock mostra isso fazendo um close impactante numa manchete de jornal é estupenda – e na medida em que ela desvenda o mistério investigando por conta própria o passado criminoso de seu tio, o vilão de Cotten começa a se expor. Fica uma situação cada vez mais delicada e intragável, uma mocinha tão comportada e bem educada, de família, com seus valores morais (claro que eu na posição dela me sentiria igual como ser humano, mas é que Teresa é a certinha exacerbada), por exemplo, sentar-se à mesa para um jantar em família, ao lado do tio, sabendo quem ele é e o mais incômodo é pensar no sofrimento que poderia causar na mãe super irmã, que parece gostar cegamente de Charlie e procurar culpa em si mesma quando relata o passado de sua infância com o irmão, etc. Enfim, e o que, também, a comunidade que nutre um respeito pela família Newton, pensaria? Isso a perturba.  Ainda mais naquela época, seria um caos descobrir que um homem tão querido fosse um psicopata o que nos faz pensar na frase: “as aparências enganam.” A trama toma outro rumo com a chegada de dois investigadores que estão na cola de Charlie e que se apresentam para a família dele, sobretudo provocando suspeitas na sobrinha, como entrevistadores e fotógrafos para uma pesquisa sobre como vive uma típica família americana (American way of Life), um deles, interpretado por MacDONALD CAREY (1913-1994), não só desperta um interesse romântico por Charlotte como tem sua ajuda e colaboração discreta para conseguir uma prova concreta contra ‘Charlie Tio’. A partir do momento em que Charlie tem a certeza de quem seu tio realmente é, o filme muda o tom totalmente para o suspense (mas o começo nunca é lento e desinteressante) e ficamos apreensivos de que a vida da moça corre risco quando o Uncle Charlie pretende matá-la quando a mesma, num embate terrificante com ele, decide abrir o jogo se ele não for embora. Para antagonizar, estupidamente, ele decide ficar em Santa Rosa custe o que custar achando que se Charlie morresse por um acidente doméstico qualquer (Teresa caindo das escadas e por muito pouco não sufocando na garagem, presa enquanto o carro exala combustível, são os melhores momentos da fita), se livraria do problema numa boa.


Consigo compreender o favoritismo de Hitchcock pelo filme. Não apenas o momento era oportuno (produção modesta sem alto custo e produzida independentemente em parceria com o produtor JACK H. SKIRBALL), mas a reunião de um dos melhores elencos em qualquer outro filme do diretor (as crianças, por exemplo. A menina, a típica garota de Hitchcock, inteligente e de óculos, como já disse o crítico e cineasta Peter Bogdanovich, interpretada por EDNA MAY WONACOTT e o garotinho; CHARLES BATES, a pura inocência quando Hitch quer referir-se aos molequinhos travesso e me lembra dos garotinhos de outros grandes exemplares seus: “O Terceiro Tiro” e “O Homem Que Sabia Demais - versão US”) para realizar um dos roteiros dos mais excelentes escritos pela esposa do cineasta, ALMA REVILLE em parceria com SALLY BENSON (autora de Meet Me In St. Louis que virou filme dirigido por Minnelli com Judy Garland em 1944, ‘Agora Seremos Felizes’), GORDON McDONELL (autor do argumento original e que muito tempo depois faria Julgamento de um Traidor, The Executioner, 1970, estrelado por George Peppard) e THORNTON WILDER (autor de A Ponte de São Luís Rey). 
Em outras palavras, é sobre a dicotomia  bem e mal utilizando a metáfora dos gêmeos, a sobrinha e seu tio xará, fazendo um dos maiores embates do cinema, isto é, a inocência (que vai se perdendo ao longo da projeção) versus o pecado, o crime, mascarados por uma falsidade perigosa. Além disso, o filme é uma raridade do diretor, abrindo mão em filmar no estúdio e fazendo de seu filme favorito um trabalho inteiramente em locação (exceto por alguns closes em Teresa e momentos curtos que o fez em estúdio) e a inspiração acabou que surgindo naturalmente numa perfeita pacata cidade da Califórnia, a já citada Santa Rosa, que ajudou a desfazer aquela ilusão dos subúrbios norte-americanos (e creio que foi o primeiro filme) como lugares tranquilos e perfeitos para se viver. Na verdade, Hitch mostra como esses lugares podem guardar segredos inimagináveis (e fico pensando se isso também inspirou Alan Ball e Sam Mendes na concepção de Beleza Americana, leia aqui). O filme é o mais realista e o menos glamoroso de Hitchcock. Nada de louras desfilando vestidos chiquérrimos de Edith Head e situações meramente fantasiosas, aliás, o realismo deste filme me assombra e por mais que Cotten seja muito bonito e seu galantismo de astro de Hollywood possa ofuscar a ideia de realidade.

É também um film noir, embora não seja do gênero policial, porém, Hitchcock transforma toda uma antipatia em volta do personagem de Cotten, extremamente sombrio e cínico e permite uma fotografia da mais umbrosa assinada por JOSEPH A. VALENTINE (de RopeFestim Diabólico, Sabotador e O Lobisomem [o antigo da Universal]) e a perfeita alusão da fumaça do trem durante a chegada do tio Charlie assim como a fumaça de seu charuto. 

Ainda mais impactante que a fotografia, é a trilha musical do genial DIMITRI TIOMKIN (de A Felicidade Não Se Compra, do Capra e Matar ou Morrer, e com Hitch fez Pacto Sinistro. Vide abaixo. Citando alguns) que é o autor da melodia fundamental para o filme, “A valsa da viúva Alegre”, uma digressão da fita das mais bem montadas em todos os tempos. É um tema que fala dos impulsos e culpa do tio Charlie e que ele tenta reprimir e que se faz presente quando o mesmo recebe a punição merecida na eletrizante e famosa cena final no trem...

Também aprecio a participação de outro amigo e colaborador de Hitch, HUME CRONYN (tanto ator como roteirista. Lifeboat – Um barco e Nove Destinos, 44, Rope, 48) e aqui fazendo sua estreia no cinema como o vizinho enxerido, Herbie, que adora papear com o anfitrião e patriarca (o ótimo HENRY TRAVERS), comentários contínuos sobre assassinatos e várias maneiras de se matar alguém, sair impune do crime, etc, aliás, outra das marcas registradas do mestre. Aqui em particular, as cenas com Cronyn tornan-se um alívio cômico para o filme e dos mais macabros entre toda a obra de Hitch, afinal, Charlie esta a ponto de explodir à beira de um ataque de nervos, quando as conversas iluminam a cabeça de seu tio assassino contra ela.

Foi indicado apenas para um Oscar como melhor Roteiro Original, o que não consigo entender, mas ao menos, é um registro histórico desde 1991 depois deste prêmio através da National Film Preservation Board e no National Film Registry no acervo da Biblioteca do Congresso dos EUA. Não tem muitos prêmios, é verdade, mas conseguiu a ovação de críticos do mundo inteiro e continua sendo um filme de suma importância. Um acervo e filme de cabeceira.

A aparição de Hitchcock sucede num trem para Santa Rosa. Ele esta jogando cartas, de costas para a câmera, dentro de uma cabine, com outro homem e uma mulher, aproximadamente nos primeiros 15 minutos de filme. Evidentemente fazia isso logo no começo para não distrair o expectador que já esperara para vê-lo como figurante.

Teve uma refilmagem que nunca cheguei a assistir intitulado de AS DUAS FACES DO CRIME (Step Down The Terror) de 1958 dirigido por Harry Keller e co-estrelado por Rod Taylor (que estrelaria para Hitch em Os Pássaros!).

A Sombra de Uma Dúvida se apresenta como uma rara exceção na filmografia de Hitchcock, um thriller dos mais inquietantes e verdadeiros. Um filme de família melhor dizendo, tanto para o mestre como para os personagens. Só que todo mundo sabe do que Hitch é capaz, o que também significa que tudo pode acontecer. Não tenha dúvida.






EUA
1943
SUSPENSE
PRETO E BRANCO
108 min.
UNIVERSAL
           





SKIRBALL PRODUCTIONS APRESENTA
ALFRED HITCHCOCK´S
SHADOW of a DOUBT

 TERESA WRIGHT . . . . . . . .  Charlie
JOSEPH COTTEN . . . . . . . . Tio Charlie
MacDONALD CAREY . . . . . . . .  Jack Graham
HENRY TRAVERS . . . . . . . .  Joseph Newton
PATRICIA COLLINGE . . . . . . . .  Emma Newton
HUME CRONYN . . . . . . . .  Herbie Hawkins
WALLACE FORD . . . . . . . .  Fred Saunders
EDNA MAY WONACOTT . . . . . . . .   Ann Newton
CHARLES BATES . . . . . . . .  Roger Newton
Produzido por JACK H. SKIRBALL
Música DIMITRI TIOMKIN
Fotografia de JOSEPH A. VALENTINE
Montagem MILTON CARRUTH  Figurinos por VERA WEST
Locações e set R.A. GAUSMAN  Direção de Arte JOHN B. GOODMAN
Roteiro de
THORNTON WILDER   SALLY BENSON  & ALMA REVILLE  
Baseado em um argumento de GORDON McDONELL
Dirigido por
ALFRED HITCHCOCK
SHADOW of a DOUBT ©1943 SKIRBALL PRODUCTIONS

2 comentários:

Jefferson C. Vendrame disse...

Grande Rodrigo!
Parabéns pelo ótimo texto, completo e rico em informações!
Gosto muito desse clássico de Hitch, no entanto, não é o meu preferido dentre os demais do diretor.
Após ler seu post, confesso que fiquei com vontade de assistir de novo. Comprei o DVD a uns 2 anos e creio que só vi o filme umas duas vezes...Preciso revê-lo.

Grande Abraço!

Rodrigo Mendes disse...

Grande Jeff, obrigado mesmo fella! ;)

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