AS VIÚVAS ALEGRES DANÇAM
Sobrinha suspeita
que seu próprio tio possa ser um frio assassino foragido.
Coitadinhas das viúvas. Alegres
por terem encontrado um homem galanteador, mas que no final elas não só
dançarão literalmente para depois deixarem JOSEPH
COTTEN (1905-1994) “viúvo” neste que é um dos melhores papéis do lendário
ator, amigo de figuras como Orson Welles
e presente em filmes importantes com ele como: Cidadão Kane (leia aqui, 1941), Soberba (The Magnificent
Ambersons,
1942), A Marca da Maldade (Touch of Evil. também leia aqui, 1958 –
mesmo sem créditos, faz uma pequena e notável participação) e O Terceiro Homem (The Third Man, 1949, mas este dirigido por Carol Reed). Com o mestre, também trabalhou no filme de época Sob
O Signo de Capricórnio
(Under
Capricorn,
1949) ao lado de Ingrid Bergman. No
entanto, nada se compara a esta magnífica interpretação de um homem cínico,
calculista, mentiroso e narcisista, capaz de trazer o terror para um pequeno e
aconchegante lar, local onde vive seus próprios parentes.
A premissa é sobre uma jovem
amável (e chatinha às vezes, diga-se de passagem), Charlotte que também é apelidada como o tio, “Charlie” (estranho em
português que significa um nome mais para o masculino), interpretada por TERESA WRIGHT (1918-2005) que havia
ganhado o Oscar de atriz coadjuvante pelo filme Rosa
de Esperança
(Mrs.
Miniver, 1942)
de William Wyler. Ela é uma moça
alegre, cheia de vida, mas que ultimamente tem vivido um tédio em sua remota e
pacata cidadezinha do interior, no caso, Santa
Rosa. Então, decide fazer algo de “inusitado” e mandar um telegrama
(naquela época, claro!) para o seu titio, obviamente Charlie (Cotten), bastante
querido por ela e por sua mãe, a ótima PATRICIA
COLLINGE (1892-1974) que faz uma típica irmã mais velha daquelas maternas
que se preocupa com o irmãozinho e deseja que ele fique perto dela para então
ser mimado (aliás, sua interpretação parece mais de mãe do que irmã, mas ainda
assim é fascinante observar as emoções transmitidas pela atriz). O problema, e
é aí que o filme começa a ficar bom, é que ‘Charlie sobrinha’ começa a
suspeitar de seu tio sendo o próprio e tão comentado pelos jornais de: “O
Assassino da Viúva Alegre” – e a forma como Hitchcock mostra isso fazendo um
close impactante numa manchete de jornal é estupenda – e na medida em que ela
desvenda o mistério investigando por conta própria o passado criminoso de seu
tio, o vilão de Cotten começa a se expor. Fica uma situação cada vez mais
delicada e intragável, uma mocinha tão comportada e bem educada, de família,
com seus valores morais (claro que eu na posição dela me sentiria igual como
ser humano, mas é que Teresa é a certinha exacerbada), por exemplo, sentar-se à
mesa para um jantar em família, ao lado do tio, sabendo quem ele é e o mais
incômodo é pensar no sofrimento que poderia causar na mãe super irmã, que parece gostar cegamente de Charlie e procurar culpa
em si mesma quando relata o passado de sua infância com o irmão, etc. Enfim, e o
que, também, a comunidade que nutre um respeito pela família Newton, pensaria?
Isso a perturba. Ainda mais naquela
época, seria um caos descobrir que um homem tão querido fosse um psicopata o
que nos faz pensar na frase: “as
aparências enganam.” A trama toma outro rumo com a chegada de dois
investigadores que estão na cola de Charlie e que se apresentam para a família
dele, sobretudo provocando suspeitas na sobrinha, como entrevistadores e
fotógrafos para uma pesquisa sobre como vive uma típica família americana (American
way of Life), um deles, interpretado por MacDONALD
CAREY (1913-1994), não só desperta um interesse romântico por Charlotte
como tem sua ajuda e colaboração discreta para conseguir uma prova concreta
contra ‘Charlie Tio’. A partir do momento em que Charlie tem a certeza de quem
seu tio realmente é, o filme muda o tom totalmente para o suspense (mas o
começo nunca é lento e desinteressante) e ficamos apreensivos de que a vida da
moça corre risco quando o Uncle Charlie
pretende matá-la quando a mesma, num embate terrificante com ele, decide abrir
o jogo se ele não for embora. Para antagonizar, estupidamente, ele decide ficar
em Santa Rosa custe o que custar achando que se Charlie morresse por um
acidente doméstico qualquer (Teresa caindo das escadas e por muito pouco não
sufocando na garagem, presa enquanto o carro exala combustível, são os melhores
momentos da fita), se livraria do problema numa boa.
Consigo compreender o
favoritismo de Hitchcock pelo filme. Não apenas o momento era oportuno
(produção modesta sem alto custo e produzida independentemente em parceria com
o produtor JACK H. SKIRBALL), mas a
reunião de um dos melhores elencos em qualquer outro filme do diretor (as crianças,
por exemplo. A menina, a típica garota de Hitchcock, inteligente e de óculos,
como já disse o crítico e cineasta Peter
Bogdanovich, interpretada por EDNA
MAY WONACOTT e o garotinho; CHARLES
BATES, a pura inocência quando Hitch quer referir-se aos molequinhos travesso e me lembra dos garotinhos de outros grandes exemplares seus: “O
Terceiro Tiro” e “O Homem Que Sabia Demais - versão US”) para realizar um dos roteiros
dos mais excelentes escritos pela esposa do cineasta, ALMA REVILLE em parceria com SALLY
BENSON (autora de Meet
Me In St. Louis
que virou filme dirigido por Minnelli
com Judy Garland em 1944, ‘Agora Seremos Felizes’), GORDON McDONELL (autor do argumento original e que muito tempo
depois faria Julgamento de um
Traidor, The
Executioner,
1970, estrelado por George Peppard)
e THORNTON WILDER (autor de A Ponte de São Luís Rey).
Em outras palavras, é sobre
a dicotomia bem e mal utilizando a metáfora dos gêmeos, a sobrinha e seu tio
xará, fazendo um dos maiores embates do cinema, isto é, a inocência (que vai se
perdendo ao longo da projeção) versus o pecado, o crime, mascarados por uma
falsidade perigosa. Além disso, o filme é uma raridade do diretor, abrindo mão
em filmar no estúdio e fazendo de seu filme favorito um trabalho inteiramente
em locação (exceto por alguns closes em Teresa e momentos curtos que o fez em
estúdio) e a inspiração acabou que surgindo naturalmente numa perfeita pacata
cidade da Califórnia, a já citada
Santa Rosa, que ajudou a desfazer aquela ilusão dos subúrbios norte-americanos
(e creio que foi o primeiro filme) como lugares tranquilos e perfeitos para se
viver. Na verdade, Hitch mostra como esses lugares podem guardar segredos
inimagináveis (e fico pensando se isso também inspirou Alan Ball e Sam Mendes
na concepção de Beleza
Americana,
leia aqui). O filme é o mais realista e o menos glamoroso de Hitchcock. Nada de
louras desfilando vestidos chiquérrimos de Edith
Head e situações meramente fantasiosas, aliás, o realismo deste filme me
assombra e por mais que Cotten seja muito bonito e seu galantismo de astro de Hollywood
possa ofuscar a ideia de realidade.
É também um film noir, embora não seja do gênero
policial, porém, Hitchcock transforma toda uma antipatia em volta do personagem
de Cotten, extremamente sombrio e cínico e permite uma fotografia da mais umbrosa
assinada por JOSEPH A. VALENTINE (de
Rope – Festim
Diabólico,
Sabotador e O
Lobisomem
[o antigo da Universal]) e a perfeita alusão da fumaça do trem durante a chegada
do tio Charlie assim como a fumaça de seu charuto.
Ainda mais impactante que a fotografia, é a trilha musical do genial DIMITRI TIOMKIN (de A Felicidade Não Se Compra, do Capra e Matar ou Morrer, e com Hitch fez Pacto Sinistro. Vide abaixo. Citando alguns) que é o autor da melodia fundamental para o filme, “A valsa da viúva Alegre”, uma digressão da fita das mais bem montadas em todos os tempos. É um tema que fala dos impulsos e culpa do tio Charlie e que ele tenta reprimir e que se faz presente quando o mesmo recebe a punição merecida na eletrizante e famosa cena final no trem...
Ainda mais impactante que a fotografia, é a trilha musical do genial DIMITRI TIOMKIN (de A Felicidade Não Se Compra, do Capra e Matar ou Morrer, e com Hitch fez Pacto Sinistro. Vide abaixo. Citando alguns) que é o autor da melodia fundamental para o filme, “A valsa da viúva Alegre”, uma digressão da fita das mais bem montadas em todos os tempos. É um tema que fala dos impulsos e culpa do tio Charlie e que ele tenta reprimir e que se faz presente quando o mesmo recebe a punição merecida na eletrizante e famosa cena final no trem...
Também aprecio a participação
de outro amigo e colaborador de Hitch, HUME
CRONYN (tanto ator como roteirista. Lifeboat
– Um barco e Nove Destinos,
44, Rope, 48) e aqui fazendo sua estreia
no cinema como o vizinho enxerido, Herbie,
que adora papear com o anfitrião e patriarca (o ótimo HENRY TRAVERS), comentários contínuos sobre assassinatos e várias
maneiras de se matar alguém, sair impune do crime, etc, aliás, outra das marcas
registradas do mestre. Aqui em particular, as cenas com Cronyn tornan-se um alívio
cômico para o filme e dos mais macabros entre toda a obra de Hitch, afinal, Charlie esta a
ponto de explodir à beira de um ataque de nervos, quando as conversas iluminam
a cabeça de seu tio assassino contra ela.
Foi indicado apenas para um Oscar como melhor Roteiro Original, o que não consigo entender, mas ao menos, é um registro
histórico desde 1991 depois deste prêmio através da National Film Preservation Board e no National Film Registry no acervo da Biblioteca do Congresso dos
EUA. Não tem muitos prêmios, é verdade, mas conseguiu a ovação de críticos do
mundo inteiro e continua sendo um filme de suma importância. Um acervo e filme
de cabeceira.
A aparição de Hitchcock sucede
num trem para Santa Rosa. Ele esta jogando cartas, de costas para a câmera,
dentro de uma cabine, com outro homem e uma mulher, aproximadamente nos primeiros
15 minutos de filme. Evidentemente fazia isso logo no começo para não distrair
o expectador que já esperara para vê-lo como figurante.
Teve uma refilmagem que nunca cheguei a assistir intitulado de AS DUAS FACES DO CRIME (Step Down The Terror) de 1958 dirigido por Harry Keller e co-estrelado por Rod Taylor (que estrelaria para Hitch em Os Pássaros!).
A Sombra
de Uma Dúvida
se apresenta como uma rara exceção na filmografia de Hitchcock, um thriller dos
mais inquietantes e verdadeiros. Um filme de família melhor dizendo, tanto para
o mestre como para os personagens. Só que todo mundo sabe do que Hitch é capaz,
o que também significa que tudo pode acontecer. Não tenha dúvida.
EUA
1943
SUSPENSE
PRETO E BRANCO
108 min.
UNIVERSAL
★ ★ ★ ★ ★
SKIRBALL
PRODUCTIONS APRESENTA
ALFRED HITCHCOCK´S
SHADOW of a DOUBT
TERESA WRIGHT . . . . . . . . Charlie
JOSEPH COTTEN . . . . . . . . Tio Charlie
MacDONALD CAREY . . . . . . . . Jack Graham
HENRY TRAVERS . . . . . . . . Joseph Newton
PATRICIA COLLINGE . . . . . . . . Emma Newton
HUME CRONYN . . . . . . . . Herbie Hawkins
WALLACE FORD . . . . . . . . Fred Saunders
EDNA MAY WONACOTT . . . . . . . . Ann Newton
CHARLES BATES . . . . . . . . Roger Newton
Produzido por JACK H. SKIRBALL
Música
DIMITRI TIOMKIN
Fotografia
de
JOSEPH A. VALENTINE
Montagem
MILTON CARRUTH Figurinos
por
VERA WEST
Locações
e set
R.A. GAUSMAN Direção
de Arte
JOHN B. GOODMAN
Roteiro de
THORNTON WILDER
SALLY BENSON & ALMA REVILLE
Baseado
em um argumento de GORDON McDONELL
Dirigido
por
ALFRED HITCHCOCK
SHADOW of a DOUBT ©1943 SKIRBALL PRODUCTIONS











2 comentários:
Grande Rodrigo!
Parabéns pelo ótimo texto, completo e rico em informações!
Gosto muito desse clássico de Hitch, no entanto, não é o meu preferido dentre os demais do diretor.
Após ler seu post, confesso que fiquei com vontade de assistir de novo. Comprei o DVD a uns 2 anos e creio que só vi o filme umas duas vezes...Preciso revê-lo.
Grande Abraço!
Grande Jeff, obrigado mesmo fella! ;)
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