INFILTRADA
Na Holanda ocupada pelo regime
nazista durante a Segunda Guerra Mundial, uma cantora judia se infiltra na sede
regional da Gestapo numa arriscada missão para seus compatriotas da
resistência.
Como
havia prometido esta era a última resenha que faltava da “Trilogia Paul
Verhoeven” aqui no blogue. Uma breve retrospectiva com meus comentários a
respeito de alguns de seus filmes holandeses.
A ESPIÃ (Zwartboek, 2006), também conhecido pelo título de Black Book,
“O Livro Negro” é o grande retorno do cineasta à sua terra natal depois de anos
na Hollywood que o “sequestrou”. Mas, de fato, num filme falado em holandês é
onde percebo uma maior desenvoltura e genialidade do cineasta que hora ou outra
abordou o tema da identidade em seus filmes. Ou vai me dizer que Robocop, O
Vingador do Futuro e até mesmo o trash O Homem Sem Sombra não são filmes que se
tratam do assunto? Pois bem, era hora do próprio Verhoeven voltar as origens e
realizar algo mais autoral e pessoal reavendo a sua própria identidade como um
talentoso cineasta holandês como outrora. Seu último filme neste país, O Quarto
Homem (vide abaixo) foi lançado em 1983. Pois é, já estava na hora mesmo, Paul!
Mais
recentemente, precisamente em 2012, ele ainda dirigiu um drama chamado
STEEKSPEL, também na Holanda, e que ainda pretendo conferir. E ainda prepara um
novo projeto na França para 2016. Veremos. Bom, voltando com “A Espiã”,
trata-se de uma ideia original desenvolvida por ele e seu parceiro de longa
data, o roteirista Gerard Soeteman. Na verdade, o script foi escrito a partir
de fragmentos não utilizados do grande sucesso SOLDADO DE LARANJA (Vide abaixo,
de 1977), e A Espiã precisou de mais ou menos duas décadas para ser concluído.
E o resultado não é decepcionante.
A
protagonista é a ótima (e linda) Carice Van Houten, hoje mais conhecida pela série
da HBO Game Of Thrones (interpreta a Melisandre), mas também atuou em outro
filme que aborda o nazismo como o ótimo “Operação Valquíria” (Valkyrie, 2008),
com Tom Cruise (interpretou a esposa do personagem de Cruise que fora baseado
em fatos verídicos). O conteúdo de “A
Espiã” está longe de ser verídico, mas acentua com realismo o submundo nazista
e a violência contra os judeus refugiados. Carice tem um jeito tão alemã que às
vezes é possível confundir suas origens. Certamente os papéis de Rachel Stein/
Ellis de Vries lhe caíram como uma luva.
O
filme era uma promessa para concorrer ao Oscar para Filme Estrangeiro que
infelizmente não aconteceu. Nem mesmo o nome forte de Verhoeven garantiu alguma
publicidade. Teve algumas indicações e vitórias em outras premiações renomadas.
Provavelmente a mais destacada é a sua indicação para o BAFTA em 2007. No
entanto, nos Países Baixos, a fita ganhou alguns prêmios como o Gouden Film,
Platina Film e três prêmios no Gouden Kalveren. Em 2008, o filme foi eleito o melhor
filme holandês de todos os tempos.
A
premissa começa no futuro e depois veremos um grande flashback. Até aquele
momento no ano de 1956 alguns anos depois do término da guerra. Assim, a judia
Rachel Stein (Van Houten) e uma turista chamada Ronnie (Halina Reijn), que a
conheceu como infiltrada naqueles tempos conturbados se reencontram
inesperadamente numa região israelita depois de uma década. Após a despedida da
amiga, agora muito bem casada com um canadense, Rachel começa a relembrar
próximo a um lençol de água o período que viveu, quer dizer, o pesadelo e
perigo que passou na sua terra, a Holanda, durante o período nazista. Ela já é
uma mulher triste e abatida e que esconde uma beleza exuberante, sua arma
principal e disfarce.
Agora,
estamos em 1944 (ano em que minha avó nasceu) e Rachel é uma cantora judia
(aliás, que linda voz!) que vive sob um endereço clandestino. No melhor estilo
de Verhoeven de abrupta violência, o local onde nossa heroína se encontra é
violentamente bombardeado acidentalmente pelos caças das forças aliadas. Ela é
salva por um filho de um agricultor que esta a bordo de um velejador que irá
transportar de forma clandestina alguns judeus remanescentes, incluindo a
família dela. Desta forma, aconselhada por outro clandestino, Van Gein (Peter
Blok), ela decide fugir nesse transporte a fim de salvar seus parentes do
crescente perigo. Eles atravessam o rio no parque nacional de Biesbosch com
todos os seus únicos pertences (diamantes, alguns dólares, etc) e um livrinho
negro do pai de Rachel que acaba ficando com ela, mas durante a travessia eles
são brutalmente assassinados, mas a bela consegue se fingir de morta e escapa.
Não irei dar mais detalhes da trama, mas é a partir daí que ela, escondida,
assiste horrorizada a falta de humanidade dos nazistas para com os corpos
metralhados de amigos e familiares. Depois, ela disfarça-se de morta, vítima de
tifo e passa pela fronteira num caixão. Acaba sendo ajudada pelos compatriotas
ainda sobreviventes e, por fim, se alista na resistência e muda sua identidade.
Agora, como Ellis de Vries recebe orientações de um comunista, Gerben Kuipers
(Derek de Lint). Ellis, ainda será o bode expiatório de uma trama complicada e
arriscada num jogo de sedução e traição a la Verhoeven!
Uma
de minhas cenas prediletas é quando ela esta pintando literalmente os pelos
pubianos numa alteração total de seu aspecto físico de modo a aproximar-se
daquele ideal de beleza ariana de Adolf Hitler. Somente esta cena é puro
Verhoeven. A audácia, a naturalidade e o impacto que o diretor sabe causar
culminando naquelas fortes cenas sexuais consequentes, já que a moça não se
importa em fazer o trabalho na frente de um dos homens da resistência. Sua
missão era evitar as evidências de sua ascendência judia para assim poder se
infiltrar na boca do leão. Notando o interesse de um oficial alemão,
interpretado por SEBASTIAN KOCH, um homem que se difere de seus aliados, ela se
aproxima dele e com charme e hipnotismo consegue um trabalho para ficar
pertinho da corja (depois de ir para cama com ele, é claro). Obviamente que a
moça vira um objeto sexual não apenas de seu amado oficial e eis que a
misoginia acaba rolando solta no filme, mesmo que não intencional, creio. Posso
até estar exagerando em afirmar alguma misoginia na fita, acontece que as
consequências acabam sendo supremas, principalmente para com as mulheres.
Evidente que Verhoeven cria um âmbito de tensão e suspense. Será que é agora
que Ellis será pega? Quando, finalmente é descoberta, aliás, é até óbvio para
se criar antagonismo no enredo, o que fazem e pretendem fazer com ela (assim
como todas as mulheres descobertas como traidoras e espiãs...) é algo ainda
mais penoso do que se fosse com um homem. E a coisa fica feia! Verhoeven não
mede esforços e principalmente não conhece a palavra atalho para mostrar toda a
fúria da violência em seus filmes.
Há
momentos brilhantes no filme como o da resistência planejando e executando um
plano ousado de fuga durante o bordel alemão que sucede no andar de cima ,com
Ellis e aquela sua amiga do começo do filme, Ronnie, também uma infiltrada,
almejando libertar um grupo de prisioneiros, onde a participação das mulheres
será fundamental. Ou mesmo quando ela tem que ser rápida para esconder um
microfone atrás de um quadro na sala de um dos oficiais para vazar informações
aos seus amigos rebeldes. Enfim, uma história de vingança e sobrevivência no
melhor estilo gato e rato.
Repleto
de reviravoltas estupendas, A ESPIÃ é um agrado. Em minha opinião, segue sendo
como o melhor filme de Verhoeven. Um grande suspense dramático ambientado na
guerra de uma forma eletrizante e até mesmo romântica. Pra quem acha que
Verhoeven não sabe dirigir cenas de amor, estão redondamente enganados. Van
Houten e Koch esbanjam romantismo na tela com os olhares, beijos e carícias
fato que até a metade do filme se torna surpreendente. Ainda assim, com todas
as características positivas que o filme apresenta e certamente cativa, é a
dupla beleza de Van Houten, a natural enquanto judia e exótica enquanto alemã,
o ponto alto. Além de linda e excelente atriz ela canta lindamente. É verdade,
me tornei um fã. Vontade de me infiltrar em seu cotidiano e descobrir de onde
vem tanto encanto.
Holanda/Alemanha/Inglaterra/Bélgica/
145 min.
COR/Europa Filmes
Drama/Suspense/Guerra/Romance
A Espiã (Zwartboek
AKA: Black Book, 2006)
★
★ ★
★ ★
Zwartboek
Estrelando: CARICE
VAN HOUTEN
SEBASTIAN KOCH
THOM HOFFMAN,
HALINA REIJN
WALDEMAR KOBUS
DEREK DE LINT CHRISTIAN BERKEL DOLF DE VRIES
PETER BLOK MICHIEL HAUISMAN
RONALD ARMBRUST FRANK LAMMERS
MATTHIAS SCHOENAERTS JOHNNY DE MOL
& XANDER STRAAT
Música ANNE DUDLEY
Diretor de
Fotografia KARL WALTER LINDENLAUD
Edição JOB TER
BURG, JAMES HERBERT
Direção de Arte
WILBERT VAN DORP
Figurinos YAN TAX
Produtores JEROEN
BEKER, TEUN HILTE, SAN FU MALTHA, JENS MEURER
e FRANS VAN GESTEL
Roteiro de GERARD
SOETEMAN, PAUL VERHOEVEN
Direção PAUL VERHOEVEN
©2006
by Fu Works Em associação com: Egoli/Clockwork Pictures/Studio Babelsberg
Motion
Investment Group/Motel Films/Hector BV/ContentFilm International
Uma
co-produção: AVRO Television/ VIP 4 Medienfonds









5 comentários:
Eu assisti esse filme! Gostei demais. Guardado aqui como relíquia! Na verdade o que você escreveu é tudo que eu quis dizer sobre "A Espiã". Desses filmes que sempre teremos como nossos favoritos! Parabéns pelo excelente texto.
Um filme que ainda preciso ver de Paul Verhoeven, diretor que gosto e acho bastante instigante. Seu texto me deixou com mais vontade de vê-lo.
bjs
Que bom que gostou, M. Verhoeven é mais eficiente de volta a Holanda, pelo menos nos últimos anos.
Obrigado!
Certamente irá gostar, Nanda. Filmaço mesmo!
Bjs.
Seu trabalho é muito bom. Quando leio que um filme será baseado em fatos reais, automaticamente chama a minha atenção, adoro ver como os adaptam para a tela grande. Particularmente o filme Raça e umo dos melhores da filmografia de Carice van Houten é maravilhosa , adorei este filme. A história é impactante, sempre falei que a realidade supera a ficção.
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