quarta-feira, 28 de maio de 2014

A ESPIÃ

INFILTRADA

Na Holanda ocupada pelo regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial, uma cantora judia se infiltra na sede regional da Gestapo numa arriscada missão para seus compatriotas da resistência.

Como havia prometido esta era a última resenha que faltava da “Trilogia Paul Verhoeven” aqui no blogue. Uma breve retrospectiva com meus comentários a respeito de alguns de seus filmes holandeses.  A ESPIÃ (Zwartboek, 2006), também conhecido pelo título de Black Book, “O Livro Negro” é o grande retorno do cineasta à sua terra natal depois de anos na Hollywood que o “sequestrou”. Mas, de fato, num filme falado em holandês é onde percebo uma maior desenvoltura e genialidade do cineasta que hora ou outra abordou o tema da identidade em seus filmes. Ou vai me dizer que Robocop, O Vingador do Futuro e até mesmo o trash O Homem Sem Sombra não são filmes que se tratam do assunto? Pois bem, era hora do próprio Verhoeven voltar as origens e realizar algo mais autoral e pessoal reavendo a sua própria identidade como um talentoso cineasta holandês como outrora. Seu último filme neste país, O Quarto Homem (vide abaixo) foi lançado em 1983. Pois é, já estava na hora mesmo, Paul! 


Mais recentemente, precisamente em 2012, ele ainda dirigiu um drama chamado STEEKSPEL, também na Holanda, e que ainda pretendo conferir. E ainda prepara um novo projeto na França para 2016. Veremos. Bom, voltando com “A Espiã”, trata-se de uma ideia original desenvolvida por ele e seu parceiro de longa data, o roteirista Gerard Soeteman. Na verdade, o script foi escrito a partir de fragmentos não utilizados do grande sucesso SOLDADO DE LARANJA (Vide abaixo, de 1977), e A Espiã precisou de mais ou menos duas décadas para ser concluído. E o resultado não é decepcionante.

A protagonista é a ótima (e linda) Carice Van Houten, hoje mais conhecida pela série da HBO Game Of Thrones (interpreta a Melisandre), mas também atuou em outro filme que aborda o nazismo como o ótimo “Operação Valquíria” (Valkyrie, 2008), com Tom Cruise (interpretou a esposa do personagem de Cruise que fora baseado em fatos verídicos).  O conteúdo de “A Espiã” está longe de ser verídico, mas acentua com realismo o submundo nazista e a violência contra os judeus refugiados. Carice tem um jeito tão alemã que às vezes é possível confundir suas origens. Certamente os papéis de Rachel Stein/ Ellis de Vries lhe caíram como uma luva.

O filme era uma promessa para concorrer ao Oscar para Filme Estrangeiro que infelizmente não aconteceu. Nem mesmo o nome forte de Verhoeven garantiu alguma publicidade. Teve algumas indicações e vitórias em outras premiações renomadas. Provavelmente a mais destacada é a sua indicação para o BAFTA em 2007. No entanto, nos Países Baixos, a fita ganhou alguns prêmios como o Gouden Film, Platina Film e três prêmios no Gouden Kalveren. Em 2008, o filme foi eleito o melhor filme holandês de todos os tempos.
A premissa começa no futuro e depois veremos um grande flashback. Até aquele momento no ano de 1956 alguns anos depois do término da guerra. Assim, a judia Rachel Stein (Van Houten) e uma turista chamada Ronnie (Halina Reijn), que a conheceu como infiltrada naqueles tempos conturbados se reencontram inesperadamente numa região israelita depois de uma década. Após a despedida da amiga, agora muito bem casada com um canadense, Rachel começa a relembrar próximo a um lençol de água o período que viveu, quer dizer, o pesadelo e perigo que passou na sua terra, a Holanda, durante o período nazista. Ela já é uma mulher triste e abatida e que esconde uma beleza exuberante, sua arma principal e disfarce.  



Agora, estamos em 1944 (ano em que minha avó nasceu) e Rachel é uma cantora judia (aliás, que linda voz!) que vive sob um endereço clandestino. No melhor estilo de Verhoeven de abrupta violência, o local onde nossa heroína se encontra é violentamente bombardeado acidentalmente pelos caças das forças aliadas. Ela é salva por um filho de um agricultor que esta a bordo de um velejador que irá transportar de forma clandestina alguns judeus remanescentes, incluindo a família dela. Desta forma, aconselhada por outro clandestino, Van Gein (Peter Blok), ela decide fugir nesse transporte a fim de salvar seus parentes do crescente perigo. Eles atravessam o rio no parque nacional de Biesbosch com todos os seus únicos pertences (diamantes, alguns dólares, etc) e um livrinho negro do pai de Rachel que acaba ficando com ela, mas durante a travessia eles são brutalmente assassinados, mas a bela consegue se fingir de morta e escapa. Não irei dar mais detalhes da trama, mas é a partir daí que ela, escondida, assiste horrorizada a falta de humanidade dos nazistas para com os corpos metralhados de amigos e familiares. Depois, ela disfarça-se de morta, vítima de tifo e passa pela fronteira num caixão. Acaba sendo ajudada pelos compatriotas ainda sobreviventes e, por fim, se alista na resistência e muda sua identidade. Agora, como Ellis de Vries recebe orientações de um comunista, Gerben Kuipers (Derek de Lint). Ellis, ainda será o bode expiatório de uma trama complicada e arriscada num jogo de sedução e traição a la Verhoeven!

Uma de minhas cenas prediletas é quando ela esta pintando literalmente os pelos pubianos numa alteração total de seu aspecto físico de modo a aproximar-se daquele ideal de beleza ariana de Adolf Hitler. Somente esta cena é puro Verhoeven. A audácia, a naturalidade e o impacto que o diretor sabe causar culminando naquelas fortes cenas sexuais consequentes, já que a moça não se importa em fazer o trabalho na frente de um dos homens da resistência. Sua missão era evitar as evidências de sua ascendência judia para assim poder se infiltrar na boca do leão. Notando o interesse de um oficial alemão, interpretado por SEBASTIAN KOCH, um homem que se difere de seus aliados, ela se aproxima dele e com charme e hipnotismo consegue um trabalho para ficar pertinho da corja (depois de ir para cama com ele, é claro). Obviamente que a moça vira um objeto sexual não apenas de seu amado oficial e eis que a misoginia acaba rolando solta no filme, mesmo que não intencional, creio. Posso até estar exagerando em afirmar alguma misoginia na fita, acontece que as consequências acabam sendo supremas, principalmente para com as mulheres. Evidente que Verhoeven cria um âmbito de tensão e suspense. Será que é agora que Ellis será pega? Quando, finalmente é descoberta, aliás, é até óbvio para se criar antagonismo no enredo, o que fazem e pretendem fazer com ela (assim como todas as mulheres descobertas como traidoras e espiãs...) é algo ainda mais penoso do que se fosse com um homem. E a coisa fica feia! Verhoeven não mede esforços e principalmente não conhece a palavra atalho para mostrar toda a fúria da violência em seus filmes.
Há momentos brilhantes no filme como o da resistência planejando e executando um plano ousado de fuga durante o bordel alemão que sucede no andar de cima ,com Ellis e aquela sua amiga do começo do filme, Ronnie, também uma infiltrada, almejando libertar um grupo de prisioneiros, onde a participação das mulheres será fundamental. Ou mesmo quando ela tem que ser rápida para esconder um microfone atrás de um quadro na sala de um dos oficiais para vazar informações aos seus amigos rebeldes. Enfim, uma história de vingança e sobrevivência no melhor estilo gato e rato.
Repleto de reviravoltas estupendas, A ESPIÃ é um agrado. Em minha opinião, segue sendo como o melhor filme de Verhoeven. Um grande suspense dramático ambientado na guerra de uma forma eletrizante e até mesmo romântica. Pra quem acha que Verhoeven não sabe dirigir cenas de amor, estão redondamente enganados. Van Houten e Koch esbanjam romantismo na tela com os olhares, beijos e carícias fato que até a metade do filme se torna surpreendente. Ainda assim, com todas as características positivas que o filme apresenta e certamente cativa, é a dupla beleza de Van Houten, a natural enquanto judia e exótica enquanto alemã, o ponto alto. Além de linda e excelente atriz ela canta lindamente. É verdade, me tornei um fã. Vontade de me infiltrar em seu cotidiano e descobrir de onde vem tanto encanto.


Holanda/Alemanha/Inglaterra/Bélgica/ 145 min.
COR/Europa Filmes
Drama/Suspense/Guerra/Romance
A Espiã (Zwartboek AKA: Black Book, 2006)

       

Zwartboek
   Estrelando: CARICE VAN HOUTEN 
SEBASTIAN KOCH
THOM HOFFMAN, HALINA REIJN 
WALDEMAR KOBUS
DEREK DE LINT CHRISTIAN BERKEL DOLF DE VRIES
PETER BLOK  MICHIEL HAUISMAN  
RONALD ARMBRUST FRANK LAMMERS 
MATTHIAS SCHOENAERTS JOHNNY DE MOL 
& XANDER STRAAT
Música ANNE DUDLEY
Diretor de Fotografia KARL WALTER LINDENLAUD
Edição JOB TER BURG, JAMES HERBERT
Direção de Arte WILBERT VAN DORP
Figurinos YAN TAX
Produtores JEROEN BEKER, TEUN HILTE, SAN FU MALTHA, JENS MEURER
                                e FRANS VAN GESTEL
                             Roteiro de GERARD SOETEMAN, PAUL VERHOEVEN
                               Direção PAUL VERHOEVEN
©2006 by Fu Works Em associação com: Egoli/Clockwork Pictures/Studio Babelsberg
Motion Investment Group/Motel Films/Hector BV/ContentFilm International
Uma co-produção: AVRO Television/ VIP 4 Medienfonds

5 comentários:

M. disse...

Eu assisti esse filme! Gostei demais. Guardado aqui como relíquia! Na verdade o que você escreveu é tudo que eu quis dizer sobre "A Espiã". Desses filmes que sempre teremos como nossos favoritos! Parabéns pelo excelente texto.

Amanda Aouad disse...

Um filme que ainda preciso ver de Paul Verhoeven, diretor que gosto e acho bastante instigante. Seu texto me deixou com mais vontade de vê-lo.

bjs

Rodrigo Mendes disse...

Que bom que gostou, M. Verhoeven é mais eficiente de volta a Holanda, pelo menos nos últimos anos.
Obrigado!

Rodrigo Mendes disse...

Certamente irá gostar, Nanda. Filmaço mesmo!
Bjs.

Unknown disse...

Seu trabalho é muito bom. Quando leio que um filme será baseado em fatos reais, automaticamente chama a minha atenção, adoro ver como os adaptam para a tela grande. Particularmente o filme Raça e umo dos melhores da filmografia de Carice van Houten é maravilhosa , adorei este filme. A história é impactante, sempre falei que a realidade supera a ficção.

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