sábado, 24 de maio de 2014

CONTA COMIGO

O CORPO

SESSÃO SURPRESA – PARTE VII

Depois da morte de um amigo, escritor faz uma retrospectiva e narra um trecho marcante de sua infância em um novo projeto literário sobre como ele e mais três distintos garotos viveram grandes aventuras para encontrar e resgatar o corpo de um menino desaparecido para então se tornarem heróis e notáveis em sua pacata cidade.

Este é um filme que mexe comigo de uma maneira estranha. Emociona-me. Encanta-me. Faz-me chorar. E desde a primeira vez que o assisti em uma das nostálgicas sessões da Sessão Da Tarde da Rede Globo (dublado pelos estúdios da BKS) e ainda nas revisões, de alguma forma ele sempre me pega de surpresa. A fita que é magistralmente dirigida por ROB REINER (diretor de aclamados filmes como o excelente suspense/terror MISERY – LOUCA OBSESSÃO  - que já publiquei AQUI) tem belos desempenhos do elenco juvenil que de maneira poética emocionou plateias do mundo inteiro. Creio que muitos compartilham da mesma opinião. E por falar em Reiner e Misery, aqui foi a primeira parceria do diretor com o famoso autor best-seller, STEPHEN KING, e este não é obra de terror, seguindo a mesma linha de dramas um tanto similares como “À Espera de Um Milagre” e “Um Sonho de Liberdade”.  O nome do filme vem na verdade de uma música de mesmo nome composta por Ben E. King e que toca durante os créditos (mas pode ser ouvida a melodia durante passagens do filme), mas King não tem ligação direta com a escolha do novo título para esta adaptação (magistralmente escrita por Raynold Gideon e Bruce Evans, indicados ao Oscar para roteiro, a única nomeação do filme), que é na verdade um conto que esta presente numa série escrita por King: “ As Quatro Estações” e que chama-se “O Corpo” (The Body), que passa-se durante o outono na cidade do Maine, mas que no filme é trocado por Oregon.


É sobre esses quatros distintos garotos que estão de boa se divertindo numa pacata cidade no ano de 1959. Apesar de diferentes, são unidos por um laço forte de amizade. Num certo dia resolvem partir em busca dum corpo de um adolescente desaparecido. Munidos pela curiosidade de moleques que almejam ver como é a aparência de um cadáver, eles criam um álibi para os pais e vão para a mata seguindo os trilhos do trem peregrinando por quilômetros. Obviamente que o ambiente é de pura molecagem com joguinhos, palhaçadas, frases marcantes e discussões. Entra na pauta se Mickey Mouse é um rato, se o Super Mouse tem culhões para enfrentar o Super-Homem e se Pluto é um cachorro e Donald um pato, questionam a forma animal do Pateta (aliás, bem estranho, realmente!), enfim, todo tipo de zoação. O que eles não imaginariam é que nesse road-movie com trens, uivos de coiotes e sanguessugas, a viagem se transformaria numa jornada de descobertas pessoais e segredos nunca antes compartilhados.

O protagonista é um garoto dócil e aspirante a escritor, com uma imaginação fértil na arte de contar histórias (adoro a sequência do gordo comedor de tortas que se vinga vomitando em todos!). Gordie, interpretado por WIL WHEATON (que estrelou o elenco da Nova Geração de Jornada Nas Estrelas e participou da famosa série Big Bang: A Teoria) sofre por ter dificuldades de demonstrar seus sentimentos, sobretudo quando perdeu o irmão mais velho num acidente (interpretado pelo estreante John Cusack numa singela participação) que sofre por sentir-se invisível diante dos pais. O pai, por exemplo, parece não gostar dele e a mãe fica entristecida depois da morte do primogênito. Seu irmão era o único que demonstrava afeto para com ele. Porém, seu melhor amigo, Chris, que é o líder do grupinho e que foi lindamente interpretado pelo saudoso RIVER PHOENIX (1970-1993) é um garoto muito esperto, mas se subestima por achar que, por pertencer a uma família desajustada, não terá futuro e acabará mais cedo ou mais tarde na marginalidade. O mais bonitinho é que Chris é o substituto de um irmão mais velho para Gordie e está disposto a botá-lo pra cima nos momentos de tristeza. Os outros dois são: Teddy, um atrevido e suicida vivido por COREY FELDMAN (outro nome promissor entre os adolescentes dos anos 80 em Hollywood) que sofre discriminação em sua cidade por ser filho de um louco ex-soldado que serviu, segundo ele, na Normandia (como muitos coitados que serviram os EUA), tem momentos formidáveis como ficar esperando o trem chegar perto dele no trilho ou no memento enfurecido e violento quando insultam seu pai, e o gordinho, Vern, o hoje galante JERRY O ´CONNELL (pois é, o tempo e sua democracia...) certamente o mais engraçado da turma e o pivô da aventura, já que é ele quem escuta uma conversa sobre a localização do corpo. Ele é tão sensacional que me faz rir quando, ao invés de levar algum lanche para viagem, (afinal ele deve gostar de comer, não é?) acaba levando um pente para ficar nos trinques quando aparecer na TV como um dos heróis que resgataram o defunto!

Gosto da maneira como Reiner abre o seu filme com a distinta aparição de RICHARD DREYFUSS, que interpreta o escritor, no caso Gordie na fase adulta (mas que não é creditado como tal). A narração é estupenda dando detalhes de acontecimentos inesperados que nos transporta imediatamente para uma época sem a necessidade de intertítulos ou artifícios preguiçosos. O texto é fenomenal e te prende desde o início, já que o filme não almeja cenas de ação. É uma aventura mais emocional e inocente. Gosto também da atuação notável do jovem KIEFER SUTHERLAND, como Ace, o vilão. Líder de uma gangue de arruaceiros mais velhos - com a típica estupidez da transgressão norte-americana de quebrar correios com taco de beisebol - e curiosamente uma espécie de espelho para os nossos heróis. Ou seja, dando uma amostra do que poderia vir logo a seguir nas vidas de todos eles.

O filme aborda também a hipocrisia de uma sociedade que adora pré-julgar os outros. Demonstrações de superestimação ainda mais com alguém como Chris (um River Phoenix mais engajado e inteligente do que estúpido e transviado) e vamos descobrir através de Gordie que a vida do amigo não foi nada daquilo que muitos (e o próprio) pensavam que seria. O que mais me toca é essa vontade de abraçar, de dar apoio, que os quatros têm um com o outro. Uma camaradagem invejável. E, por mais que eles sejam pré-adolescentes, Reiner evidencia uma naturalidade desta faixa de idade e um contexto histórico de uma época. Os papos entre eles não passam de conversas de crianças. E creio que é aí que o filme torna-se mais discutível. Quantas vezes eles falam sabiamente sobre os peitinhos das garotas? Isto é, quantas vezes o sexo é pauta principal? Tentar saber a origem do Pateta e ouvir uma historinha sobre um comedor de tortas ao redor de uma fogueira parece ser mais divertido. Afinal, o que os levaram para a longa caminhada? Obviamente a curiosidade e não tem nenhuma relação com caçar garotas ou festas da pesada, mas, acampar, se divertir, e ser levado pela inocência de serem alguma coisa de valor, verdadeiros super-heróis como o Super Mouse ou o Super-Homem, resgatando um cadáver (saber como ele é) e provarem alguma relevância para uma cidade sem graça, medíocre e nem um pouco acolhedora, afinal, cada um deles tem, além de tudo, problemas familiares.


O final é surpreendente. Na verdade, depois que eles se deparam com o corpo já em estado de decomposição, os olhares dos quatro mudam, e, num confronto com Ace e sua gangue, eles amadurecem. Aqueles meninos que saíram para a aventura retornam como homens. Gordie da uma breve narração do que sucedeu com cada um de seus amigos e o destino nunca é o que pré-determinam. Chris sai de cena desaparecendo lindamente.

Recebeu duas indicações para o Globo de Ouro como Melhor Filme(Drama) e Melhor Diretor. A trilha sonora eu ouço sempre. Além do envolvente “Stand by Me”, temos ainda as famosas Chordettes, hit daquela década dourada com o sucesso “Lollipop”. Além de, Jerry Lee Lewis, Buddy Holly, The Coasters, dentre outros.

CONTA COMIGO é o melhor filme sobre amizade e amadurecimento que já vi. E sua mensagem de auto-estima é melhor do que qualquer terapia. Não vá ao Divã. Assista Stand by Me uma experiência encantadora que certamente nunca mais esquecerá.

O elenco anos depois.


Eua/89 min.
COR/Sony Pictures
Drama/Aventura
Conta Comigo (“Stand By Me” ,1986)
         ★

COLUMBIA PICTURES APRESENTA
UM FILME DE ROB REINER
UMA PRODUÇÃO ACT III PRODUCTION
STAND BY ME
ESTRELANDO:
WIL WHEATON  RIVER PHOENIX
COREY FELDMAN    JERRY O ´CONNELL   KIEFER SUTHERLAND
COM:
CASEY SIEMASZKO  GARY RILEY
BRADLEY GREGG  JASON OLIVER
MARSHALL BELL   FRANCES LEE McCAIN
BRUCE KIRBY   WILLIAM BONDER
SCOTT BEACH   JOHN CUSACK
E: RICHARD DREYFUSS
MÚSICA JACK NITZSCHE
DIREÇÃO DE ARTE DENNIS WASHINGTON
FOTOGRAFADO POR THOMAS DEL RUTH
EDIÇÃO ROBERT LEIGHTON
ROTEIRO DE
RAYNOLD GIDEON   BRUCE A. EVANS
BASEADO NO CONTO “THE BODY” DE STEPHEN KING
PRODUÇÃO
BRUCE A. EVANS   RAYNOLD GIDEON  ANDREW SCHEINMAN
DIREÇÃO ROB REINER
Columbia Pictures/Act III/ Act III Communications/ The Body
©1986


6 comentários:

Anônimo disse...

Clássico não só da Sessão da Tarde! Clássico de minha infância!
Parabéns pelos seis anos de blogue!!!!

Alan Raspante disse...

Ainda não vi. Mais um que precisa ver urgentemente!

Rodrigo Mendes disse...

Obrigado, Kleiton.
Conta Comigo é um filme marcante para muita gente. Impressionante. Mas, eu tenho notórias lembranças dele na Sessão da Tarde dublado pela BKS.

Abrç;

Rodrigo Mendes disse...

Demorou, Alan!

Amanda Aouad disse...

"melhor filme sobre amizade e amadurecimento que já vi". De fato, ele é impressionantemente envolvente. Até a turma da Mônica ficou melhor quando lançou uma HQ inspirada nele. É tocante, verdadeiro, belo. A gente cresce junto com os meninos e fica aquela melancolia no final, mas com um tom gostoso de recordar.

Bela homenagem, Rodrigo.

bjs

Rodrigo Mendes disse...

Nossa! Curioso para saber sobre essa HQ da Turma da Mônica. Sabia disso não...

E sim, há essa melancolia no final, realmente, mas no início do filme vejo que também, aliás, quando o Dreyfuss esta em cena.

Bjs.

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