INSTINTO SELVAGEM HOLANDÊS?
O
blogue anda meio parado, eu sei, mas a gente faz o que pode. Estava para
terminar este texto, mas agora, vamos lá. Dando continuidade na revisita da
fase européia do diretor PAUL VERHOEVEN, O
QUARTO HOMEM (Die Vierde Man, 1983) certamente irá
prendê-lo na poltrona.
Eis um ótimo suspense no melhor
estilo de Alfred Hitchcock que de certa forma sempre apontou os problemas da
sexualidade com toques de humor negro em seus filmes, a diferença em “O Quarto
Homem” é o fato de ser um filme mais explícito mesmo nos momentos turvos e
imprevisíveis que se propõe.
Estrelado por Jeroen
Krabbé (de Soldado
de Laranja, 1977.
Vide abaixo) e Renée Soutendijk (de Sem
Controle,
Spetters, 1980. Também de Verhoeven), o filme, que foi o último rodado por
Verhoeven na Holanda antes de seus anos em exílio na velha Hollywood (só
retornaria anos depois com o excelente A Espiã, 2006 – que pretendo escrever
e publicar ainda este ano no blog!), conta a premissa de um escritor alcoólatra
e gay enrustido que apresenta traços até mesmo de misoginia, tem complexos
sexuais complicadíssimos, um medo da sexualidade feminina, mas que usa e abusa
dela quando lhe convém, Gerard Reve (Krabbé), que apesar de inteligente tem a
maldição de ser um devoto da Igreja Católica Apostólica Romana. Com tais
problemas de aceitação sexual, o cara até se apresenta sendo como "bissexual".
Ministra palestras e tem um modo de vida confortável. Durante sua ida para uma
cidade chamada Vlissingen, sudoeste dos Países Baixos, ele vai colecionando
pistas do que o futuro lhe reserva. Mas sempre pensando no bom e no melhor. A
trama se apropria de um ótimo suspense envolvendo supostos assassinatos e
Gerard argumenta que não existe uma separação óbvia entre a realidade e a
fantasia, mentira e realidade quando escreve suas prosas. O próprio é um
complexo de fatos e inverdades e que nem sabe ao certo quando mente ou diz a
verdade. O fato é que Gerard acaba se envolvendo sexualmente com sua
tesoureira, Christine Halslag (Renée Soutendijk), uma loura extremamente
sensual com aura de femme fatale.
Seria ou não uma viúva negra? Aliás, Soutendijk é até mais sexy que a
estonteante Sharon Stone, diga-se.
Pois bem, o cara tem suspeitas
de que Christine, uma riquíssima mulher, livre e desimpedida, que já teve
muitos casos amorosos além dos casamentos, e que também é uma bissex, possa ter
matado os três primeiros maridos. Opa! Mesmo assim, Gerard não aparenta se
chocar, apenas usufrui de tudo que ela possa lhe oferecer, incluindo um amante bem
mais jovem que ele que entra em cena desfilando seu corpaço de gigolô na casa
dos vinte e pouco com o qual ele sente uma forte atração. Ele se diverte. É um
jogo de gato e rato. O perigo é, aliás, um fetiche que muitos praticam e não só
fantasiam. Gerard é um homem que não tem nada a perder. Será que ele será o
próximo da lista dela? O Quarto homem?
Verhoeven e o roteirista Gerard
Soeteman que
se basearam em um livro escrito por um certo Gerard Reve (1923-2006) preenchem
brilhantemente o filme com o simbolismo católico (adoro, por exemplo, a
sequencia inicial dos créditos com a trilha hipnótica de Loek Dikker), além de
premonições de morte a la trash movie. Uma maneira perversa de gerar certas expectativas com o
enredo. A fotografia de Jan de Bont (depois se tornaria diretor de
blockbusters como Velocidade Máxima) também se destaca nas cenas
noturnas. A do mausoléu durante uma tempestade é digna de um filme de terror!
O que deixa o filme com o seu
toque de humor macabro, não somente pela direta de Verhoeven nos desdobramentos
(como a cena em que o gigolozinho morre num acidente automobilístico fatal),
é também por apresentar tais alegorias que na verdade são até irrelevantes. Segundo
o cineasta, elas foram criadas propositalmente para desnortear os críticos. Eu
adoro esse artifício na estrutura do roteiro, de que tudo é inesperado. É
tortuoso. E sim, tem muitas semelhanças com outro sucesso comercial do diretor,
INSTINTO SELVAGEM (Basic Instinct, 1992) que também implantava a dúvida e o pseudo-mistério
até o final. Embora goste mais deste mesmo que tenha sofrido com as restrições
de verba para deixá-lo mais acabado, tem mais humor e vivacidade do que “Instinto”,
por exemplo. E se o diretor adora polêmicas este é um prato cheio.
Holanda. 105 Min. Cor / Não disponível no Brasil/
Anchor Bay (EUA)
Suspense
O QUARTO HOMEM (1983)
“Die Vierde Man”
★ ★ ★ ★
Dir.: PAUL
VERHOEVEN
Roteiro: GERARD
SOETEMAN
Baseado no livro de: Gerard Reve
Produzido por: Rob Houwer
Fotografado por: Jan De Bont
Música de: Loek Dikker
Montagem:
Ine Schenkkan
Direção
de Arte: Roland de Groot
Figurinos:
Elly Claus
Estrelando:
Jeroen Krabbé, Renée Soutendijk,
Thom
Hoffman, Dolf de Vries,
Geert de Jong, Hans Veerman, Caroline
de Beus.
©1983 Rob Houwer Productions/ VNF






10 comentários:
Amo esse filme, foi meu primeiro contato com o cinema do Verhoeven.
Um suspense de primeira, imensamente superior a seu Instinto Selvagem.
Jeroen Krabbé bárbaro como o escritor, sem dúvida meu filme predileto com ele, e a Soutendijk fantástica, como a "suposta" viúva negra.
Sensual e misteriosa como poucas, típica personagem de film noir.
Cenas bárbaras, como a da igreja, com o cara no crucifixo, adoro.
E a da morte trágica no carro, fantástica.
Me tornei fã do cinema do holandês depois desse filme, sendo esse e o Louca Paixão, com meu amado Rutger Hauer em começo de carreira, meus dois prediletos dele.
Ah, adoro o Conquista Sangrenta também, outra ótima parceria dos dois.
Aliás, os melhores momentos do Verhoeven, essa sua fase pré Hollywood.
E, tirando uma ou outra preciosidade do Hauer posteriormente, como o cult Blade Runner ou o italiano A Lenda do Santo Beberrão, uma excelente fase dele também na parceria com o Verhoeven.
Vi apenas duas vezes esse filme, mas já vou correndo ver a terceira, hehe.
:D
Legal, Eliana. Nota-se que vc é realmente fã do diretor. Tb tenho predileção pela fase holandesa, porém, tem coisas boas dele em Hollywood, não nego gostar de "O Vingador do Futuro" e "Robocop", por exemplo. Até mesmo "Tropas Estelares", "Conquista..." é é claro, "Instinto...", mas de fato, "O 4º Homem" tem mais vivacidade de sua autoria. "Soldado de Laranja" tb, aliás, este sim é obra-prima.
Abraço.
Nossa, o Soldado de Laranja é bárbaro também.
Gosto bastante do Tropas Estelares, mas o Instinto, por mais que tenha a mão evidente dele por trás, não me agradou muito não. Acho que por culpa da Stone, rs. Americana demais pro meu gosto, num filme desses, hehehe.
Outra atriz que amo, dos filmes de é a Monique van De Ven. Grandes atrizes, ela e a Soutendijk que, infelizmente, poucos conhecem.
Ah, e verdade, O Vingador do Futuro é muito legal também, tinha esquecido dele.
Mas o que gosto mesmo é das taras, neuras e fetiches dos primeiros filmes, rs.
Minha paixão pré-Trier era o Verhoeven, kkk.
até pra tirar mofo do blog... tu tem estilo né?
Assisti faz muito tempooooooooooo.....e com seu texto deu vontade de rever todo o pseudo sadismo de Verhoeven!
abraço forteeeeeeee
Gosto muito das obras de Verhoeven, mas ainda não tive chance de ver seus trabalhos antigos na Holanda. O longa mais antigo de Verhoeven que assisti foi o ótimo "Conquista Sangrenta", sua estreia em Hollywood em 1985.
Abraço,
Exatamente, a Monique tb é esplêndida Verhoeven woman! rs Elas não implacaram em Hollywood. Verhoeven deveria ter dado papéis a elas nessas produções.
Não podemos esquecer que o diretor teve que seguir restrições dos majors studios e que os EUA é um país conservador.
Reveja, Patt. Ehhh muito bom, rs!
Obrigado. Abraço.
E que ótima estreia, não é?
Abraço.
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