FILME MARCADO PARA SOBREVIVER
Documentário
que retrata o filme que retrataria a vida do paraibano João Pedro Teixeira, um
líder camponês brutalmente assassinado em 1962.
Resenhar um filme do mestre EDUARDO
COUTINHO (1933-2014)
é uma obrigação para quem tem um blogue de cinema. Envergonho-me por deixar
passar em todos esses anos textos que resenhem qualquer item valioso de sua
obra. Nada mais correto do que começar justamente com uma de suas obras-primas,
Cabra Marcado para
Morrer,
uma impressionante narrativa documental (parcialmente longa metragem de ficção
baseado em fatos verídicos), uma verdadeira odisséia que teve início em 1964
para ser finalmente concluído em 1985 oficialmente seu ano de lançamento.
Autor de um cinema verídico e
complexo, Coutinho sabia lidar como ninguém com as camadas da realidade. Por vezes
chocantes, seus filmes fogem de encenações baratas e trilham o caminho da
investigação resultando na vida como ela é (e deve ser). Tudo bem, o cara
durante toda a vida só dedicou-se aos documentários dirigindo raros longas-metragens
como “O Homem que Comprou o Mundo”
(1968), “Faustão” (1971) e “O Pacto”, segmento da coletânea de “El ABC do Amor”, de 1967. E muitos podem dizer que reportagem
é nada mais do que a verdade. Por outro lado, nenhum cineasta, em minha
opinião, soube fazer com maestria, de um jeito especial, documentos
cinematográficos que instigam não apenas a linguagem da tele-reportagem, mas a
investigação, a própria curiosidade e ao mesmo tempo, de um jeito
inexplicavelmente tocante e envolvente. Ele sabia ouvir o interlocutor
lindamente, sempre de maneira sensível e obviamente fugindo dos clichês
sentimentalistas. “Cabra” é certamente seu trabalho mais celebrado. É tanto
sobre si mesmo quanto sobre seu tema original: o assassinato do líder camponês
João Pedro Teixeira, de Sapé, na Paraíba, em 1962 que praticamente se
transforma numa figura misteriosa.
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| Homenageado no quadro "In memoriam" no Oscar deste ano. |
Bom, para explicar melhor como
a saga de “Cabra” se deu início, em razão da ditadura em 1964. O filme – e não o
documentário - “Cabra Marcado Para Morrer”, com um elenco iniciante (similar a “Cidade
de Deus” para captar o realismo daquele ambiente e enredo), tinha como
objetivo contar a história de camponeses e suas vidas sofridas na roça e o
drama com fazendeiros. De fato um filme politizado, a fita acabou sofrendo
censura e as filmagens foram interrompidas pelos militares naquele ano de
estréia do fatídico Golpe! O Engenho da Galiléia foi cercado por
tropas policiais e a equipe foi presa sob alegação de comunismo. Quanto ao
restante do elenco e equipe, com a confusão, repressão e medo, acabaram se
dispersando. Evidentemente que Coutinho jamais iria deixar o seu filme desaparecer
para sempre. O projeto foi retomado dezessete anos mais tarde (em 1981),
recolhendo os negativos salvos do material filmado do longa e agora, como
documentário, depoimentos dos camponeses que trabalharam nas primeiras
filmagens da época. No entanto, a estrela do filme é a viúva de João Pedro, Dona Elisabeth Teixeira, que desde dezembro de 64 passou a viver na
clandestinidade foragida e separada dos filhos, que também aparecem mais velhos
para dar depoimentos. E que mulher, viu! Sofro com o seu drama. O pesadelo que
viveu ao querer justiça aos assassinos de seu marido e por ter continuado com a
luta sendo a nova líder das Ligas
Camponesas. Os mesmos técnicos locais e personagens reais acompanham
Coutinho ao longo do filme e registram Dona Elisabeth, agora um pouco anciã.
Se formos procurar compreender
o projeto original de 64 todo o conceito já fugia ao lugar-comum. Coutinho,
patrocinado pelo Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos
Estudantes, foi até Galiléia exatamente dois anos após o crime rodar um filme
inspirado na tragédia de João Pedro. Uma ficção que trazia um elenco interpretando
personagens não-fictícios, ou seja, a si mesmos. Elisabeth Teixeira também era
integrante do elenco e protagonista de si mesma (e devo admitir que as poucas
cenas em que ela atua me emocionam profundamente). Com o Golpe, o Governo
interveio no dia 1º de abril de 64 impedindo que o filme continuasse a ver a
luz do dia.
Retomando nos anos 80, Coutinho
realiza um material ainda mais intrigante: a busca daquelas pessoas que estavam
colaborando com “Cabra Marcado Para Morrer”. Onde vivem e o que fazem
atualmente? É um resgate sincero e tipicamente Coutiniano. Ele não encontra atalhos para resgatar a própria
trajetória de seu filme e, em certa medida, dele próprio e da evolução de sua
estética. É brilhante a forma como ele conduz este cinema direto, onde o pilar
básico é a entrevista tête-à-tête, com o cineasta aparecendo discretamente
tanto de forma física quanto voz. O filme fez dele uma celebridade no ramo de
documentários. Assim sendo, acabou alcançando grau inédito de popularidade nos
anos a seguir. Edifício
Master,
por exemplo, lançado em 2002, é
outra obra significativa. É a minha predileta. E, citando outras: “O Fim e o Princípio” (2006), “Babilônia 2000” (1999), “Boca de Lixo” (1993) e “Teodorico, o Imperador do Sertão”
(1978).
Brilhantemente narrado por Ferreira Gullar e Tite de
Lemos, som
direto de Jorge Saldanha e montagem
de Eduardo Escorel (de grandes
clássicos do nosso cinema como Macunaíma e Terra em Transe, dentre outros), “Cabra” é uma
relíquia incontestável. Infelizmente, o filme não é fácil de encontrar.
Recentemente revi numa cópia castigada que se encontra completa no YouTube e a
meu ver pirateada porcamente em VHS (oficialmente lançado à época pela Globo Vídeo). Eu sei que tem
distribuição pela Bretz Films, mas
precisaria pesquisar e encomendar. De qualquer forma, eis um belo registro
cinematográfico direto e emocionante. Não por acaso ganhou diversos prêmios
internacionais, entre eles o da crítica no Festival
de Berlim.
“Cabra” é o registro de que o
cinema é mais forte. E sobrevive.
Brasil/119 min.
COR/P&B/ Bretz Films
Documentário/Drama
Cabra Marcado Para Morrer (1985)
★ ★ ★ ★ ★
UM FILME DE EDUARDO COUTINHO
Produzido por Eduardo Coutinho
Produtor Associado Vladimir Carvalho
Produtor Executivo Zelito Viana
Música de Rogério Rossini
Direção de Fotografia por
Fernando Duarte, Edgar Moura
Montagem Eduardo Escorel
Som Jorge Saldanha
Assistente de Câmera Nonato Estrela
Roteiro e Direção Eduardo Coutinho
Narrações: Tite de Lemos, Ferreira Gullar
©1985 Eduardo Coutinho Produções
Cinematográficas/ Mapa Filmes
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2 comentários:
Coutinho era um gênio e sua filmografia é mesmo incrível, já vi muitos e sempre me impressiono com o que ele consegue fazer. Esta talvez seja sua obra mais icônica, até pela história de ter começado como ficção e anos depois conseguido ser realizado como documentário. Belo texto, Rodrigo.
Exatamente a investigação e a transição da narrativa e a mudança temática, ainda que convergentes, que sempre me impressionaram, Amanda. Um filme que sobreviveu graças a inquietude de seu criador.
Obrigado. Beijos.
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