quarta-feira, 11 de junho de 2014

CABRA MARCADO PARA MORRER

FILME MARCADO PARA SOBREVIVER


Documentário que retrata o filme que retrataria a vida do paraibano João Pedro Teixeira, um líder camponês brutalmente assassinado em 1962.


Resenhar um filme do mestre EDUARDO COUTINHO (1933-2014) é uma obrigação para quem tem um blogue de cinema. Envergonho-me por deixar passar em todos esses anos textos que resenhem qualquer item valioso de sua obra. Nada mais correto do que começar justamente com uma de suas obras-primas, Cabra Marcado para Morrer, uma impressionante narrativa documental (parcialmente longa metragem de ficção baseado em fatos verídicos), uma verdadeira odisséia que teve início em 1964 para ser finalmente concluído em 1985 oficialmente seu ano de lançamento.

Autor de um cinema verídico e complexo, Coutinho sabia lidar como ninguém com as camadas da realidade. Por vezes chocantes, seus filmes fogem de encenações baratas e trilham o caminho da investigação resultando na vida como ela é (e deve ser). Tudo bem, o cara durante toda a vida só dedicou-se aos documentários dirigindo raros longas-metragens como “O Homem que Comprou o Mundo” (1968), “Faustão” (1971) e “O Pacto”, segmento da coletânea de “El ABC do Amor”, de 1967. E muitos podem dizer que reportagem é nada mais do que a verdade. Por outro lado, nenhum cineasta, em minha opinião, soube fazer com maestria, de um jeito especial, documentos cinematográficos que instigam não apenas a linguagem da tele-reportagem, mas a investigação, a própria curiosidade e ao mesmo tempo, de um jeito inexplicavelmente tocante e envolvente. Ele sabia ouvir o interlocutor lindamente, sempre de maneira sensível e obviamente fugindo dos clichês sentimentalistas. “Cabra” é certamente seu trabalho mais celebrado. É tanto sobre si mesmo quanto sobre seu tema original: o assassinato do líder camponês João Pedro Teixeira, de Sapé, na Paraíba, em 1962 que praticamente se transforma numa figura misteriosa.

Homenageado no quadro "In memoriam" no Oscar deste ano. 

Bom, para explicar melhor como a saga de “Cabra” se deu início, em razão da ditadura em 1964. O filme – e não o documentário - “Cabra Marcado Para Morrer”, com um elenco iniciante (similar a “Cidade de Deus” para captar o realismo daquele ambiente e enredo), tinha como objetivo contar a história de camponeses e suas vidas sofridas na roça e o drama com fazendeiros. De fato um filme politizado, a fita acabou sofrendo censura e as filmagens foram interrompidas pelos militares naquele ano de estréia do fatídico Golpe! O Engenho da Galiléia foi cercado por tropas policiais e a equipe foi presa sob alegação de comunismo. Quanto ao restante do elenco e equipe, com a confusão, repressão e medo, acabaram se dispersando. Evidentemente que Coutinho jamais iria deixar o seu filme desaparecer para sempre. O projeto foi retomado dezessete anos mais tarde (em 1981), recolhendo os negativos salvos do material filmado do longa e agora, como documentário, depoimentos dos camponeses que trabalharam nas primeiras filmagens da época. No entanto, a estrela do filme é a viúva de João Pedro, Dona Elisabeth Teixeira, que desde dezembro de 64 passou a viver na clandestinidade foragida e separada dos filhos, que também aparecem mais velhos para dar depoimentos. E que mulher, viu! Sofro com o seu drama. O pesadelo que viveu ao querer justiça aos assassinos de seu marido e por ter continuado com a luta sendo a nova líder das Ligas Camponesas. Os mesmos técnicos locais e personagens reais acompanham Coutinho ao longo do filme e registram Dona Elisabeth, agora um pouco anciã.


Se formos procurar compreender o projeto original de 64 todo o conceito já fugia ao lugar-comum. Coutinho, patrocinado pelo Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes, foi até Galiléia exatamente dois anos após o crime rodar um filme inspirado na tragédia de João Pedro. Uma ficção que trazia um elenco interpretando personagens não-fictícios, ou seja, a si mesmos. Elisabeth Teixeira também era integrante do elenco e protagonista de si mesma (e devo admitir que as poucas cenas em que ela atua me emocionam profundamente). Com o Golpe, o Governo interveio no dia 1º de abril de 64 impedindo que o filme continuasse a ver a luz do dia.

Retomando nos anos 80, Coutinho realiza um material ainda mais intrigante: a busca daquelas pessoas que estavam colaborando com “Cabra Marcado Para Morrer”. Onde vivem e o que fazem atualmente? É um resgate sincero e tipicamente Coutiniano. Ele não encontra atalhos para resgatar a própria trajetória de seu filme e, em certa medida, dele próprio e da evolução de sua estética. É brilhante a forma como ele conduz este cinema direto, onde o pilar básico é a entrevista tête-à-tête, com o cineasta aparecendo discretamente tanto de forma física quanto voz. O filme fez dele uma celebridade no ramo de documentários. Assim sendo, acabou alcançando grau inédito de popularidade nos anos a seguir. Edifício Master, por exemplo, lançado em 2002, é outra obra significativa. É a minha predileta. E, citando outras: “O Fim e o Princípio” (2006), “Babilônia 2000” (1999), “Boca de Lixo” (1993) e “Teodorico, o Imperador do Sertão” (1978).

Brilhantemente narrado por Ferreira Gullar e Tite de Lemos, som direto de Jorge Saldanha e montagem de Eduardo Escorel (de grandes clássicos do nosso cinema como Macunaíma e Terra em Transe, dentre outros), “Cabra” é uma relíquia incontestável. Infelizmente, o filme não é fácil de encontrar. Recentemente revi numa cópia castigada que se encontra completa no YouTube e a meu ver pirateada porcamente em VHS (oficialmente lançado à época pela Globo Vídeo). Eu sei que tem distribuição pela Bretz Films, mas precisaria pesquisar e encomendar. De qualquer forma, eis um belo registro cinematográfico direto e emocionante. Não por acaso ganhou diversos prêmios internacionais, entre eles o da crítica no Festival de Berlim.

“Cabra” é o registro de que o cinema é mais forte. E sobrevive.


Brasil/119 min.
COR/P&B/ Bretz Films
Documentário/Drama
Cabra Marcado Para Morrer (1985)
       


UM FILME DE EDUARDO COUTINHO








Produzido por Eduardo Coutinho
Produtor Associado Vladimir Carvalho
Produtor Executivo Zelito Viana
Música de Rogério Rossini
Direção de Fotografia por 
Fernando Duarte, Edgar Moura
Montagem Eduardo Escorel
Som Jorge Saldanha
Assistente de Câmera Nonato Estrela
Roteiro e Direção Eduardo Coutinho
Narrações: Tite de Lemos, Ferreira Gullar 
©1985 Eduardo Coutinho Produções Cinematográficas/ Mapa Filmes

2 comentários:

Amanda Aouad disse...

Coutinho era um gênio e sua filmografia é mesmo incrível, já vi muitos e sempre me impressiono com o que ele consegue fazer. Esta talvez seja sua obra mais icônica, até pela história de ter começado como ficção e anos depois conseguido ser realizado como documentário. Belo texto, Rodrigo.

Rodrigo Mendes disse...

Exatamente a investigação e a transição da narrativa e a mudança temática, ainda que convergentes, que sempre me impressionaram, Amanda. Um filme que sobreviveu graças a inquietude de seu criador.

Obrigado. Beijos.

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