quarta-feira, 18 de junho de 2014

DE ROGÉRIO SGANZERLA | O BANDIDO DA LUZ VERMELHA

CINE DO TERCEIRO MUNDO

Assaltante, assassino e estuprador. A história do famoso fora da lei “O Bandido Da Luz vermelha” contata de uma maneira surpreendente.


ROGÉRIO SGANZERLA (1946-2004) autor de “Por Um Cinema Sem Limite”, um de meus livros de cabeceira, é o responsável por esta grande obra prima do cinema brasileiro (depois faria outros grandes filmes como A Mulher de Todos, 1969, citando apenas um). Uma fita muito talentosa e original. Pois é, “O Terceiro Mundo vai Explodir! Quem tiver de sapato não sobra!” O divisor de águas do Cinema Marginal. O BANDIDO DA LUZ VERMELHA (1968) é certamente um dos filmes nacionais mais discutidos e cultuados em todos os tempos. Um filme que é um grande híbrido de gêneros e que através do estilo policial predominante, se inspira nos crimes do famoso assaltante João Acácio Pereira da Costa (1942-1998), que ganhou a alcunha de “Bandido da Luz Vermelha” pela imprensa marrom da época. Um sujeito folgado, arrogante, nojento e, por mais que doa admitir, hilário dentre todos os assassinos em séries que já tive conhecimento. Certamente o filme não abusa muito da figura asquerosa de João e o ator PAULO VILLAÇA (1946-1992) ainda consegue personificar um personagem mais “clean” do típico vilão ou anti-herói das telas de cinema (apesar de maléfico, porém, um tiquinho mais sedutor o que difere da figura real). Ou seja, é um indivíduo mais "aceitável" e além do mais, o filme apenas se inspira em alguns fatos, mas jamais faz uma biografia de João, e que, aliás, é trocado por Jorge o nome do protagonista.


Curiosamente uma continuação foi lançada em 2010 dirigida pela mulher de Sganzerla, HELENA IGNEZ, que também atua neste filme, e Ícaro Martins: LUZ DAS TREVAS – A VOLTA DO BANDIDO DA LUZ VERMELHA, e estrelado pelo cantor e ator Ney Matogrosso. Inclui também participações ilustres como a de José Mojica Marins, Bruna Lombardi e a ótima Maria Luísa Mendonça, dentre outros.

A premissa é óbvia (mas o filme nem tanto) e conta a história de Jorge (Villaça), um homem cruel que pratica diversos assaltos em residências chiques da cidade de São Paulo, recebendo o apelido de “Bandido da Luz Vermelha”, já que usava uma lanterna para se locomover no escuro. À surdina como um rato, ele, facilmente, entrava por portas, janelas e roubava coisas de valor. Matava, estuprava, ordenava absurdos, enfim, fazia o que lhe dava na telha e comia as suas omeletes temperadas! Suas ações desconcertavam a polícia incompetente daquele tempo (e eu penso: “Só no Brasil de Terceiro Mundo mesmo!”). Até parece que o sujeito era um gênio e ou/ um mágico que saia e entrava das casas na maior facilidade. Que técnicas peculiares, que nada! É pura esculhambação! Sua lanterna o auxiliava. Exatamente. Uma lanterninha barata que todo mundo tem igual em casa na hora de procurar as velas quando acaba a eletricidade. O mais foda é a maneira como ele folga com as vítimas. O cabra ainda fazia tortura psicológica mantendo longos diálogos que humilhavam à todos. Os homens eram mantidos reféns e as mulheres possuídas. Porém, devo admitir que o cara fazia fugas ousadas e gastava o fruto do roubo de maneira extravagante. Acaba se relacionando com Janete Jane (Ignez), uma mulher belíssima e fogosa (é garota de programa) e, também, com outros meliantes, além de um político corrupto, mas, por fim,  é traído. Perseguido e encurralado, termina num beco sem saída para então seguir de encontro com o seu destino trágico. 

SONIA BRAGA em início de carreira faz uma pontinha como uma das vítimas do bandido e SÉRGIO MAMBERTI (que também aparece na continuação) faz um gay num táxi. 


Se o filme não fosse realizado de maneira original a história por si só não me interessaria. “Bandido” é a mais pura forma de arte cinematográfica. Aquela que instiga. Ousa. Perturba. Faz refletir e cria falácia que se estende para todo o sempre. Sganzerla, na época com apenas 22 anos, fez algo tão inspirador e ao mesmo tempo ambíguo a ponto de criar inúmeras interpretações até mesmo um prêmio bastante estranho criado pelo júri do Festival de Brasília nos anos 1990: “a melhor colagem antropofágica”. Eu fico pensando se "Bandido”, além de policial, ficção-científica, comédia, romance, musical, documentário e faroeste, é também um filme antropofágico!? O que fica claro são as intenções do diretor em criar um cinema de Terceiro Mundo com uma rapidez e violência impressionantes. Sganzerla e outro cineasta chamado Júlio Bressane são os criadores deste Cinema Marginal e não estavam interessados em fazer um cinema de engajamento político como os colegas do Cinema Novo (vide Glauber Rocha o mais notável), mas, de certa forma, o ressentimento social ecoa e acaba sendo cenário de “Bandido” de forma evidente como a boca do lixo diversas vezes citada e mostrada.

O filme já me ganha desde os créditos iniciais vertiginosos. Que linda a sequência inicial de titulagens que piscam num letreiro de cinema. E ainda incorporados à colagem de imagens da vida urbana e todo o trânsito da cidade. E que fotografia sensacional em preto e branco assinada por PETER OVERBECK. Sem contar na ótima narração radiofônica sensacionalista, principalmente na voz de Mara Duval. Adoro aquele padrão de antigamente na qual os locutores de rádio faziam, isto é, com a entonação do “R” e o eco das palavras quando, por exemplo, Helio de Aguiar comenta sobre a demência do misterioso bandido dizendo: “Louuuuuco?!”


Eis um clássico brasileiro. O maior em todos os tempos. E ainda tem gente que teima em não gostar de filmes nacionais. “O Bandido da Luz Vermelha” é uma relíquia do nosso cinema. Um fragmento espetacular deste país subdesenvolvido. Um âmbito até mesmo noir de um mundo apocalíptico com a nossa própria trilha musical, desde o samba ao candomblé, e que também se associa ao rock, por que não? Sganzerla aborda tudo, até mesmo discos voadores... 

No ar a história do monstro mascarado. Um filme do terceiro mundo para o mundo! 


Brasil/92 min.
P&B - Versátil
Policial
       




Um Filme de ROGÉRIO SGANZERLA
O BANDIDO DA LUZ VERMELHA
Estrelando PAULO VILLAÇA  HELENA IGNEZ
  LUIZ LINHARES    PAGANO SOBRINHO
Com:  Sérgio Mamberti  Lenoir Bittencourt  Sonia Braga  Lola Brah
Ozualdo Candeias   Maurice Capovila   Renato Consorte Neville de Almeida  
Narração: Hélio de Aguiar  Mara Duval
Música por ROGÉRIO SGANZERLA  Montagem SILVIO RENOLDI
Direção de Arte ANDREA TONACCI  Fotografado por PETER OVERBECK
Produzido por JOSÉ DA COSTA CORDEIRO    JOSÉ ALBERTO REIS    ROGÉRIO SGANZERLA
Produtores Associados FLÁVIO SGANZERLA   PAULO VILLAÇA
Roteiro e Direção ROGÉRIO SGANZERLA
O Bandido Da Luz Vermelha ©1968 Urano Filmes

Um comentário:

Hugo disse...

É um clássico marginal do nosso cinema e como você bem citou, o personagem interpretado por Paulo Villaça é bem mais clean que o verdadeiro bandido, que quando de forma absurda foi solto no final dos anos noventa, aparentava claramente ser um lunático e por isso acabou assassinado pouco tempo depois.

Abraço

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