segunda-feira, 23 de junho de 2014

DE ALFRED HITCHCOCK | UM CORPO QUE CAI – REVISITANDO UM CLÁSSICO

SCOTTIE ATORMENTADO


O Cinema Rodrigo já havia comentado sobre Um Corpo Que Cai (Vertigo, 1958), aliás, foi a minha primeira resenha no blog sobre um filme do mestre do suspense, ALFRED HITCHCOCK. Também não é novidade para os leitores minha predileção pelo diretor. Nada como uma revisita a este monumental suspense quando exibido novamente na telona. Fiquei devendo uma nova postagem e certamente a revisão me trouxe novas perspectivas deste clássico absoluto.


Pra começar, quando publiquei a primeira resenha sobre Vertigo, o filme ainda não estava no topo da lista dos melhores filmes de todos os tempos. Eis que no ano de 2012 a conceituada revista britânica SIGHT AND SOUND, que a cada dez anos, desde 1952 , colocou Um Corpo Que Cai acima daquele que era o filme reinante, Cidadão Kane, de Orson Welles (leia aqui). Pois é, para a minha felicidade, um filme do meu mestre foi o grande eleito segundo críticos, historiadores, programadores e curadores. No entanto, a lista dos cineastas acabou destacando outro filmaço: ERA UMA VEZ EM TÓQUIO, de Yasujiro Ozu. Ainda entre os lembrados destacam-se (todos filmes que também tenho predileção) como; A Regra do Jogo (Jean Renoir), Aurora (Murnau), 2001: Uma Odisséia no Espaço (Kubrick), Rastros de Ódio (John Ford), Um Homem com uma Câmera (Vertov), A Paixão de Joana d´Arc e ou/ O Martírio...(Dreyer) e 8½ de Fellini.

"Vertigo", na verdade, era um projeto para curar o ego do Hitch já que o mesmo tentara adquirir, sem sucesso, os direitos de adaptação de Diabolique, escrito por Pierre Boileau e Thomas Narcejac e filmado brilhantemente em 1955 por Clouzot como “As Diabólicas”. Assim sendo, os autores concebem outro livro “D´Entre Les Morts”, agora, especialmente para Hitchcock.  Como estrela protagonista, o diretor desejava VERA MILES, mas a mesma engravidou e desistiu do filme. Bom, vocês já devem estar carecas de saber do resto. Hich acaba contratando KIM NOVAK, aliás, belíssima, belíssima! E, desgostoso, nunca ajudou a carreira dela. Só fez este filme com a mesma. E, anos mais tarde, daria um papel “ingrato” para Vera, ainda sob contrato, em PSICOSE. A cameo do cineasta acontece aos onze minutos, vestindo um terno cinza e caminhando num estaleiro. Uma das sensações maravilhosas que presenciei na telona foi a mudança de iluminação (lindamente fotografado por ROBERT BURKS) quando alguma coisa importante ocorria na trama. Gosto também da atuação coadjuvante da loura BARBARA BEL GEDDES, que morre de amores pelo herói. Ela é mais conhecida pelo público ao interpretar a matriarca da cultuada série televisiva DALLAS, nos anos 1970-1980. E é óbvio, nem preciso dizer da excelente interpretação do querido JAMES “Jimmy” STEWART (The Ordinary Hero) como o atormentado “Scottie” em sua última colaboração com Hitchcock depois dos excelentes “Festim Diabólico” (1948), “Janela Indiscreta” (1954) e “O Homem Que Sabia Demais” (1956). E nem me perguntem qual é o meu favorito. É o mesmo que perguntar sobre o Cary Grant, mas, de fato, em “Festim”, Jimmy é mais introspectivo.

Uma das novidades da época era o efeito pioneiro que o filme desenvolveu como narrativa. Uma técnica que mais tarde seria usada com frequência. Trata-se daquela provocação de vertigem quando Scottie começa a sentir sua acrofobia. Deu-se vários nomes:  Vertigo effect, Dolly out e, o meu predileto; Hitchcock effect. A proposta era criar uma distorção no cenário no plano plongée (de cima para baixo) e aproximando o que está em primeiro plano e aumentando o que está em segundo plano. 



A situação da fita era precária e estava deteriorada devido ao tempo e a má conservação. Felizmente, em 1996, sob um custo altíssimo de um milhão de dólares, o filme foi totalmente recuperado pelos famosos laboratoristas Robert A. Harris e James C. Katz, que já salvaram, por exemplo, Lawrence da Arábia.

A trama deste filme que ficou indisponível por questões de direitos autorais, é complexa e improvável, mas é o charme de Um Corpo Que Cai. Hitchcock utiliza-se novamente de suas típicas situações para gerar suspense. A trama depende de um plano diabólico mirabolante de assassinato que ocorre no alto de uma torre, onde o herói é incapaz de interferir devido ao seu medo de altura. Em poucos degraus, o cara entra em pane. Devo admitir que, o vilão, interpretado por TOM HELMORE é um tanto mal caracterizado. Aparece pouco e fica a impressão de que ele é subestimado durante o filme. Seu desmascaramento é tão chocante quanto o final do próprio filme, mas fica aquela sensação de quero mais saber sobre o cara. O que geralmente não acontece com os vilões Hitchcockianos. O clímax acaba focando em outras questões, a do romance e a obsessão do que o planejado assassinato que parece conseguir se safar. Mesmo Hitch tendo utilizado o artifício de um apêndice desnecessário. Por mim, o vilão seria uma peça mais presente no meio da trama. Certamente o romance central, apesar de lindamente dirigido e com clima de uma verdadeira história de amor (amo a cena do beijo com as ondas batendo sobre as rochas ao fundo), acaba desenvolvendo também (quase igual às vertigens) uma sensação de total desconforto porque, convenhamos, é bizarro demais. A relação é perversa.


John Ferguson, o Scottie, (Stewart) é um policial destemido (pelo menos no prólogo em que ocorre uma excitante perseguição sob telhados de edifícios) que trabalha em São Francisco (e nunca a cidade ficou tão bela como em nenhum outro filme), mas pede demissão depois de sofrer um trauma quando seu amigo é morto ao cair de uma altura terrificante. É bom que fique claro que o personagem já sofria de acrofobia e isso o impediu de salvar seu parceiro e não que o fato o deixou assim. Desde então, o cara passa a se atormentar pela culpa levando uma vida tranquila e sempre sociável com a amiga Midge Wood (Bel Geddes) uma artista plástica que o ama. Até que um antigo amigo Gavin Elster (Helmore), o contrata como detetive particular para seguir sua esposa Madeleine (Novak), uma loura estranha que, segundo o marido, estaria obcecada por uma antepassada, sósia sua, que se afogou no século XIX. Uma missão tão mórbida e que Scottie relutou em aceitar, mas, se tratando de um favor para um velho conhecido, acaba aceitando.

A primeira parte do filme tem até mais suspense. Hitch coloca o espectador pelo ponto de vista de Scottie. Curioso e depois deslumbrado por ela. Curiosamente é um ato sobre histórias de fantasmas (me lembra ecos de Rebecca), com ele cada vez mais atraído e fascinado por Madeleine, extremamente inconstante e neurótica, mas frágil e todo o arco dramático que se desenvolve através da insinuação de que a reencarnação dela irá, do jeito irônico à la Hitchcock, levá-la à morte! Depois do ato sobrenatural que termina no famoso suicídio da loura no alto de uma torre com sinos aterradores, o filme muda de direção. E agora, a coisa fica mais intensa. Stewart parte para uma surpreendente atuação de paranoia e nesse ínterim acaba conhecendo outra sócia, Judy Barton (Novak mais uma vez). Neste segundo ato é ele quem esta no comando e não ela. A moça é atrevida e nada frágil, mas a gente acaba sentindo que existe algo de muito weird nisso tudo no momento em que ambos firmam um relacionamento. Incomoda-me um pouco o fato de ela ser muito aberta a um estranho e se deixar levar por ele. Totalmente à mercê e volúvel. Ela chega as últimas consequências fazendo os gostos do namorado. Ele a manipula a ponto de mudá-la literalmente. O cabelo, as roupas, etc. Estava realmente disposto a reencarnar Madeleine. Quando o faz e a vê, o fantasma da outra com os próprios olhos, descobre que todo o tempo amou a mesma mulher. Apesar dos incômodos, adoro, por exemplo, a cena em que Novak abraça Stewart com uma força avassaladora, como se estivesse se livrando de um peso das costas. O momento é puro Hitchcock. Emocionalmente devastador.


Muitos questionam e até odeiam o final abrupto. Eu mesmo não gostei na primeira vez, mas, revendo, a nova queda da coitadinha da Kim Novak, pelo menos pra mim, é uma raiva interior de Hitchcock. Um rancor que se transforma em requintes não apenas de crueldade, mas de momento de grande ímpeto artístico. Ele deveria pensar..."se fosse a Vera Miles...” Mas não é a mesma decepção de uma Grace Kelly substituída por uma Tippi Hedren em “Marnie”, por exemplo. Só sei que nunca notei tamanha evidência de desgosto por uma de suas protagonistas louras como em nenhum outro filme seu.

O filme, como muitos outros do mestre, com o passar dos anos, foi imitado. Imitações que são desde releituras a homenagens. A mais notável é a de Brian De Palma em Trágica Obsessão e Dublê de Corpo.  E obviamente que o truque narrativo de vertigem foi posteriormente utilizado de maneira criativa por diretores como Steven Spielberg naquela cena em que Roy Scheider olha para o mar com horror em Tubarão. O Technicolor é uma das coisas mais sensacionais neste filme, além de ter sido concebido em VistaVision, uma resposta do estúdio Paramount para o CinemasCope , as imagens sombrias e coloridas são evocativas. Há um surrealismo presente em Um Corpo Que Cai. Sem contar nas titulagens do mestre SAUL BASS e na trilha musical magistral de BERNARD HERRMANN em grande fase com Hitchcock (depois viriam Intriga InternacionalPsicose, Os Pássaros [apenas como consultor técnico de som, já que o filme dispensou trilha musical e utilizou trilha eletrônica de Remi Gassmann] e Marnie).

Um dos romances mais gélidos da história do cinema. O personagem mais atormentado que já vi. Entendo agora o fato de ele estar lá no topo.


EUA/128 min.
COR/PARAMOUNT/UNIVERSAL
SUSPENSE/ROMANCE
       



JAMES STEWART   KIM NOVAK
in: ALFRED HITCHCOCK'S
VERTIGO
Co-estrelando: BARBARA BEL GEDDES
Com: TOM HELMORE   HENRY JONES   RAYMOND BAILEY
ELLEN CORBY   KONSTANTIN  SHAYNE  LEE PATRICK
Edição GEORGE TOMASINI  Fotografado por ROBERT BURKS
Casting BERT McKAY  Direção de Arte HAL PEREIRA. HENRY BUMSTEAD
Figurinos por EDITH HEAD   Títulos SAUL BASS
Produção Associada HERBERT COLEMAN
Escrito por  ALEC COPPEL . SAMUEL TAYLOR
Baseado no livro “D ´Entre Les Morts” de Pierre Boileau e Thomas Narcejac
Música de BERNARD HERRMANN
Dirigido por
ALFRED HITCHCOCK

VERTIGO ©1958 PARAMOUNT PICTURES/ Alfred J. Hitchcock Productions

5 comentários:

Amanda Aouad disse...

Realmente é um clássico que quanto mais a gente vê, mais se impressiona com detalhes da construção, da trama, da direção de arte. Há uma lógica ilógica naquele final que sua suspeita pode fazer sentido, mas dentro da trama também faz, principalmente pela culpa que ela sentia. Se assustar e cair com a chegada de uma freira? É muito simbólico.

Mas, ainda assim, não é meu filme preferido do mestre. Janela Indiscreta ainda me ganha por diversos motivos, mas aí é também gosto pessoal e não desmérito desse.

bjs

Rodrigo Mendes disse...

Exatamente Amanda, a freira é um ótimo argumento. Vertigo é, de certa forma, um filme extremamente ambíguo com o seu final.
Beijos.

Hugo disse...

É um grande filme, mesmo com o final que deixa dúvidas.

As sequências de vertigem do personagem de James Stewart são sensacionais.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

Concordo.

Abraço

Unknown disse...

Um dos derradeiros filmes da história clássica do cinema! Acho que existem poucas pessoas que não consigam apreciar este filme. Bom texto e como tenho seguido no Facebook decidi adicionar à blogroll do meu blogue e ficaria grata se também o fizesse. Obrigada.

Bons filmes,
www.cinemaschallenge.com

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