SCOTTIE ATORMENTADO
O Cinema Rodrigo já havia comentado sobre Um
Corpo Que Cai (Vertigo, 1958),
aliás, foi a minha primeira resenha no blog sobre um filme do mestre do suspense, ALFRED
HITCHCOCK.
Também não é novidade para os leitores minha predileção pelo diretor. Nada como
uma revisita a este monumental suspense quando exibido novamente na telona.
Fiquei devendo uma nova postagem e certamente a revisão me trouxe novas
perspectivas deste clássico absoluto.
Pra começar, quando publiquei a
primeira resenha sobre Vertigo, o
filme ainda não estava no topo da lista dos melhores filmes de todos os tempos.
Eis que no ano de 2012 a conceituada revista britânica SIGHT AND SOUND, que a cada dez anos, desde 1952 ,
colocou Um Corpo Que Cai acima
daquele que era o filme reinante, Cidadão
Kane, de Orson Welles (leia aqui). Pois é,
para a minha felicidade, um filme do meu mestre foi o grande eleito segundo
críticos, historiadores, programadores e curadores. No entanto, a lista dos
cineastas acabou destacando outro filmaço: ERA UMA VEZ EM TÓQUIO, de Yasujiro Ozu. Ainda entre os lembrados
destacam-se (todos filmes que também tenho predileção) como; A Regra do Jogo (Jean Renoir), Aurora (Murnau), 2001: Uma Odisséia no Espaço (Kubrick), Rastros de Ódio (John Ford), Um
Homem com uma Câmera (Vertov), A
Paixão de Joana d´Arc e ou/ O
Martírio...(Dreyer) e 8½ de Fellini.
"Vertigo", na verdade, era um
projeto para curar o ego do Hitch já que o mesmo tentara adquirir, sem sucesso,
os direitos de adaptação de Diabolique, escrito por Pierre Boileau e Thomas Narcejac e filmado brilhantemente em 1955 por Clouzot como “As Diabólicas”. Assim sendo, os autores
concebem outro livro “D´Entre Les Morts”,
agora, especialmente para Hitchcock. Como
estrela protagonista, o diretor desejava VERA MILES, mas a mesma engravidou e
desistiu do filme. Bom, vocês já devem estar carecas de saber do resto. Hich
acaba contratando KIM NOVAK, aliás, belíssima, belíssima!
E, desgostoso, nunca ajudou a carreira dela. Só fez este filme com a mesma. E, anos mais
tarde, daria um papel “ingrato” para Vera, ainda sob contrato, em PSICOSE. A cameo do cineasta acontece aos onze
minutos, vestindo um terno cinza e caminhando num estaleiro. Uma das sensações
maravilhosas que presenciei na telona foi a mudança de iluminação (lindamente
fotografado por ROBERT BURKS) quando alguma coisa
importante ocorria na trama. Gosto também da atuação coadjuvante da loura BARBARA
BEL GEDDES,
que morre de amores pelo herói. Ela é mais conhecida pelo público ao
interpretar a matriarca da cultuada série televisiva DALLAS, nos anos
1970-1980. E é óbvio, nem preciso dizer da excelente interpretação do querido JAMES
“Jimmy” STEWART (The Ordinary Hero)
como o atormentado “Scottie” em sua última colaboração com Hitchcock depois dos
excelentes “Festim Diabólico” (1948),
“Janela Indiscreta” (1954) e “O Homem Que Sabia Demais” (1956). E nem
me perguntem qual é o meu favorito. É o mesmo que perguntar sobre o Cary Grant, mas, de fato, em “Festim”,
Jimmy é mais introspectivo.
Uma das novidades da época era
o efeito pioneiro que o filme desenvolveu como narrativa. Uma técnica que mais
tarde seria usada com frequência. Trata-se daquela provocação de vertigem
quando Scottie começa a sentir sua acrofobia. Deu-se vários nomes: Vertigo effect, Dolly out e, o meu predileto; Hitchcock
effect. A proposta era criar uma distorção no cenário no plano plongée (de
cima para baixo) e aproximando o que está em primeiro plano e aumentando o que
está em segundo plano.
A situação da fita era precária
e estava deteriorada devido ao tempo e a má conservação. Felizmente, em 1996,
sob um custo altíssimo de um milhão de dólares, o filme foi totalmente
recuperado pelos famosos laboratoristas Robert
A. Harris e James C. Katz, que
já salvaram, por exemplo, Lawrence da
Arábia.
A trama deste filme que ficou indisponível
por questões de direitos autorais, é complexa e improvável, mas é o charme de Um Corpo Que Cai. Hitchcock utiliza-se
novamente de suas típicas situações para gerar suspense. A trama depende de um
plano diabólico mirabolante de assassinato que ocorre no alto de uma torre,
onde o herói é incapaz de interferir devido ao seu medo de altura. Em poucos
degraus, o cara entra em pane. Devo admitir que, o vilão, interpretado por TOM
HELMORE é um
tanto mal caracterizado. Aparece pouco e fica a impressão de que ele é subestimado
durante o filme. Seu desmascaramento é tão chocante quanto o final do próprio
filme, mas fica aquela sensação de quero mais saber sobre o cara. O que geralmente não acontece com os vilões Hitchcockianos. O clímax
acaba focando em outras questões, a do romance e a obsessão do que o planejado assassinato que parece conseguir se safar. Mesmo Hitch tendo utilizado o artifício de um
apêndice desnecessário. Por mim, o vilão seria uma peça mais presente no meio
da trama. Certamente o romance
central, apesar de lindamente dirigido e com clima de uma verdadeira história
de amor (amo a cena do beijo com as ondas batendo sobre as rochas ao fundo),
acaba desenvolvendo também (quase igual às vertigens) uma sensação de total
desconforto porque, convenhamos, é bizarro demais. A relação é perversa.
John
Ferguson, o Scottie, (Stewart) é um policial
destemido (pelo menos no prólogo em que ocorre uma excitante perseguição sob
telhados de edifícios) que trabalha em São
Francisco (e nunca a cidade ficou tão bela como em nenhum outro filme), mas
pede demissão depois de sofrer um trauma quando seu amigo é morto ao cair de
uma altura terrificante. É bom que fique claro que o personagem já sofria de
acrofobia e isso o impediu de salvar seu parceiro e não que o fato o deixou
assim. Desde então, o cara passa a se atormentar pela culpa levando uma vida tranquila
e sempre sociável com a amiga Midge Wood
(Bel Geddes) uma artista plástica que o ama. Até que um antigo amigo Gavin Elster (Helmore), o contrata como
detetive particular para seguir sua esposa
Madeleine (Novak), uma loura estranha que, segundo o marido, estaria obcecada
por uma antepassada, sósia sua, que se afogou no século XIX. Uma missão tão mórbida
e que Scottie relutou em aceitar, mas, se tratando de um favor para um velho
conhecido, acaba aceitando.
A primeira parte do filme tem
até mais suspense. Hitch coloca o espectador pelo ponto de vista de Scottie. Curioso e depois deslumbrado por ela. Curiosamente é um ato sobre histórias de
fantasmas (me lembra ecos de Rebecca), com ele cada vez mais
atraído e fascinado por Madeleine, extremamente inconstante e neurótica, mas
frágil e todo o arco dramático que se desenvolve através da insinuação de que a
reencarnação dela irá, do jeito irônico à la Hitchcock, levá-la à morte! Depois
do ato sobrenatural que termina no famoso suicídio da loura no alto de uma
torre com sinos aterradores, o filme muda de direção. E agora, a coisa fica
mais intensa. Stewart parte para uma surpreendente atuação de paranoia e nesse
ínterim acaba conhecendo outra sócia, Judy
Barton (Novak mais uma vez). Neste segundo ato é ele quem esta no comando e
não ela. A moça é atrevida e nada frágil, mas a gente acaba sentindo que existe
algo de muito weird nisso tudo no
momento em que ambos firmam um relacionamento. Incomoda-me um pouco o fato de
ela ser muito aberta a um estranho e se deixar levar por ele. Totalmente à mercê
e volúvel. Ela chega as últimas consequências fazendo os gostos do namorado.
Ele a manipula a ponto de mudá-la literalmente. O cabelo, as roupas, etc. Estava
realmente disposto a reencarnar Madeleine. Quando o faz e a vê, o fantasma da
outra com os próprios olhos, descobre que todo o tempo amou a mesma mulher. Apesar
dos incômodos, adoro, por exemplo, a cena em que Novak abraça Stewart com uma
força avassaladora, como se estivesse se livrando de um peso das costas. O momento é puro
Hitchcock. Emocionalmente devastador.
Muitos questionam e até odeiam
o final abrupto. Eu mesmo não gostei na primeira vez, mas, revendo, a nova
queda da coitadinha da Kim Novak, pelo menos pra mim, é uma raiva interior de
Hitchcock. Um rancor que se transforma em requintes não apenas de crueldade,
mas de momento de grande ímpeto artístico. Ele deveria pensar..."se fosse a
Vera Miles...” Mas não é a mesma decepção de uma Grace Kelly substituída por uma Tippi Hedren em “Marnie”, por exemplo. Só sei que nunca notei
tamanha evidência de desgosto por uma de suas protagonistas louras como em nenhum
outro filme seu.
O filme, como muitos outros do
mestre, com o passar dos anos, foi imitado. Imitações que são desde releituras
a homenagens. A mais notável é a de
Brian De Palma em Trágica Obsessão e Dublê
de Corpo. E obviamente que o
truque narrativo de vertigem foi posteriormente utilizado de maneira criativa
por diretores como Steven Spielberg
naquela cena em que Roy Scheider
olha para o mar com horror em Tubarão. O Technicolor é uma das coisas mais sensacionais neste filme, além de
ter sido concebido em VistaVision, uma resposta do estúdio Paramount para o
CinemasCope , as imagens sombrias e coloridas são evocativas. Há um surrealismo
presente em Um Corpo Que Cai. Sem contar nas titulagens do mestre SAUL
BASS e na
trilha musical magistral de BERNARD HERRMANN em grande fase com Hitchcock
(depois viriam Intriga Internacional, Psicose, Os Pássaros [apenas como consultor técnico de som, já que o filme dispensou trilha musical e utilizou trilha eletrônica de Remi Gassmann] e Marnie).
Um dos romances mais gélidos da
história do cinema. O personagem mais atormentado que já vi. Entendo agora
o fato de ele estar lá no topo.
EUA/128
min.
COR/PARAMOUNT/UNIVERSAL
SUSPENSE/ROMANCE
★ ★ ★ ★ ★
JAMES STEWART
KIM NOVAK
in: ALFRED HITCHCOCK'S
VERTIGO
Co-estrelando: BARBARA BEL GEDDES
Com:
TOM HELMORE HENRY JONES RAYMOND BAILEY
ELLEN
CORBY KONSTANTIN SHAYNE
LEE PATRICK
Edição
GEORGE TOMASINI Fotografado por ROBERT
BURKS
Casting
BERT McKAY Direção de Arte HAL PEREIRA. HENRY BUMSTEAD
Figurinos por EDITH HEAD Títulos SAUL BASS
Produção Associada HERBERT COLEMAN
Escrito por ALEC COPPEL . SAMUEL
TAYLOR
Baseado no livro “D ´Entre Les Morts”
de Pierre Boileau e Thomas Narcejac
Música de BERNARD
HERRMANN
Dirigido por
ALFRED HITCHCOCK
VERTIGO ©1958 PARAMOUNT PICTURES/ Alfred J.
Hitchcock Productions













5 comentários:
Realmente é um clássico que quanto mais a gente vê, mais se impressiona com detalhes da construção, da trama, da direção de arte. Há uma lógica ilógica naquele final que sua suspeita pode fazer sentido, mas dentro da trama também faz, principalmente pela culpa que ela sentia. Se assustar e cair com a chegada de uma freira? É muito simbólico.
Mas, ainda assim, não é meu filme preferido do mestre. Janela Indiscreta ainda me ganha por diversos motivos, mas aí é também gosto pessoal e não desmérito desse.
bjs
Exatamente Amanda, a freira é um ótimo argumento. Vertigo é, de certa forma, um filme extremamente ambíguo com o seu final.
Beijos.
É um grande filme, mesmo com o final que deixa dúvidas.
As sequências de vertigem do personagem de James Stewart são sensacionais.
Abraço
Concordo.
Abraço
Um dos derradeiros filmes da história clássica do cinema! Acho que existem poucas pessoas que não consigam apreciar este filme. Bom texto e como tenho seguido no Facebook decidi adicionar à blogroll do meu blogue e ficaria grata se também o fizesse. Obrigada.
Bons filmes,
www.cinemaschallenge.com
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