sexta-feira, 27 de junho de 2014

DE JONATHAN GLAZER | SOB A PELE

NUA PARA MATAR


Sessão surpresa - parte VIII
Mulher misteriosa sai à procura de vítimas, homens, seduz e os matam.



Provavelmente o trash e a elegância são as combinações perfeitas deste intrigante filme original baseado no livro de Michel Faber e dirigido por Jonathan Glazer, diretor de Sexy Beast (2000) e o ótimo Reencarnação (Birth,2004). SOB A PELE (Under The Skin ), em minha opinião, segue como o melhor filme lançado este ano (ainda que tenha sido exibido ano passado internacionalmente dividindo público e crítica). É também um grande momento de SCARLETT JOHANSSON que tem muito mais a oferecer como grande atriz do que somente seu belíssimo corpo nu, um chamariz publicitário. E também, um projeto arriscado e diferente dando um tempo para os grandes blockbusters de ação que tem estrelado ultimamente.

Parece que estou na onda dos filmes de ficção-científica. Recentemente revendo alguns clássicos como O Dia em Que A Terra Parou e Vampiros de Almas (em breve aqui no blogue), pessoalmente “Sob a Pele” foi uma grata surpresa. Evitei ler qualquer informação a respeito e finalmente pude assisti-lo numa qualidade boa através de download. Infelizmente, o filme passou em poucas sessões em circuito cinematográfico e até entendo o motivo.   

Como eu disse, é um filme intrigante e que certamente encontra o seu público específico. Não é uma obra aberta a explicações. É o espectador que interpreta o que vê. Com belas imagens e narrativa fora do convencional, “Sob a Pele” já ganhou a minha predileção. Passa-se grande parte dentro de uma van branca guiada pela protagonista, que, aliás, não tem um nome, assim como os demais personagens que irão aparecer. Com isso, me faz lembrar, por exemplo, de Ensaio Sobre a Cegueira (Bllindness, 2008), livro de Saramago adaptada por Meirelles, só que ainda neste filme havia indicações de quem era o quê. Ou seja, “A esposa do médico”, “A moça com óculos escuros”, etc. “Sob a Pele” não é bem assim.

Um dos fatores curiosos da produção é que o diretor Jonathan Glazer, à primeira vista, enganou os homens que eram atraídos para a van por Johansson. Eles não eram atores, apenas homens comuns dando-lhe informação (mas é evidente que eram aqueles que não entravam no veículo). Glazer escondeu câmeras no interior da van e só notificou aos participantes posteriormente e de que se tratava de um filme.

Outras candidatas foram consideradas para o papel. São elas: Amanda Seyfried, Eva Green, Megan Fox, Gemma Arterton, Jessica Biel, January Jones, Blake Lively, Olivia Wilde e Abbie Cornish.

O projeto levou cerca de 10 anos para ser feito e um dos primeiros rascunhos do script incluía um casal escocês que seriam os assassinos caçadores. Brad Pitt havia sido escalado para ser o cúmplice da esposa.


SPOILERS

A premissa fala sobre um ser de outro planeta disfarçado no corpo de uma mulher atraente e que viaja pela Escócia, em uma van, pegando homens para seu apetite sexual voraz. Assim sendo, ela os atrai para uma armadilha “pantanosa” com a promessa de sexo, assim, eles são imersos em líquidos e sua carne é “colhida”. Ela é controlada por outro alien, macho, que guia uma motocicleta. Sem entender muito de início, ficamos horrorizados pela frieza desta mulher. Num dado momento, ela tenta seduzir outra vítima masculina que esta se divertindo numa praia deserta, ali, testemunha o afogamento acidental de um casal que também estava por lá com sua criança de aparentemente dois anos no máximo. 

Ela observa à distância sua vítima tentando fazer o resgate no mar enraivecido, mas, desapaixonadamente , mata a sua presa logo em seguida sem preocupar-se com o que esta acontecendo. Passa pela criança que chora desesperada na praia, numa tarde meio nublada que se esvai. A partir daí que eu começo a assimilar melhor as coisas, mas logo de cara já sacamos que ela é má. O plot de virada sucede quando ela seduz uma última vítima. Um homem solitário que vaga pelas ruas noturnas, de rosto desfigurado (neurofibromatose) e sexualmente inexperiente. Ela sente pena dele e lhe permite uma fuga, ele então foge totalmente nu como os outros, mas sem afundar em sua armadilha fatal. Mas, acaba sendo rastreado e morto pelo cúmplice motoqueiro que estabelece uma busca para encontrar sua parceira. Ela, sem rumo e confusa, começa a sentir-se mais consciente de seu corpo humano. Há uma cena em que ela tenta comer um apetitoso bolo sem sucesso. À mercê,  encontra abrigo e ajuda de um homem que a leva para a sua casa. Paciente, ele a respeita, mas é subitamente atraído por sua beleza e ambos tentam uma relação sexual, mas a mesma sente-se estranha por ser tocada e foge novamente. Vagando mais uma vez, desta vez ela não terá a mesma sorte quando, numa floresta, é deflagrada por um madeireiro local que tenta estuprá-la revelando sua verdadeira identidade.


Sem dúvida alguma, Glazer realiza, mais uma vez, um filme inusitado. Quando me dei conta do que estava assistindo no momento em que o bicho extraterrestre é revelado, me passou pela mente uma série de obras de arte do saudoso e polêmico artista plástico suíço H. R. Giger e sua mórbida e sexy coleção de arte surrealista. O filme procura narrar os fatos com imagens alucinantes e as comparações com Stanley Kubrick e “2001” são perfeitamente compreensíveis, até mesmo a profunda trilha musical original de Mica Levi colabora com esta característica. Vemos formas intergalácticas que se cruzam pelo espaço uno e infinito e cenas de Johansson nua, primeiramente num fundo branco e depois num fundo preto sucessivo atraindo seus homens que também estão nus e com pênis ereto. 

Tudo parece um desfile de moda numa passarela. Os efeitos especiais são espetaculares, principalmente na cena em que dois corpos masculinos estão no pântano assassino e suas peles “explodindo” e boiando. O que mais me chama a atenção pelo fato de ser um atípico filme de sci-fi é por ele se passar nos dias atuais, no caso, na Escócia em situações cotidianas. Nada de espaçonaves como nos antigos filmes B. Ou monstros interestelares fazendo experiências científicas com a nossa anatomia. Tampouco, invasões em grande escala e destruição à La Guerra dos Mundos.

É notável o gosto que Glazer tem pelo estranho. Nota-se, desde “Reencarnação”, meu primeiro contato com um filme do diretor, esse viés artístico autoral. Seus filmes estão longe de ser um espetáculo gosmento, muito pelo contrário. Este pode ser considerado trash, justamente pelo pilar que sustenta a trama, mas ele faz disto um espetáculo à parte. Tudo se apresenta cuidadosamente enquadrado e com propósito narrativo e os planos são meticulosamente fotografados/iluminados (ótimo trabalho de Daniel Landin, o mesmo de “O Mistério das Duas Irmãs”, 2009, um drama de terror). Em outras palavras, não se via um filme do gênero tão pomposo na sua proposta em muito tempo e tamanho é o atrativo visual. Não sentia isso  nos filmes de hoje em dia, creio, desde Alien, o 8º Passageiro (de Ridley Scott), mas evidente que o clássico de Scott é bem mais explícito e sanguinolento.  Eis um filme para festivais (foi selecionado em Veneza e Londres), cinema de autor, geralmente não consegue público comercial.

“Sob a Pele”, por outro lado, é um filme que, se não fosse conduzindo com grande maestria pelo seu diretor, soaria clichê, patético, tolo, com a ideia de que a alienígena começa a ter uma afeição humana com relação aos seus sentimentos. Uma criatura maléfica que ganha humanidade de uma hora pra outra. Não somente seu diretor, mas sua atriz principal tem uma evidente colaboração. Johansson consegue transformar sua misteriosa figura em alguém conciso (afinal o filme tem poucos diálogos) e o faz com bastante seriedade. Seus lábios, seus olhares e até mesmo sua nudez explícita. Posso afirmar que a cena em que ela se olha e se analisa através do espelho se tornou antológica. Johansson também deixa claro que é uma estrangeira conhecendo um novo mundo e o filme evita ao máximo expor uma psicopata do espaço munida de raios laser ou qualquer coisa que o valha.

Amei demais a construção desta narrativa e de todo o clima de mistério, suspense e terror. Um híbrido de gêneros com muito estilo. Outro fator importante e que me impressionou também é o fato de o diretor não dar as respostas mastigadinhas. Prefiro este ar de incógnita (e acredito que ele deve ter se inspirado em Hitchcock. Vide “Os Pássaros”, por exemplo). Não sabemos de onde esses serem vieram. Não é revelado o motivo dela almejar matar apenas os homens mais jovens e tampouco a razão pela qual ela os seduz com a promessa de sexo. Como é que eles sabem desta prática humana, sendo eles seres tão longínquos de afeto? Ou, por que ela é comandada por outro alienígena que sai por aí com uma moto e disfarçado, no caso, de pele masculina? Qual a ligação de ambos? O que pretendem realmente? Se você é do tipo que não aceita ficar no vácuo, bom lamento desapontá-lo, mas este não é o seu tipo de filme. Uma das poucas respostas que obtive é o que Johansson deixa evidente em sua brilhante interpretação. Sua onipotência e direito de escolha. Ela caça aqueles homens que lhe interessa e evita ao máximo se envolver em problemas humanos. E quando finalmente confrontada, se torna submissa. Muda de papel com o homem que a acolheu e desta vez é ela quem segue alguém por um ambiente escuro e o que fica mais esclarecido ainda é que sua “força divina” (ou de fêmea fatal) é totalmente perdida no momento em que se torna humana. Literalmente, uma mulher. O sexo frágil (as feministas irão odiar o filme). Eis um trabalho de grande ressonância artística onde cada um tem o livre arbítrio para interpretações.

Erotismo gratuito e beleza, não apenas de Johansson, mas de imagens aleatórias que fazem deste filme um verdadeiro cult. E a despeito de mulheres que se vestem para matar nos filmes (até mesmo Michael Caine travestido no badalado “Dressed to Kill”, 1980, de Brian De Palma) esta mortífera criatura não veste nadinha. Quer dizer...



EUA/REINO UNIDO/SUIÇA - 108 min.
COR/ PARIS FILMES
FICÇÃO-CIENTÍFICA/SUSPENSE/DRAMA
       
Scarlett Johansson
Um filme de Jonathan Glazer
UNDER THE SKIN
Música Mica Levi   Diretor de Fotografia Daniel Landin
Edição Paul Watts  Direção de Arte Chris Oddy
Casting Kahleen Crawford  Figurinos Steven Noble
Produzido por Nick Wechsler  James Wilson
Escrito por Walter Campbell  e  Jonathan Glazer
Baseado no livro de Michel Faber
Dirigido por Jonathan Glazer
©2013 Film4/ BFI/ Silver Reel/ Creative Scotland/ FilmNation Entertainment
 JW Films/ Nick Wechsler/ Scottish Screen/ UK Film Council 

2 comentários:

Reinaldo Glioche disse...

Bravo! "Sob a pele" é dos filmes mais originais, imaginativos, pulsantes e significativos do ano. Uma resenha que faz jus à coragem e desprendimento de Glazer e Johansson.
abs

Rodrigo Mendes disse...

O filme me impressionou demais, Reinaldo. Foi mais além do que imaginava...começando com a falaciosa nudez de Johansson...
Obrigado pelo comentário.
Abs.

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