NUA
PARA MATAR
Sessão
surpresa - parte VIII
Mulher
misteriosa sai à procura de vítimas, homens, seduz e os matam.
Provavelmente o trash e a elegância são as combinações
perfeitas deste intrigante filme original baseado no livro de Michel Faber e dirigido por Jonathan Glazer, diretor de Sexy
Beast (2000) e o ótimo Reencarnação (Birth,2004). SOB
A PELE (Under
The Skin ), em minha opinião, segue como o melhor filme lançado este ano
(ainda que tenha sido exibido ano passado internacionalmente dividindo público
e crítica). É também um grande momento de SCARLETT JOHANSSON que tem muito mais a oferecer
como grande atriz do que somente seu belíssimo corpo nu, um chamariz
publicitário. E também, um projeto arriscado e diferente dando um tempo para os
grandes blockbusters de ação que tem
estrelado ultimamente.
Parece que estou na onda dos
filmes de ficção-científica.
Recentemente revendo alguns clássicos como O
Dia em Que A Terra Parou e Vampiros
de Almas (em breve aqui no blogue), pessoalmente “Sob a Pele” foi uma grata
surpresa. Evitei ler qualquer informação a respeito e finalmente pude assisti-lo
numa qualidade boa através de download. Infelizmente, o filme passou em poucas
sessões em circuito cinematográfico e até entendo o motivo.
Como eu disse, é um filme
intrigante e que certamente encontra o seu público específico. Não é uma obra
aberta a explicações. É o espectador que interpreta o que vê. Com belas imagens
e narrativa fora do convencional, “Sob a Pele” já ganhou a minha predileção.
Passa-se grande parte dentro de uma van branca guiada pela protagonista, que,
aliás, não tem um nome, assim como os demais personagens que irão aparecer. Com
isso, me faz lembrar, por exemplo, de Ensaio
Sobre a Cegueira (Bllindness, 2008),
livro de Saramago adaptada por Meirelles, só que ainda neste filme havia indicações de quem era o quê. Ou seja, “A esposa do médico”, “A moça com
óculos escuros”, etc. “Sob a Pele” não é bem assim.
Um dos fatores curiosos da
produção é que o diretor Jonathan Glazer, à primeira vista, enganou os homens
que eram atraídos para a van por Johansson. Eles não eram
atores, apenas homens comuns dando-lhe informação (mas é evidente que eram
aqueles que não entravam no veículo). Glazer escondeu câmeras no interior da van
e só notificou aos participantes posteriormente e de que se tratava de um filme.
Outras candidatas foram
consideradas para o papel. São elas: Amanda
Seyfried, Eva Green, Megan Fox, Gemma Arterton, Jessica Biel, January Jones,
Blake Lively, Olivia Wilde e Abbie Cornish.
O projeto levou cerca de 10
anos para ser feito e um dos primeiros rascunhos do script incluía um casal escocês que seriam os assassinos caçadores.
Brad Pitt havia sido escalado para
ser o cúmplice da esposa.
SPOILERS
A premissa fala sobre um ser de
outro planeta disfarçado no corpo de uma mulher atraente e que viaja pela
Escócia, em uma van, pegando homens para seu apetite sexual voraz. Assim sendo,
ela os atrai para uma armadilha “pantanosa” com a promessa de sexo, assim, eles
são imersos em líquidos e sua carne é “colhida”. Ela é controlada por outro alien, macho, que guia uma motocicleta. Sem
entender muito de início, ficamos horrorizados pela frieza desta mulher. Num
dado momento, ela tenta seduzir outra vítima masculina que esta se divertindo
numa praia deserta, ali, testemunha o afogamento acidental de um casal que
também estava por lá com sua criança de aparentemente dois anos no máximo.
Ela
observa à distância sua vítima tentando fazer o resgate no mar enraivecido, mas,
desapaixonadamente , mata a sua presa logo em seguida sem preocupar-se com o
que esta acontecendo. Passa pela criança que chora desesperada na praia, numa
tarde meio nublada que se esvai. A partir daí que eu começo a assimilar melhor
as coisas, mas logo de cara já sacamos que ela é má. O plot de virada sucede
quando ela seduz uma última vítima. Um homem solitário que vaga pelas ruas
noturnas, de rosto desfigurado (neurofibromatose) e sexualmente inexperiente.
Ela sente pena dele e lhe permite uma fuga, ele então foge totalmente nu como
os outros, mas sem afundar em sua armadilha fatal. Mas, acaba sendo
rastreado e morto pelo cúmplice motoqueiro que estabelece uma busca para
encontrar sua parceira. Ela, sem rumo e confusa, começa a sentir-se mais
consciente de seu corpo humano. Há uma cena em que ela tenta comer um apetitoso
bolo sem sucesso. À mercê, encontra abrigo e ajuda de um homem que a leva
para a sua casa. Paciente, ele a respeita, mas é subitamente atraído por sua
beleza e ambos tentam uma relação sexual, mas a mesma sente-se estranha por ser
tocada e foge novamente. Vagando mais uma vez, desta vez ela não terá a mesma
sorte quando, numa floresta, é deflagrada por um madeireiro local que tenta estuprá-la
revelando sua verdadeira identidade.
Sem dúvida alguma, Glazer
realiza, mais uma vez, um filme inusitado. Quando me dei conta do que estava
assistindo no momento em que o bicho extraterrestre é revelado, me passou pela
mente uma série de obras de arte do saudoso e polêmico artista plástico suíço H. R. Giger e sua mórbida e sexy
coleção de arte surrealista. O filme procura narrar os fatos com imagens
alucinantes e as comparações com Stanley
Kubrick e “2001” são perfeitamente
compreensíveis, até mesmo a profunda trilha musical original de Mica Levi colabora com esta característica.
Vemos formas intergalácticas que se cruzam pelo espaço uno e infinito e cenas
de Johansson nua, primeiramente num fundo branco e depois num fundo preto sucessivo atraindo seus homens que também estão nus e com pênis ereto.
Tudo parece um
desfile de moda numa passarela. Os efeitos especiais são espetaculares,
principalmente na cena em que dois corpos masculinos estão no pântano assassino
e suas peles “explodindo” e boiando. O que mais me chama a atenção pelo fato de
ser um atípico filme de sci-fi é por ele se passar nos dias atuais, no caso, na
Escócia em situações cotidianas. Nada de espaçonaves como nos antigos filmes B.
Ou monstros interestelares fazendo experiências científicas com a nossa
anatomia. Tampouco, invasões em grande escala e destruição à La Guerra dos Mundos.
É notável o gosto que Glazer
tem pelo estranho. Nota-se, desde “Reencarnação”, meu primeiro contato com um
filme do diretor, esse viés artístico autoral. Seus filmes estão longe de ser
um espetáculo gosmento, muito pelo contrário. Este pode ser considerado trash, justamente pelo pilar que
sustenta a trama, mas ele faz disto um espetáculo à parte. Tudo se apresenta
cuidadosamente enquadrado e com propósito narrativo e os planos são meticulosamente fotografados/iluminados (ótimo trabalho de Daniel
Landin, o mesmo de “O Mistério das
Duas Irmãs”, 2009, um drama de terror). Em outras palavras, não se via um
filme do gênero tão pomposo na sua proposta em muito tempo e tamanho é o atrativo visual. Não
sentia isso nos filmes de hoje em dia, creio, desde Alien, o 8º
Passageiro (de Ridley Scott),
mas evidente que o clássico de Scott é bem mais explícito e sanguinolento. Eis um filme para festivais (foi selecionado
em Veneza e Londres), cinema de autor, geralmente não consegue público
comercial.
“Sob a Pele”, por outro lado, é
um filme que, se não fosse conduzindo com grande maestria pelo seu diretor,
soaria clichê, patético, tolo, com a ideia de que a alienígena começa a ter uma
afeição humana com relação aos seus sentimentos. Uma criatura maléfica
que ganha humanidade de uma hora pra outra. Não somente seu diretor, mas sua
atriz principal tem uma evidente colaboração. Johansson consegue transformar
sua misteriosa figura em alguém conciso (afinal o filme tem poucos diálogos) e
o faz com bastante seriedade. Seus lábios, seus olhares e até mesmo sua nudez
explícita. Posso afirmar que a cena em que ela se olha e se analisa através do
espelho se tornou antológica. Johansson também deixa claro que é uma
estrangeira conhecendo um novo mundo e o filme evita ao máximo expor uma
psicopata do espaço munida de raios laser ou qualquer coisa que o valha.
Amei demais a construção desta
narrativa e de todo o clima de mistério, suspense e terror. Um híbrido de
gêneros com muito estilo. Outro fator importante e que me impressionou também é
o fato de o diretor não dar as respostas mastigadinhas. Prefiro este ar de incógnita
(e acredito que ele deve ter se inspirado em Hitchcock. Vide “Os Pássaros”, por
exemplo). Não sabemos de onde esses serem vieram. Não é revelado o motivo dela almejar matar apenas os homens mais jovens e tampouco a razão pela qual ela os seduz com a promessa de sexo. Como é que eles sabem desta prática humana, sendo
eles seres tão longínquos de afeto? Ou, por que ela é comandada por outro
alienígena que sai por aí com uma moto e disfarçado, no caso, de pele masculina?
Qual a ligação de ambos? O que pretendem realmente? Se você é do tipo que não
aceita ficar no vácuo, bom lamento desapontá-lo, mas este não é o seu tipo de
filme. Uma das poucas respostas que obtive é o que Johansson deixa evidente em
sua brilhante interpretação. Sua onipotência e direito de escolha. Ela caça aqueles
homens que lhe interessa e evita ao máximo se envolver em problemas humanos. E
quando finalmente confrontada, se torna submissa. Muda de papel com o homem que
a acolheu e desta vez é ela quem segue alguém por um ambiente escuro e o que
fica mais esclarecido ainda é que sua “força divina” (ou de fêmea fatal) é
totalmente perdida no momento em que se torna humana. Literalmente, uma mulher.
O sexo frágil (as feministas irão odiar o filme). Eis um trabalho de grande ressonância artística onde cada um tem o livre arbítrio para interpretações.
Erotismo gratuito e beleza, não
apenas de Johansson, mas de imagens aleatórias que fazem deste filme um verdadeiro
cult. E a despeito de mulheres que se vestem para matar nos filmes (até mesmo Michael Caine travestido no badalado “Dressed to
Kill”, 1980, de Brian De Palma) esta
mortífera criatura não veste nadinha. Quer dizer...
EUA/REINO
UNIDO/SUIÇA - 108 min.
COR/
PARIS FILMES
FICÇÃO-CIENTÍFICA/SUSPENSE/DRAMA
★ ★ ★ ★
Scarlett
Johansson
Um
filme de Jonathan Glazer
UNDER THE SKIN
Música
Mica Levi Diretor
de Fotografia Daniel Landin
Edição
Paul Watts Direção
de Arte
Chris Oddy
Casting
Kahleen Crawford Figurinos Steven Noble
Produzido
por
Nick Wechsler James Wilson
Escrito
por
Walter Campbell e Jonathan Glazer
Baseado
no livro de Michel Faber
Dirigido
por
Jonathan Glazer
©2013 Film4/ BFI/ Silver Reel/ Creative
Scotland/ FilmNation Entertainment
JW Films/
Nick Wechsler/ Scottish Screen/ UK Film Council



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2 comentários:
Bravo! "Sob a pele" é dos filmes mais originais, imaginativos, pulsantes e significativos do ano. Uma resenha que faz jus à coragem e desprendimento de Glazer e Johansson.
abs
O filme me impressionou demais, Reinaldo. Foi mais além do que imaginava...começando com a falaciosa nudez de Johansson...
Obrigado pelo comentário.
Abs.
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