A
DELÍCIA DE PERDER O CONTROLE
Ah,
o prazer imensurável de retornar ao blogue.
Voltar a escrever. E sobre cinema. Cinema é vida, não é? Não abandonei o hábito
de assistir aos filmes apenas lamento, também imensuravelmente, por ter
abandonado o hábito de escrever. Durante anos (desde 2008) escrevia para o Cinema Rodrigo. Ao leitor que me
acompanhava, as minhas sinceras desculpas. Mas a vida é como uma caixa de
bombons...já dizia a mamãe do Forrest
Gump. Não sabemos o que vamos encontrar. E, por motivos pessoais, veio a
preguiça de manter o blogue. E blogueiro entende blogueiro. Não ganhamos dinheiro.
O valor que ganhamos para escrever sobre filmes não vem com cifras. Bom, não
sou muito de apresentações e discursos...
Quero
começar as sessões de cinema do Cinema Rodrigo com um filme que é simplesmente o meu predileto do
ano passado e você certamente já ouviu falar. Até já deve ter assistido. “Todos nós podemos perder o controle.” E
como de perto, ninguém é normal... eis o filme mais sensacional dos últimos
anos sobre a primitiva natureza humana. Somos humanos. Demasiados humanos. E
muitas vezes eu tenho até vergonha de relatar isso. Também sou um homem sujeito
a falhas e pronto para perder as estribeiras. Norman Bates já disse uma vez que todo mundo enlouquece de vez em quando. Algo assim. E ele estava
com a razão. Perder o controle é pouco nesta belíssima produção argentina indicada
ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Com produção do premiado cineasta PEDRO
ALMODÓVAR, ‘Relatos’ traz um elenco de primeira linha. Todos acertam em
todos os seis segmentos. RICARDO DARÍN é provavelmente o nome mais conhecido
por aparecer em alguns filmes como “O Filho da Noiva” (2001) e “O Segredo dos Seus
Olhos” (2009). Dirigido e escrito por DAMIÁN
SZIFRON que me conquistou de imediato com um filme tão impactante, violento
e humorado. Seu filme é tão bom quanto qualquer um do Quentin Tarantino onde a violência é tratada de forma similar.
Aliás, foi o primeiro filme que assisti dele. Szifron já tinha sido revelado
numa fita igualmente brilhante, “Tempo de Valentes”, de 2005, outra comédia
argentina que envolve crime e violência. A diferença é que ‘Relatos’ é um filme
episódico e a boa notícia é que ainda é um raro exemplo na qual todos os
episódios, sem relação um com o outro, são excepcionais.
Há uma maravilhosa
introdução que se passa num avião onde todos os passageiros e tripulantes se
envolveram dramaticamente na vida de um louco (que não chegamos a conhecer)
nomeado de Gabriel Pasternak. Todo mundo usa adjetivos para julgá-lo, mas não
sabemos quem é, de fato, “Pasternak”. Ele pode ter sido muitas coisas, afinal,
todo mundo tem um olhar para julgar o outro. Eis a crítica desta eufórica
introdução que termina num voo não muito satisfatório. Daí começa os créditos e
a analogia com animais selvagens. Menos óbvia do que possa parecer. E tudo em ‘Relatos’
não é óbvio. O filme é uma delícia. Uma reviravolta atrás da outra. Há uma antecipação envolvente
num crescendo orgástico por sangue!
“As
Ratas”, o segundo episódio, com a ótima RITA CORTESE, uma senhora ex-presidiária
que trabalha como cozinheira, também não poupa risos e sanguinolência. Cortese
é aquela diaba encarnada que assopra em nossos ouvidos conselhos nem um pouco
ortodoxos. Fodam-se as regras de comportamento para se fazer justiça. Se
entregue a vingança. Pura. Simples. Cruel. Relatada duas histórias, a terceira
é ainda mais violenta. A barbárie toma conta de LEONARDO SBARAGLIA (de “Plata
Quemada”) um rico arrogante que teve a infelicidade de ultrapassar um indivíduo
menos favorecido socialmente falando numa estrada deserta com o seu Audi preto. E, como automóvel é o brinquedinho mais cobiçado e valorizado entre seres ‘humanos’
do sexo masculino, “O Mais forte” evidencia toda essa megalomania dos meninos
por carros. O mais curioso é que o cara esta ouvindo a trilha sonora do filme “Flashdance
– Em Ritmo de Embalo”, clássico de 1983, de Adrian Lyne. Eis dois pesos numa
medida interessante. O Audi é a representação de seu lado mais forte e as
músicas do filme Flashdance
evidenciam um símbolo de fraqueza. O personagem de
Leonardo é um homem do pior tipo na sociedade. Mentiroso, enrustido, preconceituoso e munido da arrogância banhada por dinheiro. E para polemizar ainda mais é
notável uma homossexualidade em ambos. Até mesmo em seu opressor que odiou o
insulto e resolve se vingar botando o terror praticamente destruindo o carro. Ou seja, defecando
e urinando. Não sei, mas as situações representadas - subentendidas - me pareceu um tanto gay. Por mais bizarro que possa parecer. E, salientando essa impressão irônica, no final da briga entre "os fortes", quando a polícia chega ao
local do crime fica relatado como sendo crime passional. Meu episódio predileto, confesso!
Em
“Bombita”, Darín me fez recordar Michael Douglas em “Um Dia de Fúria”. Simón com a alcunha de ‘Bombita’
é a perfeita representação do homem comum e um cara extremamente chato, diga-se. Numa pegada mais social que o filme
almeja representar.
Um trabalhador, pai, marido, estressado, e que gosta das coisas certas ao pé da
letra e que, por descuido, tem o carro rebocado no dia do aniversário da filha.
Assim, ele acaba se atrasando e se desentende com a mulher já que não suporta
ser injustiçado e numa jornada quase de um obsessivo compulsivo vai ao
departamento de trânsito apanhar o veículo exigindo desculpas oficiais de um
mero burocrata e se recusando a pagar qualquer valor monetário de multa e muito
menos taxa de devolução. Sim, ele é um chato. E, sim, perde o controle. Só pra
variar. ‘Bombita’ é na verdade o mais psicótico de todos. Sua selvageria é tão
explosiva quanto amena. No entanto, Darín tem aquela persona de herói do povo.
Ele representa lindamente um entre tantos homens do cotidiano, o que já é de
costume em sua filmografia.
A
quinta trama, “A Proposta” é menos explícita no impulso a violência, mas é o
seguimento que apresenta diálogos e suspense de maior relevância. Em cena esta
o veterano OSCAR MARTÍNEZ (que me lembra bastante o diretor Milos Forman...)
como um pai de um adolescente (e vale ressaltar que eles sãos ricos?) que tenta livrar o filho de ser
preso por ter atropelado acidentalmente uma grávida sem prestar socorro
ocasionando em sua morte que viraliza em noticiários midiáticos durante todo o dia. Não vemos o acidente, apenas as confusões que sucedem na casa do velho com propostas e chantagens incalculáveis. Sim. É a
grávida que morreu atropelada, mas é o homem rico que é atropelado diversas
vezes pelo advogado, o criminalista que aceita suborno e um empregado que
aceita levar a culpa. E, fechando com chave de ouro, o sexto e último relato é
sobre dois apaixonados selvagens recém-casados em sua festa de matrimônio. “Até
que a Morte nos Separe”, é estrelado pela incrível ÉRICA RIVAS que descobre que o marido,
DIEGO GENTILE, teve um caso extraconjugal – nem um pouco recente – com uma
convidada. Obviamente a noiva fica puta e louca. Rivas coincidentemente nos
remete às mulheres que estão sempre à beira de um ataque de nervos dos filmes de Almodóvar. É maravilhoso a forma como Szifron guardou o melhor para o final,
embora os anteriores tenham o seu valor próprio, mas é que nesta festa de
casamento rola de tudo: sacanagem, insultos, porradas, enfim, situações que são
brindadas com o melhor do suspense, drama e romance regradas de até mesmo cenas
de terror gore.
Apesar
do choque. RELATOS SELVAGENS é um épico do humor negro. Tem o seu lado sombrio,
mas nunca deixa aquela pontinha de otimismo de lado, afinal, é divertido e verdadeiro.
As pessoas, por mais descontroladas, raivosas e assassinas em potencial, têm humor. Rir é o
melhor remédio é o que todos dizem. A fita é muito bem pensada em como
apresentar na ordem cada enredo. Mesmo com episódios distintos, há um começo, meio e clímax tradicionais. A trilha sonora de GUSTAVO SANTAOLALLA (o
mesmo de “Babel”, “Diário de Motocicleta” e “Amores Brutos”, citando alguns) é
incrível. Tudo chega a perfeição neste filme espetacular e incontrolável.
Argentina – 2014
Drama/Comédia/Suspense
Cor – 120 min.
★★★★★
RELATOS SALVAJES
Escrito
e Dirigido por: DAMIÁN SZIFRON
Produzido
por: Hugo Sigman Agustín Almodóvar
Matías
Mosteirin Esther García Pedro Almodóvar
Fotografia:
Javier Juliá
Música:
Gustavo Santaolalla
Elenco:
RICARDO DARÍN OSCAR MARTÍNEZ
LEONARDO
SBARAGLIA ÉRICA RIVAS RITA CORTESE
JULIETA
ZYLBERBERG DIEGO GENTILE E DARÍO GRANDINETTI
RELATOS
SALVAJES © 2014 KRAMER & SIGMAN FILMS / EL DESEO











2 comentários:
O humor negro é um dos gêneros mais complicados para um diretor. A linha é tênue entre o engraçado e o totalmente ridículo.
O diretor Damian Szifron acerta em cheio no tom do humor e nas sequências absurdas, que focam nos defeitos dos seres humanos e nos problemas da sociedade que transformam a vida atual em um verdadeiro inferno.
É um grande filme.
Abraço
Exatamente, Hugo. Szifron equilibra muito bem o engraçado, a tragédia, o drama e longe de passar por ridículo. O filme é um híbrido de gêneros e sensações e ele acerta brilhantemente em todas as tramas. Um filme raro entre outras coisas.
Abraço.
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