segunda-feira, 21 de setembro de 2015

RELATOS SELVAGENS

A DELÍCIA DE PERDER O CONTROLE


Ah, o prazer imensurável de retornar ao blogue. Voltar a escrever. E sobre cinema. Cinema é vida, não é? Não abandonei o hábito de assistir aos filmes apenas lamento, também imensuravelmente, por ter abandonado o hábito de escrever. Durante anos (desde 2008) escrevia para o Cinema Rodrigo. Ao leitor que me acompanhava, as minhas sinceras desculpas. Mas a vida é como uma caixa de bombons...já dizia a mamãe do Forrest Gump. Não sabemos o que vamos encontrar. E, por motivos pessoais, veio a preguiça de manter o blogue. E blogueiro entende blogueiro. Não ganhamos dinheiro. O valor que ganhamos para escrever sobre filmes não vem com cifras. Bom, não sou muito de apresentações e discursos...



Quero começar as sessões de cinema do Cinema Rodrigo com um filme que é simplesmente o meu predileto do ano passado e você certamente já ouviu falar. Até já deve ter assistido. “Todos nós podemos perder o controle.” E como de perto, ninguém é normal... eis o filme mais sensacional dos últimos anos sobre a primitiva natureza humana. Somos humanos. Demasiados humanos. E muitas vezes eu tenho até vergonha de relatar isso. Também sou um homem sujeito a falhas e pronto para perder as estribeiras. Norman Bates já disse uma vez que todo mundo enlouquece de vez em quando. Algo assim. E ele estava com a razão. Perder o controle é pouco nesta belíssima produção argentina indicada ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Com produção do premiado cineasta PEDRO ALMODÓVAR, ‘Relatos’ traz um elenco de primeira linha. Todos acertam em todos os seis segmentos. RICARDO DARÍN é provavelmente o nome mais conhecido por aparecer em alguns filmes como “O Filho da Noiva” (2001) e “O Segredo dos Seus Olhos” (2009). Dirigido e escrito por DAMIÁN SZIFRON que me conquistou de imediato com um filme tão impactante, violento e humorado. Seu filme é tão bom quanto qualquer um do Quentin Tarantino onde a violência é tratada de forma similar. Aliás, foi o primeiro filme que assisti dele. Szifron já tinha sido revelado numa fita igualmente brilhante, “Tempo de Valentes”, de 2005, outra comédia argentina que envolve crime e violência. A diferença é que ‘Relatos’ é um filme episódico e a boa notícia é que ainda é um raro exemplo na qual todos os episódios, sem relação um com o outro, são excepcionais. 


Há uma maravilhosa introdução que se passa num avião onde todos os passageiros e tripulantes se envolveram dramaticamente na vida de um louco (que não chegamos a conhecer) nomeado de Gabriel Pasternak. Todo mundo usa adjetivos para julgá-lo, mas não sabemos quem é, de fato, “Pasternak”. Ele pode ter sido muitas coisas, afinal, todo mundo tem um olhar para julgar o outro. Eis a crítica desta eufórica introdução que termina num voo não muito satisfatório. Daí começa os créditos e a analogia com animais selvagens. Menos óbvia do que possa parecer. E tudo em ‘Relatos’ não é óbvio. O filme é uma delícia. Uma reviravolta atrás da outra. Há uma antecipação envolvente num crescendo orgástico por sangue!



“As Ratas”, o segundo episódio, com a ótima RITA CORTESE, uma senhora ex-presidiária que trabalha como cozinheira, também não poupa risos e sanguinolência. Cortese é aquela diaba encarnada que assopra em nossos ouvidos conselhos nem um pouco ortodoxos. Fodam-se as regras de comportamento para se fazer justiça. Se entregue a vingança. Pura. Simples. Cruel. Relatada duas histórias, a terceira é ainda mais violenta. A barbárie toma conta de LEONARDO SBARAGLIA (de “Plata Quemada”) um rico arrogante que teve a infelicidade de ultrapassar um indivíduo menos favorecido socialmente falando numa estrada deserta com o seu Audi preto. E, como automóvel é o brinquedinho mais cobiçado e valorizado entre seres ‘humanos’ do sexo masculino, “O Mais forte” evidencia toda essa megalomania dos meninos por carros. O mais curioso é que o cara esta ouvindo a trilha sonora do filme “Flashdance – Em Ritmo de Embalo”, clássico de 1983, de Adrian Lyne. Eis dois pesos numa medida interessante. O Audi é a representação de seu lado mais forte e as músicas do filme Flashdance evidenciam um símbolo de fraqueza. O personagem de Leonardo é um homem do pior tipo na sociedade. Mentiroso, enrustido, preconceituoso e munido da arrogância banhada por dinheiro.  E para polemizar ainda mais é notável uma homossexualidade em ambos. Até mesmo em seu opressor que odiou o insulto e resolve se vingar botando o terror praticamente destruindo o carro. Ou seja, defecando e urinando. Não sei, mas as situações representadas - subentendidas - me pareceu um tanto gay. Por mais bizarro que possa parecer. E, salientando essa impressão irônica, no final da briga entre "os fortes", quando a polícia chega ao local do crime fica relatado como sendo crime passional. Meu episódio predileto, confesso!


Em “Bombita”, Darín me fez recordar Michael Douglas em “Um Dia de Fúria”.  Simón com a alcunha de ‘Bombita’ é a perfeita representação do homem comum e um cara extremamente chato, diga-se. Numa pegada mais social que o filme almeja representar. 

Um trabalhador, pai, marido, estressado, e que gosta das coisas certas ao pé da letra e que, por descuido, tem o carro rebocado no dia do aniversário da filha. Assim, ele acaba se atrasando e se desentende com a mulher já que não suporta ser injustiçado e numa jornada quase de um obsessivo compulsivo vai ao departamento de trânsito apanhar o veículo exigindo desculpas oficiais de um mero burocrata e se recusando a pagar qualquer valor monetário de multa e muito menos taxa de devolução. Sim, ele é um chato. E, sim, perde o controle. Só pra variar. ‘Bombita’ é na verdade o mais psicótico de todos. Sua selvageria é tão explosiva quanto amena. No entanto, Darín tem aquela persona de herói do povo. Ele representa lindamente um entre tantos homens do cotidiano, o que já é de costume em sua filmografia.



A quinta trama, “A Proposta” é menos explícita no impulso a violência, mas é o seguimento que apresenta diálogos e suspense de maior relevância. Em cena esta o veterano OSCAR MARTÍNEZ (que me lembra bastante o diretor Milos Forman...) como um pai de um adolescente (e vale ressaltar que eles sãos ricos?) que tenta livrar o filho de ser preso por ter atropelado acidentalmente uma grávida sem prestar socorro ocasionando em sua morte que viraliza em noticiários midiáticos durante todo o dia. Não vemos o acidente, apenas as confusões que sucedem na casa do velho com propostas e chantagens incalculáveis. Sim. É a grávida que morreu atropelada, mas é o homem rico que é atropelado diversas vezes pelo advogado, o criminalista que aceita suborno e um empregado que aceita levar a culpa. E, fechando com chave de ouro, o sexto e último relato é sobre dois apaixonados selvagens recém-casados em sua festa de matrimônio. “Até que a Morte nos Separe”, é estrelado pela incrível ÉRICA RIVAS que descobre que o marido, DIEGO GENTILE, teve um caso extraconjugal – nem um pouco recente – com uma convidada. Obviamente a noiva fica puta e louca. Rivas coincidentemente nos remete às mulheres que estão sempre à beira de um ataque de nervos dos filmes de Almodóvar. É maravilhoso a forma como Szifron guardou o melhor para o final, embora os anteriores tenham o seu valor próprio, mas é que nesta festa de casamento rola de tudo: sacanagem, insultos, porradas, enfim, situações que são brindadas com o melhor do suspense, drama e romance regradas de até mesmo cenas de terror gore.



Apesar do choque. RELATOS SELVAGENS é um épico do humor negro. Tem o seu lado sombrio, mas nunca deixa aquela pontinha de otimismo de lado, afinal, é divertido e verdadeiro. As pessoas, por mais descontroladas, raivosas e assassinas em potencial, têm humor. Rir é o melhor remédio é o que todos dizem. A fita é muito bem pensada em como apresentar na ordem cada enredo. Mesmo com episódios distintos, há um começo, meio e clímax tradicionais. A trilha sonora de GUSTAVO SANTAOLALLA (o mesmo de “Babel”, “Diário de Motocicleta” e “Amores Brutos”, citando alguns) é incrível. Tudo chega a perfeição neste filme espetacular e incontrolável.

Argentina – 2014
Drama/Comédia/Suspense
Cor – 120 min.
★★★★★ 

RELATOS SALVAJES
Escrito e Dirigido por: DAMIÁN SZIFRON
Produzido por: Hugo Sigman  Agustín Almodóvar
Matías Mosteirin  Esther García  Pedro Almodóvar
Fotografia: Javier Juliá
Música: Gustavo Santaolalla
Elenco: 
RICARDO DARÍN  OSCAR MARTÍNEZ
LEONARDO SBARAGLIA  ÉRICA RIVAS   RITA CORTESE
JULIETA ZYLBERBERG   DIEGO GENTILE   E  DARÍO GRANDINETTI
RELATOS SALVAJES © 2014 KRAMER & SIGMAN FILMS / EL DESEO

2 comentários:

Hugo disse...

O humor negro é um dos gêneros mais complicados para um diretor. A linha é tênue entre o engraçado e o totalmente ridículo.

O diretor Damian Szifron acerta em cheio no tom do humor e nas sequências absurdas, que focam nos defeitos dos seres humanos e nos problemas da sociedade que transformam a vida atual em um verdadeiro inferno.

É um grande filme.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

Exatamente, Hugo. Szifron equilibra muito bem o engraçado, a tragédia, o drama e longe de passar por ridículo. O filme é um híbrido de gêneros e sensações e ele acerta brilhantemente em todas as tramas. Um filme raro entre outras coisas.

Abraço.

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