MÃE SUBSTITUTA
Empregada doméstica se vê numa situação delicada quando sua filha muda-se para a casa dos patrões.
É o filme mais comentado nas redes sociais no momento. Fala-se muito bem desta singela obra prima nomeado para representar o Brasil no Oscar. O boca a boca se fez ser notado o melhor filme nacional do ano. "Que Horas Ela Volta?", escrito e dirigido por ANNA MUYLAERT, a mesma diretora de "É Proibido Fumar" (2009) e "Durval Discos" (2002 - notável, também, pela fantástica sequência de créditos iniciais). Eis um belíssimo retrato entre as classes, mas também, é uma história emocionante sobre mães e filhos e a conturbada relação que os filhos tem com as mães distantes.
A trama é sobre uma nordestina (pernambucana, para ser mais categórico), magistralmente interpretada pela grande atriz REGINA CASÉ (De "Eu Tu Eles", 2000). O curioso é que quando eu vejo Casé em cena, como atriz, eu penso: "Minha nossa, porque essa mulher não faz mais isso com frequência?!" Totalmente encantando pela sua personagem, mas é óbvio que tal encantamento é resultado de um talento subestimado e penso que até mesmo pela própria Casé que deveria repensar mais a própria carreira de apresentadora, entre outras coisas, e se dedicar a mais e mais filmes. Ok, ela apareceu em uma comédia ano passado e que confessadamente ignorei. "Made in China" e que certamente irei conferir sem preconceito. O fato é que ela sempre foi uma exímia comediante e desde Eu Tu Eles que não a vejo num papel tão forte e antológico, diga-se. A Val, como é chamada, é uma mulher trabalhadora nos moldes clássicos. Respeita por demais a hierarquia e reconhece o seu lugar como empregada (e mãe). Ela se mudou para São Paulo (nem se vê tanto a cidade, acredito que a intenção fosse criar um filme claustrofóbico de interiores. Embora a cidade seja citada diversas vezes quando sua filha fica deslumbrada e curiosa pelo que vê) a fim de dar melhores condições de vida para sua única filha, Jéssica, a revelação CAMILA MÁRDILA.
Obviamente que essa relação é meio que por correspondência e nem quase isso ao passar dos anos. Existe um receio poderoso que é da personalidade de ambas. Por um lado, a mãe, sem alternativas, "abandona" a filha no interior de Pernambuco para ser babá de um garotinho e, por outro, ressentida, a filha não se sente confortável em seu "novo lar", mas também não recusa um "bem vinda". Emfim. O filme é de uma preciosidade sutil e narrada de forma clássica. Câmera parada sem movimentos e roteiro sem grandes reviravoltas, mas lindamente escrito. Muylaert almeja um filme com dois temas: as classes sociais e as relações entre pais, mães e filhos. E neste cenário o personagem de Fabinho (o rapaz é o ator MICHEL JOELSAS, aquele garotinho do filme "O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias", 2006, de Cão Hamburger na qual Muylaert foi co-roteirista) é importante. Mera coincidência o jovem ator ter carência de mãe e pai também neste filme, ele deposita toda confiança e carinho em Val.
Gosta de ficar em seu colo como um bebê e ela o retribui de coração. Anos cuidando do menino e morando na casa de seus patrões, tudo indica que ela é parte integrante da família. Será? Passam-se treze anos e no ano em que Fabinho irá prestar vestibular, surge, de repente, Jéssica com a mesma missão. Os patrões de Val aceitam a garota de braços abertos em sua residência, só que quando ela se apresenta cheia de personalidade, inteligente, curiosa (como a mesma prefere) e ambiciosa, eis que o espanto deles é notável. Imaginem a filha da empregada prestar prova numa faculdade concorrida?! Aliás, a mesma que o filho irá prestar. Mas não somente isso. A situação se complica quando Jéssica não segue as formalidades do protocolo hipócrita dos ricos e passa a circular pela casa livremente. A cena da piscina é o estopim da trama.
Obviamente que essa relação é meio que por correspondência e nem quase isso ao passar dos anos. Existe um receio poderoso que é da personalidade de ambas. Por um lado, a mãe, sem alternativas, "abandona" a filha no interior de Pernambuco para ser babá de um garotinho e, por outro, ressentida, a filha não se sente confortável em seu "novo lar", mas também não recusa um "bem vinda". Emfim. O filme é de uma preciosidade sutil e narrada de forma clássica. Câmera parada sem movimentos e roteiro sem grandes reviravoltas, mas lindamente escrito. Muylaert almeja um filme com dois temas: as classes sociais e as relações entre pais, mães e filhos. E neste cenário o personagem de Fabinho (o rapaz é o ator MICHEL JOELSAS, aquele garotinho do filme "O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias", 2006, de Cão Hamburger na qual Muylaert foi co-roteirista) é importante. Mera coincidência o jovem ator ter carência de mãe e pai também neste filme, ele deposita toda confiança e carinho em Val.
Gosta de ficar em seu colo como um bebê e ela o retribui de coração. Anos cuidando do menino e morando na casa de seus patrões, tudo indica que ela é parte integrante da família. Será? Passam-se treze anos e no ano em que Fabinho irá prestar vestibular, surge, de repente, Jéssica com a mesma missão. Os patrões de Val aceitam a garota de braços abertos em sua residência, só que quando ela se apresenta cheia de personalidade, inteligente, curiosa (como a mesma prefere) e ambiciosa, eis que o espanto deles é notável. Imaginem a filha da empregada prestar prova numa faculdade concorrida?! Aliás, a mesma que o filho irá prestar. Mas não somente isso. A situação se complica quando Jéssica não segue as formalidades do protocolo hipócrita dos ricos e passa a circular pela casa livremente. A cena da piscina é o estopim da trama.
O filme é um sucesso e feliz ao trazer um tema bastante discursivo no cenário atual. Poderia ser assunto de séculos atrás. Mas não é. Estamos vivendo, agora, o período pós-eleitoral e observamos como a classe social no Brasil é deveras dividida. Os ricos exigem direitos, embora torpes, e os pobres se vêem cansados com tantos preconceitos arcaicos. Muylaert faz um híbrido de drama e comédia (obviamente aproveitando o talento de Casé para ambos) e deflagra mesmo que sutilmente o confronto existente entre povos do Nordeste e Sudeste. O mais impressionante é que os atores representam de forma tão verídica que até esqueço em alguns momentos que estou assistindo a uma obra de ficção. Destaca-se a ótima KARINE TELES, como a patroa, Dona Bárbara. Muito longe de ser uma Odete Roitman da vida, mas Karine representa a típica e comum "um doce de patroa". Gentil e amável, mas esperando o 'bom senso' dos empregados. Afinal, excesso de gentilezas se confundem. Para ela, empregada é no quartinho e pobre não pode ambicionar o que os ricos possuem e ou/ desejam. E Jéssica representa um problema para ela, muito embora o filme não tenha os mesmos clichês das novelas onde a patroa má - e espalhafatosa- já teria dado um jeito na menina. Não ocorre este tipo de guerra na trama. Muylaert é mestra em criar o desconforto, somente.
Nota-se que o Brasil é segregacionista. Val prepara as refeições para os patrões que a consideram "de casa' e come numa mesa separada, dorme em um quartinho dos fundos medíocre e jamais colocou um dedinho do pé na piscina (aliás, a cena em que ela finalmente entra na piscina é de arrancar lágrimas!). Não há dúvidas que a empregada doméstica é um símbolo que ilustra a condescendência da elite que nunca aceitará estranhos de outras classes longínquas ocupando o lugar de privilegiados de berço. É um pensamento dos tempos de escravidão. É chocante, mas é verdade. É fato que Anna Muylaert sempre fez presente o tema em suas obras trazendo sempre um humor que lhe é peculiar (Durval Discos é o meu predileto), mas é a primeira vez que noto um filme dela com cunho mais dramático e convencional, uma decisão que ajuda demais a narrativa desta premissa. Ela foge de maniqueísmos muito bem e provavelmente a personagem de Camila, Jéssica, é a força motriz da história. O filme acontece com a sua chegada. Ela é questionadora, honesta (não se deixou envolver com o patrão solitário e infeliz, o ótimo ator LOURENÇO MUTARELLI) e é a própria subversão em pessoa. Jéssica mostra, inclusive para a sua mãe, a evidência de uma falsa admiração que os ricos tem para com seus empregados. É ressaltado ali, graças a Jéssica, uma estrutura artificial e prejudicial. Não é por acaso que o rapaz, Fabinho, tem frustrações com a mãe e consigo mesmo e quando não consegue passar no vestibular fica evidente. O mais interessante é que Jéssica é a mais misteriosa entre todos. Ficamos sabendo sobre ela apenas no clímax para o final do filme. Consequentemente, por ser assim, ela seduz pai e filho, mas nada é concretizado, apenas platônico.
Além do elenco muito nem dirigido. Fiquei absolutamente encantado com a precisão e sutiliza da direção de arte criada por uma equipe fantástica: Marquinho Pedroso, Thales Junqueira e Marcos Pedroso. Posso afirmar que a cena com o jogo de xícara de chá (ou café) já é antológica! Mas, também, a fotografia de Barbara Alvarez acentua uma realidade evitando afetações que não seriam cabíveis aqui. Ou seja, fazer um filme tecnicamente preciso para representar um cotidiano não é tarefa fácil.
O fato é que, apesar de elogios em todos os departamentos do filme, é a Regina Casé que rouba grande momentos. Ela desconstrói totalmente aquela imagem que tenho dela (sendo absolutamente sincero, vou dizer que odeio aquele programa "Esquenta"). Ela recria a Val dos pés (fala) a cabeça. Seus gestos corporais amplos são evitados e ela apresenta feições simples, anda lentamente. Em outras palavras, convence de que esta nesta tarefa há anos. Sua expressão é de uma mulher sofrida pelos entreveros da vida. Da servidão. Da saudade da filha. Pode parecer distante, mas um Oscar não cairia mal para ela.
"Que Horas Ela Volta?" é desde já um exemplo de ótimo cinema nacional e coloca no chinelo muitos arrasa-quarteirões americanos e mesmo as comédias populares brasileiras. Felizmente, Val tem um final feliz. Ela voltou. E não é mais a substituta.
BRASIL - 2015
Drama
Cor - 112 min.
★★★★☆
Nota-se que o Brasil é segregacionista. Val prepara as refeições para os patrões que a consideram "de casa' e come numa mesa separada, dorme em um quartinho dos fundos medíocre e jamais colocou um dedinho do pé na piscina (aliás, a cena em que ela finalmente entra na piscina é de arrancar lágrimas!). Não há dúvidas que a empregada doméstica é um símbolo que ilustra a condescendência da elite que nunca aceitará estranhos de outras classes longínquas ocupando o lugar de privilegiados de berço. É um pensamento dos tempos de escravidão. É chocante, mas é verdade. É fato que Anna Muylaert sempre fez presente o tema em suas obras trazendo sempre um humor que lhe é peculiar (Durval Discos é o meu predileto), mas é a primeira vez que noto um filme dela com cunho mais dramático e convencional, uma decisão que ajuda demais a narrativa desta premissa. Ela foge de maniqueísmos muito bem e provavelmente a personagem de Camila, Jéssica, é a força motriz da história. O filme acontece com a sua chegada. Ela é questionadora, honesta (não se deixou envolver com o patrão solitário e infeliz, o ótimo ator LOURENÇO MUTARELLI) e é a própria subversão em pessoa. Jéssica mostra, inclusive para a sua mãe, a evidência de uma falsa admiração que os ricos tem para com seus empregados. É ressaltado ali, graças a Jéssica, uma estrutura artificial e prejudicial. Não é por acaso que o rapaz, Fabinho, tem frustrações com a mãe e consigo mesmo e quando não consegue passar no vestibular fica evidente. O mais interessante é que Jéssica é a mais misteriosa entre todos. Ficamos sabendo sobre ela apenas no clímax para o final do filme. Consequentemente, por ser assim, ela seduz pai e filho, mas nada é concretizado, apenas platônico.
Além do elenco muito nem dirigido. Fiquei absolutamente encantado com a precisão e sutiliza da direção de arte criada por uma equipe fantástica: Marquinho Pedroso, Thales Junqueira e Marcos Pedroso. Posso afirmar que a cena com o jogo de xícara de chá (ou café) já é antológica! Mas, também, a fotografia de Barbara Alvarez acentua uma realidade evitando afetações que não seriam cabíveis aqui. Ou seja, fazer um filme tecnicamente preciso para representar um cotidiano não é tarefa fácil.
O fato é que, apesar de elogios em todos os departamentos do filme, é a Regina Casé que rouba grande momentos. Ela desconstrói totalmente aquela imagem que tenho dela (sendo absolutamente sincero, vou dizer que odeio aquele programa "Esquenta"). Ela recria a Val dos pés (fala) a cabeça. Seus gestos corporais amplos são evitados e ela apresenta feições simples, anda lentamente. Em outras palavras, convence de que esta nesta tarefa há anos. Sua expressão é de uma mulher sofrida pelos entreveros da vida. Da servidão. Da saudade da filha. Pode parecer distante, mas um Oscar não cairia mal para ela.
"Que Horas Ela Volta?" é desde já um exemplo de ótimo cinema nacional e coloca no chinelo muitos arrasa-quarteirões americanos e mesmo as comédias populares brasileiras. Felizmente, Val tem um final feliz. Ela voltou. E não é mais a substituta.
BRASIL - 2015
Drama
Cor - 112 min.
★★★★☆
QUE HORAS ELA VOLTA?
Direção/Roteiro: ANNA MUYLAERT
Produzido por: Caio Gullane Fabiano Gullane
Gabriel Lacerda Débora Ivanov Anna Muylaert
Fotografia: Barbara Alvarez
Música: Vitor Araújo Fábio Trummer
Edição: Karen Harley
Elenco: REGINA CASÉ
Michel Joelsas Camila Márdilla
Karine Teles Lourenço Mutarelli Helena Albergaria
Que Horas Ela Volta? ©2015 Gullane/ Africa Filmes/ Globo Filmes/ Pandora Filmes








3 comentários:
Opaaa... Estou voltando...Tempos que não passava por aqui.
Abraços
Belo texto, Rodrigo. E bom vê-lo de volta.
Concordo, Regina Casé é uma excelente atriz, é uma pena que ela não se volte para isso, desgastando sua imagem no Esquenta. Ela carrega o filme de emoção e verdade, embarcamos com Val nessa jornada, felizes. É um filme necessário, uma reflexão importante, mas sem ela, não seria muita coisa mesmo.
bjs
O filme é Regina.
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