JOGOS E GUERRA
Marquesa pede que o amigo, um Visconde libertino, para que seduza a filha de sua prima. Seu objetivo é vingar-se de um antigo amante, ao qual sua prima de segundo grau fora prometida em casamento. De início, ele desdenha a oferta, julgando a presa fácil demais e faz uma contra-proposta: seduzir uma recatada Madame conservadora que visita a casa de campo de sua tia enquanto o marido está no exterior a negócios. Baseado na obra de Choderlos de Laclos, escrita no século XVIII.
Ligações Perigosas ( Les Liaison Dangereuses) é o romance francês mais aclamado de todos os tempos. Foi escrito por um general do exército francês, Choderlos de Laclos (1741-1803), inclusive quando Napoleão comandava e Laclos era o seu imediato, general de brigada! Fez poucas investidas no mundo literário passando grande parte da vida no âmbito militar. Mas, "Ligações" é suficientemente uma obra tão revisitada (recentemente adaptada para a TV pela Rede Globo), que Laclos é mais conhecido como autor deste magnífico romance sobre desejo, luxúria, vingança, traição e culpa.
Já foi adaptado para o cinema diversas vezes e a primeira vez aconteceu em 1959, sob a direção de Roger Vadim (o mesmo diretor do cult Barbarella, com Jane Fonda), estrelado por Jeanne Moreau, Gérard Phillipe e Annette Vadim. A ação é transmutada para a burguesia francesa do final da década de 1950. Há também outro filme, este de 1989, sob a batuta de ninguém menos do que Milos Forman (Oscar por "Um Estranho no Ninho" e "Amadeus") e que fez sua própria versão com o nome de "Valmont - Uma História de Seduções", com Colin Firth, Annete Bening, Meg Tilly e Fairuza Balk. E, ainda, com roteiro do crítico francês Jean-Claude Carrière, que ganhou um Oscar Honorário ano passado (de filmes como "O Discreto Charme da Burguesia", de Buñuel, "A Bela da Tarde" e "A Insustentável Leveza do Ser", de Philip Kaufman).
Agora, certamente, a minha geração deva lembrar do filme de 1999 dirigido por Roger Kumble. Uma adaptação adolescente, engraçadinha e moderna, que passou a chamar-se de "Segundas Intenções" (Cruel Intentions), com Sarah Michelle Gellar, Ryan Phillippe, Reese Witherspoon, Selma Blair (hilária) e, curiosamente, Swoosie Kurtz numa pequena participação, que interpretara a Madame de Volanges neste filme que vos falo. Esta versão teen é mais quente e com direito ao famoso beijo lésbico (?) entre Gellar e Blair. Aliás, com o sucesso, o diretor Kumble realizou uma continuação irregular (estrelada por Amy Adams) e um terceiro filme ainda foi lançado em vídeo.
E, finalmente, Lee Je Yong, diretor coreano, realiza em 2003, "Scandal - Joseon Namnyeo Sangyeoljisa" e, obviamente, transposta toda a ação para a Coreia do século 18 (este que, aliás, ainda preciso conferir!).
O mais interessante é que "Ligações" é um romance epistolar, ou seja, inteiramente constituído por cartas e, através das correspondências trocadas entre as personagens, o leitor é informado não apenas sobre os acontecimentos e eventos que compõem a trama, mas também sobre os sentimentos e desejos tanto de Meurteil quando de Valmont, que, apesar de cínicos, mostram-se reféns não apenas do desejo sexual, mas do amor. No livro, esta forma de narrativa é até fácil, mas no teatro e no cinema, eis que surge um obstáculo. Todas as adaptações cinematográficas, a meu ver, são eficientes (exceto a versão coreana que fiquei curioso em assistir), justamente porque o material original contém pouca ação, afinal, é uma trama basicamente de percepções, pensamentos, impressões. O que, no teatro, creio, é mais fácil em um monólogo (?).
Christopher Hampton (de filmes como "Desejo e Reparação" e "O Americano Tranquilo", como roteirista, citando alguns), autor da peça na qual este filme é baseado, também (e o próprio adaptou para às telas) seguem com fidelidade o enrendo do romance. Talvez por isso seja a versão mais aclamada e querida (ao menos é a minha predileta). Uma das poucas diferenças notáveis reside no fato de que o filme até certo ponto suaviza a punição da Marquesa de Merteuil. Muito embora seja uma satisfação vê-la sendo humilhada em público e histérica em seus aposentos numa das mais belíssimas interpretações de Glenn Close. Mas, na escrita original, Laclos faz com que ela contraia uma doença (ironicamente não venérea) que a faz perder um olho! Aqui, ela é apenas desprezada e vaiada por seus pares na ópera e o final dúbio deixa a fita ainda mais marcante. Aquele fade out enquanto a Marquesa, finalmente derrotada e humilhada, desfaz sua maquiagem.
O filme é um drama suntuoso evidenciado a maldade e decadência humana na sua artimanha por tornar a vida tediosa numa aventura desmedida com intrigas sexuais e desejo de vingança. Tudo isso em uma corte do século XVIII, levado à tela pelo diretor Stephen Frears, britânico de filmes como "Alta Fidelidade", "A Rainha" (vide aqui), "Os Imorais" e seu melhor feito; "Minha Adorável Lavanderia" (1985) além de "O Segredo de Mary Reilly" (1996 - inspirado na clássica história de "O Médico e o Monstro", também escrito por Hampton e estrelado por John Malkovich e Glenn Close novamente, mas, protagonizado também por Julia Roberts)."Ligações" é o seu primeiro filme nos EUA. Frears, combina lindamente o luxo de uma época, de uma falsa e asquerosa sociedade hipócrita, mas com um olhar elegante sem cair no piegas e até mesmo no vulgar. É brilhantemente montado e fotografado, sem contar com a estonteante direção de arte e figurinos (vencedoras do Oscar). Foi o primeiro filme de época sem cenas de ação e ou/ batalhas de que gostei. Lembro-me de assistir ao filme dublado várias vezes numa fita VHS pirata gravada quando passou na TV de madrugada. Já disse que filmes como "Barry Lyndon", de Kubrick e "Amadeus", de Forman, foram que me introduziram de vez ao universo da corte, coroa, perucas, vestidos, pinturas, castelos, palácios, enfim, toda uma cultura contextualizada em séculos passados me fazendo ter interesse cada vez mais por história. "Ligações", confesso, é o filme que me introduziu aos dizeres, digamos, sexuais! Afinal, foi em plena adolescência e curiosidade que tudo isso aconteceu. Me sentia um pouco como a Cécile de Volanges e, sem brincadeira, o primeiro nu que vi na vida, o primeiro seio de uma mulher que presenciei num filme, foi mesmo o de Uma Thurman. Linda, ninfeta, curiosa e ávida pelo prazer que descobriu, num de seus primeiros sucessos como atriz. Já havia brilhado na tela anteriormente em filmes como "As Aventuras do Barão de Munchausen", de Terry Gilliam. Mas, de fato, foi "Ligações" o seu passaporte definitivo ao estrelado e que depois se confirmou na parceria com Quentin Tarantino.
Sim. Não há como negar que este elenco é maravilhoso e muito bem escalado. Além de Uma Thurman no núcleo jovem, está Keanu Reeves e os fãs podem achar estranho ver o astro de filmes de ação como o pobre, intelectual, professor de música que se apaixona por Cécile e se envolve com Merteuil (além de ser alvo das tramoias de Valmont), Chevalier Danceny. Agora, quem rouba mesmo o filme é a cruel e vingativa Merteuil. Close aceita a guerra travada por Valmont em sua famosa quote: "WAR" e, suas expressões quando atinge o ápice da decepção é algo fora do comum. Ela não sabe amar, mas teoricamente fala de "amor" e prefere conspirar, aliás, seu discurso de que como uma mulher deve sobreviver é de um primor arrasador pelo fato de ser muito atual. Bom, mas também é John Malkovich quem dá as caras. Ele que tem o maior tempo de aparição no filme. Não necessariamente um homem bonito, mas um sedutor fantástico e prefiro o Valmont de Malkovich ao de Firth na fita de 89. A cena de sua morte é de cortar o coração e seu romance com a Madame de Tourvel deixa o filme mais leve em meio a tantas intrigas e sexo (não que o filme seja explícito ou gratuito). Michelle Pfeiffer novamente em um excelente papel. Faz muito bem a mulher bem casada e religiosa. Sufocada em suas roupas e frágil como uma porcelana. E, um adendo, esteve linda também em outro filme de época dirigido por Martin Scorsese: "A Época da Inocência" (The Age of Innocense, 1993).
Um filme que revejo a cada ano. Stephen Frears realiza um verdadeiro guia pelos boudoirs da aristocracia. E, apesar de se passar na França, é um tema bastante universal. "Ligações" é perigosamente malicioso, divertido, perverso e comovente.
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| "War!" |
* Oscar (Melhor Filme, Roteiro, Direção de Arte e Figurinos)
DRAMA/ROMANCE
1H 59MIN.
WARNER
★★★★★
WARNER
BROS. PICTURES APRESENTA
Um
filme de STEPHEN FREARS- LORIMAR FILM ENTERTAINMENT
ESTRELANDO:
GLENN
CLOSE JOHN MALKOVICH MICHELLE PFEIFFER
Com:
SWOOSIE
KURTZ KEANU REEVES
MILDRED
NATWICK e UMA THURMAN
Música
GEORGE FENTON Fotografado por PHILIPPE
ROUSSELOT
Montagem
MICK AUDSLEY Direção de Arte STUART CRAIG
Figurinos
JAMES ACHESON Roteiro de CHRISTOPHER HAMPTON
Baseado
na Peça de Christopher Hampton
Adaptado
da obra de CHODERLOS DE LACLOS
Produzido
por NORMA HEYMAN e HANK MOONJEAN
Dirigido
por STEPHEN FREARS
Dangerous
Liaisons ©1988
WARNER - LORIMAR - NHF









5 comentários:
Belo texto meu querido. Como esperado. Para ser sincero, nem sabia dessa versão coreana. Improvável que bata a o filme de Frears. Como para ti, na minha avaliação, a melhor versão da obra para o cinema. Penso que tudo que veio depois, na TV ou no teatro, padece a sua sombra. Ainda que eu goste de "Segundas Intenções". rsrs
abs
Obrigado, Reinaldo.
A versão coreana me deixou curioso, mas creio que a versão do Frears é realmente a mais comentada e assistida. Embora a versão do Milos Forman também seja boa. Segundas Intenções é muito divertido, rs revi ontem.
Abraços.
Grande filme, valorizado muito pelo elenco.
Realmente é um tema universal mostrar o lado manipulador do ser humano.
A versão teen "Segundas Intenções" também é interessante, mesmo sendo inferior na comparação.
Abraço
Interessante retrospectiva de outras versões. Não conhecia a francesa dos anos 50, nem a coreana. Tampouco estou familiarizado com a obra original, que você parece conhecer bem. Mas esse filme de Frears é puro requinte. Só as cenas com Close são uma aula de como filmar a face de uma grande atriz. E a performance dela é sensacional.
Cumps.
Hugo - "Segunda Intenções" é bem diferente do texto original. Na verdade tem licença poética, digamos. rs rs rs Mas é bem divertido! É na verdade levemente inspirado.
Gustavo - Close decola nesse filme. Rouba as cenas, como em tudo que faz. O close na Close é obra de mestre!
Abraços.
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