quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Brian De Palma | O Fantasma do Paraíso (1974)

Ópera - Rock!

Uma versão moderna e satírica de O Fantasma da Ópera e Fausto, passado numa grande casa de show de rock. 

A Versátil Home Vídeo deu a nós cinéfilos o presente que faltava em nossas coleções. Este filme que é o cult por excelência de BRIAN DE PALMA. Lançado a pouco tempo em um mini-box "A Arte de Brian De Palma" juntamente com outros cults: UM TIRO NA NOITE (BLOW OUT, 1981) e IRMÃS DIABÓLICAS (SISTERS, 1973). Todos raros. 

De todos os pastiches à la Alfred Hitchcock, este é o meu predileto do De Palma. A cena do chuveiro com o cômico e bizarro Beef (Gerrit Graham), uma espécie de Carlotta afetada é uma das mais hilárias da história do cinema num filme que é um misto de musical, fantasia, comédia e horror. Uma moderna releitura que se inspira em "O Fantasma da Ópera" com um pouco de "Fausto" e muito Rock and roll. A fita não se utiliza única e exclusivamente do gênero musical propriamente, ou seja, encenando exatamente em todas as cenas com canções e coreografias. Não. São apenas pequenos intervalos musicais. O filme é muito melhor que isso. É o que De Palma sabe fazer como ninguém, isto é, brincar com a câmera subjetiva, split screen, acelerar o frame, etc. 

Jessica Harper (do clássico "Suspiria", de Argento e também conhecida como a Ann Lively em "Minority Report", de Spielberg. Irreconhecível, mas é ela) canta e encanta em sua estreia no cinema como a doce Phoenix, uma leitura de Christine Daae, sexualizada a ponto de cair nas tentações do predador, no caso a representação do próprio diabo - Swan - na figura icônica e estranha de Paul Williams (mas imagino como ficaria perfeito um David Bowie no papel, legal, heim?). 

William Finley (1940–2012) como "O Fantasma" merecia o Oscar pela sua estranha persona trágica tanto quanto como o monstro e o jovem compositor Winslow, que apesar de tímido tinha momentos de violência. Existe não só o fantasma, mas um pouco de Quasímodo em sua fantástica interpretação. 



Vale ressaltar, e creio que pouca gente se lembra, mas De Palma iniciou sua carreira fazendo filmes de vanguarda. Como o já citado "Sisters", sua primeira "homenagem" a Hitchcock. E, antes de retomar esse filão de obras cults, fez esta sátira musical que virou um dos primeiros filme cults de verdade no Brasil.  Foi tirado de cartaz e, depois de dois dias, foi forçado a voltar em sessões de meia-noite em cinema de arte, estabelecendo um costume e uma reputação para o seu diretor. Este é um trabalho pessoal dele, tanto que William Finley era um de seus amigos pessoais. E, certamente, o elenco é pouco conhecido. A começar por Paul Williams, ator e compositor que mais parece um anão albino, ganhou o Oscar co-escrevendo "Evergreen" ao lado da estrela Barbra Streisand. Quanto a Jessica Harper? Obviamente que seu papel no terror clássico Suspiria é o mais discursivo, mas ela também esteve, por exemplo, em filmes como  "Pennies From Heaven" de 1981 e "Memórias", de Woody Allen (1980). 

Melhor que "Tommy" e "Jesus Cristo Superstar" e ouso dizer que é até melhor do que o próprio musical Phantom of the Opera, de Andrew Lloyd Webder. Este filme merece o título de ópera-rock. Reúne vários temas: é um pouco O Fantasma...do clássico de Leroux (aliás, muito antes de Webber criar sua monstruosidade na Broadway), tem um quê de Frankenstein, de Marry Shelley e Fausto de Goethe. Um híbrido à nostalgia e ai assassinato político à lá "Sob o Domínio do Mal". 

Na premissa, Swan, o maior empresário (como um Deus só que mais pra Diabo) da música pop, está procurando um novo som para inaugurar em seu palácio do rock chamado Paradise. Ele entrevista muita gente e acaba roubando uma canção composta pelo desconhecido Winslow Leach (Finley que apresenta momentos de pura bipolaridade), trecho de uma ópera que ele esta escrevendo sobre a lenda de Fausto. Quando Winslow vai reclamar inocentemente, Swan o manda prender (adoro as rápidas passagens de tempo com fundo musical e títulos chamativos) sob falsa acusação de uso de drogas e manda-o para a prisão de Sing-Sing. A canção é um sucesso das paradas e Winslow, frustrado e furioso, consegue escapar e, na tentativa de sabotar a fábrica de discos de Swan, fica com a cabeça presa na máquina impressora de discos. Pensam que ele morreu, mas irá reaparecer como uma figura grotesca assombrando o teatro Paradise até que Swan o convence a completar a ópera-rock para a jovem que ele ama. Esta é a síntese, somente até a metade, para ter-se uma ideia de conteúdo. As melhores coisas ainda estão por vir, como a cena do andrógino Beef, fulminado espetacularmente em pleno palco, e a ideia de que Swan conserva sua juventude por ter vendido a alma ao Diabo - uma forma de utilizar a figura estranha de Williams.

A direção não é tão desvairada como a de Ken Russell em Tommy, mas igualmente criativa. É provável que o filme tenha ficado um pouco datado. Mas isso não lhe tira o valor histórico e sentimental, mais que justificando seu pioneirismo como cult.

Enfim, um deleite visual. Não somente pela técnica cinematográfica e pelo olhar apurado do De Palma, mas pela maravilhosa criação cenográfica que busca inspirar-se no expressionismo alemão e filmes como "O Gabinete do Dr. Caligari ", visivelmente notável. Repito: Um filme cult por excelência.










Musical – Comédia – Drama – Fantasia
1h 32 min.
Versátil
★★★★★

UM FILME DE BRIAN DE PALMA
O FANTASMA DO PARAÍSO
( Brian De Palma´s PHANTOM of the PARADISE)
Estrelando:
PAUL WILLIAMS .... Swan  
WILLIAM FINLEY.... Winslow/The Phantom
JESSICA HARPER ....Phoenix
GERRIT GRAHAM .... Beef
 GEORGE MEMMOLI ....Philbin
“The Juicy Fruits” / “The Beach Bums” / “The Undeads” :
Archie Hahn   Jeffrey Comanor   Peter Elbling
Produzido por EDWARD R. PRESSMAN
Música e Letras de PAUL WILLIAMS
Diretor de Fotografia .... LARRY PIZER 
 Montagem .... PAUL HIRSCH
Direção de Arte.... JACK FISK 
Figurinos.... ROSANNA NORTON
Maquiagens por.... JOHN CHAMBERS
ROTEIRO E DIREÇÃO BRIAN DE PALMA
PHANTOM of the PARADISE © 1974 HARBOR PRODUCTIONS – 20th CENTURY FOX

4 comentários:

Guilherme Z. disse...

Não conhecia este filme, mas parece ser bem interessante. Que bom que ainda existem distribuidoras como a Versátil que se preocupa em resgatar obras clássicas e menos conhecidas do passado. Continue divulgando seu catálogo, tem muita coisa boa lançada por esta empresa. Abs!

http://acervodocinema.blogspot.com.br

Gustavo H. Razera disse...

Entre o mencionado Tommy e esse, prefiro esse. Tem músicas melhores (se bem que isso é subjetivo) e uma trama mais evocativa de outras obras seminais. E Jessica Harper é um encanto.

De Palma fez de tudo. Desde cults a obras sérias, passando por provocações de vanguarda até blockbusters e comédias. Camaleônico e super estiloso.

Cumps.

Hugo disse...

Não assisti este filme para poder comentar.

Considero Brian DePalma um grande diretor, apesar de algumas escorregadas feias na carreira.

É opinião pessoal. Eu coloco "Os Intocáveis" na minha lista dos 10 mais da história do cinema. Considero uma obra espetacular.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

Guilherme Z. - Exato. A Versátil vem se mostrando cada vez melhor no mercado e a comunidade cinéfila agradece. Obrigado. Abs.

Gustavo - Concordo. De Palma é um camaleão na indústria do cinema. Sem perder o seu cinema de autor, já dirigiu filmes de todos os gêneros. Abs.

Hugo - Já postei sobre Os Intocáveis. Obra-prima. Coloco também "Scarface" nesta lista. Abs.

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