segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Georges Méliès | Viagem à Lua (1902)

Sessão Dinossauro - Edição 14

LUAR CLÁSSICO


Astronautas planejam uma arriscada expedição até a lua. Baseado na obra de Jules Verne (1828-1905)

Depois de um hiato vergonhoso, confesso. Estou de volta com a sessão especial Sessão Dinossauro: As películas pré-históricas. Os filmes pioneiros da sétima arte. Mais vergonhoso ainda é nunca ter postado qualquer obra de arte de Georges Méliès (1861-1938embora tenha sido citado por mim no post A Invenção de Hugo Cabret, uma maravilhosa homenagem de Martin Scorsese ao mestre!). Muito bem, dado o breve comentário de introdução é preciso fazer um resumo biográfico desse artista e não é sintomático que o primeiro grande cineasta (ao menos o considero o primeiro. Para alguns é Griffith, para outros, os Irmãos Lumière) da história do cinema tenha morrido na miséria, que a maior parte de seus filmes (segundo o IMDB são registrados 527 obras como diretor - vide aqui ) se tenha perdido e que sua filmografia seja praticamente impossível de se estabelecer. No entanto, seu legado continua vivo e sempre alguém lhe faz alguma homenagem, citação ou referência. 

Tom Hanks, produziu para a HBO, em 1998 "Da Terra à Lua"/ From The Earth to the Moon), na qual o último episódio da série mostrava a produção de Le Voyage Dans La Lune (porque é de Méliès o primeiro filme do tema e eles fazem uma intercalação com a história da última missão tripulada à Lua pela Apollo 17) e lembro-me de ser a primeira produção que vi onde mencionava Méliès e desde então fiquei fascinado pelo homem por traz da imagem icônica da lua com olhos gigantes sendo atingida por uma nave-míssil astronauta!  

Nessa série é o ator Tchéky Karyo que dá vida a Méliès. 

Tom Hanks em "From The Earth to the Moon"
Apesar da arte e indústria do cinema muitas vezes ser cruel e ingrata, nunca deixarei de admirá-la. Mesmo assim, é meu dever registrar a importância do período inicial do cinema nesse especial. Méliès, mesmo com todos os entreveros de sua vida pessoal, é considerado pelos seus patrícios como o Pai da Arte do Cinema, o criador da mise -en -scène, o primeiro cineasta a se considerar um artista. Era casado com sua fiel Jeanne d´Alcy (1865-1956), figurinista e também atriz, participou de praticamente todos os seus filmes com destaque para: Joana D´Arc (1990), Barba-Azul (1901) e O Solar do Diabo (1896). Vindo do teatro com shows de mágica, construiu em Montreuil o primeiro estúdio (atelier des poses), utilizando, com trucagens cinematográficas, todos os recursos do teatro: atores, décors, figurinos, cenários, maquiagens. Opunha-se aos Lumière e seu estilo documentarista. Abordou todos os gêneros, desde a contestação em "L´Affaire Dreyfus", de 1899 até o conto de fadas Cendrillon (1900), Barbe Bleue (1901) e, obviamente passando pela ficção-científica à la Júlio Verne com obras que vão além de Viagem à Lua como: Le Voyage à Travers I´impossible/ Viagem Através do Impossível (1904), A La Conquête du Pôle (1912) e Vinte Mil Léguas Submarinas/ 20.000 Fleuves sous les Mers, de 1907. "Viagem" é de fato o filme que o consagrou internacionalmente, influenciando muito o progresso da indústria cinematográfica. Mas, em 1908, ele caía vítima desse progresso, ficando completamente arruinado em 1914, tendo que vender doces para sobreviver. Pouco antes de morrer, porém, foi reabilitado por Henri Langlois e seu grupo da Cinemateca Francesa - Cinémathèque Française

O mais curioso em Le Voyage... assim como todos os filmes deste período é de que o cinema, em seus primórdios, era uma arte cuja as regras eram estabelecidas durante o processo de criação. E tal pensamento é certo com relação ao modus operandi de Méliès. Ainda é um filme seminal e ao mesmo tempo atemporal. Desde seu lançamento há 114 anos ele representa uma revolução para época e hoje tornou-se histórico por esse motivo, inclusive dada sua duração - aproximadamente 13 minutos - , se comparado aos demais curtas-metragens que eram produzidos no início do século passado.  

Sua maior influência é obviamente atrelada a personalidade histriônica de Méliès em seus tempos de teatro, não somente como ator, mas como mágico. Ele ainda é o pai dos efeitos especiais e o primeiro nome genuíno que desenvolveu esse departamento. Seus truques de mágico e sua visão de palco são  influências presentes em sua obra. Todos os seus curtas são igualmente geniais e impressionantes, mas é "Viagem à Lua"a obra mais corajosa experimentando o impossível com o que se podia imaginar e criar com as técnicas cinematográficas que ainda engatinhavam. Por exemplo, o uso das superposições, fusões e práticas de montagem que seriam amplamente utilizadas no futuro. Apesar da simplicidade (e inocência de sua narrativa), inclusive dos efeitos visuais, o filme costuma ser considerado o primeiro exemplo de cinema de ficção científica. Toda vez que revejo eu fico boquiaberto com o que Méliès e equipe foram capazes de criar com os recursos da época. E, realmente, faz jus ao gênero com a beleza do design da espaçonave, o cenário da própria lua,  a descoberta de uma nova fronteira, enfim. Ele estabelece a maioria das convenções da sci-fi

A fita começa em um congresso científico onde o professor vivido pelo próprio Méliès; Barbenfouillis (ele também é a face da Lua!) tenta convencer seus colegas a participarem de uma expedição lunar. Assim, seu plano é aceito, tudo é organizado nos mínimos detalhes e os cientistas são enviados ao misterioso satélite natural em uma superpotente espaçonave. A nave em formato de míssil aterriza literalmente no olho direito da lua, que é representada como um ser antropomórfico. Uma vez na superfície dela, os cientistas logo se deparam com seres hostis, e que ao invés de serem nomeados de alienígenas, chamam-se selenitas, que os levam até seu rei. Depois de descobrirem que os inimigos somem em uma nuvem de fumaça ao simples toque de um guarda-chuva, os franceses conseguem escapar e retornar à Terra. Mas,  eles acabam caindo no oceano e, segundo a infinita imaginação de Méliès, assistimos a uma nova exploração, agora nas profundezas de nossos mares até os mesmos serem resgatados e recebidos em Paris como heróis. 


Apesar de seu estilo surrealista, Viagem à Lua consegue prender a atenção com sua diversão inovadora. É preciso se imaginar criança em um parque de diversões. Sua combinação híbrida com os truques teatrais mais as infinitas possibilidades da mídia cinematográfica o coloca em destaque entre os ícones da história do cinema mundial. Méliès, assumidamente mágico, era mais uma espécie de maestro quanto ao seu ofício de diretor, também idealizando a função de faz tudo. Era diretor, produtor, roteirista, ator, cenógrafo, figurinista, montador, maquiador, criador sênior dos efeitos especiais e fotógrafo. 

A grosso modo, Viagem à Lua também pode ser considerado o filme que estabelece a principal diferença entre ficção e não-ficção cinematográfica. Foi idealizado no momento em que, desde a invenção do cinematógrafo, os filmes retratados eram, na maioria das vezes, sobre a vida cotidiana como apresentado pelos Irmãos Lumière. Méliès foi visionário o suficiente para transpor o cinema para status de arte. Devemos a ele o que temos hoje. Ele nos ofereceu a fantasia que almejava o entretenimento simples e, com isso, também, abriu portas para os cineastas do futuro explorarem todo o conceito de expressão visual que a imaginação pode oferecer. Não há limites para o cinema. A viagem continua... 

França
Ficção-científica – Fantasia – Aventura
13 Minutos
★★★★★


GEORGES MÉLIÈS Apresenta
LE VOYAGE DANS LA LUNE
Estrelando: Victor André    Jeanne d´Alcy
Bleuette Bernon   Brunnet    Henri Delannoy
Depierre   Farjuat    Kelm  & Georges Méliès
Roteiro: Georges Méliès
Baseado na Obra de Júlio Verne
Fotografia: Michaut   Lucien Tainguy
Figurinos por: Jeanne d´Alcy
Montagem – Efeitos Visuais – Cenografia –
 Produção & Direção:Georges Méliès
Star-Film ©1902 Montreuil – Mèliès Studios –Seine-Saint-Denis, França


3 comentários:

Amanda Aouad disse...

A Viagem continua, sem dúvidas, rs. Eu tive o prazer de vê-lo no cinema em sua versão restaurada em um festival aqui de Salvador. Foi uma emoção.

bjs

Rodrigo Mendes disse...

Show, Amanda! Imagino a emoção.

Beijos

Hugo disse...

É sensacional registro histórico este filme.

Muito do que vemos no cinema de ficção até hoje está neste filme.

Uma curiosidade. Nos anos sessenta foi produzido um longa de ficção B dirigido por Nathan Juran chamado “Os Primeiros Homens na Lua”, que lembra muito a obra de Melies.

Abraço