segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Milos Forman | Procura Insaciável (1971)

Decolando!


Pais de classe-média que vivem num subúrbio procuram pela filha que fugiu com hippies e, aos poucos, vão perdendo suas próprias inibições. 



É  muito difícil escolher a fita consagrada de Milos Forman que faz aqui sua estréia em Hollywood. Já postei alguns de seus filmes no blogue e o cara tem um acervo de películas incríveis: Amadeus, O Mundo de Andy, O Povo Contra Larry Flynt, Valmont, Um Estranho no Ninho e mesmo Hair, o musical, que também trata-se do universo hippie. "Taking Off" ( em tradução livre Decolando e ou/ fugir, tirar a roupa ou imitar); já foi uma estreia americana super legal e certamente pouco conhecido. Aqui como "Procura Insaciável". Lembro-me de quando passou na TV, uma rara vez, e descobri posteriormente que o filme foi cortado severamente. Toda a sequência em que se canta com palavrões foi retirada (e olha que na época as dublagens não eram ao pé da letra). O filme foi durante muito tempo tão desconhecido no Brasil que acabou vitando cult. Hoje em dia com os DVD´s colecionáveis, este é um dos mais pedidos da "Nova Hollywood", inclusive, já lançado recentemente pela Versátil

Eis um dos filmes mais importantes da contracultura. Não há dúvidas. O Tcheco Milos Forman já era um diretor ótimo em sua terra natal e aqui ele demonstra uma extraordinária percepção do estrangeiro. Obviamente que o filme causou polêmicas em sua época de lançamento e não foi diferente com relação a nossa vigilante censura brasileira. Além da comentada edição televisiva, há vários outros momentos retirados de circulação por aqui, como a sequência em que um técnico em relacionamento humano ensinava aos pais a fumar maconha. A proibição estava baseada na lei antitóxicos. Contudo, foi cortada a experiência, mas não sua consequência, que aparecia completa!

O "barato" do filme é que ele é praticamente uma comédia. Chegou a ganhar o Prêmio Especial do Júri em Cannes (1971). A ideia surgiu quando Forman leu a entrevista do pai de uma jovem hippie, que foi assassinada em East Village. Achou-a fascinante: todos os envolvidos levavam uma vida dupla. A garota, aparentemente estudante, usava drogas e vivia com um hippie. Os pais na frente dela eram uma coisa, por trás, outra. " No começo", diz ele, "pensei em fazer um filme sobre jovens, mas depois achei que as pessoas da minha própria idade são muito mais interessantes". Forman tinha na ocasião 39 anos. Os atores são pouco conhecidos - embora existam algumas participações especiais como Kathy Bates em seu primeiro filme e Carly Simon, nas cenas da audição e pontinha não creditada a Jessica Harper (Suspiria, O Fantasma do Paraíso). Outras celebridades aparecem como Tina Turner e Ike Turner! Outra figura recorrente nas fitas do diretor é Vincent Schiavelli (1948-2005). Do elenco principal, a menina, Jeannie, Linnea Heaccock (que só fez este filme na vida), foi encontrada por Forman no Central Park. O pai é interpretado pelo roteirista de "A Primeira Noite de um Homem" e "Ardil 22", Buck Henry. A mãe é a atriz Lynn Carlin, provavelmente lembrada também pelo filme "Faces", de Cassavetes.  "Comecei a planejar o filme para a Paramount", continua Forman, "mas os dirigentes do estúdio não concordaram e ainda exigiram de volta todo o dinheiro que me haviam dado como ajuda de custo. A Universal decidiu financiá-lo, desde que o orçamento não ultrapassasse um milhão de dólares. O filme custou 850 mil dólares e foi realizado em nove semanas de filmagem e quatro meses de montagem, com inteira liberdade, que incluiu até meu fotógrafo habitual, Miroslav Ondriek. No roteiro, trabalhei com Jean Claude Carriere. Nós nos conhecemos em Nova York; discutimos o assunto e aí nasceu o argumento. Depois, John Klein e John Guare ajudaram-me a encontrar detalhes sobre a vida norte-americana e a dar um sabor natural aos diálogos. Durante as filmagens, como sempre, deixei margem à improvisação, sem deixar os atores lerem o roteiro. É preciso ter cuidado na escolha do elenco: os profissionais são intimidados pela câmera e os amadores pela equipe de filmagem. A audição para cantoras, no começo do filme, foi planejada, o que impediu que as reações fossem espontâneas. Também me perguntaram se a Associação dos Pais é real. Não. Ela foi inventada por nós, mas é importante que se acredite possível a sua existência. Acusam-me de crueldade nas cenas de audição. Porque algumas das cantoras são gordas e feias e não sabem cantar? Mas é esse mesmo o assunto das cenas. Para fugir do anonimato e da mediocridade, os jovens acreditam até no milagre. Não é o meu olhar que é cruel; é este espírito de competição infernal que caracteriza a sociedade norte-americana em geral. Os jovens, quando caem na marginalidade, tornam-se cansativos. São revoltados pequenos-burgueses para quem o máximo de aventura consiste em fugir e, depois, não sabem o que fazer com sua liberdade. Em vez disso, os pais vivem um verdadeiro drama, recolocando tudo em questão a partir daquele ato que não entendem. O que me espantou nos pais que entrevistei foram suas totais consciências e suas boas vontades. A maior parte das famílias não tem um conflito maior, nenhum dos seus membros é ruim, mas, no entanto, não conseguem entender-se por quê? O fato de fazer a pergunta sem poder respondê-la parece-me muito grave". Termina. 



A condição de Forman de não-americano só é demonstrada por sua fascinação em completar rostos e gestos tipicamente norte-americanos. E, o que mais gostei de "Procura..." é que ele é todo pontuado com apresentações de calouras, que estão fazendo um teste. A heroína é uma garota de 15 anos fugida de casa. Seus pais ficam abalados e abobados quando descobrem a fuga e agem "desligadamente" como bons pais norte-americanos, embebedando-se, procurando por Greenwich Village e unindo-se à Sociedade dos Pais de Crianças Foragidas (SPCF). A filha volta com um cantor de rock que os pais passam a respeitar quando descobrem que ganha milhares de dólares por ano. 

Forman é muito feliz em praticamente tudo. Poucos diálogos, piadas cuidadosamente construídas, como: a do tratamento para deixar de fumar e a mulher que dança para excitar o marido e outras simplesmente impagáveis; a convenção da SPCF. O filme sustenta-se pelo que é: uma sátira ao mundo atual - na perspectiva dos anos 70 - , o aturdimento dos que têm mais de 30 anos, confusos e incapazes de entender os seus filhos. Um filme para ser revisto. 



Estados Unidos
Comédia- Drama
1h 33 min. 
Versátil 
★★★★★

UM FILME DE MILOS FORMAN
Taking Off
Estrelando: 
LYNN CARLIN   BUCK HENRY  GEORGIA ENGEL
LINNEA HEACOCK  AUDRA LINGLEY
PAUL BENEDICT   TONY HARVEY  
VINCENT SCHIAVELLI
Participações Especiais: 
TINA TURNER   IKE TURNER 
KATHY BATES   CARLY SIMON   
Direção de Fotografia MIROSLAV ONDRICEK
Montagem JOHN CARTER     Direção de Arte ROBERT WIGHTMAN
Produzido por ALFRED W. CROWN 
Produtor Associado MICHAEL HAUSMAN
Roteiro de 
MILOS FORMAN    JOHN GUARE  
JEAN- CLAUDE CARRIÈRE     e JOHN KLEIN
Direção: MILOS FORMAN
© 1971 - Crown-Hausman/ Forman Production/ Renn Productions

4 comentários:

Hugo disse...

Não conhecia este filme, muito legal sua dica.

Milos Forman fez uma ótima carreira, além dos filmes que vc citou, eu lembraria também o ótimo "Na Época do Ragtime", que além de tudo marcou também a despedida do cinema do grande James Cagney, que estava praticamente aposentado.

Abraço,

Rodrigo Mendes disse...

Hugo: ótima citação, Hugo. "Na Época do Ragtime" é outra obra exemplar do talento de Forman. Uma pena que o diretor tenha afirmado que se aposentaria porque já não tem a mesma paixão.

Grande abraço!

Gustavo H.R. disse...

Não curto muito comédias, mas uma vinda do mestre Forman e com essa premissa deve valer a pena. Nem estava ciente que a Versátil o lançara em DVD aqui.

Cumps.

Rodrigo Mendes disse...

Gustavo- vale a pena! Forman em sua melhor forma! A Versátil vem nos presenteando nos últimos anos. O Box é incrível.

Abraço

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