terça-feira, 1 de novembro de 2016

Billy Wilder | Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment, 1960)

FAVORES QUE CUSTAM

Um modesto funcionário de uma grande empresa de seguros tenta subir na carreira profissional, emprestando seu pequeno apartamento para o chefe ter encontros com a amante dele, uma ascensorista. E, sem querer, acaba envolvendo-se na vida dela, quando a moça tenta o suicídio. 


Sou um adorador da obra de Billy Wilder (1906-2002). Ele foi um dos poucos cineastas da Era de Ouro de Hollywood (e que conseguiu trabalhar e adaptar-se muito bem na Nova Hollywood, também) que sabia misturar o seu lado cínico e irônico das comédias com romance e melodrama lindamente (além de, é claro, ser um especialista em outros gêneros como o Film-Noir). É certo que às vezes ele exagera e fica com a mão um tanto pesada demais em filmes como "Beija-me, Idiota (Kiss Me, Stupid, 1964) ou é derrubado pelas ciladas da sátira de exemplos como "Cupido Não Tem Bandeira (One, Two, Three, 1961), mas são poucos os deslizes e que ainda assim não prejudicam uma carreira brilhante. O fato é que ele era, de fato, além de um excepcional diretor, um roteirista de mão cheia e escreveu grandes obras do cinema que se tornaram filmes marcantes dirigidos por outros (como é o caso de "Ninotchka" - idem, 1939 - de Lubitsch, citando um) e sempre com os parceiros de longa data Charles Brackett (1892-1969) e depois I. A.L. Diamond (1920-1988) que colabora aqui. Em Se Meu Apartamento Falasse ele deixa entrever por trás das ironias seu bom, velho e sentimental coração (o que deve explicar o sucesso deste filme que chegou a ser elogiado por Hitchcock em uma carta para Wilder). Este é para mim seu último grande filmaço! 

Premiado com Oscars de: filme, diretor, roteiro original, direção de arte em preto e branco e montagem. Wilder e seu parceiro, o roteirista Diamond, ganharam um recorde de estatuetas para a mesma pessoa, três Oscars. Jack Lemmon (1925-2001), à época, descreveu a cena em que ele tenta reviver Shirley MacLaine de seu coma como uma das mais difíceis que já tinha feito (em cima da cama há um quadro: Ciganos adormecidos de Rousseau, em cuja composição Wilder teria se inspirado). Paul Douglas ("Pânico Nas Ruas", "Horas Intermináveis", "Só a Mulher Peca") que ia fazer o papel do chefe morreu dois meses antes de começarem as filmagens. Assim sendo, o velho amigo de Wilder, o ator Fred MacMurray (1908-1991), que já havia feito a obra-prima "Pacto de Sangue" (Double Indemnity, 1944) foi chamado. 

Shirley e Lemmon se reuniram novamente com Wilder dois anos depois em "Irma la Douce" (1963), mas sem o mesmo sucesso, embora tenha concorrido e ganhado um Oscar na categoria Melhor Música. 

Em 1968, o filme foi transformado em show da Broadway de sucesso (Promises, promises) com canções de Burt Bacharach e Hal David, estrelado por Jerry Orbach e Jill O´Hara

Segundo o diretor, a origem da fita é remota; nasceu quando ele assistiu ao filme "Desencanto" (A Brief Encounter, 1946), dirigido por David Lean, em que se conta a história de um casal adúltero que pedia emprestado um apartamento de um amigo para terem uma relação sexual já que não existiam motéis na época do filme original nem deste, diga-se. 

Quando procurava um papel para Lemmon veio esta ideia que ele juntou com um escândalo em Hollywood; um marido ciumento que matou um agente de caso com a esposa dele, uma atriz. No caso era Joan Bennett

O que interessou Billy foi que para os encontros sexuais o casal utilizava o apartamento de um funcionário de baixo escalão da agência, que era solteirão e trabalhava na correspondência. E pronto. Foi assim que tomou forma esta comédia-dramática, daquelas que fazem rir e, também, incomodam um pouco. Hoje em dia nem tanto, mas na época do lançamento, sim. Wilder considerava este seu melhor filme até por ter chegado ao público num momento ideal, quando se aceitava melhor a liberação de costumes - embora insista que a fita demonstra também seu amor por Nova York e por pessoas que não chamam a atenção e que, de repente, tornam-se heróis de uma hora para outra. E até pelos vizinhos que se ajudam mesmo quando não se entendem. Existem os bons conselhos destes vizinhos mas nunca o julgamento. 

E a maneira mais simples de entender o filme é como uma crítica ao capitalismo das empresas e empregados, onde para se ter sucesso é preciso ter cara de pau e nenhum escrúpulo. E, por isso, muita gente o considera imoral ou, simplesmente, realista; ao menos até o fim que já é mais discutível. Embora a história pudesse se passar em qualquer outra cidade do mundo, o filme é genuinamente nova-iorquino (evidentemente norte-americano em todos os sentidos), muito de sua época, inteligente como só Wilder sabia fazer e certamente futuros cineastas como Woody Allen que o fez em seu tempo. Uma obra de arte indiscutível.  



EUA
Comédia – Drama – Romance
2h 5min
★★★★★

      
The Mirisch Company, Inc.
     Apresenta
   Jack Lemmon   Shirley MacLaine    Fred MacMurray
Em:
The Apartment
Co-Estrelando Ray Walston

Com Jack  Kruschen   David Lewis
Hope Holiday  Joan Shawlee
Naomi Stevens
Johnny Seven
Joyce Jameson
Willard Waterman

Edie Adams

Roteiro
Billy Wilder e I.A.L Diamond

Diretor de Fotografia
Joseph LaShelle, A.S.C. Filmado em Panavision

Direção de Arte Alexander Traumer

Música de Adolph Deutsch

Montagem Daniel Mandell, A.C.E.

Produzido e Dirigido por
Billy Wilder
The Apartment ©1960 Mirisch - United Artists

4 comentários:

Gustavo H.R. disse...

É um dos melhores filmes de Wilder, romântico e engraçado, mas sem medo de ser pungente quando necessário. Eu não estava ciente de alguns detalhes dos bastidores citados no texto, como os referentes a Joan Bennett e a Desencanto (outra obra-prima, diga-se de passagem).

Cumps.

Amanda Aouad disse...

Também sou fã de Billy Wilder. Um diretor que consegue transitar tão bem por obras tão diversas como Crepúsculo dos Deuses, Quanto Mais Quente Melhor, Pacto de Sangue, Testemunha de Acusação, Sabrina... Se Meu Apartamento Falasse é daqueles onde tudo parece se encaixar, roteiro, direção, atuação, fotografia. Um clássico mesmo do nosso cinema.

bjs

Hugo disse...

É um filme de Wilder que ainda não assisti.

Gostei de "Irma La Douce", mas aparentemente este que você comenta é superior.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

Gustavo - pretendo rever "Desencanto".
Abs.

Amanda - disse e citou bem! Wilder sabia trabalhar comédia, drama, suspense noir, romance, como poucos. The Apartment, assim como em Crepúsculo dos Deuses, foi onde tudo encaixou perfeitamente.
Bjs.

Hugo - Se formos comparar com Irma La Douce é realmente beeeeem superior!
Abs.

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