quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Carol Reed | O Terceiro Homem (The 3rd Man, 1949)

O Film-Noir Inesquecível 

Na Viena do imediato pós-guerra, quando a cidade era controlada pelos quatro grandes poderes, um escritor de faroeste chega à cidade para o enterro de um amigo, Harry Lime, que trabalhava no mercado paralelo. Mas, aos poucos, o escritor vai desconfiando que ele ainda está vivo e conspirando.

Lembro-me da primeira vez que ouvi falar deste filme. Foi na produção de 1994 realizada por Peter Jackson (antes da fase "O Senhor dos Anéis"), o filme "Almas Gêmeas" (Heavenly Creatures), estrelado por Kate Winslet e Melanie Lynskey na qual as garotas tinham fantasias com Orson Welles e mesmo achando-o repugnante, imaginavam ele perseguindo-as pelos becos escuros para depois deflorá-las. Desde então, Jackson, com o seu maravilhoso drama que misturava fantasia ao estilo Alice no País das Maravilhas para contar uma trágica e sombria história real, foi quando fiquei intrigado e curioso sobre o tal clássico "O Terceiro Homem", a priori, um filme terrificante e ainda naquela época a figura de Orson Welles também vagava em minhas fantasias (ainda não tinha visto "Cidadão Kane" e o máximo que sabia dele era sua famosa adaptação radiofônica de "Guerra dos Mundos"). Quando finalmente pude conferir o longa ele rapidamente entrou no hall dos grandes clássicos da sétima arte e a melhor definição para o gênero "Film-Noir". 

Dentre os filmes que melhoraram com a idade, deixem um lugar reservado para este intrigante Thriller inglês (sim, os britânicos sabem realizar filmes quiçá melhor que os americanos), que não perdeu (e nunca perderá) nem um pouco o seu tom noir melancólico e romântico (até mesmo pela narrativa em off do escritor feito por Joseph Cotten, outro vindo de "Kane" e famoso também por "A Sombra de Uma Dúvida", de Hitchcock),  e isso graças à excepcional fotografia em preto e branco, uma das melhores já feitas, diga-se de passagem, do diretor de fotografia Robert Krasker (de filmes como: "Desencanto", 1945 e "El Cid", de 1961) neste trabalho, merecidamente, ganhou um Oscar! Há sombras e detalhes nas ruínas da cidade bombardeada que são de tirar o fôlego. Sem esquecer o tema musical diferente de tudo o que se tinha ouvido antes. Tudo isso, deve-se também créditos ao diretor Carol Reed (1906-1976), que teve ainda o mérito de conseguir controlar Welles, em geral metido a canastrão e grandiloquente e reza a lenda que ele teria feito o filme com má vontade!E, por outro lado, Reed ainda merece o mérito por saber utilizar a beleza antológica de Alida Valli (1921-2006 - no filme creditada como "Valli") em todo o seu esplendor. Minha única crítica a respeito dela é um questionamento: porquê cargas d'água ela não alcançou o estrelato internacional como merecia? É um dos grandes absurdos e exemplos de cegueira de Hollywood!



Votado pelos britânicos como o melhor filme inglês de todos os tempos. Vencedor da Palma de Ouro em Cannes e do já citado Oscar de Fotografia. Também foi indicado pela direção e pela montagem (Oswald Hafenrichter). Muita gente teve a tendência de creditar a qualidade excepcional da fita para Orson Welles já que ele já era um astro e faz o papel marcante de Harry Lime. No entanto, relatos confirmam que ele teve pouco a ver com a realização, sobretudo técnica, e sua contribuição reduziu-se a poucos dias de filmagens (ele precisava do dinheiro para terminar um outro filme em que era o diretor, no caso, "Othello"), e a inventar o diálogo mais famoso do filme; dito na sequência da roda gigante: "Na Suíça eles tiveram quinhentos anos de democracia e paz e o que produziram de bom? O relógio-cuco?". Welles também reclamava que o público o reconhecia mais por este filme que por outros que ele dirigiu. 



Fora isso, o trabalho deve-se mesmo ao grande Carol Reed, que, ironicamente, ganharia seu único Oscar por sua fita menos significativa, o musical Oliver! (1968). Não que desgoste do filme, aliás, a imagem do menino Mark Lester é pra mim antológica, mas em comparação a "The 3rd Man" é certamente um filme inferior. 

- Uma curiosidade, não sei se para todos os leitores, mas o ator Oliver Reed era seu sobrinho! 

Durante seu apogeu, com frequência fazendo parceria com Trevor Howard ou James Mason ("Lolita", "Intriga Internacional"), ele desenvolveu um estilo particular em que brilhariam nas telas: O Condenado (Odd Man Out, 1947), O Ídolo Caído (The Fallen Idol, 1948 - este com Ralph Richardson), O Outro Homem (The Man Between, 1953), o fantasioso A Rua da Esperança (The Kid for Two Farthings, 1955) e Trapézio (Trapeze, 1956 - este aqui estrelado por Burt Lancaster)

O filme é uma obra escrita por Graham Greene (1904-1991) que também foi crítico de cinema e autor de "Nosso Homem em Havana" dirigido por Reed em 1959. Além disso, entre outras obras suas foram filmadas: o já citado "O Ídolo Caído", baseado em "The Basement Room", Um Americano Tranquilo (The Quiet American, 1957) de Joseph L. Mankiewicz (depois refilmado por Phillip Noyce em 2002); Os Farsantes (The Comedians, 1967) de Peter Glenville; Viagens Com Minha Tia (Travels With My Aunt, 1973) de George Cukor etc.

À época, Valli era contratada do produtor David O. Selznick que tentava lançá-la como estrela internacional, usando apenas seu sobrenome. Eventualmente não daria certo mas ela retornaria à Itália onde até hoje é nome de grande prestígio. 

Foi também um enorme sucesso de público a canção-tema interpretada por um músico de rua, o austríaco Anton Karas (1906-1985) , que toca uma espécie de cítara (ele teria sido descoberto num night-club pelo ator Howard) e que deu ao filme um tom muito especial e particular. 

A cena final foi totalmente improvisada, embora a famosa cena de perseguição pelos esgotos de Viena tenha sido quase toda feita em estúdio e não na cidade, onde existe uma famosa "polícia dos esgotos!"

Eis um dos grandes momentos desta arte maravilhosa que é o cinema. O importante é como que Reed faz de "O Terceiro Homem" uma obra seminal contando a história aos poucos, construindo o clima de uma cidade ocupada por poderes, no fundo, rivais, onde a corrupção é a palavra de ordem e onde a figura de Harry Lime é tão falada. Seja na sua entrada tão preparada o que não há como não se impressionar com suas fantasmagóricas idas e vindas. Um filme que Hitchcock poderia ter assinado e que Reed fez ainda de um jeito particular e com mais humor e mistério e menos concessões ao público. 

Inglaterra

Suspense - Film-Noir

1h 44min.

★★★★★




Uma Produção 
London Film
Apresentado
por
ALEXANDER KORDA
e
DAVID O. SELZNICK

JOSEPH COTTEN
VALLI
ORSON WELLES
TREVOR HOWARD

Uma Produção de CAROL REED
THEThird Man
Por GRAHAM GREENE

PAUL HOERBIGER  ERNST DEUTSCH
ERICH PONTO  SIEGFRIED BREUER
HEDWIG BLEIBTREU  BERNARD LEE
WILFRIED HYDE-WHITE

Roteiro
Por
GRAHAM GREENE

Fotografado
Por
ROBERT KRASKER

Direção de Arte
Por
VINCENT KORDA
Com
JOHN  HAWKESWORTH  JOSEPH BATO

Música
Tocada Por
ANTON KARAS

Produtor Associado

HUGH PERCEVAL

Produzido e Dirigido
Por
CAROL REED
The 3rd Man ©1949 British Lion Film Corporation/London Films /David O. Selznick

2 comentários:

Hugo disse...

É um filmaço e como você bem citou, poderia ter sido obra de Hitchcock por causa do estilo.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

Hugo - Hitchcock faria outra obra-prima, mas não o mesmo filme. É bom imaginar como ficaria o resultado, né?

Abraço.