quarta-feira, 16 de novembro de 2016

John Ford | Vinhas da Ira (The Grapes of Wrath, 1940)

A Grande Família

Durante os anos da década de 1930, à época da depressão econômica, uma família de fazendeiros sai do Oklahoma para tentar encontrar uma vida melhor na Califórnia. 


É certamente um dos grandes Dramas Históricos do cinema da Era de Ouro de Hollywood.  "As Vinhas da Ira", escrito originalmente por John Steinbeck (1902-1968), célebre autor de obras como: "Lifeboat" - Um Barco e Nove Destinos (que foi lançado como filme em 1944 dirigido por Hithcock), Boêmios Errantes (Tortilla Flat, 1942, filme de Victor Fleming), Vidas Amargas (East of Eden, 1955 - transformado em fita estrelada por James Dean e direção de Elia Kazan) e citando mais uma; Ratos e Homens (Of Mice and Men e que em 1992 foi adaptado em longa metragem e dirigido pelo também ator Gary Sinise, mas essa obra data-se desde os anos de 1950 quando fora adaptada na série nacional "Grande Teatro Tupi"num episódio de 1957 dirigida por Augusto Boal e Luiz Callon e estrelada por Milton Gonçalves, Gianfrancesco Guarnieri e grande elenco). A obra de Steinbeck é tão importante que nos Estados Unidos é pauta fundamental nas aulas de literatura tanto no ensino secundário quanto universitário justamente devido ao seu contexto histórico. Não obstante, o livro recebeu todas as honrarias com os prêmios Pulitzer e o National Book Award, além do Nobel de Literatura recebido anos depois em 1962 (originalmente publicado em 1939). 
Evidentemente que esta história clamava por uma adaptação cinematográfica e somente um cineasta deste período seria capaz de fazê-lo. John Ford (1894-1973), mais conhecido também por ser o mestre dos Faroestes (western) com sua carga extra de Drama. Diretor de clássicos incontestáveis como: No Tempo Das Diligências (Stagecoach, 1939), Rastros de Ódio (The Searchers, 1956 - estrelado pelo seu ator-fetiche John Wayne - sua obra máxima), Depois do Vendaval (The Quiet Man, 1952 - certamente o mais comentado pela clássica cena do beijo entre Wayne e Maureen O´Hara e que depois foi parodiada e homenageada por Spielberg em "E.T") e um dos meus favoritos: O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance, 1962 - com Wayne, James Stewart e Vera Miles). 



Esta é outra obra-prima sua e que ganhou os Oscars de Direção e Atriz Coadjuvante para a maravilhosa Jane Darwell (1880-1967), que interpreta a matriarca da família e faz o discurso final. Jane teria longa carreira que só se encerraria como a mulher dos pássaros de Mary Poppins

Perdeu o Oscar de Melhor Filme para Rebecca (de Hitch- que perdeu de Diretor) o que não foi tão injusto. 

Outro filme de Ford é bom não esquecer de mencionar, e que aliás, tem algumas semelhanças de gênero com "Vinhas...". Trata-se do grande vencedor de todos os Oscars principais: Como Era Verde O Meu Vale (How Green Was My Valley, 1941 - com Maureen O´Hara, Walter Pidgeon, Anna Lee, Donald Crisp, John Loder, Roddy McDowall e grande elenco). Apesar de ser um filme mais sobre memória familiar, mas que também revela nuances históricas e foi o filme que desbancou Cidadão Kane de Orson Welles no Oscar! 

Ford não gostava de ensaios nem de repetir cenas. A sequência entre Henry Fonda (aliás, tão esplêndido quanto Darwell e merecia ganhar o seu Oscar de ator aqui) e sua mãe foi rodada apenas uma vez. 

O filme só conseguiu ser realizado pela Fox, apesar da oposição de bancos e financistas que achavam o tema comunista, graças ao prestígio pessoal de Ford e a insistência do chefe do estúdio da época, Darryl F. Zanuck, que forneceu o título de rodagem "Highway 66" na claquete, só para despistar! 

Os scripts eram recolhidos a cada noite e o set de filmagem protegido por guardas para evitar sabotagem. Zanuck queria Don Ameche ou Tyrone Power para os papéis centrais, mas Fonda foi imposto por Ford, e que inclusive eram amigos pessoais, e teve seu melhor momento no cinema com este filme - antes de O Homem Errado e Era Uma Vez No Oeste, é claro!

 A comovente fala da mãe ao final foi escrita pelo próprio Zanuck e que apesar de empresário, tinha visão artística e se envolvia pessoalmente nas produções da Fox (ao menos os filmes pelo qual era mais interessado). Para evitar problemas, todos fizeram questão de dizer que a fita era apolítica e não um documento social. 



Creio que foi um ato de coragem fazer um filme do polêmico livro de Steinbeck, modificando-o em muitos detalhes, sem trair seu espírito. O sucesso deve-se primeiro ao prestígio e competência de John Ford demonstrando que ele sabia aventurar-se em outros temas e gêneros e não somente faroestes. Mas, além de Ford, devo citar o trabalho sensível do diretor de fotografia lendário Gregg Toland (1904-1948), que com seu trabalho nas fitas de William Wyler e filmes como Cidadão Kane, poderia ser considerado o melhor do mundo. 

Tratar do problema de fazendeiros, famílias inteiras que buscavam uma vida melhor (aqui no Brasil outro termo popular são "Os Bóias-frias", mostrados em evidência na telenovela da Rede Globo "O Rei do Gado" de Benedito Ruy Barbosa), naquele momento em que o mundo estava em guerra e a depressão ainda era muito próxima, foi um trabalho de excepcional audácia. Embora realmente fujam da obviedade política, o filme não esconde a presença de agitadores comunistas (sem usar o termo propriamente) e toda sua mensagem final é sem dúvida populista e de esquerda. 

A discrição de Fonda ajuda muito a segurar a narrativa enquanto a família vai se esfacelando diante da realidade da falta de trabalho , abusos de autoridade e simples injustiças. A beleza da fotografia em preto e branco, de uma certa maneira, suaviza a dureza dos diálogos e situações, dando-lhes certa poesia. 

As frases finais da mãe resumem a mensagem do filme: "A gente rica vem e morre. E seus filhos não prestam. Também acabam morrendo. Mas nós continuamos. Nós somos o povo que vive. Eles não podem nos vencer. Continuaremos para sempre pai, porque nós somos o povo". 


Estados Unidos
Drama
2h 9min
Fox
★★★★★


Twentieth Century Fox
Apresenta

DARRYL F. ZANUCK´S
Production Of

THE
GRAPES OF WRATH

By
John Steinbeck
-com-
HENRY FONDA
JANE DARWELL
CHARLEY GRAPEWIN
DORRIS BOWDON
-  e –
JOHN CARRADINE
RUSSELL SIMPSON
O.Z. WHITEHEAD
JOHN QUALEN
EDDIE QUILLAN
ZEFFIE TILBURY

Produtor Associado e Roteirista
NUNNALLY  JOHNSON

Baseado no Romance de
 JOHN STEINBECK

Diretor de Fotografia
GREGG  TOLAND, A.S.C.

Música
ALFRED  NEWMAN

Dirigido por
JOHN FORD
The Grapes of Wrath ©1940 20th Century Fox

5 comentários:

Gustavo H. Razera disse...

Concordo com suas palavras de admiração por esse que é dos dramas hollywoodianos clássicos mais devastadores e tocantes, tanto em matéria de tema quanto em termos visuais (Greg Toland foi um gênio, aqui precursor de outro mestre da escuridão, Gordon Willis). Ainda bem que não implicaram com o teor socialista da história - mas, se tivessem levado mais uns 10 anos pra fazer, provavelmente não teriam conseguido com o McCarthismo dos anos 50.

Cumps.

Hugo disse...

É um belíssimo drama sobre família e trabalho, que apesar das diferenças de locação e culturais, tem semelhanças com o citado "Como Era Verde o Meu Vale".

Falta palavras para descrever a carreira de John Ford, que vai além dos westerns clássicos.

Hoje é quase impossível imaginar uma peça de teatro adaptada para tv como drama, como era "O Grande Teatro Tupi". Não é do meu tempo, lógico, mas deveria ser no mínimo interessante.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

Gustavo- perfeita citação. Gordon Willis foi outro mestre da cinematografia. Eis "Poderoso Chefão" e uma boa fase de Woody Allen que comprovam isso!
Contexto histórico é tudo e concordo com você. Foi bom terem produzido o filme no momento oportuno. Grande ousadia e esperteza da Fox.
Abraço!

Hugo - John Ford, Frank Capra, Victor Fleming e David Lean, ao menos pra mim, são os mestres que representam a Era de Ouro clássica de Hollywood. Ao menos filmes com carga épica, dramas e western qualidade de Ford. O padrão destes filmes é algo que o cinema contemporâneo, principalmente de Steven Spielberg e Martin Scorsese sempre buscaram. Eram diferentes de um Hitchcock, por exemplo, com um estilo mais "fragmentado" em contar histórias.
Abraço.

Amanda Aouad disse...

Belo resgate, Rodrigo e ótimo panorama, como sempre. John Ford é mesmo um cineasta que merece sempre ser revisto, analisado, citado. Preciso fazer mais isso, inclusive, rs.

bjs

Rodrigo Mendes disse...

Amanda - obrigado querida. Eu também preciso colocar mais filmes do John Ford para ser analisado e discutido aqui no blogue. Resolvi começar com esta obra-prima. Vai ter mais dele. Já revi outros. Aguarde.

Beijos