segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

DE ELIA KAZAN | Sindicato de Ladrões (On the Waterfront, 1954)

O ESTIVADOR


Depois da morte do irmão, jovem luta contra a organização mafiosa que controla as docas de Nova Iorque. 

Seria cômico se não fosse trágico pensar no ícone MARLON BRANDO lutando contra uns mafiosos, logo ele que mais tarde seria O Poderoso Chefão! Brincadeiras à parte, eis um dos filmes mais ressonantes da parceria entre o astro e o diretor que o transformou em estrela. ELIA KAZAN (1909-2003) foi um dos maiores diretores teatrais que passou por Hollywood naqueles tempos. Sou instigado todos os anos por sua obra. Ver e rever seus filmes se tornou um hábito. E não são poucos. Pra começar, é dele o maravilhoso Um Bonde Chamado Desejo ou como é conhecido no Brasil; "Uma Rua Chamada Pecado"(1951 - leia aqui), certamente o meu filme de cabeceira. Obra prima. Trabalhou com James Dean em EAST OF EDEN -  Vidas Amargas (1955) e realizou outras obras inigualáveis como: "A Luz É Para Todos" (1947), com Gregory Peck e "Clamor do Sexo" (1961), com Natalie Wood e Warren Beatty. Citando alguns. Ou seja, era um cara que, apesar de polêmico, tem uma filmografia exemplar e obrigatória para quem diz ser amante da sétima arte. 

Novamente com Brando, abraça a ideia de fazer um filme baseado na escrita de BUDD SCHULBERG (1914-2009) e é dele outra obra que Kazan dirigiu para à tela: "Um Rosto Na Multidão" (A Face in the Crowd, 1957), com Andy Griffith e Patricia Neal (famosa por ter estrelado Bonequinha de Luxo e O Dia em que a Terra Parou), e que aliás, recomendo. 

O filme é o auge do diretor Kazan e de Brando. Foi premiado com os Oscars de: filme, roteiro, direção, fotografia (trabalho seminal de BORIS KAUFMAN), direção de arte,  edição, ator (Brando) e atriz coadjuvante, a querida EVA MARIE SAINT que depois seria conhecida pelo papel da loira de Hitchcock em "Intriga Internacional" (1959), com Cary Grant. Foi indicado à música e atores coadjuvantes, os ótimos Lee J. Cobb, Karl Malden e Rod Staiger. Todos excepcionais! O dramaturgo Arthur Miller recusou continuar participando do roteiro porque brigou feio com o diretor Kazan, quando este delatou seus ex-colegas de Partido Comunista perante a comissão de inquérito do Congresso. 

Schulberg, o roteirista, também foi um dos que delatou os amigos. Por isso, o filme é considerado uma justificativa da delação e, em princípio, o próprio Brando não quis fazer o papel; só aceitou porque Kazan era seu descobridor e já tinham feito duas fitas juntos, além de "Um Bonde...", o também espetacular VIVA ZAPATA!, de 1952, escrito por John Steinbeck. Aqui ficou patente um gosto estranho do astro, que apreciava sempre que seus personagens levassem enormes surras, como em "O Grande Motim" e "Caçada Humana". 

Curiosamente, Grace Kelly foi convidada para o papel central, mas preferiu rodar Janela Indiscreta. Houve problemas na famosa cena do táxi entre Brando e Steiger, quando ele diz a frase célebre; "I could be a contender!"( Eu poderia ser alguém que disputaria os primeiros lugares!), isso porque depois de sete takes Brando não colaborou e depois não ficou satisfeito quando rodaram os closes de Steiger. Durante anos Steiger não falou com ele. 

A maior parte dos personagens foi inspirada em pessoas reais: Brando em Anthony Di Vincenzo, Malden no padre John M. Corrigan e Lee J. Cobb no gangster Albert Anastasia. Muitos estivadores de verdade trabalharam como figurantes e consultores. 

Foi a estreia de Eva Marie e Martin Balsam (conhecido posteriormente como o detetive em "Psicose"), ele não recebe créditos. Foi também a primeira trilha musical composta para o cinema do maestro Leonard Bernstein (1918-1990),  e que depois faria o célebre "West Side Story" (1961). 

Frank Sinatra processou o produtor Sam Spiegel (1901-1985) quando Brando foi confirmado no papel principal, afirmando que tinham lhe prometido o personagem. Isso atrapalhou a amizade de ambos quando no ano seguinte co-estrelaram "Eles e Elas" (Guys and Dolls), que fora dirigido por Mankiewicz

A máfia controlava as docas de Nova Iorque durante a filmagem e, por isso, foi necessário ter proteção policial para a equipe. 

Apesar de todas as polêmicas envolvendo a fita, "Sindicato" é magistral. Okay, é um filme que divide opiniões, sobretudo quando o tema é o diretor Kazan e o delicado assunto sobre as delações que perseguiram sua vida, e creio que ele está mais para gosto adquirido que para unanimidade. Agora, é inegável sua importância no sentido de que representou toda uma geração e é aí que o filme é profícuo pelo fato de apresentar um método de representação do Actor´s Studio

Este era um projeto minuciosamente pesquisado e à época ousado e perigoso. Baseado numa série de reportagens; o autor fez um roteiro exemplar, ficando num meio-termo entre documentário e romance. É um filme de denúncia e não precisaria do aviso que tem no início: "A coragem de apontar suas próprias falhas sempre foi uma das grandes qualidades da civilização norte-americana, apesar de nem sempre saber corrigi-las"

O filme pode parecer um pouco moralista demais, os bandidos são estereotipados, mas certas cenas são admiráveis, como a antológica fotografia de Kaufman (irmão de Dziga Vertov, que inventou o cinema-olho e foi operador de Jean Vigo), em especial na fuga noturna. 

Certos detalhes do enredo são ainda atuais: Lee J. Cobb ameaçando no final: "Eu voltarei!", e o intrigante desligar da televisão pelo Big Boss; anônimo mas verídico. Marlon Brando tem sua interpretação mais célebre, ainda, como nunca, mais cheio de tiques de um autêntico selvagem! Eva Marie Saint deve ter sido a primeira atriz loira com cara de gente de verdade e não de comercial de dentifrício. Rod Steiger, estreando mais magro, já carismático.  Enfim, por mais que SINDICATO DE LADRÕES seja aquele filme que ganhou oito oscars com dois times cinéfilos: dos que apreciam e odeiam, no final das contas tem característica de Filme Cult. Resiste ao tempo mesmo por sua posição política. Um filme que merece ser revisado. Recomendação de quem gosta aos que não gostam. E, quem não viu, perde a chance de notar o talento indiscutível de Brando. 


EUA
Policial – Drama – Suspense
1h 48 min.
★★★★★







COLUMBIA PICTURES CORPORATION Apresenta

MARLON BRANDO em

Uma Produção de ELIA KAZAN

ON THE
WATERFRONT
© 1954 Columbia Pictures – Horizon Picture

Co – estrelando:
KARL MALDEN   .   LEE J. COBB
Com:
ROD STEIGER 
PAT HENNING   LEIF ERICKSON   JAMES WESTERFIELD
E Apresentando
EVA MARIE SAINT
Roteiro de BUDD SCHULBERG
Sugerido por artigos de Malcolm Johnson
Diretor de Fotografia BORIS KAUFMAN
Direção de Arte RICHARD DAY
Assistente de Produção SAM RHEINER
Montagem GENE MILFORD
 MÚSICA DE
LEONARD BERNSTEIN
 PRODUZIDO POR SAM SPIEGEL
 DIREÇÃO
ELIA KAZAN

3 comentários:

Amanda Aouad disse...

Belo filme, estou com ele para rever há algum tempo, mas sempre fica para depois. Seu texto me deu vontade de resolver logo isso. Acho toda aquela parte final forte, ainda que moralista como você diz.

bjs

Cristiano Contreiras disse...

Belo texto, de um dos filmes favoritos!

Rodrigo, por favor, gostaria de falar contigo. Dá um feedback ou no meu FB mesmo que foi bloqueado.

Hugo disse...

É um drama complexo que fala de violência, família, culpa e lealdade, além de ter um sensacional elenco e a direção de um Elia Kazan no ponto mais alto de sua carreira.

Abraço